Try Me
1 Stay The Night
Notas iniciais
Estava uma noite bem agitada em Boston, e era o meu vigésimo oitavo aniversário. Eu não era do tipo que comemorava, não porque eu não queria, mas porque não tinha com quem comemorar. O mais próximo que eu tinha de uma amiga era Ruby, a garçonete da Starbucks que ficava ao lado do prédio onde eu morava. Eu era uma pessoa bastante solitária, nunca me encaixava em lugar nenhum, mas aquele ano seria diferente. Killian, um dos cirurgiões do hospital onde eu trabalhava, havia me chamado para um enconto. Ele não sabia que era meu aniversário, então não levaria um presente, mas só de não passar essa data sozinha já era um grande avanço. Optei por um vestido rosa bem justo ao meu corpo e salto alto. Céus! Eu não sabia como andar com aquilo. Tomei o taxi o mais rápido possível, pois já estava alguns minutos atrasada. O restaurante era grande e luxuoso, eu nunca me daria ao trabalho de entrar ali se não tivesse sido convidada. Avistei Killian sentado numa mesa lateral e caminhei até seu encontro. Ele era um homem bonito, cabelos castanhos, olhos claros, um porte físico excelente e uma barba por fazer que o deixava bastante charmoso quando entrava em contraste com o paletó e gravata que usava.
– Doutora Swan, que bom que veio. – Ele me deu um sorriso enorme, e tomou minha mão com um beijo. Era um perfeito cavalheiro, apesar de seu jeito metido. No hospital ele tinha fama de paquerar todas as enfermeiras, mas nada havia sido comprovado ainda. – Está magnífica. – Ele puxou a cadeira para que eu me sentasse, e eu o fiz.
– Emma, me chame de Emma. Não estamos no trabalho, então podemos dispensar formalidades. – Falei, e ele sorriu concordando. Killian me entregou o cardápio do restaurante para que eu escolhesse o jantar, e assim eu fiz. Não beberia nada alcoólico, pois no outro dia de manhã eu teria que estar no hospital bem cedo para atender na emergência.
– Então, Emma... – Ele deu ênfase no meu nome, seu sotaque era bem carregado. Killian se aproximou um pouco mais da mesa, entrelaçando seus próprios dedos. – O verdadeiro motivo de você estar aqui é que estou precisando de um grande favor. – Sabia que tinha algo de errado ali, era bom demais para ser verdade. Revirei os olhos e ele encostou as costas na cadeira. Qual intimidade nós tínhamos para ele me pedir um favor? Nenhuma.
– O que você quer? – Eu estava irritada e queria jogar todas as torradas que tinham sobre a mesa na cabeça dele. Ele pareceu perceber minha mudança de humor, mas não falou nada, o que me irritou ainda mais.
– Eu vou viajar com a Doutora Milah essa semana, e não vou ter quem me cubra nos plantões. Gold disse que você não se importaria. – A comida já havia chegado, mas eu não tinha tocado no meu prato, apenas segurava com força meu garfo querendo enfia-lo na mão daquele idiota. Ele não tinha culpa da minha raiva, mas era tão frustrante que as pessoas só me procurassem quando precisavam de algo. Sei exatamente porque meu chefe, o Gold, havia me indicado para o plantão. Eu era uma das poucas médicas que não tinha compromissos como almoços de família, filhos para buscar no colégio, ou qualquer coisa relacionada a isso, fazendo com que meu horário se tornasse extremamente flexível.
– Tudo bem. – Respondi com raiva, eu cobriria ele no plantão, eu não tinha nada para fezer mesmo. O resto do encontro transcorreu normalmente, e como eu suspeitei, ele não sabia que era meu aniversário. Acho que foi o encontro mais longo que tive em anos, e ele teve a decência de pagar a conta no final. Não era tão tarde, e o local não era longe de casa, então decidi que iria andando e passaria numa doceria ali perto para comprar algo que não deixasse meu aniversário passar em branco.
– Doutora, deixaram essas flores para você. – O porteiro do meu prédio, Leroy, me entregou um buquê de flores amarelas. Eu sabia quem as tinham mandado, todo ano era a mesma coisa. Abri o cartão que se encontrava preso por um laço: “Parabéns, Doutora Swan. “. É, eu não podia reclamar das poucas palavras de Gold, ele era o único que sabia do dia e sempre se dava ao trabalho de mandar algo. Agradeci a Leroy e subi pelo elevador até meu apartamento. Eu morava num bairro nobre de Boston, apesar de ter um fusca amarelo na garagem, não podia reclamar da minha vida. Abri a porta da frente da minha casa, tratando de tirar logo os saltos que me machucavam e levando as flores e uma caixinha da doceria até a mesa.
