Try Me
10 Very In Trouble
Notas iniciais
Mesmo com toda a dor que eu sentia a cada movimento que Regina fazia, eu não ousava acorda-la. Ela dormia um sono profundo, encolhida ao meu lado, de uma forma quase que angelical. Cochilei por algumas vezes, mas logo acordei para ver se ela não havia me deixado, e para a minha surpresa, ela não havia saído de lá nem por um segundo. Os cabelos negros caindo sobre o rosto moreno, os lábios perfeitamente desenhados por obra divina, e os olhos mais bonitos que eu já havia visto cobertos pelas pálpebras, guardaria aquela visão para toda a eternidade. Alí ela estava completamente indefesa, e eu senti uma vontade enorme de abraça-la. Olhei para a janela do quarto de hospital em que me encontrava, e os primeiros raios de luz entraram para dar cor àquele lugar sem vida, Henry gostaria de ver o sol nascer dessa forma. Fiz uma nota mental para que quando saísse dalí, leva-lo para acampar no quintal da mansão para ver o sol nascer, ou talvez ele preferisse apenas observar as estrelas. Ouvi a movimentação do local começar, e fiquei receosa com o que iria acontecer se me pegassem com Regina alí, mas lembrei que havia sido uma manobra do Gold, e logo tratei de relaxar. Ele mandava naquele hospital mais do que qualquer um. Achei meu celular enrolado no meio dos cobertores que usávamos, e abri o Whatsapp para ver as mensagens de “Melhoras, Doutora Swan” completamente falsas que havia recebido, Ruby tinha me contado sobre o “Doutora Camarão”, e agora qualquer pessoa que fosse falar comigo eu trataria de ligar o alerta falsidade em minha mente. As primeiras quatro mensagens eram dos médicos do hospital, e a quinta era de Regina. Ela havia me mandado um audio de vinte e três minutos, exatos vinte e três minutos que nunca seriam ouvidos, ou seriam se a internet do hospital colaborasse comigo. Regina se movimentou mais uma vez, fazendo com que eu soltasse um gemido de dor, e ela acordasse apavorada. Ela se preocupava comigo.
– Emma! Me desculpe. – Ela falou, atrapalhada e colocando os cabelos para trás. Tinha acordado num salto, mas eu a havia prendido ao meu lado, sem deixar que ela saísse. Os olhos avelã me fitavam, completamente curiosos. Levantei a mão dizendo que estava tudo bem, ainda não havia testado minha garganta naquele dia, talvez eu já conseguisse falar algo com clareza sem que machucasse tanto.
– Você... – Limpei a garganta a procura de um som compreensível, e Regina me olhou em reprovação. Sabia que ela não me deixaria fazer nada até que eu estivesse completamente curada, mas resolvi desobedecê-la. – Você me mandou um audio de vinte e três minutos? – Ela abriu a boca algumas vezes para me responder, mas tudo o que eu vi foi uma enorme patoca vermelha se formando em seu rosto moreno. Não consegui conter o riso, e vi que ela ensaiou um soco no meu ombro, que não me machucou. Ela revirou os olhos e ignorou completamente a minha pergunta, até que arranhei a garganta mais uma vez para cobrar uma resposta.
– Miss Swan, acho que você não deve falar nada. – Ela me respondeu séria, ficando com a postura ereta, completamente elegante. Havia voltado com a personalidade CEO. Eu teria que aprender a lidar com as multiplas personalidades daquela mulher, uma hora mãe de família, na outra dona de empresa, e a melhor versão de todas, a simplesmente Regina. – Claro que esse audio deve ter sido algum engano, acho que devo ter sentado no botão de gravar. – Concordei com a cabeça, fingindo que acreditava naquela desculpa esfarrapada dela. Por um momento fiquei triste, pensando que poderia ser verdade, mas algo me dizia que havia algo sim naquele audio. Regina vasculhou sua bolsa, sem sair do meu lado, e pegou seu celular.
