Truques Mortais
10 Capítulo 10 - Vale Das Sombras
Notas iniciais
Desculpem a demora. Estava preparando umas coisas novas para esta história e para mais três. Acreditem se quiser... Uma delas será sobre vampiros, e realmente tem muita coisa ainda que preciso estudar para escrever esta história. Mas enfim... Deu tempo de terminar o capítulo 10!
Enjoy!
— Scott? — Era Holly novamente. — Tudo bem aí dentro?
Ainda parado olhando aquela cascavel, Scott voltou a si. Ficar pensando no terrível ocorrido não ajudaria em nada. Ele teria de sair dali o quanto antes... Talvez existissem mais portais como aquele. Mas era impressionante como nunca descobrira uma outra forma de entrar no mundo dos mortos sem ser através da pluma... Ele havia tentado até mesmo a bruxaria e nem assim conseguira.
— Sim, já estou saindo. — Scott falou deixando que a cascavel se enroscasse em seu braço direito. Se ela não o atacou durante o tempo em que esteve no túnel do mundo alternativo... Ela não o faria agora. E, foi assim que Scott descobriu, que ainda desconhecia muitos fatos sobre ele mesmo. Muitos fatos que lhe rondavam.
Com a cobra em seu pé. Ela era pesada, por tanto era quase impossível segura-la apenas com um dos braços.
A porta se abriu rangendo. Causando uma dor em sua cabeça. Um incômodo. Mas logo em seguida seus olhos foram tomados pela luz amarelada que pendia no centro do quarto. Holly se encontrava sentada ao lado de Jennifer em uma das camas... A mão entre a boca para que não gritasse.
— Ela é enorme. — Jennifer falou vendo Scott sair do banheiro. — Não tem medo dela te...
— Não — Scott respondeu. — Ela só vai me atacar se se sentir ameaçada. É só ser cauteloso.
— Aonde você vai deixar esse monstro? — Holly perguntou. Os olhos esverdeados brilhando.
— Fiquei sabendo que tem uma floresta do outro lado da ponte.
— É... Mas, é proibido atravessar a ponte de pedra. — Jennifer explicou. — Ás vezes esqueço que é o seu primeiro ano aqui...
— Primeiro ano? — Holly olhou para Jennifer rindo. — Olá? Essa é a primeira semana dele!
Jennifer suspirou.
— O caso não é este... — Ela se levantou e seguiu até a janela ao lado da cama.
— Porque é proibido atravessar a ponte da ilha?
— O que fica do outro lado daquela ponte... — Jennifer começou — É chamado de Vale Sombrio. Ninguém vai para lá... Se você se aproximar da ponte, verá uma imensa placa branca com letras bem destacadas dizendo que ao atravessar a ponte... Ninguém poderá ajuda-lo caso aconteça algo... A polícia local, ou os bombeiros, ou os paramédicos... Ninguém vai para lá. Tudo o que acontece no Vale Sombrio... Fica no Vale Sombrio.
Scott estreitou os olhos encarando Jennifer... Esta olhava do outro lado da janela.
— As pessoas que entram ali não costumam voltar. Esse é o fato. — Holly falou — É estranho... E falar desse lugar... Vendo você segurando essa coisa me da arrepios.
— Vou ver o que faço com ela... — Scott disse virando-se para sair do quarto — Não se preocupem. Boa noite, garotas.
Quando a porta do quarto bateu, Jennifer se virou e encarou Holly em sua cama.
— Ainda bem que ele mencionou que ia deixar o monstrinho na floresta... Já pensou se ele atravessa a ponte? — Holly perguntou pegando uma revista de fofocas em cima da cômoda.
Jennifer ficou calada por um tempo.
Holly estava certa... Foi muito bom ele ter mencionado a floresta...
— Vai ir comigo ou ficar? — Jennifer pegou seu casaco de moletom azul escuro perto da porta.
Holly abaixou a revista e tornou a encarar Jennifer.
— Ir pra onde?
— Pra ponte de pedra... Aonde mais?
— Fazer o que lá? Ficou louca? — Holly voltou a ler a revista.
— Então fique aí... Depois nos vemos.
— Espera... Você vai mesmo pra...
