Três Portas

2 Capítulo 2- Milly


Notas iniciais
Milly, uma mulher com princípios duvidosos, espera pelo começo de seus planos.

Milly I

Errado. Errado, errado, errado. Essa palavra martelava na cabeça de Milly, que jogada em um sofá verde amuado se perguntava se a felicidade tinha prazos, se tudo que podia esperar dela era apenas um momento. Dois dias, replicou mentalmente corrigindo-se, tudo que tive foram dois dias. Para afastar tal ciclo de pensamentos de que nada a ajudariam agora, Milly focou na imagem de sua pequena Annie, produziu mentalmente aquela figura angelical, começando pelos cabelos lisos de um louro sujo escorrido, passando para seu rosto rechonchudo e corado, sua boca fina e seu sorriso branco, desceu os olhos por sua pele clara, quase translúcida, suas mãos rebeldes e cheias, seus minúsculos joelhos e pelos ainda menores pés que nunca paravam, sempre agitados a caminho de algo ou alguém. Imaginou-a por um tempo incomensurável até formar completamente a menina em sua mente, quando terminou, fez a menina rir a partir da lembrança que tinha do som melodioso que era sua voz, em seguida chamou-a e ela gritou animada, correndo feliz à seu encontro, seus olhos eram de uma harmonia natural e profunda até que começaram a se arregalar com um medo ainda mais profundo, ela correu em direção ao lado contrário de Milly como se estivesse sendo perseguida por algo ou alguém invisível à Milly até que caiu em um poço inexistente mas que a engolirá em meios às trevas inevitáveis da mente da mulher que a imaginará...7 anos, pensou ela com firmeza, dessa vez não afastando tais imagens e pensamentos que à encontravam mesmo em sua imaginação, mas sim aceitando-as, convidando-as a entrar em seu ser, como para se acostumar com a dor que sentirá, que sentia e que ainda sentiria ao constatar o fato que a sua imaginação poucos instantes atrás tanto explicitará quanto à sua filha e sua vida: Ela tinha apenas 7 anos e Milly havia à perdido mais umas vez.

Ela não estava surpresa ao perceber a calma que sentia. Desespero não era um sentimento da qual ela tivesse conhecimento, não o sentia a tanto tempo que nem se lembrava qual era a sensação de fazê-lo e quando via tal desconhecido sentimento sendo expressado por outros, não demonstrava nada menos que um misto de piedade e desprezo. As coisas pelo qual passou, e deus, pelo que ainda passaria, não davam a ela o luxo de ter ou sentir tais trivialidades. Quando tudo aconteceu, ela ficou chocada e sem dúvida preocupada, mas segundos depois sua mente já trabalhava a mil. É claro que continuava preocupada, mas já tinha tudo planejado: havia traçado um objetivo e uma rota até ele e, pelo menos até o momento, tudo estava seguindo o caminho que havia traçado.

Ao olhar em volta viu paredes com uma cor mista de cobre e negro, sujas e invadidas por fungos, um carpete que quem sabe um dia já fora branco, mas que agora se encontrava encardido com manchas negras aleatórias por toda sua superfície, e no canto do cômodo havia uma escrivaninha decadente, uma mesa e um lustre que pendia acima de tudo que observará. Poderia até se passar por elegante se não fosse pela sujeira, pensou Milly, porém ela havia deixado, depois de muito esforço, aquela estranha casa em bem melhor estado do que quando a encontrara pela primeira vez, em uma noite fria e assustadora três anos atrás, e que mudará drasticamente a vida de Milly.

Ao fazer outra tentativa de protelação fechando os olhos, Milly percebeu que não conseguiria mais ficar parada, a ansiedade e a agitação produzidas pela consciência de que estava à poucos instantes de praticar uma ação fluíam por seu corpo, sendo assim caminhou até a cozinha e começou a configurar as câmeras que lá haviam, dentro de cada tela estava contida uma parcela da esperança que tinha de vê-la novamente, porém cada vez que cada uma das pequenas caixas era ligada a esperança de Milly se aproximava do estado nulo em que se encontrava antes. Oito imagens, em diferentes ângulos e em oito pequenas telas surgiram diante dela, os pequenos aparelhos que produziam o que estava acontecendo dentro das portas da casa estavam uniformemente empilhados em cima de um rack invadido pela poeira. Para suprir a ansiedade que sentia, Milly começou a checar cada imagem para se certificar de que tudo estava correndo bem: se a criatura ainda continuava escondida nas profundezas da segunda porta e se sua pequena Annie teria conseguido se libertar do terrível monstro. Porém tudo que viu nas 4 telas da esquerda, que se referiam ao interior da porta em que estava, foram cômodos vazios e escuros, exceto é claro por sua figura esguia de pé em fronte a uma claridade sepulcral que as pequenas telas produziam. Ao olhar para a primeira câmera à esquerda da direita ela viu uma grotesca imagem que martelava em sua mente desde que a presenciará e que agora estava diante de seus olhos mais uma vez. Rapidamente desviou os olhos e os apertou com força, como se para estraçalhar a imagem que a poucos instantes passará por seus olhos mas já há muito estava enraizada em sua mente. Porém com uma relutância determinada começou a abri-los. Não é hora para isso. Replicou para si.