– Henry ligou? – Lembrei que o garoto estava sozinho em casa, ou apenas com Sidney. Talvez já fosse acostumado com as saídas inesperadas de Regina por conta do trabalho. Ela balançou a cabeça em negativa e fez sinal para que eu parasse de falar, e eu a ignorei. – Algum problema? – Perguntei, olhando para a expressão estranha de Regina para o celular.
– Zelena está em Boston, chegou ontem pela manhã. – Ela me olhou completamente pensativa. Eu sabia que a relação das duas não era lá muito boa, mas elas se falavam com uma grande frequencia sobre trabalho. Daniel era o mediador das duas, mantinha boas relações com todos da família. – Ela não deveria ter voltado agora, normalmente passa apenas o natal conosco. – Regina passou as mensagens em seu celular, e vi quando uma foto apareceu na tela: Uma mulher com cabelos longos, ondulados e ruivos, olhos azuis, lembrava muito pouco Regina, mas sabia que era sua meio-irmã, estava abraçada com Henry, que estava coberto de presentes e com um sorriso encantador no rosto. – Ela está na mansão. – Concluiu o pensamento, levantando da cama.
– Isso é um problema? – Quis saber, e Regina balançou a cabeça em negativa, mas algo me dizia que ela estava escondendo alguma coisa de mim. Ela fez sinal de que iria sair, mas puxei seu braço, selando nossos lábios num beijo casto, não perderia aquela oportunidade. – Espero que isso seja verdade. – Ela me deu um sorriso de lado, concordando com a cabeça e saindo do quarto do hospital. Bufei, seria um longo e tedioso dia, e a wifi daquele lugar estava um lixo. Não demorou muito para que uma das enfermeiras entrasse no quarto e tirasse minha roupa para me ajudar com o banho, aquilo era tão constrangedor. Não que eu tivesse vergonha do meu corpo, eu não tinha, estava em perfeita forma graças as minhas caminhadas matutinas, mas ter alguém me tocando daquela forma era extremamente desconfortável, principalmente para uma pessoa reservada como eu.
– Você já está bem melhor. – Ela falou animada, me analisando com o olhar. Nunca havia reparado na presença dela naquele lugar, o que era algo estranho, já que ela não era uma pessoa muito comum para passar despercebida. Os cabelos vermelho-alaranjados completamente volumosos e cacheados, a pele branca e um ar selvagem, com toda certeza era nova por alí. – Algum problema? – Ela perguntou, desconfiada. Devo ter ficado muito tempo com o olhar fixo sobre ela.
– Não, nenhum. – Minha garganta já não doía tanto quando falava, o que era um ponto positivo. Ela sorriu para mim, me ajudando a levantar da cama e seguir para o banheiro do meu quarto. Agradeci a Deus pelo banheiro privado do quarto, mas acho que deveria agradecer a Regina, já que ela quem patrocinava aquele lugar. Olhei mais uma vez para mulher, que pareceu se sentir desconfortável. – Me desculpe. – Dei um sorriso torto, percebendo que ela estava se sentindo invadida. – É que nunca te vi por aqui. – Expliquei, e ela pareceu aliviada, provavelmente achou que estava fazendo algo de errado, e eu como médica do hospital iria lhe delatar. Ela era jovem, provavelmente aquele era seu primeiro emprego, e tinha medo de perdê-lo por conta de uma paciente chata.
– Comecei a trabalhar aqui tem apenas duas semanas. – Ela pareceu confiante, e eu gostei daquilo. Olhei para o crachá que ela usava, procurando por seu nome, e ela pareceu perceber. – Desculpe, não me apresentei. – Ela deu um sorriso tímido, mas cheio de bravura. Parecia saber exatamente o que estava fazendo quando me ajudou a entrar dentro de uma banheira com água gelada. – Mérida. – Eu já nem estava ouvindo mais nada quando ela falou seu nome, pois o liquido em contado com a minha pele fazia com que meu corpo todo doesse, tentei subir, mas ela não deixou. – Você precisa disso, Doutora Camarão. – A olhei com reprovação, mas logo dei uma risada. Ao menos ela tinha coragem de falar na minha frente o que achava.
