Trinity

2 O frio inferno de Dante


Notas iniciais
Então é aqui que a história começa de verdade, galerinha. Esses primeiros capítulos vão ser pra dar introdução aos personagens, nesse eu introduzi quatro carinhas legais. Diferente do prólogo, esse capítulo é mais focado na narrativa em si. Eu ainda preciso aprimorar muito meus diálogos e descrições, então, qualquer dica e crítica é realmente bem vinda. Sem mais, nos vemos nas notas finais

Vento, sol e frio. Uma combinação um tanto quanto inusitada era mais do que suficiente para tornar a caminhada de um homem uma missão quase impossível. Ele se sentia agradecido pelas bombas nucleares não interferirem no funcionamento de seu Mp3, mesmo que ele só tocasse músicas antigas, afinal, não se sabe de qualquer gravação feita nos últimos vinte e cinco anos.

Dante era seu nome, e se sentia o homem de 28 anos mais sortudo e esperto do mundo por fazer sua jornada no verão. Seu objetivo como um batedor de Columbia era simples: analisar os arredores da sua cidade e notificar sobre qualquer ameaça e/ou vestígios de imigrantes, para que assim sua comunidade se preocupe com as decisões cabíveis em cada caso.

Existem quatro equipes de batedores, cada uma com quatro integrantes, e cada grupo sai para a exploração em uma estação diferente. Em geral todos os caminhantes de uma equipe vão juntos para uma mesma direção e voltam ao fim da estação, notificam a cidade sobre a presença de alguma coisa, informam a localização e ficam o resto do ano sem nenhuma atividade fixa, já que a democracia de Columbia concordou em subsidiar seu trabalho.

Já era o quarto ano de Dante na batida, mas ele ainda não havia se acostumado com o frio da jornada. A maior parte dos batedores era nativa da Indochina, por seu corpo ser mais resistente ao frio e ao cansaço. O sangue dos nativos da cordilheira tinha mais hemácias, o que potencializava as trocas gasosas e sua pele era mais resistente às variações bruscas de temperatura. Era um mistério saber como Dante já havia conseguido passar três estações sem desistir; o dinheiro que ganhava da democracia nem servia de motivação pra esse trabalho quase que suicida.

Mas esse ano era diferente, e nesse caso, diferente era pior. Para aumentar a área explorada cada batedor saiu sozinho, um para cada direção: Norte, Sul, Leste e Oeste. As duas últimas regiões nunca foram exploradas, e como Dante fora escolhido para explorar o Oeste ele não sabia o que iria encontrar pela frente.

A altitude do planalto tibetano fazia com que a região se tornasse extremamente fria. Mesmo que o sol brilhasse acima do homem, seu calor “só” não permitia uma morte instantânea por congelamento, mas o frio continuava intenso. Mesmo estando completamente agasalhado com peles de suas recentes caças o vento frio ainda conseguia penetrar e alcançar a pele bronzeada do homem, para seu desgosto o frio já começava a doer.

A caminhada se tornava ainda mais difícil pelo relevo acidentado, mesmo que o homem tivesse um bom condicionamento físico o relevo sofria muitas variações, demandando um extremo esforço de suas panturrilhas, que já pediam por um descanso. Por conta do sol que incidia sob seu rosto, Dante retirou um chapéu de palha cônico de sua mochila e o colocou sobre a cabeça. Com seus olhos na sombra do chapéu, ele podia continuar sua caminhada, mas preferiu descansar um pouco.

O homem alto, de cabeça raspada e chapéu de palha já estava a cerca de 20 km da cidade que o abrigara, a partir daquele ponto tudo o que Dante veria ainda era inexplorado, seria uma experiência nova para ele. O homem sentou-se em uma pedra, respirou profundamente o ar rarefeito da cordilheira e observou o horizonte rochoso que estava a sua frente ao mesmo tempo em que refletia sobre o próprio passado.

...

Em contrapartida, em um ponto bem distante dali, três dias depois, o calor era intenso. O ar era pesado, mais denso, afinal a pressão é muito mais forte ao nível do mar. Era a costa leste australiana, que abrigava de forma extensiva a população que formava o povo livre de Telúria.

Acabava de chover nas planícies, que tinham uma vegetação rala e arbustiva, o solo estava molhado e o chão exalava o cheiro característico de terra úmida. As nuvens carregadas ainda tapavam o sol, deixando um aspecto estranho para a luminosidade daquele local: estava claro, mas nublado. Mas um tempo nublado não impedia o sol de fazer seu trabalho: estava quente... Quente e abafado.

E mesmo que esse seja um clima estranho para aquela região, que é naturalmente seca e praticamente sem nuvens, duas pessoas não pareciam ligar muito. Estavam em posição de combate sob uma área sem vegetação, de solo duro e relevo acidentado. Algumas pedras formavam uma espécie de círculo de vinte metros de diâmetro ao redor deles: estavam em uma Arena.

