Truques Mortais
11 Capítulo 11 - Do Pó ao Pó
Notas iniciais
“Segunda-Feira... Odeio esse dia, assim como odeio tudo o que acontece nele. Odeio Segunda-feira assim como odeio Scott Vitorino. Quem ele é? Eu queria saber, mas sinceramente... Tudo que eu pensei ter encontrado, nada me pareceu plausível. Ninguém sabe quem ele é, e ele não é tão interessado em nos dizer. Odeio ele, mas não é um tipo de ódio comum, isso é irritante. Não o vejo já tem uma semana... Penso que quando o ver irei querer ignora-lo, ou talvez até mesmo xinga-lo de todos os nomes possíveis, mas lá no fundo, sei que não conseguirei fazer nada disso... Esse é o meu ódio... Não conseguir odiá-lo.
Não que eu esteja preocupada com ele... Mas a última vez que eu o vi, foi horas antes do enterro. O último dia em que o vi, foi o dia em que ele atravessou a ponte de pedra para deixar aquela cascavel... Foi quando ele me deixou perto do dormitório e eu senti que algo estava errado.
Mas o que é isso? Vamos lá novamente, não deveria estar falando dele. Odeio o fato de que um dia irei ver o seu nome várias vezes na página deste maldito diário. A questão é que... Coisas mais importantes andaram acontecendo. Coisas ruins... Alguns alunos desapareceram também. Simplesmente sumiram, como se nunca tivessem chegado a Refúgio Místico. A polícia local já foi chamada, mas eles pediram mais tempo para se certificarem de que realmente seria um assunto sério. Sei que Scott não é um desses desaparecidos porque outras pessoas o viram... Acontece que aquele ser ignorante está me evitando... E, eu ainda irei saber o porque.
Holly tem passado muito tempo comigo, mas sinto Juliet distante. Nos falamos, mas não é como antes. Acredito que ela esteja zangada comigo. Não irei culpa-la... Falei que não queria nada com Scott, e, se tudo der certo ainda não sinto nada por ele... Nem irei sentir, mas acontece que acabei passando mais tempo com ele do que imaginei naqueles dois primeiros dias.
Bom, não irei mais falar desse assunto, semana que vem receberemos a nossa peça, e talvez até mesmo a lista de personagens. O que quer dizer que essa semana será puxada... É onde temos que dar o nosso melhor nas aulas para conseguirmos um papel bom e uma nota agradável. Vamos ser analisados completamente.
— Jennifer Green.”
6:00 da Manhã do mesmo dia
Scott se encontrava sentado em um elegante sofá vermelho de três lugares. Uma taça estava entre seus dedos da mão direita. Ele balançava a taça assistindo o Whisky ir de um lado ao outro. Era a sua segunda dose naquela manhã. Ah, antes que eu me esqueça, ele não estava em seu dormitório. Os alunos eram bem acomodados nos dormitórios da Universidade Local, porém eles não tinham a proeza de receber um sofá daqueles, e, para ser mais exata, não era permitido álcool ali dentro. A não ser, é claro, nas festas.
Scott estava mais adentro da ilha... Depois da ponte de pedra. Onde se encontravam as casas dos moradores de Refúgio Místico. As casas da ilha eram espaçosas, com quintais e no caso de prédios, vastas varandas. Eram casas simples, sua maioria branca com telhados escuros. A que Scott se encontrava tinha um excelente jardim, Peônias, Violetas e Margaridas vinham de toda parte.
Ele estava sentado na sala da casa. As cortinas estavam fechadas impedindo que qualquer olhar curioso ou até mesmo a luz do dia chegassem até onde ele estava. A porta, tanto a da frente como a dos fundos, estava fechada com trancas.
No sofá, Scott se mantinha inclinado olhando para a taça. À sua frente uma pequena mesinha de centro talhada a madeira. Nela estava um telefone branco com marcas de sangue. Um cinzeiro revirado e seu cordão... Aquele que ele sempre carrega em seu pescoço.
Scott tinha os cabelos bagunçados. A pele pálida e a barba estava para fazer. Seus olhos estavam cansados. Ele estava cansado. Cansado.
Esticou a mão esquerda para pegar o cordão em cima da mesa. Seus olhos automaticamente voltaram a encarar o corpo ensanguentado ao lado da televisão... Bem a frente da mesa de centro. O homem que se encontrava morto agora estava com as mãos amarradas por uma corrente. Os braços cortados, cortes fundos que mais pareciam de navalhas. Os olhos do homem permaneceram abertos. Olhos azuis que agora não tinham mais graça.
