Três amigas e o amor.

43 Ana - Um pouquinho mais


Após o encontro com Marcelo, Ana conversou com o seu chefe à porta fechada, pois, toda aquela história deveria ser mantida em segredo.

— Vá para casa e pesquise o máximo que você puder, Ana. Tente achar alguma brecha nesse negócio, por mais difícil que pareça, sempre há um furinho, que pode afundar o barco, apesar de achar difícil encontrarmos um. Estas empresas têm dezenas de profissionais bem preparados para fazer os seus contratos, eles devem ter pensado em tudo – Tavares considerou, a dispensando do trabalho do escritório, via naquilo a oportunidade de projeção e fama para sua pequena firma.

— Mas, eu gostaria de dar uma boa olhada nos papéis, antes de aceitar o caso.

— Então, vá logo! Bom dia e bom trabalho

Então, Ana voltou para casa e começou a pesquisa pela Internet, sobre o novo empreendimento, saber, exatamente, o que se tratava. Ela leu que seria um hotel enorme com centenas de quartos, muitas piscinas e um campo de golfe para comportar torneios internacionais, que, sem dúvidas, causaria um impacto ambiental gigantesco para aquela região, mas, esse detalhe não era passando para o público, só falavam da prosperidade e empregos que geraria. Pelo visto, havia muita gente importante interessado nisso, encobertando os danos que iria causar. Como ela sabia, a construção ainda não tinha sido iniciada, porque faltavam alguns poucos detalhes e documentações para começarem, seria uma corrida contra o tempo, por isso, não tinha muita esperança de sucesso.

Alguns dias depois, Marcelo mandou uma mensagem combinando o horário e o local do encontro, Ana quase desistiu, pois era muito risco para a saúde do seu coração para pouca possibilidade de sucesso nessa empreitada.

Depois considerou, que apesar de improvável poderia haver alguma esperança, mesmo pequena, de salvar aquele lugar e sua gente. No dia combinado, um tanto ansiosa, pegou um táxi, que a levou a um bairro de classe alta diante de um prédio muito luxuoso. Pelo interfone, um porteiro uniformizado anunciou a sua chegada e ela foi autorizada a subir, não tocou a campainha, Marcelo abriu a porta, vestindo calça de jeans, camiseta e descalço, parecendo bem relaxado e a vontade no seu ambiente.

— Oi, Ana! Por favor, entre! — Enquanto abria a porta para ela entrar, cumpria o seu papel de bom anfitrião. — Quer beber algo?

— Oi, Marcelo. Só um copo d’água, por favor.

Sentia-se estranha por estar ali sozinha com ele, mais uma vez. Ali parada no meio daquele loft, Ana não pode deixar de reparar o espaçoso lugar com grandes sofás escuros confortáveis, vários tapetes orientais espalhados pelo chão de madeira de demolição, uma cozinha de estilo americana moderna e bem equipada, com um balcão aberto para a sala com bancos altos, uma mesa de jantar para quatro pessoas de vidro bem grosso e cadeiras pretas e uma escada levava para o giral, onde deveria ficar o quarto.

— Seu apartamento é bonito.

— Obrigado, eu gosto muito aqui, é onde me escondo – confessou, entregando-lhe o copo com água.

— Podemos começar? — sugeriu, queria ver tudo e cair fora dali o mais rápido possível.

— Claro, está tudo aqui. Eu fiz cópias – Apontou para uma pilha de documentos em cima da mesa de jantar. — Tem mais espaço.

— Está ótimo — concordou, pensando que iriam levar bastante tempo para ver aquilo tudo.

Assim, eles se sentaram, Marcelo começou a mostrar os documentos a ela e desenhar em uma folha, um organograma, tentando explicar as relações comerciais.

No primeiro momento, Ana se esforçou para se concentrar, já que estavam tão perto, tinha completa consciência da presença dele ao seu lado, do calor e cheiro que emanavam do seu corpo, dos furtivos toques das suas peles, em um rápido roçar de dedos sobre os papéis, que fazia seu corpo arrepiar e seu pensamento rodopiar e perder-se, em um rodamoinho de cenas do seu passado recente, os beijos, os abraços, os seus corpos nus se tocando, ele dentro dela, o prazer que sentia, sacudiu de leve a cabeça, querendo afastar aqueles pensamentos, tomou um grande gole d’água, tentou não olhar mais na sua direção e focar-se no documento à sua frente. Então, o trabalho começou a fluir bem, eles liam e analisavam os documentos, mas não tinham nenhuma falha aparente, mas tudo mostrava que o ecossistema da região seria completamente alterado, contudo, como foi anunciado, aquele empreendimento, também, poderia trazer riquezas para aquele lugar a muito esquecido e parado no passado. Depois de muito tempo, Marcelo espreguiçou-se, erguendo os braços alongando-se.

— Estamos cansados! Vou pedir uma pizza — anunciou e Ana ficou grata pela interrupção, pois precisa descansar, estava zonza com tantas informações, massageou o pescoço e se levantou.

