Três Almas

23 23° Capítulo


Notas iniciais
Não disse que eu ia lançar dois de uma vez? Surpresa!

Eu fui encontrar Paulo antes de jantar com os três conselheiros escolhidos, então tomei banho e coloquei um vestido fresco ficando já pronta para o jantar.

—Paulo! – eu gritei e entrei na casa dele, quando o vi tinha uma mulher de cabelos vermelhos sentada no sofá junto com ele, eu já a vi e sabia bem quem era ela –Estou interrompendo algo?

—Imperadora? – a moça se levantou, era a filha do dono da principal fazenda de galinhas de Drakenyard – Perdão, eu...

—Porque pede desculpa? – disse Paulo – Você não fez nada, foi essa menina que invadiu minha casa!

A moça se despediu dando um selinho no Paulo, fez reverencia para mim e saiu – O que ela fazia aqui? – eu perguntei meio incomodada.

—Estava aqui namorando comigo. – Paulo se sentou no sofá e ligou a televisão.

—Não sabia que você tinha namorada! – eu disse um pouco nervosa – Está explicado porque você compra tanta galinha.

—Ela não é minha namorada. – ele respirou fundo, guardou em uma caixinha sua correntinha que provavelmente foi dada por sua mãe – E eu não comprei, eu ganhei as galinhas!

—Você namora uma mulher que não é sua namorada? – eu disse perplexa, eu podia ter 14 anos, mas eu já sabia como as coisas funcionavam, quando Helias mentiu para mim sobre como nascia bebes, mamãe tinha me explicado depois algumas coisas.

—O que você veio fazer aqui? – ele disse nervoso –Eu pensei que iríamos ficar de folga nessas semanas, antes de irmos para terra.

Eu fiquei em silencio, nem eu sabia mais o que iria fazer lá, então me sentei na frente dele na poltrona e fiquei olhando ele.

—Você vai entender essas coisas quando crescer. – Paulo disse um pouco incomodado com meu olhar de censura para ele.

—Talvez nunca, talvez eu nem cresça – eu falei pensando que os oni’s poderiam me consumir antes que poder crescer.

—Ah,você está entrando em depressão, então veio conversar! – disse ele juntando as mãos e colocando os cotovelos nos joelhos.

—Eu nem sei mais o que vim fazer aqui. – falei cruzando os braços.

—Até parece que ficou com ciúmes de mim. – Paulo sorriu.

—De você Paulo? – eu ri e senti algo estranho depois –Filho de Dhiren? – e fiz uma cara de desprezo. Não estava me controlando.

Paulo me olhou surpreso e ficou sem reação, tentou dizer algo e eu o interrompi e disse:

—Não quis dizer isso. – era verdade o que falei –foram os oni’s. – “os oni’s estavam tentando invadir meu psicológico” pensei, mas não disse.

—Tudo bem, — falou Paulo ainda um pouco surpreso – Eu sei que você não falaria algo assim. Então os oni’s estão tentando dominar você?

—Não diga nada para ninguém, isso é uma ordem – eu disse seria e Paulo consentiu com a cabeça — Claro que senti ciúmes, você é muito querido por mim Paulo. – disse com vergonha, e Paulo corou.

—Obrigada, você também...

—Não entenda errado, não é nesse sentido. – eu disse calma – É que você é meio parecido comigo, ambos fomos usados pelos nossos pais e abandonados, apenas servindo para seus interesses, mas mesmo assim nos tornamos fortes e bons. – o que eu disse era pura verdade, não amava o Paulo no sentido romântico, o amava como semelhante.

—Entendo. – Paulo disse um pouco triste.

—Eu só não quero que ninguém te magoe, por favor, não seja promíscuo e arranje uma namorada e crie laços afetivos com ela! – eu disse em um tom alto.

—Eu poderia facilmente me apaixonar por você Lunally.

—Não seja tolo! – eu ri em deboche – Eu prefiro caras de cabelos pretos! E da minha idade!

—Depois que derrotarmos meu pai, eu me caso com alguém.

—Com alguém que você ame!

—Ok! Ok! — Paulo disse – Vamos falar sobre seus oni’s?

—Não quero. — Eu disse — Túlio irá me ensinar como lidar com isso.

—Então porque veio? Poderia ir falar com o Túlio de uma vez! – Paulo disse se virando de costas para mim deitado em seu sofá.

—Claro, eu vou embora. Marquei um jantar! Até Paulo! – disse e sai, eu fiquei um pouco triste pela amada de Paulo, mas eu não podia fazer nada.

Fui até o restaurante onde iria jantar e sentei-me à mesa reservada, que era na parte VIP do restaurante, eu estava no segundo andar onde tinha apenas eu, para fazer pedido era só tocar a companhia e alguém viria. Eu esperei que meus acompanhantes chegassem.