A expressão no rosto de Scott não mudou. Ele finalmente pegou o cordão e o apertou em sua mão levando-o junto de seus lábios, daí uniu as sobrancelhas e permaneceu em seu silêncio. Sua semana tinha sido assim... Repleta do silêncio. Repleta de mortes. Ele queria dormir... Talvez para sempre... Tinha algo dentro dele dizendo para ele parar, mas isso era impossível já que todo o seu corpo se permitia a lutar... A lutar aquela maldita batalha da qual ele ainda não conhecia por inteiro.
Scott soltou um suspiro pesado ao ver que agora seu pai permanecia encostado na parede de braços cruzados, o observando como sempre fazia. Sério e nada impressionado.
— Fez um bom trabalho com o Sr Wakefield. — William falou olhando para o corpo sem vida ao seu lado.
Scott tomou mais um gole de Whisky enquanto seu pai falava.
— A nossa lista está diminuindo. O que não significa que falte poucas pessoas... Essa ilha é repleta de vermes.
— Não acha que eu deveria voltar para as aulas da faculdade? — A voz de Scott soou mais rouca do que de costume. Baixa, fria.
William ergueu as sobrancelhas balançando a cabeça para o lado.
— Tem razão. — Ele se desencostou da parede e parou de frente para a mesa de centro, encarando Scott com as mãos no bolso. — Mas que fique muito claro criança...
Scott fechou os olhos com força enquanto a bebida descia queimando sua garganta.
— Não quero que você crie nenhum laço sentimental, e quando falo isso me refiro a Jennifer Green.
Scott balançou a taça mais rápido. O resto de Whisky ameaçou entornar.
— Espero mesmo que esteja me ouvindo — William rosnou — Não sabemos quem exatamente ela é... Talvez não seja nada... Talvez você possa deixa-la viva...
— Talvez — Scott resmungou.
— Se você ousar a fazer isso novamente... Saiba que se for preciso, eu arrumarei um jeito para interferir... E você sabe como isso acabou não é mesmo?
Scott quebrou a taça em sua mão. Quando o vidro cortou sua pele ele não o soltou. Ele continuou com o punho fechado... Encarava o chão, e neste momento um devaneio lhe perseguia.
2007 – Londres
Era uma manhã nublada em Londres. Scott morava apenas com seu pai em um apartamento renomado no bairro mais caro... Chelsea. Em seus plenos 14 anos, Scott era descrito como um menino inteligente e parcial, porém com alguns possíveis problemas familiares. O nosso Vitorino não era tão diferente de agora em sua aparência. Tinha seus cabelos escuros e lisos muito bem penteados. Os olhos escuros e charmosos e um sorriso que poderia significar muitas coisas. Era a figura perfeita de um socialite.
Naquela manhã, quando se preparava para sair em direção à escola Scott viu seu pai aparecer repentinamente em sua frente... Um exemplo? Bom, eu digo que este 'aparecer' se refere a surgir... Se imagine andando por um campo vazio e dois segundos depois se esbarrando com um borrão negro e alto... Bom, era William em seu típico terno risca de giz.
— Não quero que se atrase para o colégio meu jovem. — Ele disse com as mãos no bolso — Mas queria me desculpar pelo que tenho feito você passar esses últimos dias.
Ah, talvez um rapaz de 14 anos diria outra coisa... Mas Scott era uma criança inocente que pensava que viver era prioridade, porém, ele não respondeu seu pai naquele momento. O menino abaixou a cabeça sem ter a coragem de olha-lo nos olhos e se pôs a brincar com seus dedos, esperando.
— Eu já lhe expliquei tudo sobre o nosso poder — William continuou — Te contei sobre a origem do nosso nome. Talvez eu tenha apressado as coisas quando o fiz passar por aquelas coisas... Mas, acho que agora você está pronto para se tornar o homem que é. Quero te testar, filho.
— O que quer dizer com isso pai?
— Sua professora me disse que você tem facilidade para fazer amigos. Ela me disse que você se preocupa muito com as pessoas e me disse até mesmo que... — William fez uma careta — Que já lhe viu chorar pela morte de sua mãe.
