Trouble
9 Capítulo #8: Dezembro de 2009 - II
Fui até o banheiro e quando voltei me deparei com Maria e Marcos sentados no sofá da sala. Pareciam entediados. Fiquei parada olhando-os durante alguns minutos.
— O que foi? Nunca me viu? — Maria disse alto, quase um grito. — Não esperava você aqui a essa hora. — Disse calmamente. — Eu sou imprevisível. — Ela sorriu. — Como está nossa prisioneira? Espero que bem. Precisamos que ela grave um pequeno vídeo para seu papai. — Maria começou a andar na direção da porta do quarto. Ela pareceu se espantar quando me pus em sua frente, impedindo-a de continuar. — O que está fazendo? — Ela acabou de dormir. — Observei Maria que ainda continuava com a mesma expressão no rosto. — Deixe-a dormir, Maria. — Sabe que Marcos pode te tirar dai a força, não sabe? — Os dedos de Maria deslizaram pelo meu rosto até meus cabelos, e então ela me surpreendeu puxando-o com força. — Então, não brinque comigo. Me deixa passar. — Não. — Disse. Maria soltou meu cabelo, mas habilmente Maria segurou em meu pescoço, deixando pouco ar chegar até meus pulmões. — Está brincando comigo? — Ela pausou. — O que quer que eu faça com você? — Mate-me. — Disse com dificuldade. Maria sorriu e me soltou. Levei uma das mãos até o pescoço e respirei fundo. Ela se afastou e se sentou novamente. Parecia ter desistido daquilo, por enquanto.O Sol estava todo no céu quando me dei conta de que Annabelle ainda não havia tomado café, mas eu não me atreveria a sair dali enquanto aquele dois não desistissem de fazer qualquer coisa com Annabelle.
— Ela não te que comer? — Maria perguntou. — Vocês não tem que ir? — Melissa! Por favor, nós só queremos que ela fale alguma coisa na frente da camera. — Maria ergueu uma câmera fotográfica e a balançou no ar. Suspirei e me afastei da porta. Maria sorriu, e correu na direção da porta puxando as chaves de minha mão, antes que eu mudasse de ideia. — Não vai ficar de fora. — Ela me puxou para perto de si, e quando abriu a porta senti Marcos me empurrar para dentro.Annabelle se assustou com toda aquela gente entrando em seu quarto. Ela provavelmente havia acabado de acordar. Estava sentada na cama espreguiçando todo seu corpo. Eu estava evitando olhar em seus olhos. Eu olhava Maria, ela estava sorrindo. Aquele sorriso era o mesmo que eu vi quando sofri um pequeno sequestro. Impossível de se esquecer.
— Bom dia, Annabelle. — Maria disse alguns segundos depois. Annabelle não a respondeu, apenas encolheu eu pequeno corpo na cama. — Não fique com medo, não iremos te machucar... se você cooperar. — O que vocês querem? — Eu ainda não conseguia olhar Annabelle, algo dentro de mim sabia o que Maria e Marcos queriam, e eu sabia que não ia poder fazer nada caso Annabelle resistisse. — Você vai gravar um vídeo para seu papai. — Maria disse calmamente se aproximando da cama. — Não vou! — Você vai. — Maria segurou no pulso da Annabelle puxando-a até a poltrona em minha frente. Seu rosto me mostrava o quanto a mão de Maria estava doendo em seu pulso. Quando Maria jogou Annabelle na poltrona, foi o primeiro momento em que olhei em seus olhos desde que entrei ali. Eu via desespero em seus olhos.Annabelle se recusou fortemente a gravar o tal vídeo desejado por Maria. Eu a vi levar puxões de cabelo, beslicões e algumas tapas em seu rosto, tudo aquilo era como se estivéssemos endo praticados contra mim, pois eu sentia as dores de Annabelle. Contudo não podia interferir, Marcos segurava minhas mãos atrás de meu corpo, suas mãos estavam frouxas, mas eu sabia que ele poderia intensificar sua força caso fosse preciso.
Depois de não poder mais ver aquilo, saí do quarto deixando a porta aberta.
Fui para a cozinha e apoiei meu corpo na pia, respirando fundo logo em seguida. Eu queria tirar Annabelle dali, salvá-la das mãos de Maria.