– Eu ainda tenho poderes o suficiente aqui dentro para mandar te demitir. – Brinquei, e ela pareceu não se intimidar com aquilo, sorri. Ela parecia comigo aos dezenove anos, que era exatamente a idade que ela aparentava ter. O hospital deveria ser apenas um estágio, nem deveria ter acabado a faculdade de enfermagem ainda. – Quanta bravura. – Joguei um pouco de água gelada nela, que me olhou com um misto de confusão, raiva e brincadeira.
– Você é a pior paciente de todas. – Ela deu um riso, balançando a cabeça desacreditada. O resto do banho ficamos caladas, e ela me deixava ter total independencia, o que eu deveria lembrar de agradecer no futuro, já que a maior parte das enfermeiras daquele local queriam fazer tudo por mim. Mérida me ajudou a sair da banheira e me levou até a cama, me dando uma espécie de hidratante corporal, teria que passar àquilo cinco vezes ao dia. – Bem, se precisar de qualquer coisa é só apertar o botão. – Ela apontou para o lado da minha cama, onde havia um botão vermelho. Mérida deu as costas para mim, que já estava devidamente deitada, e antes que ela pudesse sair, apertei o local indicado e ouvi um “bip”, que fez a garota virar para mim. – O que foi? – Ela me olhou, já irritada, e aquilo me deu vontade de rir.
– Nada, queria ver se funcionava. – Falei, contendo o riso. Eu usaria aquilo o dia inteiro, pois não tinha nada para fazer. Ser paciente era um inferno para mim, eu queria minha vida de volta. Não conseguia ficar muito tempo parada, queria correr. Mérida voltou a caminhar em direção à porta e eu apertei de novo o botão, tendo como resposta o dedo do meio levantado por ela. Não contive a gargalhada, e me arrependi bastante de ter forçado tando minha garganta daquela forma. Peguei meu celular e liguei para a mansão de Regina, esperando que Henry atendesse, e o resultado foi exatamente o esperado.
– Oi, Emma! – Ele falou meio emburrado, mas sabia que aquilo era apenas cansaço. Provavelmente sabia que era eu por conta do identificador de chamadas no telefone. – Quer falar com minha mãe? – Ele perguntou, e por um momento achei a pergunta estranha, como se ele soubesse de alguma coisa qua aconteceu no hospital entre nós duas. Balancei a cabeça achando aquilo impossível, Regina não contaria a ele nem tão cedo, ou contaria? Afastei os pensamentos da minha cabeça.
– Oi, Kid! – Falei, contente em ouvir aquela vozinha de sono, mas já pronta para fazer qualquer coisa que eu propusesse. – Na verdade, eu queria falar com você mesmo. – Henry ficou completamente animado do outro lado da linha, como se estivesse acordado alí a horas. – Bem, eu sei que você tem aula hoje, mas se por algum acaso você desviasse o caminho do colégio sem querer e viesse parar no hospital para que a gente fizesse algo novo... – Ele não esperou que eu acabasse a frase e desligou o telefone. Sabia que em no máximo uma hora ele estaria alí. Não tinha muita coisa para fazer no hospital, mas eu queria mostrar algo a Henry, algo que mudaria o modo de pensar dele para sempre. Olhei em direção a porta e algo me chamou a atenção, não esperava aquela visita.
– Espero não estar atrapalhando. – Ele deu um sorriso largo e sincero para mim, e eu retribuí de uma forma meio desengonçada. Estava confusa. Daniel colocou um jarro com flores amarelas ao lado da minha cama. – Regina me mandou uma mensagem falando o que tinha acontecido, então resolvi passar por aqui. – Caminhou até a cadeira que ficava ao meu lado e sentou.