Ele pegou o telefone, ligou para a pizzaria e perguntou qual era o sabor favorito dela e fez o pedido.

— Eles chegarão em cerca de meia hora – anunciou, ao desligar o telefone.

— Posso usar o banheiro? – pediu, principalmente, para se afastar dele.

— Claro! É lá em cima — respondeu, apontando para a escada.

Os olhos dele a acompanharam subindo as escadas. Lá em cima, Ana não conseguiu deixar de admirar o quarto bem decorado em azul e preto, sem paredes, onde se tinha uma visão de toda a parte da vista a sua volta. A porta do banheiro ficava camuflada na única parede do lugar, o cabeceira da cama grande e baixa era uma enorme janela de vidro com vista para a cidade e, para diminuir a claridade, havia grandes cortinas do estilo painel. Ver aquela cama, a deixou irritada, ao pensar em Marcelo com outra mulher ali, mesmo sendo a noiva dele. Então, entrou no banheiro moderno, depois, de usá-lo e lavar as mãos e o rosto, ela não resistiu e olhou nos armários, a procura de algum sinal de Mariane, mas não acho nada, não havia sequer um mero batom. Mas, sobre a banca da pia, ela encontrou um vidro de perfume masculino, abriu e sentiu o cheiro, era esse o aroma dele, que a deixava zonza, sem querer, derrubou a tampa, fazendo um barulho surdo. Receosa que ele pudesse ter ouvido e desconfiar da sua bisbilhotice, pegou-a rapidamente, tampou o vidro e saiu, pois já havia ficado tempo demais lá em cima. Percebeu que ele a observava, quando descia a escada, jogado no sofá, os braços atrás da cabeça, ele estava lindo, a camiseta levantada, deixando uma faixa da sua barriga malhada exposta, e os fios escuros que se perdia para dentro da calça.

Meu Deus! Foco, Ana! Você não pode cair nessa! Ele vai casar com outra mulher! Ana pensou, quando sentiu um arrepio percorrer o seu corpo.

Ainda bem para ela, que naquele momento o interfone tocou, anunciando que a pizza havia chegado.

— Tem certeza, que não quer uma taça de vinho? – Marcelo insistiu, enquanto comiam sentando junto ao balcão da cozinha, já que a mesa estava ocupada.

— Não, obrigada – recusou mais uma vez, queria continuar lúcida perto dele. Depois, voltaram a trabalhar, no entanto, o cansaço estava deixando a tarefa mais lenta e difícil, por isso, Marcelo fez café, ou melhor, a cafeteira italiana supermoderna dele fez.

— Já está muito tarde, Ana. Vamos parar agora.

— Eu vou embora.

— Fique um pouco mais – ele pediu.

— Você sabe que não posso.

— Então, eu levo você para casa.

— Não! Não precisa se incomodar.

— Eu faço questão! — Marcelo não aceitou a recusa e ela aceitou a carona.

No primeiro momento dentro do carro, ficaram em um pesado silêncio por um certo tempo, sem saber o que dizer.

— Ana, estive pensando – ele começou, de um modo casual. — Por que você não vai conhecer o lugar, onde irão construir o resort? Talvez, conhecendo o local, surja alguma ideia. Eu pago, pode levar quem você quiser e passem por turistas.

— Eu não sei se valeria a pena. Quem sabe este hotel não será bom para a região, trazendo empregos e melhorias de infraestrutura? — Ana ainda estava em dúvida, se não valeria pagar o preço para que a população tivesse uma vida melhor.

— No início, eu achava isso também, mas depois que conheci o lugar mudei de ideia, a maior parte da população vive da pesca, essa é toda a vida deles. Além do mais, a região é linda. Não custa tentar e, no mínimo, você tiraria alguns dias de férias. – Deu um sorriso maroto.

— Por que não? Eu aceito. Quando você acha que poderia ir? — concordou, já mais animada.

— Que tal esse fim de semana? – Marcelo falou, em tom casual.

— Esse fim de semana! Por que com você é sempre assim? Sempre apressado – Ana questionou, atônita.

— Providencie tudo, passagens, transferes e hospedagem. Você tem que faça isso para você?

— Sim — Ana pensou nas secretárias do escritório, seria mais seguro.

— Então está resolvido! É melhor não falar nada com ninguém, que eu estou envolvido — Ele recomendou outra vez, já que a sua situação era muito complicada.

Meu Deus! Viajar assim tão de repente, mesmo não estando mais junto, Marcelo continuava a fazê-la correr, Ana refletiu.

Durante o resto do caminho até chegar em casa, Ana cogitava quem poderia ir com ela. Raquel? Não achava, que uma vila no fim do mundo fosse um lugar para ela, além do mais estava envolvida com Otávio e não queria atrapalhar. Sílvia? É uma ideia! A amiga andava triste e desanimada, a mudança de ar poderia alegrá-la. Será que ela poderia conseguir uma folga? Ligaria para ela amanhã para saber.