Trinity
3 Um novo conto de Natal.
Notas iniciais
Antes
Era uma madrugada como qualquer outra, mas as estrelas estavam mais visíveis que nunca no céu escuro. Desde o ponto em que a maioria das cidades foi extintas, a luz da terra não ofuscava mais a luz do céu e a poluição foi absorvida pelo próprio ambiente. O céu estava límpido, e existiam poucas nuvens na região da Maldívia.
A República das Maldivas era um pequeno país insular situado no Oceano Índico ao sudoeste do Sri Lanka e da Índia, ao sul do continente asiático. Ficava basicamente no meio do caminho entre a cidade submersa de Atlântida, que ficava a 500 km ao leste de Madagascar, e a recém-formada Columbia, no Nepal.
Por se tratar de um local isolado as Maldivas não foram destruídas completamente como os países do ocidente, mas seu povo entrou em uma guerra civil, e viram um país com chances de sobrevivência destruir a si mesmo.
As ilhas paradisíacas da região se tornavam ainda mais belas com o céu natural e a quase nula interferência humana.
Um grupo chegava em uma lancha sobre uma dessas ilhas. Em um impressionante contraste com a beleza e tranquilidade da noite, eles pareciam desesperados, logo ao atracarem em uma praia já correram em direção à cidade, como se estivessem a procura de algo. Eram cerca de oito pessoas, e usavam vestes amarronzadas: um uniforme para categorizar aqueles que vieram dos continentes e migraram para Atlântida. Isso parecia estranho, afinal, um continental raramente recebia a oportunidade de sair da cidade submersa, e quando recebiam era para realizar trabalhos braçais como pesca e construção. Para completar o estranhamento, estavam em uma lancha da Marinha. Marinheiros xenófobos não emprestam suas lanchas.
Era fácil perceber que os continentais eram criminosos: Fugitivos.
Mas já estavam muito longe de Atlântida e sabiam que não seriam mais perseguidos, a partir de agora suas vidas seriam livres, qual o motivo do desespero?
Acontece que dentre eles estava uma mulher grávida, pronta para dar a luz.
Partumn era seu nome. Ela sentia contrações fortíssimas e a bolsa já havia estourado. A gravidez havia se tornado difícil desde os sete meses, mas agora era insuportável. O feto dentro dela se remexia, expandindo a carne do seu útero muito mais do que era possível. A sensação que se sentia naquele momento era de que algo dilacerava seu corpo por dentro. Cada pulsar do coração bombeava uma nova onda de sangue oxigenado para seu corpo, cada pulsar do seu coração a fazia sentir mais e mais dor. Latejando e latejando.
Apesar disso ela estava feliz.
Não havia tempo para encontrar um hospital abandonado, muito menos para se alcançar uma casa com lençóis e materiais limpos para estancar a hemorragia que já acontecia.
A construção mais próxima da praia que atracaram era uma oficina naval velha. Provavelmente existiria alguma coisa ali que iria ajudar, ou na pior das hipóteses já era melhor que ficar na praia.
Seguiram então com dificuldade para lá, onde por fim não existiam remédios e não existiam camas, só um sofá velho. Colocaram a grávida sobre ele.
— Ela também quer ver o mundo novo – Disse Partumn momentos antes de dar a luz à criança, com um grito intenso. Era uma menina ensanguentada de olhos azuis cinzentos, que logo chamou a atenção de todos ali presentes. O pai a segurou por alguns instantes e deixou a felicidade tomar conta de si. Os gritos de sua esposa cessaram
Por alguns instantes ele foi feliz
Ao retomar seus olhos a Partumn, o homem chorou. Ali jazia ensanguentada a sua esposa: uma vida por outra.
O ciclo se fecha. Nascimento, vidas e morte se encontravam na oficina.
Um amigo da família ofereceu um pano que acabara de encontrar para que pudessem limpar o sangue do bebê. Mal percebera ele que o pano estava já estava sujo com graxa. Sem notar também, o pai da criança usou o pequeno pedaço de tecido para retirar o excesso de sangue da criança, aos poucos o vermelho de seu corpo deu o lugar ao preto, que fazia um contraste com a pele clara. Aos poucos o pano se umedecia com as lágrimas do pai
Ainda com o pranto nos olhos ele observou a garotinha em seus braços e disse entre soluços:
— Eu sou o Rudal... e você é a Vex. E você é minha filha agora, e eu sou seu pai.
Rudal sabia que não podia ficar ali por muito mais tempo. Seu grupo precisava dele e ainda tinham um longo caminho até Columbia, mas a esposa merecia um fim digno.
O corpo dela foi lançado ao mar com uma rosa na mão. Não se sabe se a rosa era vermelha ou um branco manchado de sangue.
Não se sabe se Vex é sangue limpado pela graxa, ou graxa limpada pelo sangue.
Agora
Cães brincavam alegremente sobre a planície esverdeada. A neblina densa, que pairava cerca de cinco metros sobre a superfície, deixava o clima do local um tanto quanto sombrio, mas isso não tornava o ambiente menos bonito. O horizonte era rochoso, mas naquele local havia uma vegetação rasteira e gramínea que formava um enorme tapete verde. Além dos cães era notável a presença de coelhos, veados e bois. Por fim a natureza restaurava sua fauna.