– Obrigada. – De todas as pessoas no mundo, aquela era a última visita que eu poderia esperar. Daniel era um homem gentil e bondoso, mas eu praticamente não o conhecia. – Como está lá no clube? – Perguntei, sem ter muito assunto para puxar com ele.
– Bem, as flores foram do Rocinante. – Ele deu uma risada, e eu o acompanhei. – Está tudo bem por lá, tirando o fato de que não aguento mais minha mãe reclamando de tudo. Dona Cora é uma verdadeira rainha na arte de reclamar. – Nós dois rimos. Não conhecia Cora, apenas de vista. Quando levamos as crianças do orfanato para a competição, eu a vi de relance, com um olhar sério, focado em Regina o tempo inteiro.
– Então quer dizer que Zelena está na cidade? – Lembrei da minha conversa mais cedo com Regina, iria tentar arrancar alguma informação de Daniel sobre a vinda inesperada da minha mais nova cunhada. Ele concordou com a cabeça, entrelaçando os dedos gastos e calejados.
– Ela chegou ontem e deu uma breve passada pelo clube para falar com nossa mãe. – Ele deu de ombros, como se aquilo fosse algo que a irmã fazia com frequencia. – Passou o resto do dia fora, parece que foi até a mansão. – Ele completou, e eu concordei com a cabeça. Ela havia passado pela casa de Regina, a foto com Henry comprovava isso. Eu o lancei um olhar curioso, mesmo sem querer. – Sabe, Emma, Zelena tem seus momentos, mas é uma boa pessoa. – Concordei com a cabeça.
– Não tenho dúvidas quanto a isso, afinal, ela é irmã de vocês dois. – Brinquei com ele, o fazendo rir e dar de ombros. Daniel levantou da cadeira de visitas e olhou em minha direção, como se quisesse falar algo, mas não disse nada por um tempo.
– As mulheres Mills são complicadas. – Ele sorriu, e eu concordei com a cabeça. Uma prova viva daquilo era Regina e suas alterações repentinas de humor. – Bem, tenho que ir agora. O clube não ganha dinheiro sozinho. – Ele falou, colocando as mãos dentro dos bolsos da calça. Daniel caminhou até mim, me dando um beijo na testa e saiu do quarto. Eu não sabia por qual motivo, mas ele me fazia sentir bem, como se existisse paz e tranquilidade em todos os lugares. Daniel, com certeza, era uma pessoa abençoada, capaz de ver o melhor em todos, ele me lembrava muito Henry, os dois eram igualmente doces. Malmente ele saiu do quarto, e Henry entrou como um espião, se escondendo de todas as pessoas.
– Te procurei em sua sala, mas você não tava lá. – Ele chegou junto de mim, olhando para minha pele completamente avermelhada. Tinha esquecido de falar sobre o acidente a ele. – Gold me avisou que você estava aqui, e disse para que eu tomasse cuidado já que é proibida a entrada de crianças nessa parte do hospital. – Ele deu um sorriso completamente sagaz, e eu ri. Ele estava carregando uma mochila nas costas, e vestia a roupa do colégio. O olhei preocupada e ele deu de ombros. – Não se preocupe, ela acha que estou no colégio. – Concordei com ele.
– Vamos, me ajude a levantar, tenho algo para te mostrar. – Henry não esperou que eu pedisse duas vezes, e segurou com cuidado em um dos meus braços, tentando me ajudar. Teríamos que sair dali escondidos, já que eu não deveria sair da cama. Ele olhou para mim preocupado, e eu ri, dizendo que estava tudo bem. – Devo explicar o que aconteceu? – Perguntei, e ele balançou a cabeça em negativa.