Scott se desesperou naquele momento. Talvez o seu pai estivesse pronto para lhe dar mais uma penitência... E ele sabia que a penitência não era uma oração. Uma penitência era uma tortura. Ele sabia muito bem disso... Aos 10 anos ganhara uma cicatriz perto do pescoço... O que fora isso? Fora uma facão afiado que William fizera sair voando sozinho em direção ao seu filho. Uma faca que se tivesse ido um centímetro mais a cima ou mais fundo teria matado o pequeno Scott, atingindo sua veia jugular.
— Eu não faço mais isso pai — Scott se apressou em dizer — Isso era antes... Eu juro!
— Pare de implorar! — William gritou — Parece um tolo.
— Desculpe.
William soltou um suspiro pesado. Passou o peso de seu corpo de um pé para o outro.
— Como eu disse... Quero fazer um teste com você. Traga seus amigos da escola para o jantar esta noite. Se você passar no teste, eu lhe garanto, tudo ficará bem.
— E o que eu devo fazer para passar no teste?
— Leve em conta tudo que já lhe ensinei... E, acima de tudo... Lembre-se que é um Vitorino.
Após dito isto, William atravessou a sala em passos largos e saiu de seu apartamento. Naquele momento Scott podia sentir um pavor inusitado no ar. Mas ele não poderia fugir... Seria doloroso.
Naquele mesmo dia ás 20:30 Scott tornou a entrar em seu apartamento junto de seus amigos... Jason, Amanda e Rick. Todos sentados à mesa de jantar de oito lugares eles jantavam em silêncio. Até que...
— Então crianças? — William começou a falar ao lado de Scott — Já ouviram falar de Ilusionismo?
Os três olharam William, porém, o primeiro a responder fora Jason... Jason era um garoto um tanto rebelde e desbocado ao contrário de Rick e Amanda que vinham de uma classe social muito diferente.
— Ah, sei o que é... Fala de mágica, não é?
— Sim. Pode ser... — William estreitou os olhos.
— É, acho bem interessante esses truques. Bem bacana.
Scott permaneceu calado, tentando sentir fome, tentando não se desesperar. Mas como? A conversa estava indo numa direção muito sombria.
— Vocês passam muito tempo juntos não é mesmo?
— Sim — Amanda respondeu — Scott vive impedindo nossas brigas... Acredite, elas são constantes, já deve saber o porque. — A garota encarou Jason desdenhosa.
— Separando brigas, não é? — William lançou um olhar pesado para Scott que fingiu não notar.
— Não é culpa minha se a senhorita Allen e o Senhor Brown são dois palermas. — Jason se defendeu de Amanda.
— Palermas? — Rick indagou — Nem deve saber o significado disso... Ou será que aprendeu com algum morador de rua? Ah, não... Espera, foi com um presidiário, não é mesmo?
Jason riu forçadamente e logo em seguida fechou a cara para Rick e voltou a comer.
— Voltando ao assunto da mágica. — William falou um pouco mais alto — Acredito que Scott já tenha mostrado alguns dos truques dele.
— De fato — Falou Rick — Acho bem interessante até.
— É, bem mais elegante do que o vocabulário de certa pessoa. — Amanda continuou contra Jason.
— Não ligo para garotas mimadas — Jason falou de boca cheia — Mas se quer saber senhor, os truques dele são irados!
— Quais ele já mostrou?
Scott se encolheu em sua cadeira enquanto seus amigos paravam para pensar.
— Teve aquela com a moeda... — Disse Amanda.
— Sabia que ia falar dessa... Só pensa em dinheiro.
— Cala a boca White! — Rick pediu irritado — Era bem interessante ver várias moedas aparecendo do nada.
— Ah, por favor — Jason pediu — A melhor com certeza foi aquela com as cartas... Ninguém consegue montar um castelos de cartas debaixo daquele ventilador monstruosos, só ele.
William olhou para Scott por um tempo, estava visivelmente irritado.
— Mas a pergunta é... Vocês gostam? O que acham disso?
Jason deu de ombros.
— É bem legal pra passar o tempo... Mas um dia eu ainda vou descobrir qual o macete dele.
Amanda revirou os olhos.
— É, as vezes eu quase acredito que é verdade... Se mágica não fosse uma coisa tão... Como posso dizer? — Rick parou para pensar.
— Fantasiada? — Sugeriu Amanda.
— Isso! Obrigado.
— Então não acreditam?
Os três meninos encararam William céticos.
