Troca de favores
1 "Quem é Marta?"
Seu cabelo é sempre penteado com o mesmo modo. Imóvel, não há quem tenha coragem de tocar em seus fios. Suas roupas são invejáveis para todas as mulheres da vizinhança. Há quem queira roubá-las para cessar algumas dívidas. Não existe diferença entre ouro e as vestimentas de Marta Castro França, a segunda herdeira e viúva de Leonardo França, um bem-sucedido empresário, que falecera há quinze dias, atingido por um infarto fulminante.
Marta sofrera demais. Há quem diz que nunca vira nenhuma sequer lágrima escorrer pela face dela até o dia do sepultamento de seu marido. Dizem isso, pois ela sempre fora uma mulher orgulhosa e nunca se abalara por nada. Tanto que as más línguas insinuam que tudo que ela fizera na cerimônia da morte de Leonardo fora encenação, por parte. Também ousaram a dizer de que ela nunca amara seu cônjuge verdadeiramente e que sempre ambicionou a herança da empresa, que diante do testamento será dividida com seu único filho, Fábio França Castro.
Por fim, concluímos que Marta é alguém que sempre estará na língua do povo, seja positivamente ou negativamente.
Seus passos são calculados e igualizados. Aparenta que eles sejam minimamente metrados para serem tão constantes. A temperatura baixa que caminha pelo cemitério, faz com que suas bochechas de pele branca, já não tão volumosas quanto era mais jovem, se avermelhem. Seus olhos, azuis, estão penetrantes como nunca e fitam para o horizonte inexistente.
Sozinha, esta deve ser sua terceira visita ao túmulo de Leonardo desde que falecera. Diante deste intervalo de tempo, sua vida parece ter sido reconstruída rapidamente. As lágrimas cessaram logo e seu sorriso amarelo já retornara para a vizinhança
Em frente ao túmulo de seu marido, ela coloca sobre ele, suavemente, três flores brancas que carregara em suas mãos até ali. O sentido da escolha destas é uma incógnita, mas Marta não exibe nenhuma expressão de descontentamento ou tristeza. Seu vestido, cinza, se camufla com o tempo nublado.
Ela profere silenciosamente uma oração e seguidamente lança um beijo para a fotografia que se junta ao túmulo.
Antes de ir embora, Marta percorre com seus olhos todo o perímetro, para checar se há alguém próximo dela. Concluindo que não há ninguém, ela se aproxima da fotografia de Leonardo e diz tão baixo que pode estar sussurrando:
– Dividir a empresa com o seu filho, quer dizer, nosso filho? Pode ter certeza que vou fazer de tudo para isso não acontecer.
Será isso um ato de loucura? Ou de sarcasmo? Ela se distancia “dele” e solta uma breve risada em baixo volume. Depois disso, ela retorna em sua caminhada para deixar o triste e silencioso cemitério. Por incrível que pareça, não há mais ninguém além de Marta visitando seus entes falecidos neste momento.
Agora, seus olhos azuis são cobertos por um óculos escuro. Seus passos são mais ligeiros e não hesita ao passar pelo grande portão de saída do local. Passa por ele tão rapidamente que há quem duvide de que ela esteja fugindo.
Seu carro, irmão legítimo de uma limusine, a espera do outro lado da calçada. Alguns respingos começam a desaguar do céu, mas isso não atrapalha Marta, pois seus passos continuam na mesma velocidade.
Dentro do automóvel, sentada no banco de trás, ela desce a janela do mesmo, que dá acesso para ver o lugar que acabara de deixar e o fita penetrantemente, até que o carro começa a se locomover.
O carro estaciona. Chegara ao seu destino: a sua prezada mansão. Entre todas as casas daquele rico bairro, pode ter cem por cento de certeza de que a propriedade de Marta é a mais luxuosa. Além de ser enorme, quase todos os móveis são banhados a ouro ou prata. Um longo jardim monta o seu quintal, acompanhados de inúmeras espécies de plantas e flores. Marta é assumida amante de floricultura. Sempre ela mesma cuidara de seu próprio jardim. Seguido disso, uma porta dourada dá entrada para o interior da residência. Apenas aquela porta salvaria a vida de muita gente.
Ela põe os pés para fora do automóvel e alcança o chão, voltando a lentamente caminhar. Olha para o céu e o tempo continua na mesmice: um cinzento nublado. Mas um ponto positivo é que a chuva parara.
Marta resolve passar por um dos corredores do jardim. Um andar silencioso, como se estivesse descalça. Enquanto ela namora suas variadas flores com os olhos, se aproxima do novo jardineiro. O que é de se espantar, pois depois de tantos anos ela mesma fazendo este serviço, resolve contratar alguém para fazer isto.
O novo funcionário aparenta ter quase sessenta anos e a roupa que carrega em seu corpo, no momento, está suja e rala, o que faz Marta exibir uma expressão de nojo ao aproximar-se dele.
– Seja bem-vindo. – diz a dona. – Como se chama?
O jardineiro fita ela por alguns segundos.
– Mauro. – responde, enquanto passa uma das mãos em seu próprio cabelo grisalho, mas com a face fechada.
– Espero que você continue muito tempo trabalhando comigo. E que cuide bem destas flores. Elas são como minhas filhas. – fala Marta, com um ar de arrogância, mas não a impede de estender a mão para o novo jardineiro, a fim de receber um aperto de mãos. – Nosso plano ainda está em pé?
Mauro não a responde, mas estende a mão, completando um longo aperto entre elas. Assim, a cara fechada dele vai sendo substituída por um pequeno sorriso.
Depois do fim do aperto de mãos, Marta se encaminha para o interior da casa, sabendo que mesmo que o novo empregado seja um homem de poucas palavras, os dois tem um grande acordo a ser realizado.
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