Três Portas

1 Capítulo 1- Hebert


Notas iniciais
Hebert, um jovem policial , recebe uma chamada histérica e é levado a uma casa nada convencional e que guarda muitos mistérios.

Hebert I

Dois feixes de luz branca eram as únicas coisas que separavam a ruela de um breu total, a noite havia chegado como uma familiar amiga e já perdurava em meio a madrugada. O farol da viatura do jovem policial Hebert Richard guiava-o para dentro de um peculiar e estranho lugar e ele se perguntava se teria sido sensato ele ter se encaminhado para ali sozinho. Havia recebido cerca de 30 minutos atrás uma estranha chamada, onde a voz estridente de uma mulher gritava por sua filha e apenas nisso ficou por 3 quartos de hora. Hebert tentou de todo jeito convence-la a falar onde ela estava e o que havia acontecido, mas ela só continuava a gritar sobre a sua suposta criança e que algo havia acontecido à ela. Porém, o que mais estranhou o jovem policial foi a hora tão atípica em que havia recebido a chamada, o relógio marcava mais de 2:00 da madrugada e era de praxe ele estar jogando cartas com ele mesmo, sentado a sua cadeira na delegacia, chamadas daquele tipo e naquele horário eram definitivamente raras, e por assim dizer, consideradas especiais. Posto isso, logo após o insucesso em lidar com a histeria da mulher, ele ligou para a metrópole mais perto e exigiu o rastreamento da chamada. Ao conseguir o endereço, pegou novamente o telefone, porém tudo que restara dos gritos histéricos da mulher da mulher era um silvar agudo, quase como um gemido e que produzia uma estranha sensação de desconforto em Hebert. Após tentativas de contatar a mulher novamente, primeiramente chamando debilmente por ela na linha muda e logo depois tentando sem sucesso chamar novamente seu número. Sendo assim, ele saiu da delegacia vazia e se dirigiu para o lugar onde agora guiava sua viatura.


O relatório da metrópole apontava para a Rua dos Becos, lugar pouco visitado, principalmente à noite e, menos ainda de madrugada, como a situação atual de Hebert propiciava. Devido a sua reputação violenta, crimes, drogas e prostitutas eram tão comuns quanto o ar que respirava, e por esse fato, é claro, Hebert conhecia aquele lugar de ponta a cabeça e por isso estava agradecido naquele momento. O ar taciturno que o silêncio provia, era capaz de entorpecer qualquer um em devaneios ou despertar um bocado de desespero paranoico para com qualquer som que quebrasse aquela mudez tenebrosa. Para uma mente alarmada como a de Hebert, policial a mais de 5 anos na cidade, aquele silêncio era muito mais perigoso do que qualquer noite de festas ou mesmo nos dias em que o tráfico estava aceso nos arredores e vielas do lugar. Após atravessar numa lentidão cautelosa a rua, ele parou de fronte a uma casa pequena, e que estava parcialmente pintada de um rosa manchado e sem vida, o que contrastava perfeitamente com o bairro onde ela fora construída. Ele viu o número 13 escrito na parede com uma tinta preta, irregular e disforme mas definitivamente é a casa, pensou. Não havia luzes acesas. Sem sinal de uma campainha. A mulher também não estava lá, nem ninguém. Não havia qualquer som, nem um estalar de móveis, cigarras cantando ou mesmo ratazanas e gambás perambulando pela calçada, o que era comum naquele lugar. Apesar de começar a desconfiar de um trote ou algo do tipo, Hebert decidiu averiguar melhor em volta da casa, algo poderia ter acontecido para a mulher não ter vindo recebê-lo e ele não queria ser responsável se algo acontecesse a ela. Sendo assim, foi de encontro a casa.

Ao andar no espaço estreito que havia na lateral esquerda dela, e que separava a casa da mulher de outra casa que conseguia ser menos atrativa que a primeira, Hebert percebeu que tudo estava fechado. As três janelas a qual passou não estavam abertas, e aparentemente também trancadas por dentro, nenhuma delas tinha grade. Voltou novamente para frente da casa e olhou para ela com raiva. Tudo parecia estar obsoleto. Nada produzia qualquer ruído. Não havia vento para ouvir-se um mínimo silvado. Não havia som na respiração de Hebert, como se o ar também estivesse morto, não existisse. Cada passo parecia um trovão enquanto ele andava até a parte lateral direita da casa que tinha também um espaço, porém menos estreito do que o outro lado e havia três portas no lugar das janelas. Vermelhas, altas e é claro, desbotadas como toda a fachada da casa. Girou a fechadura da primeira. Nada. Girou também a da segunda. Nada. Quando fechou os dedos em volta da terceira e se preparou para girar pareceu a Hebert que algo a havia girado antes que ele o fizesse, porém como qualquer pessoa que se depara com algo que foge ao lógico ou ao conveniente ele levou aquilo como um equívoco mental, provocado pelo sono, ou seja: Nada. Quando, frustrado e impaciente, Hebert estava voltando para frente da casa ele ouviu atrás de si o suave clique da maçaneta liberando a porta à ser aberta e que se tornou um estrondo aterrador e alarmante diante da quietude a que o policial já havia se acostumado. Diante disso, Hebert, é claro, deu um salto, e acabou por tropeçar e cair no chão áspero do beco ganhando alguns arranhões. Se recompondo ele foi direto até a terceira porta, que sem surpresa, viu que era a única que havia sido aberta ,parece que não estou com tanto sono afinal, pensou, e em seguida empurrou com uma brandura absurda a porta, com a intenção talvez, de prolongar o momento para que o resultado inevitável e quem sabe assustador, não se concretizasse tão cedo. O interior da casa, porém, era apenas uma escuridão absoluta. Nunca havia visto (ou melhor, não visto) tamanho breu. Atrás de si, a precária luz amarela escura da lâmpada do lado da segunda porta era a luz de um estágio de futebol, o flash uma câmera digital, o primeiro choro de luz do sol após seu nascimento em comparação com o interior da casa. Hebert, como explicação, supôs que não deveria haver janelas ou eletricidade no interior da casa e concluiu que a mulher devia ter usado um celular para fazer a chamada que o trouxe até ali. Arriscou um passo.

