True Friends
2 Capítulo 2
Os dois degustaram seus sorvetes alegremente. Depois que acabaram, deixaram seus potinhos de lado e conversaram sobre coisas variadas. Era domingo e a sorveteria estava com algumas pessoas dentro dela, os dois estavam numa mesinha do lado de fora.
— Estou triste – Angie disse de repente, com a cabeça escorada na mão.
— Por que? – Perguntou Marty, curioso com a tristeza repentina da garota.
— Amanhã é segunda.
—... E?
— Temos aula. Acordar cedo. Ugh.
— Você fala isso agora, mas um mês atrás queria que as aulas voltassem.
— Nem me lembre disso – Ela colocou o rosto na mesa. – Quero voltar no tempo! – Disse, com a mesa abafando o som de sua boca.
— Se você sente saudade da escola no período de 1 mês, imagina quando terminar o ensino médio.
— Ah... Vai ser tão tão triste não ter que acordar cedo e poder estudar de noite... – Respondeu ao garoto com ironia. – E você está parecendo um velho. – Disse, voltando a se sentar normal.
O loiro, em resposta, deu de ombros. Logo se levantou.
— Podemos passar no mercado? Tenho que comprar pão. – Disse, pegando seu pote e o da outra, jogando os dois no lixo.
— Claro – Respondeu a garota, se levantando e começando a caminhar ao lado do menino.
Foi uma caminhada silenciosa. Para ir ao destino que queriam, tiveram que ir pela avenida mais movimentada da cidade. E como era um domingo, estava mais movimentada que o normal. Havia vendedores de filtro de sonhos e coisas assim, um mendigo e pessoas tocando algum instrumento (de violão até teclado) por algum dinheiro.
— Essas pessoas podiam formar uma banda de rua, ganhariam algo mais, não? – Observou Angie.
— Acho que não fazem isso porque tocam estilos diferentes de música. Se formassem uma banda, logo após o sucesso, essa banda iria se desfazer. – Respondeu Marty, realista.
— Mas elas fariam sucesso. E ganhariam dinheiro...
— ...E decepcionariam os fãs. Tem uns que são bem intensos, que se mutilam e tudo.
— Meu Deus! Você é tão medonho e.... medonho! – Disse, fingindo ter um arrepio.
— Não tenho culpa se essa é a realidade. – Respondeu, com um sorriso quase vitorioso, como se quisesse que ela se sentisse assim.
A menina foi na frente dele e começou a andar de costas, para continuarem se locomovendo.
— Mas temos que fugir da realidade de vez em quando! Férias! Se não você fica ó – Ela rodou o dedo indicador do lado da cabeça – louquinho de pedra!
Logo após esse praticamente discurso, a morena voltou ao lado do outro, andando.
O silêncio preencheu a barulhenta avenida. Um apenas curtia a presença um do outro, como se fosse algo calmante mas necessário. Talvez essa fosse as “férias” de ambos.
De repente, os dois foram surpreendidos por uma pessoa que estava estendendo algo para eles.
Uma rosa.
— Para o casal apaixonado! – Disse o homem. Podiam chutar que tinha 30 e poucos anos, cabelos castanhos, curtos demais para serem longos, compridos demais para serem curtos. Olhos felizes e verdes, linhas de expressão nos olhos, o que significava que ele sorria bastante.
Em resposta, o menino e a menina arregalaram os quatro olhinhos. Dois pretos e dois castanhos, respectivamente.
— Não, nós... – Começou o garoto, com as orelhas coradas.
— Não somos um casal. Somos só amigos. Mas obrigada pela rosa. – Terminou a garota, pegando a rosa, grata. Não sabia se o rubor de suas bochechas era por vergonha ou se sua pele era assim mesmo.
O homem demonstrou uma leve decepção involuntariamente, mas logo sorriu e saiu, indo dar outra rosa para outra pessoa.
Marty estava pronto para perguntar o por quê ela pegou a rosa, mas quando ele notou seu olhar quando guardou a rosa cuidadosamente na sua bolsa de lado, já sabia. E estava grato por isso.
Enfim, continuaram a andar calmamente em direção ao mercado. Viraram uma esquina e agora podiam ver o céu já sem sol. Tinha uma mistura de azul com amarelo, laranja e branco das nuvens que era bonito. Angie teve de vestir o casaco que estava amarrado na cintura por causa do vento que apareceu de repente, bagunçando seus cabelos.
Depois daquele acontecimento, não falaram mais nada. Só chegaram no mercado, pegaram o pão, Marty pagou, colocou numa sacola e foram para seu não planejado segundo destino
*
Quando chegaram, Marty começou a caminhar ligeiramente mais rápido que Angie. Ela, que ficava atenta em cada túmulo para ler cada nome, como sempre fez cada vez que vai para o cemitério. Ele não: foi diretamente para o túmulo que sempre o inundava de tristeza.
Quando a menina notou, o loiro já estava na frente do túmulo. Mãos no bolso, pernas levemente abertas, cabeça levemente cabisbaixa. Ela deu uma corridinha até ele.
“Maria Alvez dos Santos” era o que estava escrito. Mãe de Marty.
Nascimento: 23 de novembro de 1973
Falecimento: 9 de outubro de 2004
Causa da morte: Câncer de mama
Angie fitou a foto que usaram dela. Estava sorridente, tinha quase certeza de que Maria não sabia que essa seria a foto que usariam em seu túmulo quando a tirou. Na foto estava bem mais nova do que quando se foi, seus olhos irradiavam jovialidade e planos para o futuro, típico de pessoas de 20 e poucos anos, com a vida toda pela frente. A dela não era tão grande assim, infelizmente.
Ela tirou a rosa com o mesmo cuidado com que colocou da bolsa e pousou suavemente em baixo da foto de Maria. O botão da rosa tapou a data que mostrava que ela faleceu. Logo após, a garota voltou ao lado do amigo, com as mãos juntas na frente do corpo em sinal de respeito.
Não conhecia ele quando ela se foi, pensou. “Eu gostaria de ter te conhecido, senhora. Tenho certeza de que foi uma ótima mãe.”
“Também gostaria de ter o consolado” pensou, secretamente.
A seguir, a morena passou o braço pelo dele, dando-o um abraço reconfortante.
Depois de alguns minutos de silêncio, Marty apenas se virou de costas pro túmulo e começou a andar.
— Vamos, está ficando escuro.
Em resposta, Angie assentiu e começou a andar, ao seu lado.
E a rosa ficou tapando a data da foto, como se ela nem tivesse partido, mas a cruz continuava à mostra.
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