Era por volta das sete da manhã e o sol ainda não havia conseguido dissipar o frio da noite, afinal, quando se está à beira de um lago as manhãs se tornam mais frias.
A umidade condensada no ar era respirada por uma moça que fazia sua caminhada no local. Com um olhar centrado e sem emoções, ela mantinha uma expressão no rosto de quem sabia exatamente para onde estava indo, mesmo que a névoa não deixasse ver mais do que vinte metros a sua frente. Em sua caminhada, passos não era o único som audível, ela estalava os dedos em curtos períodos de tempo, quebrando o silêncio.
A neblina não escondia sua forma, muito pelo contrário. Uma moça com cerca de 1,70 de altura cujo corpo estava completamente tapado por couro negro contrastava muito bem com a imensidão branca da névoa; ela era magra e sem muitas definições, mas mesmo assim era bem claro que se tratava de uma mulher. Carregava uma enorme mochila nas costas e um bastão, daqueles que servem para auxiliar na caminhada, nas mãos.
Sua cabeça encapuzada possuía um rosto arredondado e de certa forma, pequeno. Uma franja escorria por toda sua testa. Com linhas finas e delicadas seus lábios chamavam a atenção, eram levemente rosados e possuíam uma pequena cicatriz no canto esquerdo. Mesmo com a cicatriz, todo o restante da pele era perfeita. A pele jovial aliada à leveza de seu olhar confirmava que se tratava de um jovem com pouco mais de quinze anos.
Mas o que realmente chamava atenção eram seus olhos apurados. Eram puxados, mas não tanto como os dos japoneses, eram mais arredondados, talvez sua descendência fosse coreana. As sobrancelhas mantinham uma expressão focada e séria, o que permitia perceber que seu olhar era atento e apurado.
Bem, a névoa conseguiu tirar essa atenção.
O caminho que ela traçava era gramíneo, mas existiam ali alguns arbustos e árvores próximas de si, e foi de uma dessas árvores que ele surgiu.
Em um movimento extremamente rápido e silencioso um homem pulou de um galho e se aproximou da garota. Antes que ela pudesse executar algum tipo de reação ele colocou a mão sobre sua boca, abafando qualquer tipo de som e empurrou o peso do seu corpo sobre o dela, fazendo com que os dois caíssem em uma moita próxima.
Agora ela estava imobilizada.
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As nuvens já pairavam sobre o céu claro do amanhecer, abaixo delas era possível ver uma neblina densa. Isso já era comum naquela região, afinal, água evaporada do lago durante o dia se resfriava e condensava com o frio da noite, o que ocasionava o excesso de orvalho e neblina sobre aquele local.
Acima da neblina e abaixo das nuvens se avistava algo que não seria muito comum no antigo mundo: a Aero-X.
A Aero-X nada mais é do que uma “simples” moto, com uma única diferença: seu movimento não era limitado ao chão.
Sua mecânica não era extraordinária, funcionava basicamente com compressores de ar e propulsores térmicos. A fissão era induzida e contida no núcleo de urânio do motor, o resultante da reação liberava energia suficiente para que os compressores absorvessem e liberassem o ar com uma força espetacular, que aliada a energia térmica liberada pela própria fusão era capaz de movimentar a moto em velocidades surpreendentes. A luz azul que os propulsores emitiam era característica da radiação de Cherenkov, que é emitida quando partículas eletricamente carregadas viajam mais rápido que a luz em um meio isolante.
A sua inventora era a própria motorista, que voava livremente pelo melancólico céu da manhã.
Seu nome era Vex.
Usava um capacete que cobria todo o rosto, uma jaqueta preta e uma calça da mesma cor. Não usava mochila, tudo o que precisava se encontrava no bagageiro da própria Aero.
Quando se viaja pelo céu você observa de uma maneira mais geral o mundo abaixo de você, e Vex já havia visto coisas estranhas demais para uma semana.
O mundo havia mudado, isso era visível. Pouquíssimas cidades não foram destruídas e as que restaram eram inabitadas. Cheiravam à morte. Mas o ambiente não era a única coisa que havia mudado; Tudo aquilo que residia nele também.
A radiação gama, liberada por processos subatômicos (Que por algum acaso estão bem presentes em uma guerra nuclear), é capaz de transpassar qualquer substância. Considerando isso, quando passa por qualquer organismo vivo a radiação altera os ácidos nucleicos dos indivíduos e a síntese de proteínas começa a se dar de uma maneira bagunçada. O afetado sofre uma mutação.
A maioria das mutações se tornaram fatais, mas como os seres vivos têm o excelente hábito de se adaptar alguns indivíduos em especial conseguiram sobreviver às mutações. Mas claro: tudo tem seu preço.
E Vex viu o resultado disso muitas vezes.
E Vex estava vendo novamente
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— Fica abaixada – Dizia o homem ainda segurando a boca da garota; qualquer barulho que ela fizesse agora poderia significar o fim dos dois.