– Outro ano fantástico. – Sussurrei para mim mesma, com o cupcake nas mãos e uma velinha acesa. Realmente havia sido um ano fantástico, eu havia sido promovida dentro do hospital, e agora trabalhava com o melhor médico de casos especiais de toda a cidade, estava ganhando bem mais do que antes, e tinha uma quase amiga que me servia café todas as manhãs. A vela do meu cupcake estava quase apagando, quando lembrei de fazer o pedido. Era algo infantil, eu sei, mas eu tinha essa mania de sempre fazer o mesmo pedido desde que eu era criança e vivia passando por várias famílias e orfanatos. “Eu não quero ficar sozinha no meu aniversário” desejei, e apaguei a vela. O barulho vindo da porta me deixou completamente aterrorisada, parecia que alguém estava tentando arromba-la.
– Por favor, abra! – Uma voz feminina gritou do outro lado, o que me deixou mais aliviada. Não que mulheres não assaltassem, mas ela parecia preocupada com algo, desesperada, para falar a verdade. Corri até a porta para abri-la e dei de cara com uma morena, latina. Por um momento me perdi na beleza dela, mas logo olhei para o garotinho em seus braços. Não devia ter nem oito anos, e sangrava bastante.
– O que houve? – Perguntei, dando espaço para que ela entrasse no apartamento sem pensar duas vezes. O garoto precisava de um hospital rápido, mas o mais perto dali ficava a meia hora de carro. Ela me olhou com os olhos suplicantes, e eu entendi o recado. Teria que cuidar do menino ali mesmo.
– Ajude meu filho! – Ela gritou comigo. Ela entrava na minha casa, não se apresentava e ainda mandava em mim. Eu queria bater o pé e dizer que não faria nada com o garoto se ela não falasse direito comigo, mas ele não tinha culpa da mãe que tinha. Segurei o garoto em meus braços, ele estava desmaiado. Coloquei-o em cima do balcão, abrindo sua camisa para verificar o ferimento, e fiquei extremamente aliviada ao ver que o corte apesar de um pouco fundo, só precisaria de alguns pontos. Parecia que uma bala havia passado de raspão por cima de seu ombro. Eu não tinha os equipamentos necessários em casa, então teria que ser à moda antiga.
– Terceira gaveta, prateleira de cima: Vodka. – Falei para a mãe do garoto. Ela não protestou e fez o que eu pedi, trazendo a bebida para mim. Esterilizei tudo como pude, lavando as mãos com álcool e colancando luvas novas de látex, que eu havia comprado para usar no hospital. Peguei uma linha e uma agulha nova de costurar frango, aquilo deveria servir por enquanto. O fato do garoto estar desmaiado ajudou bastante, pois ele não sentiria a dor. Joguei Vodka por cima do ferimento do menino e estanquei o sangue com toalhas mornas, que a mãe dele estava preparando. Não demorou muito tempo e eu acabei de fechar o ferimento, dando pontos precisos. Se ficasse alguma cicatriz ali, seria muito pequena. – Você ainda precisa leva-lo ao hospital, mas deixe para fazer isso amanhã, o garoto precisa descansar. – Eu falei, após terminar. Não era uma boa coisa a se fazer tira-lo de cima do balcão após a cirurgia, mas eu o segurei com cuidado, levando-o até a minha cama e depositando aquele corpinho pequeno lá.
– Obrigada. – Ela suspirou aliviada. Quando desejei não passar meu aniversário sozinha, nunca imagnei que teria que fazer uma cirurgia de emergência no balcão da minha cozinha. Depois de todo o estresse, voltei a olhar para ela, que estava ajoelhada ao lado de minha cama observando o garoto dormir. Estava bem vestida, muito bem vestida. Seus cabelos castanhos caíam por cima do ombro, dando a ela uma aparência mais jovial. – Nós estávamos voltando para casa, quando dois assaltantes me renderam no carro. Eu pedi para que eles tivessem paciência para que eu tirasse Henry do banco de trás, mas eles estavam muito nervosos. Quando finalmente entreguei o carro, a arma de um deles disparou e eles aceleraram. Por um momento pensei que não havia batido em ninguém, e agradeci bastante por isso, mas ai senti que Henry estava mole em meu braço e sua camisa começava a ficar ensopada de sangue. Ele desmaiou na hora em que a bala passou por nós. O porteiro do seu prédio viu tudo, e disse que você poderia ajudar, já que o hospital era longe demais. – Ela contou o que havia acontecido, alisando os cabelos do garoto.