Tarde demais... Jennifer já havia saído do quarto.
Estava agora descendo a escadaria de madeira ás pressas. Não iria querer perder Scott de vista. Talvez ainda o encontrasse andando pelo pátio principal.
Errado.
Aquela era uma noite fria e solitária no campus. Após o incidente com o prédio principal todos optaram por ficar em seus quartos. Logo estariam todos reunidos em torno da praia perto do cais para prestarem luto aos professores e ao reitor da universidade local de Refúgio Místico.
Naquela noite, ás sete e quinze, Jennifer caminhava pelo pátio principal. Seus passos faziam barulho no chão de pedra enquanto seguia a lua minguante escondida sob nuvens cinzentas em rumo ao Vale das Sombras.
Refúgio Místico é uma ilha enorme como já sabemos. Mas ainda há algo que não foi dito... Vejam bem, Refúgio Místico é dividida em duas partes. O Vale das Sombras é o seu outro lado. É aquele típico lado que é oculto dos comerciais que você vê na TV. Aquele lado é como se fosse uma falha de um plano. Isso só nos prova que mesmo que pareça incrível e perfeito... Refúgio Místico não é.
Uma parte que lhe foi oculta desta história foi aquela mencionada por volta do ano de 1500. Essa ilha seria posse dos portugueses hoje em dia se não fosse pelo fato deles terem pisado primeiro no lado ruim deste encanto. Acontece, que pelo mesmo fato de terem seguido esta mesmo Lua Minguante que Jennifer segue agora, eles chegaram ao lado que hoje é chamado de Vale das Sombras. Para os que conseguiram sair dali vivos, aquela havia sido a pior experiencia de suas vidas. Eles ficaram loucos... O terror que vivenciaram ali dentro não podia se comparar a nada. E, tudo que posso dizer no momento, é que os Canibais que os devoraram naquele tempo não eram nem o início da maldade escondida por entre as árvores do Vale.
Em outros tempos... A sorte chegou. Henrique acabara naufragando na ilha. No lado bom dela. Eis que surgiu este lugar... Este nome. Tentaram de tudo para terem os dois lados da ilha, mas isso era quase impossível. Chegando ao limite de Refúgio místico a ilha é um tanto inclinada. Chegando a sua beira, você se vê no topo de um precipício de mais de 60 metros de altura. Acredita-se que ali era o centro dos vulcões subaquáticos, por isso é dividido em duas partes. E nessa distância de uns seis metros, existe então a conhecida ponte de pedra... A ponte que não deveria existir.
— O que você faz aqui sua maluca?
Jennifer deu um pulo para trás com o susto.
Ora, ela estava no meio da noite seguindo um garoto para o lado ruim da ilha quando alguém que ela não percebera que estava ali a chama.
Jennifer se virou para trás. Deparou-se com Juliet, Freddie e mais duas pessoas que ela desconhecia.
— Você me assustou! Já falei para parar com isso.
Juliet deu de ombros logo depois sorriu.
— O que a senhorita andou aprontando essa tarde?
— Fui pegar minhas coisas lá no teatro... Eu te disse isso.
— Ah Jennifer — Freddie estreitou os olhos graças ao sorriso largo — Ninguém leva uma hora pra pegar um objeto. Fomos no seu quarto depois de um tempo... Holly disse que ainda não havia chegado.
Jennifer fez-se de indiferente.
— Quem são esses? — Ela perguntou olhando para o garoto e a garota que acompanhavam seus amigos.
— Não se lembra de mim? — A garota pareceu desconfortável.
— Er...
— Sou da sua aula de Cenografia.
— Desculpe... Eu não
Juliet revirou os olhos.
— tá,ta,ta... Não fuja de assunto! O que andou fazendo lá no teatro? Se é que esteve lá hoje.
Jennifer não se sentiu a vontade para falar mais com a garota ou com o rapaz, então resolveu dizer logo a Juliet.
— Estava com o Scott.
Jennifer sabia que Juliet mesmo com a chegada do Freddie ainda estava interessada em Scott. Não se espantou quando de repente ela se calou.
— E o que vai fazer agora? — Freddie quebrou o silêncio.
— Er... Eu...