O homem que pulara da árvore era Dante. Ele havia encontrado “aquilo” durante a madrugada de sua jornada. Já estava a cerca de 200 km de Columbia e até o momento não tinha encontrado nada que valia a pena ser reportado. Seu caderno de anotações ainda estava vazio.
Nada, exceto aquela coisa.
Em todas as suas outras três estações na batida, Dante já havia dado de cara com alguns mutantes, sim. Cães com seis patas, tigres que aparentemente conseguiram asas e até a vegetação se tornara luminosa, mas ele nunca viu a manifestação da radiação em humanos. E logo na primeira vez que viu, já temia pela sua vida.
— Kim, não é? – Ele perguntou, ainda segurando a boca da garota. Ela olhou para Dante, que a imobilizava, respirou fundo como se a pergunta fosse idiota de alguma forma e assentiu com a cabeça – Eu vou te soltar, mas prometa ficar quieta – Novamente a garota fez que sim com a cabeça.
Dante a soltou.
Ela o encarou por bons cinco segundos, como se o que ele acabara de fazer fosse imperdoável, e sem nenhum agradecimento perguntou:
— O que é aquilo? Como sabe meu nome? Quem é você? – De tão frias, as palavras pareciam sair da névoa gelada que os rodeava.
— Um “obrigado” cairia bem – respondeu o careca, sussurrando com medo, mas com um sorriso simpático no rosto – Quanto a sua primeira pergunta, sinceramente não consigo responder, eu só sei que não é amigável – explicou – Quanto a seu nome, está escrito na sua mochila, Kim Yang-Mi, e eu sou Dante, batedor oficial de Columbia.
Kim simplesmente esquecera o fato de que seu nome estava na mochila. E muito além disso, ele era de Columbia, ele podia guia-la até onde sua mãe estava. Finalmente conseguiria reencontrar a única família que lhe restava.
O pensamento feliz quase fez ela se esquecer da situação em que se encontrava: Com um homem estranho, nos dois sentidos da palavra, e de frente a alguma coisa.
Alguma coisa.
Coisa.
Dez metros de altura, com um corpo extremamente forte: era um humanoide. A pele era acinzentada e provavelmente espessa. Seus músculos eram tão grandes que se misturavam uns com os outros, não sendo possível distinguir onde terminava o trapézio da criatura para onde começava seu pescoço. Mas a parte mais estranha era seu par de braços extras que pareciam não ter movimento próprio, eles se mexiam de forma deformada. Era horrendo
Mas era humano.
Estava completamente nu, e seus braços se agitavam em um frenesi inconstante. Ele parecia desesperado, parecia vidrado.
Parecia com fome.
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Mesmo com a névoa espessa Vex conseguia enxergar o gigante que estava abaixo de si. Ele estava se movimentando em círculos de uma maneira muito rápida para seu tamanho, como se procurasse por algo.
A mecânica desceu um pouco com sua moto para entender melhor o que acontecia ali, observou por cinco segundos e rapidamente percebeu tudo.
Duas pessoas se escondiam em uma moita, e o mutante as procurava.
Provavelmente seus sistemas relacionados à visão foram afetados, pois sua cabeça estava acima da névoa, era fácil de encontrar suas presas ali, e ele parecia ter dificuldades com isso.
Ou não.
Por um segundo o gigante parou. Olhou diretamente para a moita...
... e avançou.

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Dante teve de agir rápido quando o gigante descobriu seu esconderijo. Ele fez sinal com a cabeça para Kim correr, ela pareceu entender rápido e os dois se puseram em disparada pela planície, ambos por caminhos diferentes.
Isso causou uma certa confusão no monstro, que ficou cerca de cinco segundos decidindo para onde correr. Por fim, foi atrás de Kim.
Percebendo isso, Dante rapidamente mudou de direção; ela era o primeiro contato humano que ele teve em dias, não podia deixa-la morrer. No êxtase da sobrevivência o careca retirou sua lança retrátil da mochila e se colocou a correr na mesma direção que a Coreana, assim como o gigante.
Ele não tinha nenhuma esperança de conseguir derrotar o monstro, mas a lança poderia ajudar a atrasa-lo.
Atrasar era uma boa ideia.
Apesar do tamanho, o mutante era rápido, e conseguiu se aproximar de Kim com uma facilidade extrema. Quando ele estava a cerca de vinte metros da garota Dante o surpreendeu, cravando sua lança na panturrilha esquerda do monstro, passando a sua frente.
Enquanto ele gritava de dor, o homem correu ainda mais rápido, o suficiente para alcançar Kim.
A sua frente um bosque com árvores de médio porte, com cerca de cinco metros e espaçadas entre si. A sua esquerda um campo aberto, com a névoa ainda densa. À sua direita um grande lago; Parecia profundo.
Atrás de si
Um gigante com quatro braços e dez metros de altura.
Faminto.
Dante era a refeição.
— Caralho, o que a gente vai fazer? – Perguntou aflito para Kim, sem deixar de correr.
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