– Não precisa, eu li sua ficha. – Ele mostrou um bloco de papeis, que provavelmente havia roubado de uma das enfermeiras. Henry era a criança mais inteligente que eu conhecia, e dava de dez a zero em muitos adultos por aí. – Para onde nós vamos? – Ele me olhou curioso, e eu finalmente consegui levantar, colocando umas pantufas estranhas que o hospital oferecia. – Belo visual. – Ele riu das roupas que eu vestia.
– Não temos muitas opções por aqui, campeão. – Baguncei o cabelo dele, e me olhei no espelho do quarto. Eu estava horrível, e aquele vestido azul de hospital não ajudava em nada. – Vamos conhecer umas pessoas. – Saí do quarto, olhando para os lados, para que ninguém nos pegasse fugindo. Passamos por alguns corredores até chegar numa parte completamente isolada do local. Me acocorei na fente de Henry, segurando seus braços com carinho, antes que a gente passasse pela porta que separava àquelas pessoas de nós. – Henry, eu quero que você preste atenção no que eu vou te falar agora. – Falei, e ele concordou com a cabeça. Era um garoto esperto, e eu sabia que podia contar com ele. – Nós vamos conhecer agora pessoas muito especiais, tudo bem? Eu quero que você seja muito carinhoso com todas elas, pois elas precisam de carinho. Eu sei que você é um garoto alegre, então foi por isso que te trouxe aqui, para trazer alegria a elas. – Ele sorriu para mim, concordando com a cabeça. Abri a porta, dando passagem para Henry, e nós dois entramos no local. Vi quando Henry parou, observando tudo.
– Emma, por que elas não tem cabelo? – Ele perguntou, olhando para as crianças deitadas nas camas. Olhei para ele, e dei um sorriso sincero. Ele não estava assustado com aquilo, apesar de muitas delas estarem muito magras e pálidas, apenas curioso.
– Elas estão doentes, Kid, muito doentes. – Eu expliquei, e vi que os olhos de Henry baixaram, como quem se arrepende de ter falado algo. – Essas crianças tem câncer terminal. Você sabe o que é isso? – Perguntei a ele, que balançou a cabeça positivamente. As crianças não conseguiam nos ver, pois o vidro que ficava em cada quarto só era possível observar de fora para dentro.
– A minha professora falou que o pai dela morreu de câncer terminal. – Ele falou triste, e eu segurei sua mão. Nós caminhamos até uma gaveta, que possuia meu nome, e eu a abri, tirando de lá um nariz de palhaço e algumas bexigas. – Elas vão morrer, não vão? –Henry me perguntou baixinho, e eu voltei toda a minha atenção para ele.
– Todos nós vamos um dia. – Respondi, fazendo com que ele revirasse os olhos. Não era aquela resposta que ele queria. Já que ele estava ali comigo, merecia saber a verdade. – Sabe, Kid, câncer é uma doença muito, muito ruim. – Pausei, pensando em como explicaria para ele que todas aquelas crianças tinham no máximo alguns meses de vida. – E eles são verdadeiros guerreiros por lutar contra essa doença todos os dias. Mas, chega uma hora, que o nosso corpo cansa de lutar. Você entende? – Ele concordou com a cabeça. – Esses garotos e garotas já lutaram muito, e estão bem cansados, mas mesmo assim continuam tentando a cada dia. – Henry abriu a boca algumas vezes, como quem quer falar algo, mas esperou que eu concluísse. – Mas como eu disse, é uma doença muito ruim, e mesmo com toda a força deles, as vezes ela acaba vencendo. – As lágrimas tomaram conta dos olhos dele, e eu o abracei forte. – Não chore, eles precisam de nós sorrindo. Precisam de alguma esperança. – Mostrei o nariz de palhaço a Henry, e ele concordou com a cabeça, sorrindo para mim. Abrimos a porta de um quarto amplo, com várias crianças, meninos e meninas.
– Doutora Emma! – Uma garotinha falou surpresa. Contei mentalmente quantas delas tinham alí, e cheguei a um total de doze, três crianças a menos que na semana passada. Meu coração apertou, sabia que elas não pertenciam mais ao nosso plano. – Como você está queimada. – A garotinha falou, e as outras crianças riram.