Eu estava pensativa, eu tinha 14 anos, era uma três almas e Imperadora dos dragões, eu tinha uma família amorosa e um povo unido e mais ou menos harmonizado. Um dia Laila disse para mim que harmonia não era tirar as desigualdades, era fazer as pessoas respeitarem a diversidade. Será que os humanos aceitam a diversidade? E os dragões? Eu aceitei, mas vivi mais tempo como dragão do que humana.

Helias me dizia que o importante era ter controle, não deixar ninguém sair do esperado na organização social, nas condições em que todos tivessem de modo “ideal” as mesmas condições. Os humanos eram assim, ou tentavam serem, os dragões também.

Daniel dizia que tudo tem que ser planejado, tudo tem que ser previsto para que se aja um problema, vai ter a solução prevista anteriormente. O nome disso é direito. Isso tinha em todo lugar, em toda dimensão.

Tudo isso que eles falaram tem em Drakenyard, isso me deixa feliz, mas para mim, no meu intimo faltava alguma coisa. Nem todos eram felizes mesmo com essa vida perfeita, sem guerras ou conflitos, comida e necessidades básicas acessíveis, mesmo com tudo isso, nem todos eram felizes. Eu não era 100% feliz, e não faço ideia do por que.

—Olá majestade.

—Luna! – eu disse automaticamente e vi que era a Vânia que estava na minha frente – Me chame de Luna, por favor.

—Estava distraída? – perguntou Túlio.

—Eu estava pensando em meu governo. – Falei calma para com meus conselheiros – Sabe, eu só queria que todos fossem felizes.

—Isso minha imperatriz, nem a Deusa fênix da conta de fazer. – disse Oliver.

—É, eu sei, somos destinados a experimentar todos os sentimentos. – Falei-me lembrando do que eu disse na coroação para Lisa e Helias. Lisa já tinha colocado minha interpretação nos registros religiosos.

—Temos que tentar ser felizes ao Maximo! – disse Vânia – A felicidade não é apenas material , Luna! O essencial é invisível aos olhos.

—Como assim? – perguntei para Vânia.

—Os sentimentos – ela respondeu – Não apenas os bons, os “ruins” também! – Vânia segurou a minha mão, todos já estavam sentados – A tristeza é boa para vermos o que é importante, você não fica triste quando perde? E assim você vê que precisa melhorar. Não fica com raiva quando lhe incomodam? Então você vê que deve se enturmar e socializar. – Vânia era bem sabia –Os sentimentos “ruins” são bons para aprendermos e progredirmos.

—É errando que se aprende. – disse Oliver.

—Você vai entender quando crescer. – disse Túlio, já não basta o Paulo dizer isso.

— Vamos fazer o pedido? Estou com fome. – eu disse e eles concordaram, assim pedimos varias coisas. –O que queriam falar comigo?

—Sobre oni’s. – disse Túlio – Na verdade, sobre sua vida com os preminger’s, quero saber tudo.

—É muita coisa! – eu falei bebendo suco de uva – Mas vou tentar resumir!

—Ela tem a personalidade de Helias – disse Vânia e eu sorri.

—Eu fui feita geneticamente planejada. – comecei a contar minha humilde historia – Com os melhores genes de Gai e Sara, os dois maiores cientistas dos Premingers’s, meus pais biológicos! Nasci em uma noite de lua sangrenta. – eu acrescentei — Já no útero de Sara implantaram um oni.

Todos me escutavam atentamente sem interromper o que eu falava.

—Eu não fui o único bebe que nasceu assim, foram muitos, mas só deu realmente certo comigo. – eu parei de comer para me concentrar em contar a historia – Com três anos eu já tinha treinamento, eu já tinha os três oni’s em mim. Eu já tinha mais de 30 armaduras implantadas em mim. – eu respirei fundo – Aos quatro matei quatro irmãos meus, e alguns outros que não eram meus parentes necessariamente.

—Descreva: Quem matou? Como? E seu sentimento? – disse Túlio que tinha parado de comer para prestar atenção em mim.

—Os que eram paralelos, não eram parentes, matei com magia. Com consciência – eu disse encarando o Túlio – Eles... Ele me deixavam sem comida, sem água, me batiam, me torturavam, me xingavam se eu me recusasse a matar, eu sei que é ridículo tirar uma vida só por causa disso, mas aquelas crianças eram más, não era só crianças que matei, adultos também... Todos loucos. – eu me lembrei que todo mês, os que viviam comigo na cela, escolhiam o mais fraco para matar, eu nunca participei disso, mas eu olhava sem interferir, se eu enfrentasse todos de uma vez, eu morreria. Ou pior mataria todos de forma cruel – Todo dia morria um. Todo mês tinha os jogos, nos colocava em uma floresta e mandava a gente se virar lá dentro, tinha um pergaminho e quem pegasse ficava vivo. E também... Tinha as drogas, talvez nem sempre eu estava em plena consciência quando matei.