— É... não.
Scott quase pode ver um sorriso no rosto de seu pai depois desta resposta. Mas como já deixei claro, um sorriso de um Vitorino pode significar muitas coisas, mas não se precipite, na maioria das vezes quer significar algo ruim.
— Então acham que é tudo uma farsa? — William perguntou — Vamos lá Scott, mostre a eles um truque de verdade... Os faça acreditar.
Ah, Scott sabia o que seu pai queria dizer com o “ Os faça acreditar”. Afinal, seu pai falou que o faria acreditar em mágica segundos antes de olhar para uma faca e lançar ela em sua direção. Seu pai queria que Scott machucasse seus amigos. Scott já havia passado por isso, e ele não queria que outra pessoa tivesse o azar de passar por tal coisa também.
— Estou cansado, pai — O menino finalmente falou — Talvez outro dia.
William balançou a cabeça negando. Em seguida se levantou e com um gesto rápido puxou a toalha da mesa sem derrubar nenhum prato, nenhum talher ou nenhuma taça que estava ali em cima. Os amigos de Scott se espantaram e olharam calados. William deu uma volta segurando a toalha de mesa vermelha.
— Deixe que eu mostre então.
William pôs a toalha em volta de seus braços, cobrindo-os. Os amigos de Scott riam animados em suas cadeiras.
— Vamos lá, quem será meu ajudante?
Os três se entreolharam e então o menino loiro, Rick, levantou-se de sua cadeira e foi na direção de William. Ele segurava o riso para parecer educado.
— Tudo o que eu quero — William falou calmo — É que você tire a toalha de meus braços.
Rick a principio riu da proposta, mas foi lá e puxou a toalha. Não foi nada difícil, nada de extraordinário aconteceu... Ele e até mesmo Jason e Amanda esperavam ver algo surgir debaixo da toalha, mas apenas viram as mãos vazias de William.
— É, sem querer ofender, mas... — Rick tentou falar.
— Consegue se livrar da toalha em suas mãos? — William perguntou.
Rick riu se preparando para jogar a toalha na mesa, mas algo deu errado. Ela não saia de suas mãos... Como se estivesse colada... Cada parte que ele encostou em sua pele simplesmente não se soltava. Rick tentou mais algumas vezes, encarou os amigos e depois William.
— Como fez isso? Isso é algum tipo de cola?
— Não seja tolo... Até a pouco tempo você estava jantando à mesa. Coloquei ela em meus braços e ela saiu quando você puxou. Claro que não tem cola.
— Ãhn, certo... Acho que já pode me dizer como me livro disso. — Pediu Rick.
— É só passar a tolha para outra pessoa.
Rick olhou para Jason ao seu lado, mas o menino permaneceu indiferente.
— Você pensa que eu vou te ajudar? Tá brincando né? — Jason riu — Eu to adorando ver você de mãos atadas... Literalmente falando.
Amanda se levantou da cadeira e foi até Rick. Ela puxou a toalha, mas ela ainda permanecia presa aos braços do garoto.
— Porque não ficou presa nela? — Rick perguntou enquanto Amanda ainda puxava a toalha.
Ah, toda criança tem medo de alguma palavra de seus pais, de um gesto talvez. Mas no caso de Scott, ele sabia muito bem que estava encrencado quando seu pai ria. Ah, e naquela hora, William gargalhou.
— A tolha não se separa de pessoas descrentes, sinto muito...
— Descrentes? — Rick fez careta. — Eu não sou descrente, sou católico e vou à missa to...
— Não me refiro a Deus criança tola. Estou falando sobre sua descrença no místico. Disse que não acredita em mágica. .
— Tá legal... Você é muito engraçado. Mas agora pode parar de brincadeira e me soltar.
— Ainda acha que isso é um truque? Uma farsa? — William balançou a cabeça e retirou do bolso de seu terno um esqueiro. Ele colocou fogo na toalha presa nas mãos do menino.
Naquela hora, até mesmo Jason White que não gostava de Rick se levantou e entrou em desespero tentando tirar a toalha dos braços dele. A toalha ia queimando e o desespero crescendo, porém, chegou uma hora em que ela apenas se dissolveu em cinzas... Os meninos agora podiam ver as mãos de Rick, sem uma queimadura, sequer vermelha.
William que todo esse tempo manteve a mão esquerda fechada em punho começou a puxar de lá um pano vermelho... Não, não era um pano, era uma toalha, exatamente igual a que acabara de queimar e virar pó.