Arriscou mais um par deles. Andar em tal escuridão era como tentar caminhar pelo espaço, tudo parecia infinito, e isso não era nada agradável. O corpo prega truques na mente, pensou Hebert ao sentir uma corrente de ar quente na nuca e que parecia curiosamente com uma lufada de ar, uma respiração. Ela teve o poder de deixar cada pelo do corpo de Hebert arrepiado e para o demérito do policial: paralisa-lo no meio do infinito em que estava. Ficou lá no que pareceu uma eternidade de 5 minutos até criar coragem de recuar dois passos atrás. Quando o fez, ficou esperando esbarrar em alguém, na mulher, pensou fervorosamente naqueles 5 minutos, que continuou periodicamente a lufar atrás dele. Porém, seus receios foram frustrados, pois quando andou de volta a porta e a alvorada que vinha da luz próxima a ela, nada aconteceu. E depois desse episódio lembrou-se estupidamente da lanterna presa na cintura e se deu ao luxo de deixar escapar algumas pragas à si mesmo por tal idiotice, em seguida segurou-a junto ao peito e a acendeu.

O mundo não poderia ser mais claro. Os olhos de Hebert até protestaram diante de tal claridade, que apesar de pequena para uma lanterna comum, parecia um alvorecer ao contraste com o que era a casa segundos atrás. Hebert só via cerca 5x5 cm do que estava a sua frente, e por isso estava grato. Confirmou suas suspeitas de que não havia janela para sustentar algum foco de luz dentro da casa e logo fez uma inspeção com a lanterna projetando um círculo enquanto checava o conteúdo da casa.

Comum. Comum era palavra que resumia o interior daquela estreita residência. Apesar de não conseguir ver mais do que a superfície do que lá havia, Hebert conseguiu identificar um sofá vermelho desbotado e a pouco mais de 2 metros dele onde uma parede cortava outra paralelamente formando um corredor e onde estava aquele sofá, havia uma sala de estar. Na sala havia todos os objetos que se encontra usualmente num comodo tipo: Um abajur, uma tv pequena, um tapete oval no centro do cômodo que, pela falta de qualquer atrativo, não estava ali para uso decorativo e algumas mesinhas de canto desbotadas. A lâmpada do abajur estava quente e as mesas remexidas, mostrando que alguém havia usado aquele espaço, e a não muito tempo. Hebert explorou todo o térreo. A cozinha pobre, o banheiro encardido e o quarto não menos diferente. Nada novamente. Resignado e com uma raiva crescente, o policial aceitou que havia sido vítima de um trote, o que não era incomum quando se trabalhava na polícia. Enquanto existissem crianças, e adolescentes tão infantis quanto as mesmas, trotes inúteis e possivelmente perigosos como esse sempre aconteceriam. Mas não obstante de suas intuições policiais, Hebert lembrou-se de como a porta abriu-se praticamente sozinha, dos gritos da mulher que pareceram bem reais a ele e dos sinais de uso recente que havia encontrado na sala. Então ao pensar nas portas, lembrou-se de rompante que ele não havia encontrado nenhuma que o levasse para fora da casa e que lá fora três portas o levavam para o interior da residência. Correu cautelosamente como a lanterna em riste para o beco das portas, do lado da casa. Olhou para as portas mais uma vez e pensou se devia arrombar as outras duas. Os gritos que escutará ao telefone, e o ar taciturno no ambiente formavam uma intuição de alarme em Hebert e por isso ele decidiu por arrombar, mesmo que ilegalmente, as portas á sua frente.

Começou pela segunda. Protelou procurando o canivete no fundo dos seus bolsos e o pegou, ajustou o objeto à seu gosto e contornou a frágil fechadura com a lâmina. Olhou para a porta mais uma vez e abriu caminhando sem pensar para a soleira dela. Lá dentro tudo o que se via eram dois feixes brancos que em uma pequena parte, em seu extremo centro, eram negras como as trevas antecessoras da alvorada. Lá dentro algo o observava.

Notas finais
O próximo capítulo , um de Milly, sai jaja.