—E os que tinham oni’s? – perguntou Oliver – Como os matou?

—Com meus oni’s. – eu respondi – Não me lembro bem como era a luta, nem me lembro bem da luta com Herodes e Helias, às vezes lembro depois, quando as pessoas me contam o que fiz, e me recordo aos poucos. – eu respirei fundo, era horrível admitir que eu fosse um monstro — Meus oni’s me atormentavam dia e noite, sempre falando coisa horríveis... Mas eu decidi ignorar... Tinha uma moça...

—Que moça? – perguntou Vânia.

—Nunca falei sobre ela para ninguém. – disse explicado – Ela era uma cientista, ela era uma preminger, mas era diferente, ela cuidava do meu estado mental, com calmantes e relaxantes, eu tomava tanto remédio que não sei dizer a quantidade. – eu me afundei na cadeira – Ela conversava comigo, dizia que se eu controlasse os oni’s eles me deixariam sair, que eles iriam parar as experiências, pois se desse certo comigo eles atingiriam o objetivo deles. Eles parariam de fazer mais crianças sofrerem. Mas um dia me mandaram matar a filha dela, e eu matei. – meus olhos se encheram de água, mas não permiti que elas escorressem – Ela me disse muitas coisas ruins, a moça que cuidava de mim, eu entendia o porquê, eu matei a filha dela. Mas ela disse que tudo que me disse era falso, era para que eu não me rebelasse, que eu nunca iria sair do laboratório, que eu era um mostro, que eu nasci para ser a arma dos preminger’s, a arma perfeita. Então meu oni me controlou e eu matei ela.

—Você foi à única com três On’si classe S, e equipação a dar certo. – disse Túlio – Existem vários com oni’s de classe c ou b, mas existem muitos de classe S?

—Eu tinha dois irmãos classe S. – falei tentando secar meus olhos – Eu não faço ideia do que aconteceu com eles.

—E a sua relação com seus pais biológicos, como eram? – perguntou Túlio.

—Sabe vaca em matadouro? – perguntei para o Túlio sem querer resposta –Eu era a vaca e meus pais os matadores. Eu quase nunca via eles em combate normal, eles só me viam lutar quando era com oni’s.

—Como você teve autocontrole depois que a moça que cuidou de você morreu? – perguntou Vânia.

—Eu já tinha autocontrole antes dela, só que não lutava com os oni’s. – eu respondi calma – Ela me motivou a controlar os oni’s bem. Eu sempre acreditei que só eu posso mandar me meu corpo e mente, talvez por isso que os oni’s não me controlavam.

—Já tentou fugir? – perguntou Oliver.

—Sim, fracassei em duas e nunca sofri com uma punição igual a que me deram quando fugi. – eu arrepiei até de lembrar – A terceira funcionou porque Helias apareceu.

—Helias disse que tinha irmãos seus do lado dos seus pais. – disse Túlio.

—Sim, tinha gente que desistia de ter opinião.

—Só não consigo entender como um bebe controlava oni’s – disse Vânia – Sei que você explicou, mas mesmo assim.

—Simples! Por causa da armadura. – disse Túlio – Os oni’s dela estão juramentados em armaduras também. Sabia que é mais difícil achar magia de equipação do que oni’s? – disse Túlio tomando um pouco de suco – Essa magia é antiga como a raça dos primeiros dragões, já os oni’s tem um tanto pra fazer contrato.

—Eles têm acesso à magia de equipação? – perguntou Vânia assustada.

—Tem, um pouco, mas não tem gente “valida” para colocar a magia. – explicou Túlio – A magia de equipação tem que nascer no ser, é muito difícil ser implantada e não sofrer rejeição, pois o portador deve ter um espaço de magia enorme para comportar as armaduras. E tem que ser natural isso, tipo mesmo a Luna sendo manipulada geneticamente, nunca dá para acertar na quantidade de magia inicial que o ser vai ter, então tem a probabilidade, e a probabilidade certa foi a luna.

—Ele está correto. – Falou Oliver.

Eles perguntaram se agora eu sentia remorso por ter matado as pessoas, e lógico que eu disse à verdade que eu sentia, e muito. Túlio disse que teria que fazer tratamentos comigo para eu controlar meu psicológico, pois os oni’s começaram a se manifestar. Terminamos o jantar e eu fui para casa.

Notas finais
E ai? Gostaram mais do que? Da parte do Paulo? Dos oni's? Outra? Obrigada por lerem! beijinhos♥