Os meninos ficaram de boca aberta.
— Como você fez isso? — Jason perguntou — Eram duas toalhas de mesa esse tempo todo?
William deu de ombros... E naquele momento, Scott viu a pior coisa acontecer.
Seu pai jogou a toalha em cima de Jason, o cobrindo por inteiro, pôs a mãos esquerda no topo de sua cabeça coberta e com a outra acendeu o esqueiro e novamente pôs fogo na toalha. Só que desta vez... A toalha virou cinzas... Enquanto Rick e Amanda esperavam ver Jason após a toalha se desfazer, na verdade eles viram o monte de nada... As cinzas caíram ao chão. Era como se Jason nunca tivesse ficado embaixo da toalha.
— Nossa! — Amanda exclamou — Quer dizer... A-aonde está o Jason?
Rick esperou a resposta apreensivo de William bem ao lado de Amanda.
William deu um risinho baixo e olhou fixamente para os dois jovens à sua frente.
— No inferno!
Percebendo a cena terrorista Rick pegou o braço de Amanda e correu come la até a porta de saída.
Trancada.
— Vamos Scott! — William gritou para o filho vendo as crianças tentarem fugir inutilmente — Me mostre que aprendeu! Me mostre que é um homem de verdade!
Scott estava nervoso, tremendo e lutava para não começar a chorar ali mesmo.
— Não acredito que você é meu filho — William revoltou-se — Não vai ser ninguém na vida se continuar sendo fraco desse jeito!
William em seguida sussurrou palavras estranhas e no mesmo instante Rick e Amanda foram jogados contra a parede.
— Não podem se mexer... Acabe com eles! Eles duvidam da sua mágica! Duvidam da sua natureza e de todo o seu poder! Vai deixar que vermes como estes sejam mais fortes do que você? Me mostre o seu maldito poder Scott!
Scott passou a mão pelos cabelos e levantou com as pernas trêmulas... Era preciso muita coragem para dizer aquilo:
— Não! Solta eles!
— Se eu os soltar tentarão fugir... Chamar a polícia ou até mesmo me matar... O que você prefere? Prefere esses que você diz ser seus amigos ou prefere seu pai, sua única família? Esqueceu de sua mãe?
— Eu tenho certeza de que minha mãe não era assim — A voz de Scott já era fraca.
— Sua mãe queria que você fosse grande! Queria e também tinha orgulho de você, pequeno vencedor, dizia ela. — William olhou Scott — Acha que ela teria orgulho de um covarde inútil e sentimental como você?
— Chega!
— Faça! Faça o que está em seu sangue! Seja o meu maldito filho e me orgulhe!
— Orgulho? Você nunca teve orgulho de mim!
— Se você fizer isto, talvez as coisas mudem. — Seu pai insistiu — Lembre-se Scott que sempre foi eu quem fez todas as suas vontades, sempre foi eu quem nunca te abandonou por mais tolo que você fosse... E agora? Vai me abandonar? Vai abandonar seu próprio pai, sua única família por pessoas que conhece a apenas um ano. Pessoas que duvidam de seu dom e de sua capacidade? Essas pessoas um dia irão virar as costas para você... E daí elas irão te jogar do topo ao chão... Só para serem melhores que você. Daí você ficará sozinho, sem ninguém... É isso o que realmente quer?
Scott não aguentou mais, as lágrimas desciam de seus olhos em disparada... Ele deu alguns passos a sua frente e parou ao lado de seu pai... Estendeu a mão para os amigos... Ele tremia apavorado.
— Não garoto. — William o impediu — Quero que você use o mesmo truque de levitação que usei ao fazer esta cicatriz em você.
Scott respirou fundo e ainda com todo o pavor ele virou-se para a mesa ao seu lado e fez os talheres, garfos e facas levitarem pela sala apenas com um movimento de mãos. Ele mexeu só dedos e fez com que os garfos ficassem apontados para seus amigos paralisados na parede o encarando amedrontados. Suplicando com os olhos chorosos por piedade.
Mas num gesto de mãos Scott fez os talheres correrem numa velocidade incrível até Rick e Amanda.
E o sangue surgiu.
O sangue de pequenos cortes nos braços de Amanda e o sangue em pequenos arranhões no rosto de Rick. Scott no último momento fez com que os talheres virassem em outra direção.