Dentro dela a troca de olhares demonstrava que existia um embate ali. Ambos passavam o olho um sobre o outro com o objetivo analisar o oponente, tentando prever quem realizaria o primeiro movimento.

Via-se um rapaz alto e forte, com a respiração ofegante. Seus cabelos curtos eram tingidos de azul e estavam encharcados pela recente chuva. A camiseta branca cavada também estava molhada, e marcava ainda mais o corpo do garoto de pele branca. A tatuagem que cobria boa parte do seu braço direito contrastava com o ambiente.

Seus olhos castanhos observavam silenciosamente seu oponente... aliás, sua oponente. Uma mulher de baixa estatura, cerca de 1,65 de altura e aparentemente pouca força física. Só aparentemente. Ela usava um moletom, provavelmente de uma numeração maior que a recomendada, mas ninguém ligava para isso. O capuz sombreava sua face, deixando assim uma dificuldade na leitura de sua expressão.

Ela respirou profundamente.

E o combate continuou.

Para a surpresa do rapaz a mulher de capuz atacou de uma forma extremamente ágil, antes de perceber ele já havia recebido dois socos no rosto. Os socos feriram muito mais que a face, feriram sua dignidade.

— Porra! – Exclamou o rapaz enquanto dava um pulo para trás, evitando ser atingido novamente. Era visível que estava chateado por apanhar para uma mulher... de novo...

— Quer parar ? – Disse ela ironicamente enquanto retirava o capuz, deixando possível ver o seu rosto. A face era fina e bem delineada, longos cabelos negros se amarravam em um rabo de cavalo, que permitia maior movimentação para a dama. Em seu rosto era possível ver algumas marcas de expressão que a deixavam com uma aparência aproximada de 26 anos. Ainda assim mantinha um sorriso irônico, em provocação a seu oponente.

— Não.

E dessa vez foi ele que investiu primeiro. Sua altura e força físicas superiores eram teoricamente uma vantagem a ser utilizada. Ele correu e rapidamente tentou chutar a mulher com sua a perna esquerda. Ela por sua vez pensou rapidamente: é difícil esquivar de um chute cruzado e bloquear não era uma opção viável, a força física dele era extremamente superior, ela não aguentaria.

Então a dona do rabo de cavalo viu sua opção em um contra ataque rápido, ela pulou e rapidamente entrelaçou as pernas sobre o peito do seu oponente, jogando o peso do seu corpo sobre o dele. Foi efetivo, ambos foram ao chão e ela estava em uma posição favorável, além disso, não havia recebido o chute.

Suas pernas ainda apertavam os braços do rapaz contra a lateral de seu próprio tronco, imobilizando o movimento dos mesmos. Nesse momento o rapaz estava deitado no chão, junto com sua dignidade, enquanto sua oponente triunfava acima de si. Com suas mãos livres ela esmurrou novamente o rosto do rapaz de cabelo azul, até que foi surpreendida.

Com um movimento rápido de pernas ele passou de dominado para dominante. Usando toda a força que ainda dispunha ele girou seu tronco, e assim ambos se separaram no chão. Antes que ela pudesse se movimentar novamente, o rapaz segurou seus braços e os prendeu no chão. Com o joelho ele também imobilizou o movimento das pernas.

Ambos não tinham movimentos possíveis, se ele usasse algum dos membros a soltaria. Mas precisava mostrar para ela quem era o mais forte ali.

Dar uma cabeçada foi extremamente genial.

Genial e dolorido.

(...)

Os dois se encontravam sentados lado a lado em cima do mesmo chão que momentos atrás vivenciou uma batalha. Ambos ofegavam após o frenesi da luta, o cansaço e diversão eram visíveis em seus rostos.

— Então Helena, bom treino né ? – disse o rapaz de cabelo azul para a moça que sentava a seu lado. Ele ainda sentia a cabeça dolorida por conta do seu golpe final.

— ... – Ela realmente havia ficado chateada com o golpe final; aconteceu de forma muito rápida e justamente no momento em que ela ia conseguir se soltar. Além de tudo, ele ainda era estranho para ela e a tontura que veio junto com a pancada ainda não havia passado.

— Hey, não fique assim! Você conseguiu se manter por um tempo até considerável contra Dominic Reymond! – Disse ele com um sorriso convencido — Sabia que me chamam de demônio azul por essas bandas? – E deu uma piscadela

— Nojento... – No fundo ela havia achado engraçado a tentativa do rapaz convencido se insinuar para ela, mas ele era novo ali, ainda não era confiável, ela não podia demonstrar ter algum tipo de sentimento. – Um demônio azul convencido.

Ambos moravam em duas vilas em uma parte isolada de Telúria. Tendo a arena que estavam como referência a aldeia de Dominic ficava a dois quilômetros ao norte enquanto a de Helena ficava um quilômetro e meio a sudoeste.