– Leroy fez certo em mandar vocês para ca. – Falei olhando para Henry. – Swan, Emma Swan. – Estendi a mão para ela, que não apertou e logo a recolhi. Estava ocupada demais cuidando do filho para aquele tipo de formalidade. – Bem, eu vou deixar vocês um pouco a sós. – Disse, indo em direção à porta do meu quarto.
– Regina Mills. – Ela se apresentou. “Mills” aquele sobrenome me era familiar, eu só não lembrava de onde o conhecia. Deixei meu quarto com os dois dentro e fui em direção ao meu sofá, mas não sem antes encher meu copo com uma boa dose de Whisky. Havia sido um dia complicado. Não me lembro quanto tempo fiquei sozinha na sala até que Regina chegasse.
– Algum problema? – Perguntei, levantando a cabeça em sua direção. Ela estava parada perto de mim, e tinha uma expressão envergonhada no rosto, o que a deixava muito mais bonita.
– Preciso voltar pra casa com Henry, mas como eu já disse, o carro foi roubado e dentro dele estava minha bolsa com o dinheiro. — Ela falou séria. Era claramente uma mulher de negócios. Arqueei uma sobrancelha para ela. O garoto havia acabado de levar um tiro de raspão e passado por uma cirurgia caseira, e ela achava que eu deixaria que ele saísse entrando em taxis por ai? Ela só poderia estar louca.
– Fiquem aqui essa noite. – Por que eu fui inventar de abrir a boca? Regina me olhou com uma expressão confusa no rosto, como se eu fosse uma maníaca sexual que estava pronta para ataca-la, mas ao invés de falar qualquer coisa, ela apenas sentou ao meu lado no sofá e tomou o copo das minhas mãos, bebendo o resto de minha bebida.
– Tem mais disso? – Ela me estendeu o copo, e eu concordei com a cabeça. Levantei de onde estava e peguei o copo vazio de sua mão, indo em direção ao meu estoque de bebidas. Enchi dois copos dessa vez, e fui ao encontro de Regina. – Você não quer um celular para ligar para o pai dele? – Perguntei, e ela apenas negou com a cabeça.
– Somos só nós dois. Eu o adotei quando ele tinha apenas duas semanas de vida. – Ela sorriu, provavelmente lembrando-se do dia em que colocou as mãos nele pela primeira vez. – Quanto te devo? Amanhã mandarei meu motorista trazer o dinheiro. – Mudou completamente a forma de falar, assumindo uma postura séria novamente.
– Você não me deve nada. – respondi com a mesma seriedade. Como ela poderia achar que eu cobraria por uma cirurgia feita em casa e naquela situação? Aquilo deveria ferir no mínimo uns doze artigos da constituição. – Eu só fiz o meu trabalho. Eu salvo vidas. – Conclui, sentando ao seu lado. Nós ficamos um bom tempo em silêncio, apenas bebendo o conteúdo de nossos copos.
– Alguma data especial? – Ela perguntou, quebrando o silêncio e apontando com o queixo para as flores, que haviam caído ao chão quando coloquei Henry sobre o balcão.
– Para falar a verdade, hoje é meu aniversário. – Falei, dando mais um gole no meu Whisky. Regina me olhou curiosa, e eu não sabia o que se passava em sua cabeça. Por um momento me senti como se estivesse sendo analisada, mas logo depois aquela sensação parou. Regina ainda me olhava estranhamente, o que me fez corar.
– Bem, acho que você ganhou um novo amigo de presente. – Ela sorriu, olhando além de mim. Virei meu rosto para observar o que ela via, e me deparei com o garotinho em pé junto à porta do meu quarto. Sorri para ele, e ele retribuiu prontamente, apesar da dor que eu sabia que ele estava sentindo. É, aquele realmente havia sido um ano fantástico.
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