— Vai ver ele de novo não é? — Juliet perguntou.
— Quem é esse Scott? — O rapaz se intrometeu.
— Aluno novo. — Falou Jennifer. — Estava na festa ontem... Deve saber quem é...
— Ele fez um truque bem legal com o fogo. — Explicou Juliet.
— Ah sim! — A garota falou — Sei quem é... Ele veio falar comigo logo após descer do palco. É bem gentil.
Jennifer riu.
— Certo.
— Nem deve ser tudo isso... — Falou o Rapaz. — Fiquei sabendo que ele brigou com o Tyler... E, adivinhem... Ele apanhou.
— Quem apanhou? Scott?
— O novato.
— Ah, por favor Doug! Scott só não deixou Tyler hospitalizado porque separaram a briga. Eu estava lá!
Enquanto eles discutiam sobre o assunto Jennifer perdia cada vez mais a paciência. Agora seria muito mais difícil de achar Scott. Talvez se ela saísse... Eles nem notariam.
Assim fez... E, realmente, eles nem notaram sua saída. Ainda bem! Mas agora tinha de correr... Seguiu para a ponte de pedra. Quando ela finalmente saiu dos limites da universidade local ela estava com os pés doendo, para seu azar, ainda faltava mais.
As nuvens prateadas agora ameaçavam trazer chuva, girando em um redemoinho em torno a lua minguante.
Jennifer seguiu pela a estrada de concreto. Um carro ou outro passavam de vez em quando por ali. Seguindo em direção as casas que ficavam a alguns poucos quilômetros de onde estavam. Subindo agora a grande ladeira Jennifer olhava para seu lado direito. Dali via o céu... E, mais abaixo via a relva verde, as árvores, flores e plantações. Aquele era o lado rural da ilha. Ficava próximo da ponte, por isso poucos passavam por lá. Para ser mais exata, apenas os moradores dos arredores que iam ali.
Quando estava quase se recusando a subir mais a ladeira ela finalmente pode enxergar a ponte, no que seria mais uns dez minutos de caminhada. Ela terminou de subir a ladeira. A estrada agora era toda de terra. Pequenas pedras estavam espalhadas por toda parte e ali o vento a obrigava a vestir finalmente seu casaco. Sim... Ela estava no que se pode chamar de “O Topo de Refúgio Místico” O ponto mais alto da ilha. Estava à 60 metros acima do oceano Atlântico. Uma queda dali seria simplesmente o fim.
Uma pessoa normal e de juízo voltaria para o lugar em que estava antes assim que seus olhos atravessassem aquela ponte. Mas quando Jennifer encarou o breu do Vale das Sombras ela não desejou voltar. Quando ela viu os altos pinheiros ela não sentiu calafrios. Quando viu corvos sobrevoarem por ali não se espantou. Não quis voltar... Ela estava certa, Scott estava lá.
Mas é claro. Ela não era tão ignorante ao ponto de deixar de ler a imensa placa branca ao lado da ponte. A placa tinha quase a sua altura. As letras eram pretas e grandes...
Aviso!
Lugar fora dos limites.
Qualquer solicitação tais como entregas, ambulância, bombeiros ou a polícia local estão indisponíveis para o Vale das Sombras.
Atravesse a ponte e estará por conta própria.
Não estamos responsabilizados pelos fatos que acontecem daquele lado.
“ Lá é onde a morte caminha livremente entre as árvores. Onde a vida nunca existiu”
Jennifer sabia que ali era perigoso, mas não acreditava que era possível encontrar algo de tão ruim numa floresta comum. Foi este pensamento que a guiou até a ponte. Este pensamento que a fez tocar aquela pedra fria que a levaria até o outro lado... A levaria... Mas não naquele dia.
Andava lentamente. Nem mesmo seu casaco a protegia dos ventos fortes e frios que por ali corriam. Ela estava no meio da ponte quando resolveu olhar para baixo. O mar era violento, suas ondas altas rugiam para o norte e logo em seguida se quebravam nas rochas da ilha.
O coração de Jennifer quase saltou pela boca quando uma mão pousou em seu ombro. Oh, por um momento ela se viu sem escolhas a não ser se jogar dali mesmo. Mas ela teve a coragem necessária para olhar para trás e ver o que se podia.