– É isso que acontece quando se sai de quartos como esse! – Falei brincando, mostrando minha pele completamente vermelha. – Hoje eu trouxe uma pessoa que eu gosto muito para conhecer vocês, o nome dele é Henry. – Vi os olhares curiosos em direção ao garoto, e uma das meninas colocou uma peruca com cabelos escuros, e caminhou na nossa direção.
– O meu nome é Kim. – Ela estendeu a mão pálida para Henry, e ele sorriu em sua direção, apertando a mão da garota com cuidado. Kim era sempre animada, apesar de tudo o que era submetida. A quantidade de exames que aqueles garotos tinham que fazer era imensa. Vi quando os outros meninos olharam para Henry de lado, como se não gostassem da presença dele alí. Com certeza aquilo era difícil para eles, e eu me senti culpada por não pensar que aquilo poderia fazer com que eles se sentissem mal.
– Sabe, Kim, você fica muito mais bonita sem essa peruca aí. – Henry disse, arrancando um sorriso enorme da garota, e meu também. Naquele momento eu tive certeza de que havia feito a escolha certa. Henry era um príncipe. Vi quando os outros garotos olharam curiosos para ele.
– Elas pinicam bastante. – Kim ficou com as bochechas vermelhas, e eu percebi que eles ainda não tinham soltado as mãos um do outro. A garota puxou Henry para que ele conhecesse o resto do grupo, e eu apenas os observei. Passado alguns minutos, todos estavam conversando com o pequeno príncipe. Ouvi um choro fraco do outro lado da porta, e abri para ver o que estava acontecendo. Um garotinho, deveria ter a idade de Henry, segurava a mão de um senhor de meia idade, que parecia se despedir. Ao lado dos dois, um médico carrancudo. O senhor deu um abraço no garoto, e o médico me encarou. Ignorei-o, e dei um sorriso para o menino.
– Oi. – Falei, acenando com a mão, e ele me olhou tímido. Sabia o que estava acontecendo alí, ele havia acabado de receber o diagnóstico, e teria que ficar no quarto com as outras crianças. Os cabelos ralos e dourados do garoto já haviam começado a cair por conta dos tratamentos, mas ele não havia raspado ainda. O médico me entregou uma máquina de barbear sem o menor jeito para isso, e saiu andando como se aquilo não fosse responsabilidade dele, e estivesse muito ocupado para entender o sofrimento da criança e do acompanhante. Naquele momento eu senti ódio, quis matar aquele infeliz de todas as formas. – O meu nome é Emma, e o seu? – Perguntei, e ele olhou para o homem, que eu tinha quase certeza de que era seu pai.
– August. – Ele respondeu, em meio a soluços. Naquele momento, o pai não conteve as lágrimas, que caíam silenciosamente. Eu não sabia o que fazer, queria abraçar os dois e dizer que ficaria tudo bem, mas eu sabia que não ficaria. – Eu vou ficar nesse quarto? – Ele me perguntou, com toda a coragem que tinha. E eu concordei com a cabeça, ficando do seu tamanho.
– Não se preocupe, August, tenho certeza de que você vai gostar muito daqui, as outras crianças são maravilhosas. – Pela primeira vez vi um meio sorriso no rosto do pai, que me olhava agradecido. – Mas sabe, nós temos uma única regra para você fazer parte do grupo. – August me olhou curioso, e eu sorri para ele, fazendo uma concha com as mãos e pedindo para que ele chegasse mais perto para que eu falasse em seu ouvido. – Temos que ficar carecas. – Ele me olhou, fazendo uma careta, e eu dei um soquinho em seu ombro. – Não é tão ruim assim. – Sorri para ele, que me sorriu de volta.