Dominic fazia parte dos recém-migrados das cidades insulares, então Helena pressupunha que ele viera com medo da retaliação dos eleitos, mas nunca havia perguntado, não precisava. Segundo o rapaz de cabelos azuis eram só ele e a Irmã contra o mundo. A vila que os acolheu era pacata, e aos poucos desenvolvia um reconhecimento pacífico. Pouco mais se sabia dele além disso.

O que diferia da de Helena. Ela nascera na própria Austrália, portanto, viu o desenvolvimento dos Telurianos como um povo em si. A mulher de cabelos longos já morara em várias aldeias Telurianas diferentes, mas sempre mudava por arranjar confusão e despertar a fúria dos moradores.

Seu pai era doente o suficiente para não conseguir trabalhar, enquanto a mãe vivia em função de cuidar do marido. Coube a Helena, desde pequena, o fardo de alimentar e sustentar sua família. Como empregos normais não existem mais e nenhum membro de sua família seria capaz de praticar agricultura, Helena passou a roubar.

De vilarejo em vilarejo ela saqueava aos poucos, até alguém desconfiar, quando acontecia, eles se mudavam novamente. Por se meter em várias encrencas por isso, ela acabou aprendendo a lutar.

Tomar algo que outro alguém trabalhou duro para conseguir.

Tomar de forma fácil algo que demandou dificuldade.

Roubar era puramente injustiça, especialmente em um cenário onde todos são pobres.

Ela sabia que era eticamente errado, mas isso não importava mais.

O mundo não havia deixado espaço para ética.

O silencio foi quebrado pelo som característico de Guizos ao norte. Dominic e Helena sabiam o que isso significava.

Via-se um vulto de longe, algo que se assemelhava a um garoto de doze anos, magro rápido. O vulto se aproximou e foi possível ver seu rosto, parecia desesperado.

Era Sky, a garota dos recados. Tinha cerca de 1,50 de altura e uma aparência extremamente frágil. Seu rosto era extremamente bonito; era uma mestiça asiática, os olhos castanhos eram puxados, mas ainda assim grandes. Os seus cabelos lisos eram extremamente curtos para uma mulher, o que ajudava a confundi-la com um rapaz quando vista de longe.

Sua expressão comum seria sorridente, e provavelmente faria uma piadinha relacionada ao recado que entregaria, mas não dessa vez. Os olhos estavam vidrados como se acabassem de ver algo que não deveria. O braço direito estava com um corte superficial, já coagulado, mas o desespero provavelmente anulou a dor.

— Fo... Fogo ... – A mestiça disse ofegante. Estava cansada, a corrida consumira todas as suas energias – Nossa vi...la... – Disse olhando para Dominic.

O desespero foi cedendo seu lugar ao cansaço no corpo de Sky, ela estava esgotada, havia corrido dois quilômetros à uma velocidade inimaginável, seu corpo não iria aguentar ficar acordado por muito mais tempo. Colocou as mãos sobre o joelho, e ofegante disse suas últimas palavras

— Quatro homens... armas... – E voltou seu olhar para Helena – Sua aldeia é a próxima..., eles já estão per... uf... to – E novamente olhou para Dominic – Sua irmã...

...Salve ela – Dito isso a pequena moça desmaiou de cansaço sobre o chão.

Helena e Dominic se observaram, nervosos. Entreolharam-se e já sabiam o que aconteceria em seguida.

Helena tinha que proteger sua família, ou todo o seu esforço com o roubo de alimentos para seu pai haveria sido em vão. Segundo Sky os homens já seguiam para sua vila e ela realmente não queria acompanhar o desconhecido em sua jornada por algo que era incerto.

Dominic tinha que saber como sua irmã estava, e com quem ela estava. E se a tivessem deixado para morrer? E se a tivessem capturado?

— Então, você vem comigo ? – Perguntou Helena

Notas finais
Então chegamos nos finalmentes. (hehe) Como Dante não está em algum conflito, só foi introduzido, ele não vai fazer nada :/ Que peninha. Mas por causa da caminhada difícil ele vai ganhar mais resistência (Ueba) Sky tá desmaiada, então também não faz nada, mas assim como Dante ela vai ganhar resistência. Dominic deve decidir onde deve procurar sua irmã e o que fazer quando ele encontrá-la. Além de decidir se deve ou não ajudar Helena antes de procurá-la. Se quiser falar sobre a maneira de lidar com essa situação, Ótimo. Helena tem que montar um plano para proteger sua família. Lembre-se que seu pai é fraco e sua mãe é velha. O pessoal da vila não é uma galera boa de briga, os quatro homens sim. Você não sabe se eles estão armados ou não. Ah, não se esqueçam da Sky! Os dois vão deixar ela desmaiada no chão? Aos leitores donos dos personagens, me mandem suas decisões por MP. Quanto aos outros leitores, o próximo capítulo vai utilizar de outros personagens, pode ser o seu, fique atento. Digam o que acharam do capítulo, por favor. Consegui pegar a essência dos personagens de vocês ? Como posso melhorar ? Até mais