Scott estava na sua frente... A sobrancelha esquerda arqueada.
— Me seguindo?
Jennifer soltou a respiração que havia prendido no susto.
— Eu sabia!
— Não deveria estar aqui... Sabia?
— Sabia que viria para cá... Você atravessou não é?
— Aqui está frio para você... Vamos vo...
— Atravessou ou não?
— Não.
— Então aonde está a cascavel?
Scott soltou um suspiro pesado.
— Você é irritante.
— Eu sabia!
— Ok, — Scott pôs o braço em volta de seu ombro a puxando para voltar. — Vamos sair daqui antes que ele nos veja.
— Quem?
Scott olhou para Jennifer enquanto voltavam.
— O segurança. — Ele apontou na direção de uma cabine policial. Um pouco depois da placa de aviso.
Jennifer ficou surpresa por não ter notado antes. Scott riu baixo.
— Estava com tanta vontade de me achar assim? Até esqueceu de olhar para o outro lado.
— Você acha que tudo se resume a você.
Uma pausa se fez enquanto Scott encarou Jennifer.
— E você acha que sempre tem razão. — Disse ele por fim.
Saindo da ponte eles olharam mais uma vez para a cabine policial, certificando-se de que não haviam sido vistos.
— Agora pode me dizer — Falou Jennifer enquanto desciam a ladeira escura.
— Dizer o que?
— O que tem do outro lado de tão ruim...
Scott deu um meio sorriso enquanto olhava para a plantação de trigo mais abaixo.
— Não vi nada de anormal. Nada que tenha me assustado. Entrei na floresta e soltei a cobra lá...
— Não entendo porque eles falam tão mal daquele lugar. — Disse Jennifer.
Scott sabia porque. E, sabia agora melhor do que ninguém que estavam certos em ter medo do Vale das Sombras. Imagine um lugar horrível, onde todos os seus maiores medos habitam ali... Onde a insanidade é diversão. Scott não estava tão apreensivo por ter entrado lá, afinal, ele vivia o seu maior pesadelo desde os seus dez anos. Os quinze minutos em que esteve do outro lado foram terríveis, mas ele aprendera a lidar com o medo, por isso era fácil mentir para Jennifer e dizer bobagens.
Se não fosse pelo seu poder vindo da maldição dos Vitorino ele jamais teria conseguido achar o caminho de volta. E, entre os quinze minutos lá... Sem seus poderes eles teriam sido apenas três minutos... Em seguida pode-se imaginar uma morte terrível e dolorosa até mesmo para ele que tem sangue frio.
— Você vai ao enterro? — Scott mudou de assunto pondo as mãos nos bolsos de sua calça.
— Tenho que ir. É quase obrigatório... Porque? Você não vai?
Scott negou com a cabeça.
— Não gosto dessas coisas.
Jennifer seguiu ao seu lado. Ela odiava o seu jeito neutro... Sempre agindo como se nada tivesse acontecido, nada tivesse mudado. Ele evitava ao máximo olha-la. Seguia sempre olhando para os lados ou para o chão. Sua pele era pálida diante da luz da lua.
A viagem havia sido um tanto desconfortável já que quase não conversaram. Scott deixou Jennifer assim que chegaram no Campus. Ela seguiu numa direção e ele a viu partir...
— Tome cuidado com ela. — A voz distorcida de seu pai ecoou do seu lado — Se ela souber de qualquer coisa... Já sabe o que tem de fazer. Mas por enquanto não vejo motivo para ela entrar na nossa lista.
Seu pai estava ao seu lado agora. Sua forma era quase invisível. Se ele não fosse seu filho talvez nem o reconheceria.
Se isso era ruim? Para Scott era. E, se querem saber... O Vale das Sombras que o trouxe para o mundo dos vivos. O pavor que Scott carregava agora era este... Havia um portal justo no pior lugar. Um portal bem mais forte do que o da pluma. Esse portal era capaz de trazer qualquer objeto ou ser que habitava o mundo dos mortos... Scott ainda não conhecia a sua profundidade, mas tinha certeza absoluta de que isso lhe causaria problemas.
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