True Friends

3 Capítulo 3


Angie e Marty andavam em direção a esquina onde iriam se separar, cada um para sua casa, silenciosamente. Estava claro que aquela visita havia mexido com o garoto, e ele tentava transparecer isso o mínimo possível. Mas ainda sim era bem notável para a morena. Os dois chegaram na esquina, e se viraram de frente um pro outro.

— Não esqueça de fazer o dever de casa de química – Disse o loiro, com um vestígio de sorriso nos lábios – Vale um notão.

Ao notar isso, a garota sorriu e assentiu. Logo o abraçando amigavelmente.

— Até amanhã – Disse, se separando e andado em direção a sua casa. O outro fez a mesma coisa.

A menina pegou o celular no bolso para ver a hora: 17:58

O vento pegou-a de surpresa quando colocava o objeto no bolso novamente. Junho estava chegando junto o inverno, teria que tirar os casacos do fundo do armário, pensou sorrindo. Sem dúvida o inverno era uma ótima estação. Claro que adorava todas, mas o inverno era um pouquinho melhor que as outras, sem ofensas.

Enquanto andava, sentia sua (fiel) bolsa tiracolo marrom bater em seu quadril. Ficara a tarde inteira fora e seus pais nem ligaram, nem mandaram mensagem. Não que seja ruim, pelo contrário. A mãe nunca fora superprotetora demais, mas em compensação, seu pai sempre ficou no seu pé. Nunca conseguiram se dar bem, como pai e filha. Sempre tinha um motivo para o homem reclamar da filha. Notas, roupas, companhia...

Mais meio quarteirão e chegaria em casa. Já se passara 20 minutos desde que se despediram. Chegou na frente do portão, o abrindo, logo entrando e o fechando novamente. Entrou pela porta da sala.

— Cheguei. – Disse, alto, para seus pais ouvirem. Angie viu sua mãe sair da cozinha com um avental escrito “Festival da Picanha – 2010” que já estava sujo de comida e outras coisas nada higiênicas.

— Ah, oi, filha. – Disse sorrindo. – Seu pai saiu com os amigos dele, vamos jantar sozinhas hoje. – A avisou, mostrando uma colher suja de massa de panqueca.

Um sorriso quase se formou no rosto de Angie. Ela nunca gostou dos amigos de seu pai, Eles sempre achavam que ela era a empregada quando vinham aqui em casa, e ele entrava junto na deles. E Angie odeia machismo. Ela subiu a escada de dois degraus para a sala de jantar.

— Se precisar de alguma coisa, mãe, é só chamar. – Andava, enquanto tirava a bolsa de seu pescoço. – Vou estar em meu quarto. – Terminou, entrando pela porta, a fechando em seguida. Teria de começar a fazer o bendito dever de química. Tirou o caderno e o livro da mochila, junto com o estojo rosa de tactel que usa desde a quinta série. Sempre que ela vê o objeto, lembra o quanto odeia rosa.

Depois de 10 minutos, estava na segunda questão quando ouviu um estrondo na cozinha. Saiu correndo imediatamente em direção ao barulho, depois de quase cair da cadeira de susto.

Chegando na cozinha, viu sua mãe caída no chão. A frigideira estava com a massa mole fritando, que acabou derramando um pouco. A primeira reação da garota foi apagar o fogo e afastar a panela quente de sua mãe. Respirava descompassadamente, tentando se acalmar, enquanto colocava a cabeça da deitada suavemente sobre um tapete dobrado a cozinha. Após isso, levantou e foi em direção ao telefone. Podia sentir sua garganta fechar, o que sinalizava que estava chorando. Pegou o aparelho e ligou para o primeiro número que veio na mente:

Marty.

Enquanto escutava chamar, pensou que ele nunca atenderia, até ela ouvir um “Alô” masculino. Foi o garoto que atendeu.

— ... M-minha mãe está desmaiada. – Falou com dificuldade. Sentiu suas bochechas molhadas. – Ela... está desmaiada aqui no chão. – Sua voz estava trêmula. — ... Me ajuda...- No fim da frase, sua voz quase nem saiu.

— Estou indo. – Disse Marty, antes de desligar o telefone.

Após isso, Angie se viu de joelhos do lado da cabeça deitada da mãe. Fez com que suas coxas fossem travesseiros e tentou acordá-la. Sem chacoalhá-la, claro. Tinha o mínimo do básico de conhecimento em “primeiros socorros quando alguém desmaia”. Notou que seu peito subia e abaixava suavemente, indicando que estava respirando. Estava se segurando para não chorar – sentia que se chorasse perderia todas suas forças. Mas, mesmo assim, algumas gotas de água salgada não queriam parar de sair. Ela até viu que uma gota pingou na testa da outra. Logo passou o dedo para, de alguma forma, “secar” o rosto da deitada.

Os cabelos de sua mãe estavam espalhados pelo chão da cozinha, e amaciavam as coxas da garota, macios e castanhos, como os dela.

Depois de alguns minutos de desespero, a morena ouviu a voz de Marty no portão.

Está aberto, gritou com a voz trêmula e sem forças.

Ela ouviu o portão ser aberto e fechado em seguida. O garoto entrou pela porta da cozinha, ofegante, como se tivesse participado de uma maratona, quando viu as duas no chão, foi rapidamente em direção a elas.

Temos que levá-la para o sofá, disse, pegando rapidamente as pernas da mulher, sem desrespeitá-la.

Angie assentiu com a cabeça, pegando sua mãe pelas axilas e levantando-a. Algo que foi bem difícil, já que seus joelhos pareciam gelatina.

O garoto disse palavras para acalmar a amiga enquanto levavam a desmaiada para a sala. Vai ficar tudo bem, dizia ele.

A menina assentia continuamente, como se quisesse acreditar naquilo.

Os dois rapidamente colocaram a mulher no sofá, e a arrumaram, colocando os braços na barriga e a arrumando, para não deixa-la numa posição desconfortável.

A garota, após deitar sua mãe no sofá, sentou-se no outro estofado que ficava ao lado. O menino se sentou ao seu lado.

— Acho que foi sua pressão que baixou. – Deduziu, tentando acalmá-la.

— Tem certeza? – Perguntou a garota, com as bochechas vermelhas.

Assentiu com a cabeça.

Angie recebeu aquele aceno como uma permissão para fraquejar. Soltou um suspiro cheio de soluços quando deixou suas lágrimas rolarem pelas vermelhas maçãs de rosto. Marty colocou seu braço ao redor dela, acariciando seu braço, mostrando que estava ali, como ela fizera alguns momentos atrás no cemitério.