Não sei ao certo quanto tempo havia passado quando ouvi um grito de dor vindo do quarto.
Corri até lá e vi Maria segurando uma das mãos, e Annabelle sendo suspensa pelo pescoço nas horríveis mãos de Marcos.
— Solta ela! — Gritei para Marcos que me ignorou completamente. — Eu disse pra soltar ela. AGORA. — Chutei a canela de Marcos e vi quase que imediatamente, Annabelle cair no chão levando as mãos até o pescoço, e em seguida fui rapidamente erguida no ar e jogada contra a parede. Minha cabeça bateu fortemente na mesma.Quando estava jogada no chão senti algo escorrer em minha cabeça. Sangue.
— Que droga, Melissa! — Maria se aproximou de mim e mexeu em minha cabeça. — Porra, Marcos! Por que você fez isso? Agora vou ter que chamar um médico! Merda!Uma hora depois, a médica tinha ido embora, e eu tinha alguns pontos em minha cabeça.
— Agora que você está bem, vamos ao que me interessa. — Maria sorriu enquanto eu me levantava da cadeira. — Você vai entrar lá, e vai fazer aquela idiota gravar o vídeo para mim. — Ela entregou-me a câmera e me empurrou na direção do quarto.Entrei no quarto abrindo a porta lentamente. Annabelle ainda estava na poltrona na qual a deixamos. Ela levantou seu rosto e corre até mim e me abraçou rapidamente. Pude ouvir uma risada de Maria antes de fechar a porta.
— Você está bem? — Annabelle perguntou com o rosto escondido na curva de meu pescoço.— Vou ficar bem, Belle. — Sorri involuntariamente e caminhei ainda abraçada com ela até a cama. — Escuta, você pode me ajudar?
— — O que é? — Ela me soltou e nos sentamos na cama.
— Preciso que fale alguma coisa para seu pai, sabe? Algum sinal de vida. — Suspirei alto. Minha cabeça doía. — Qualquer coisa. Eu vou gravar, e... e mais nada, é só isso que você precisa fazer. — Mas eu não quero, Melissa. — Annabelle disse friamente enquanto cruzava os braços e bufava. — Eu também não quero. Mas se você não o fizer, nós duas vamos nos dar mal. — Olhei-a por alguns segundos. Como não obtive resposta, continuei. — Eu não quero que eles te façam mal, não quero que eles encostem um dedo em qualquer fio de cabelo castanho dessa sua linda cabeça... Poderia aguentar mil socos do Marcos, se isso for fizesse eles te deixarem em paz, Annabelle... — Bem... — Annabelle analisou meu rosto durante alguns segundos, se levantou e se jogou na poltrona. — Vamos logo com isso.Pus-me em frente a ela, e procurei com o olhar qualquer que pudesse me ajudar a poiar a câmera, afinal, eu estava tremendo.
Peguei uma cadeira que estava no canto e coloquei-a um pouco afastada de Annabelle. Ela estava seria e me olhava. Dentro de mim, eu sabia que ela estava fazendo de tudo para me agradar, com o intuito de me levar para a cama e com muita sorte, conseguir fugir dali. Ela não era boba.
Olhei e seus olhos e sorri lembrando de como era nossa relação no inicio. Quero dizer, eu mal gostava dela, e depois, num passe de mágicas, havíamos nos tornado amigas, e depois tínhamos uma pequena relação não-compromissada. E agora... Agora eu era sua sequestradora.
— Pode começar. — Disse com a voz um tanto embargada. Apertei o play e esperei Annabelle começar. — Papai... — Começou ela. — Eu... estou bem... — Ela pausou por alguns segundos. — Não se preocupe... Vai ficar tudo bem... Eu sei que vai... — Ela fixou seu olhar nos meus. Ficamos nos olhando durante alguns segundos. Eu não tinha coragem de desviar meus olhos dos dela. Ela ameaçou um sorriso, foi quando me dei conta, e desliguei a câmera rapidamente. — Obrigada, Annabelle. — Disse baixo, levantei meu corpo e sai dali. — Aleluia! — Maria disse alto. — Pensamos que estavam fazendo sexo. — Você já tem o que quer. Já pode ir embora. — Joguei a câmera em sua direção, e a mesma foi pega no ar. — Tudo bem... Tudo bem... Dos dois se levantaram. — Nós já vamos. Até outro dia. E não se squeça de assistir aos telejornais. — Maria riu alto e bateu a porta atrás de si.O resto da tarde foi normal... Se é que se pode chamar tudo isso de normal. Mas tudo correu bem. Não fiquei mais no mesmo quarto que Annabelle por mais que cinco minutos. Quando nossos olhares se encontravam, eu ficava presa em seus olhar... A ela.