– Vou ficar igual ao Dustin Pedroia – Ele ficou animado, puxando a barra da camisa do pai, que lhe deu um abraço apertado, e olhou em minha direção agradecendo de todas as formas possíveis. Eu sabia exatamente de quem ele estava falando, Dustin era o defensor interno do Boston Red Sox, um time de basebol. Naquele momento, vi a porta atrás de mim se abrir, revelando um Henry completamente cabeludo, fazendo com que August me encarasse. – Achei que tínhamos que ficar carecas. – Ele baixou os olhos, e eu me senti a pior pessoa do universo. Henry olhou em minha direção encontrando a máquina de barbear, e logo depois para o garoto.
– E temos. – Henry respondeu, me fazendo arregalar os olhos em sua direção. Sabia exatamente o que ele estava propondo, e Regina me mataria. Fiquei imóvel, e Henry tirou a máquina da minha mão. – Vamos, a Emma vai tirar nossos cabelos. – Ele puxou August pela mão, e os dois foram para uma espécie de cabine. O pai de August os seguiu, e eu fui logo atrás. Quando cheguei ao local, Henry já estava devidamente sentado numa cadeira, esperando para que eu raspasse seu cabelo, assim como August. – Faça em mim primeiro. – Henry disse, e eu sabia que ele queria que o garoto ao lado não sentisse medo. Concordei com a cabeça e henry me entregou a máquina.
– Você tem certeza disso? – Perguntei, e ele confirmou. Ajustei a máquina para que Henry não perdesse completamente os cabelos, colocando em zero três, mesmo sabendo que em August teria que deixar apenas em zero. Passei a primeira vez, e aquilo apertou meu coração, mas logo depois Henry estava rindo com o resultado.
– Como estou? – Ele perguntou, animado. E eu o olhei, passando a mão em seus cabelos curtos. A sensação era ótima, e Henry sorriu pra mim. Naquele momento desejei que ele fosse meu filho. Desejei fazer parte de sua vida todos os dias.
– Está lindo. – Dei um beijo em sua bochecha. Ofereci a máquina ao pai de August, para que ele mesmo raspasse o cabelo do filho. Sabia que aquilo era um momento completamente íntimo deles, como foi para mim e para Henry. Ele concordou com a cabeça, pegando a máquina, e nós dois saímos da pequena cabine, deixando os dois a sós. – Você foi muito corajoso. – Falei para Henry, segurando em sua mão.
– Eu só fiz o que achava certo. – Nós dois sorrimos, e logo depois calamos. Ficamos esperando cerca de quize minutos até que os dois saíssem da cabine. Para minha surpresa, o homem mais velho também tinha os cabelos raspados, e os dois sorriam para mim.
– Belo trabalho. – Falei para o pequeno, levantando a mão no ar em sua direção para que ele batesse. Sabia que ele quem havia raspado os cabelos do pai. – Vamos conhecer as outras crianças? – Perguntei, e ele concordou com a cabeça. Henry puxou o braço de August mais uma vez, e os dois entraram na sala.
– Ele é lindo, não é? – O pai de August perguntou para mim, olhando para o seu filho através do vidro. Eu apenas concordei com a cabeça. – O médico deu a ele apenas quatro meses de vida. – As lágrimas rolaram pelo seu rosto, e eu apertei seu ombro. Eu estava dolorida, mas nada que se comparasse a dor que ele estava sentindo dentro do peito. Logo eu estava chorando também. – O seu filho é um bom menino. – Olhei em sua direção, e em momento algum pensei diferente dele.
– Sim, ele é. – Eu o tratava como filho, e o amor que sentia por Henry era de mãe. Eu amava aquele garoto com cada parte de mim, e faria tudo por ele. – Sabe, existem grupos de apoio para os pais. – Caminhei até minha gaveta e peguei um cartão do Doutor Archie, entregando para o homem. – Uma hora você irá precisar. – Ele concordou, guardando o cartão. – Não se preocupe, prometo que estarei aqui para o que August precisar. – Ele me abraçou forte, e eu retribuí o abraço, mesmo sem saber o que estava fazendo. Desde que Henry e Regina entraram em minha vida, tudo estava mudando. Eu era uma pessoa melhor.