- A Morte é paz, a morte é luz, a morte é o nascimento da vida. – Recitou o mantra que o homem que ela observava pela tela a havia ensinado. Porém Milly não considerava mais aquilo que via um homem. Eram partes de um. Seu corpo estava completamente nu e de bruços, com seus braços atrofiados torcidos para trás em uma ângulo incomum. A tristeza que poderia reter ao ver tal imagem estava entorpecida bem no fundo de seu consciente, fazendo com que tudo que ela sentisse ao olhar para aquela figura era uma indiferença fria e nervosa, uma neutralidade a qual com muito esforço e tempo ela adquira. A simples ideia da morte de um ser naquela casa, a ascensão de uma alma de frente aos seus olhos, já apaziguava a maior parte da inevitável dor da perda. Porém a pequena centelha que sobrava dessa dor era, apesar do risco quase nulo de produzir uma faísca, enterrada por baixo de sentimentos como resignação e por uma indiferença rígida e treinada.

Enterrada novamente a pequena centelha e relembrada a beleza simbólica que a morte na tela representava para tudo que Milly acreditava, ela o olhou mais uma vez. Ao fazê-lo, não o fez com nojo, horror, tristeza ou mesmo com a sistemática indiferença de antes: Ela contemplou o que via com admiração, em cada gota de sangue seco no chão, em cada hematoma e membro desmembrado, nos olhos sem vida do homem a qual um dia amará, ela viu a transcendência de uma vida e sentiu a felicidade que é sentida após um dever cumprido: o necessário acontecerá, árdua e duramente, mas estava feito e o estado de Milly após essa percepção era de uma completa e extasiada resignação.

Tudo continuava obsoleto e escuro na misteriosa casa quando Milly ouviu um som discreto de algo ou alguém se movendo. Parece que o policial finalmente chegou, pensou ela. Atenta às pequenas telas de esperança ela esperou o sinal de qualquer movimentação em qualquer um das duas locações que havia na casa. Ela achava estranho o fato de uma pequena casa ter duas portas de entrada e ambas as portas levarem a quartos, salas, cozinha e banheiro distintos, porém o não convencional reinava naquele lugar e decidira que não queria saber a resposta de todos os mistérios que perduravam na casa afim de se ater às coisas que realmente importavam.

Silêncio. A típica camada obsoleta de silêncio absoluto pairava, nada havia mudado diante das câmeras e nenhum outro som havia surgido, ela esperou pacientemente porém nada aconteceu. Onde será que ele se meteu? Ela tinha certeza que o som metálico que ouvira segundos atrás era de uma porta abrindo. A criatura finalmente saiu das sombras ou será que minha menina conseguiu se libertar? Apesar das perguntas constantes em sua mente, a preocupação e a esperança que sentia eram calculadamente moderadas e sistematicamente controladas, os dados já haviam sido rolados, só restava a ela esperar e agir de acordo com seu objetivo. Sentou-se novamente sentindo o peso da impotência que o esperar lhe provia e bateu a perna num ritmo aleatório como se para anunciar sua impaciência à casa, às pessoas e criaturas que nela estavam ou podiam estar.

A incerteza daquilo que vivia era um incômodo seco, sem nenhum poder sobre ela, mas ainda assim retido em seu interior. O que estava em jogo era sua felicidade, mas principalmente o destino de Annie, cujo resultado diminuía ou aumentava em proporção à vontade e à capacidade que Milly teria para viver. As vidas que já sacrificara para perpetuar o árduo caminho que percorrerá até esses catastróficos acontecimentos eram sentidas por Milly todos os dias, a dor de lembrar de seus rostos em vida só era apaziguada pelo êxtase da lembrança de suas faces sem cor ou luz, características da morte, o ato sagrado a que ela tanto conhecia, adorava, mas que também secretamente temia. E agora a ela à chamará para servir mais uma vez, sedenta por sangue ao ver a necessidade de Milly de que ele fosse derramado, Milly estava obstinada a ir de bom grado, não de encontro à ela, mas com ela, para fazer parte do todo sagrado que tanto venerava e acreditava, porém também para cumprir seus novos e inesperados objetivos: proteger sua Annie da coisa vil que ela mesmo criará.

Como se a casa tivesse percebido sua impaciência e ouvido atentamente cada palavra de seus pensamentos, um som peculiar e metálico quebrou a quietude que permitia Milly produzir tais devaneios. Um som que a trouxe de volta à concretização das coisas que pensará, um som que foi seguido pela visão, através da última tela da direita, da abertura da segunda porta e que produziu um sorriso imperceptível e automático no canto da boca de Milly, era o sorriso moderado do triunfo precoce, ainda não anunciado ou consolidado, mas que estava em processo. Ao perceber a implicação que aquele som trazia consigo Milly sentiu um alívio melancólico, que provinha do conhecimento de que teria que fazer algo desagradável para um bem maior, a pessoa que entrasse ali estaria fadada à apenas mais algumas horas de vida e o gatilho para o fim da mesma estava nas mão de Milly. Ela não iria hesitar em puxa-lo.

Notas finais
Ansioso pra descobrir o que Hebert encontrará no interior da 2ª porta? Confira em breve no próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.