Durante a noite, depois que levei o jantar para Annabelle, resolvi assistir um pouco de TV. Quando a imagem daquela TV um tanto antiga apareceu, me deparei com o vídeo de Annabelle. Estava passando em todos os canais, com exceção apenas dos canais fechados.
— Este vídeo chegou para todas as emissoras de TV hoje, no mesmo horário. — A mulher loira e pálida do telejornal disse quando o vídeo acabou. — É um grande mistério para todos, mas apesar de tudo, pode ser considerado um alivio para o Senador Michael saber que sua preciosa filha está viva. — Desliguei o aparelho e fiquei observando a TV desligada. Eu estava me metendo numa encrenca maior ainda a cada segundo que passava.Acordei com batidas na porta. Eu havia adormecido no sofá.
Levantei rapidamente e abri a porta. Margaret invadiu a casa rapidamente, e jogou umas folhas de jornal sobre a mesa central.
— O que é isso? — Disse fechando a porta. Eu já havia me acostumado com as visitas de Margaret todos os dias pela manhã. — Trouxe o jornal de hoje, querida. — Ela me estendeu um copo feito de plástico sintético e eu o peguei. Café. Agradeci com um movimento com a cabeça, e bebi um gole. — Vi um carro dos médicos locais vindo em direção à sua rua. Queira vir aqui e ver se precisava de algo. Checar se o problema era com você... Mas meu marido me impediu, disse que era atrevimento demais de minha parte – Ela suspirou. – inclusive, me chamou de abelhuda, por me meter em assuntos que não são de minha conta. Mas acho que era de minha conta, afinal, você está aqui sozinha. — Ela me olhou por alguns segundos. — E já que conheço sua mãe, me sinto na obrigação de cuidar de você, querida. — Margaret não parava de falar por um segundo. Minha cabeça latejava de dor a cada som que saía de seus lábios. Andei até próximo dela e passei uma das mãos sobre a mesa central e peguei a caixa de analgésicos deixados pelo medico, ingerindo um dos comprimidos junto com o café. — Analgésicos? Então, foi para cá que os médicos vieram? — Sim... — Disse num tom baixo. Deixei a pequena caixa dos remédios cair, então me abaixei para pegá-los. — Sou um pouco desastrada... — Você tem pontos na cabeça... — Ela afirmou. — Problemas com Maria? — O que? — Senti um frio repentino percorrer minha espinha. — Como sabe que Maria esteve aqui? — Fiz um pequeno esforço para deixar a voz normal, e esconder todo o nervosismo que poderia passar para Margaret. — Estamos no interior, querida. Aqui todos sabem de tudo... — Ela sorriu. — E Maria não é daquelas que passa despercebida. — Eu continuei olhando-a sem saber o que dizer. — Então, problema com ela? — Não... Somos amigas. Fazemos faculdade juntas. Medicina... — Margaret sorriu. — Entendo... Qualquer problema com ela faço questão que me avise. — Ela começou a andar na direção da porta. Estava indo embora. — Volto aqui mais tarde, querida.O natal havia chegado. Era a noite da troca de presentes, quero dizer, eu iria dar o presente que Maria havia comprado para que eu presenteasse Annabelle. Ela – Maria — não me permitiu abrir a pequena caixa, por isso ela havia o embrulhado, e disse que perguntaria para Annabelle se ela havia o ganhado com ou sem embrulho.
Quando Annabelle recebeu o presente, ficou muito surpresa. E quando ela abriu o pequeno embrulho, nós duas ficamo surpresas. Era um colar, com dois corações dourados sendo atravessados por uma flecha prateada, no meio havia escrito em letras cursivas: Maktub.
No fundo do pequeno embrulho havia um bilhete, onde continha: Maktub = Estava escrito. É árabe, tolinha. Com amor, para você.
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