– Emma, temos que voltar agora. – Henry saiu apressado da sala das crianças. – Minha mãe acabou de ligar dizendo que está aqui no hospital indo para seu quarto. – Eu estava morta, Regina iria ver que fiz Henry perder aula, raspei seu cabelo, e ainda havia fugido do quarto. Me despedi do homem, e eu e henry andamos o mais rápido que eu consegui, o que não era muito, porque estava com dor. Pegamos um atalho e chegamos no quarto em que eu deveria estar, e para minha sorte, ainda estava vazio. Eu e henry suspiramos alto, agradecendo aos céus.
– Chegamos antes dela. – Ele disse, sorrindo e com a respiração ofegante. Levantei a mão e ele bateu, mas nossa comemoração foi completamente frustrada pela coçada de garganta irritada de uma pessoa conhecida.
– Estranhei você não me chamar depois de uma hora passada de relógio. – Mérida disse sorrindo, com Regina nos encarando ao seu lado. – Quando vi que você não estava na cama, liguei para o contato do seu responsável. – Olhei em sua direção, e fiz a coisa mais ridícula que alguém poderia fazer: estirei a lingua e cruzei os braços irritada. Desde quando Regina era minha responsável? bufei.
– E eu liguei para o colégio e me falaram que você não compareceu à aula hoje. – Regina se pronunciou, pedindo para que Mérida saísse dalí e nos deixasse a sós. Logo que a ruiva saiu, Regina trancou a porta atrás de si. Sabia que eu estaria morta, e o Henry completamente encrencado. Regina andou em nossa direção pegando cada um pela orelha e levando para as cadeiras do quarto. – Vocês querem me matar de susto? O que você acha que pensei quando falaram que meu filho não havia chegado ao colégio e que você tinha sumido? – Ela parecia desesperada agora, como se tivesse passado pelos piores momentos de sua vida. – Nunca mais façam isso de novo, estão entendendo? – Ela nos abraçou, parecia aliviada agora em nos ver. Regina alterava o humor a cada segundo.
– Eu prometo não fazer mais isso. – Henry apertou a mãe, num abraço mais forte, e ela deu um beijo no topo de sua cabeça. – Gostou do meu cabelo novo? – Ele perguntou, e ela olhou para mim com cara de assassina sussurrando um “Mais tarde teremos uma conversa sobre isso.”, não contive o riso.
– Está lindo, querido. Será que você pode esperar lá fora para eu conversar com a Emma? – Ela perguntou, e eu engoli em seco. Minha garganta já não doía mais. Henry saiu do quarto, me deixando com uma Regina furiosa. – Você perdeu o juízo? – Ela praticamente girtou comigo, mas eu entendia todo o seu desespero. Regina andava de um lado para o outro na sala, e por um momento me vi pensando em como ela ficava linda nervosa. Eu apenas a olhava sem responder nada, sabia que ela sentia um misto de emoções no momento. Quando finalmente abri a boca para falar algo, ela lavantou a mão numa espécie de “basta”, e eu me calei. Levantei da cadeira com um pouco de dificuldade, e Regina parou à minha frente.
– Desculpe. – Falei. Ela me abraçou forte, logo depois dando tapas no meu ombro. Aquilo doeu mais do que deveria. – Nós estamos bem. – Dei um sorriso, e Regina se recompôs, ajustando o blazer preto em seu corpo moreno.
– Não, Swan... vocês dois estão muito encrencados. – Ela falou, e eu sorri para ela, a puxando para um beijo leve, que ela retribuiu de imediato. A cada dia eu tinha mais certeza de que queria Regina e Henry para o resto de minha vida, eles já eram tudo para mim, mesmo que não soubessem disso ainda. Eles eram minha família.
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