— I-isso é o suficiente. — Scott abaixou a mão.
— Você é um fraco inútil! — William rosnou — Não merece ser meu filho. Eu faço tudo por você e você muito mal me agradece. Prefere seus amigos? Espero que saiba que sua mãe apostou em você, mas pelo visto... Você não aposta nela e nem em mim.
— Não pai, eu só...
— Eu vou limpar esta bagunça... Mais uma vez Scott, eu é que tomarei conta de seus erros e provarei da sua ingratidão.
Seu pai soltou Rick e Amanda. Agora que eles podiam se mover novamente eles começaram a chama-los de monstros psicóticos. Rick pegou o celular do bolso e ameaçou chamar a polícia.
William deu as costas para os dois sem ter medo de suas ameaças ou ataques. Olhou Scott.
— Está vendo? Para eles o seu dom é uma monstruosidade, mesmo tendo poupado suas vidas. Isso me deixa triste, Scott. Esses 14 anos me preocupei em cuidar de você sozinho, te dar tudo o que podia, apostar todo o meu ser em você, e você? Você fracassa perante a mim e minhas apostas... — William suspirou — Somos diferentes e melhores do que as outras pessoas. Não precisamos fingir o contrário. Não sinta pena deles, não tenha medo deles, jamais se curve a eles! Sentimentos deixam as pessoas fracas e frágeis... Você não precisa de amigos para ter tudo o que quer... Não precisa de ninguém. Não existe pessoa boa ou ruim. Existem pessoas espertas e pessoas tolas, espero mesmo que um dia deixe de ser o tolo e orgulhe a mim e a sua mãe.
Scott chorava enquanto tentava manter seu olhar firme para o pai.
William o abraçou.
Scott estava com medo e confuso, mas ele amava seu pai, amava muito. Amava ele mesmo vendo o quão duro ele era... Na verdade. Para Scott... Esse era forma que seu pai encontrara de o proteger do mundo.
— Eu te amo meu filho, você é minha família, e a família é a única coisa pela qual vale a pena ter sentimentos.
William se soltou de Scott e puxou uma corrente prateada do bolso de sua calça... A corrente vinha acompanhada de uma medalha brilhante e bem detalhada... Era redonda e atraente. No centro dela estava a letra V de Vitorino. William colocou a corrente no pescoço do filho e então ele perguntou:
— E então meu filho... Quer ser a pessoa tola ou a esperta?
Scott que sentiu seu pescoço gelar com a presença da corrente... Trêmulo e duvidoso ele respondeu baixo e triste:
— A pessoa esperta, pai.
William sorriu e voltou a olhar para Rick e Amanda.
— Então sabe o que tem que fazer...
Scott ergueu a mão novamente para seus amigos. Os dois se ergueram no ar quase batendo no teto. Eles gritavam, mas isso não impediu Scott dessa vez. Seus gritos de piedade foram literalmente enforcados pelas suas próprias roupas que com a mão direita Scott fazia com que servissem de forca, apertando cada vez mais os seus pescoços. Os dois se debatiam no ar... Até então entrarem numa paz infinita... A tão esperada morte. Os olhos se fecharam e os corpos caíram ao chão.
— Acho que progredimos esta noite, criança. — William sorriu. — Vá dormir enquanto eu limpo esta bagunça.
Antes de se virar para ir para o quarto Scott pode ver seu pai jogar mais um pano em chamas sobre os corpos no chão que em seguida desapareceram entre as cinzas.
2013 – Refúgio Místico
Após estes seis anos tentando esquecer, Scott se viu olhando o passado novamente. Agora com seus 20 anos, como ele havia mudado.
Scott afrouxou a mão e deixou que os cacos de vidro caíssem ao chão... Pelo menos os que haviam sobrado da taça. Sua mão sangrava, mas ele não deu importância para isso.
Seu pai se moveu e sentou ao lado do filho.
— É como eu falei... Eu sempre estarei do seu lado, garoto. — William riu.
Scott soltou um suspirou pesado e se levantou do sofá... Saindo da casa, apenas fingindo que nada havia acontecido... Como ele fizera todos esses anos.
Enquanto andava pela estrada a caminho da universidade, às suas costas a casa da qual ele acabara de sair explodira. Ele ignorou e seguiu seu caminho enquanto pessoas começavam a se formar envolta do local.
Notas finais
Até a próxima então!
XOXO
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