Trinity

17 Lágrimas no Paraíso


Notas iniciais
Eu queria colocar o título em inglês, mas mantive o padrão de ser tudo em BR. Enfim, é uma música que me faz chorar, por uns motivo loco aí (é, eu choro). Deu pra perceber que a vibe hoje é tristona né? Até as notas finais!

O ouvido do rapaz ainda estava abalado pelo barulho estrondoso das explosões que acabara de presenciar, um fino ruído insuportável, diga-se de passagem, ressoava no interior de sua cabeça, esperava firmemente que aquilo não fosse sequela. Encolhia-se, trancado no quarto, cujas paredes eram brancas e frias, com o irmão mais velho e o sobrinho. Todos ali encolhiam o rosto e evitavam o contato visual direto. Todos estavam com medo.

O irmão mais novo olhou pela janela, pensando consigo que o pior já havia passado. Daqui a pouco poderia sair pelas ruas tranquilamente, conviver novamente sua vida privilegiada e voltar aos seus estudos na Universidade. Faltava pouco menos de um mês para que o curso terminasse, ele não gostava da ideia de que a data de sua formatura poderia ser adiada.

Com o coração em pedaços desfez essa ideia de sua cabeça, era egoísta demais. A revolução estava sendo uma merda, independente de qualquer fato, mas se ele aprendera alguma coisa com tudo isso era o fato de que muitas pessoas precisavam sofrer para que qualquer eleito pudesse ter uma vida comum. Não uma vida boa, com luxos e tudo mais, apenas uma vida onde alguém estava em paz demandava a agonia de muitos outros que ele nem conhecia.

Para alguém ganhar, outro alguém tinha que perder. Fora isso que aprendeu na faculdade; aprendeu, mas nunca concordou. Ele entendia o motivo dos continentais, condenava seus métodos, mas entendia o motivo.

Parte de sua tristeza provinha de algo muito além de ver famílias serem mortas de ambos os lados, ele se sentia impotente, pois, mesmo que a revolta fizesse barulho ela não ia chegar a lugar nenhum além da retaliação, e todos os eleitos sabiam disso. Era indubitável que alguns habitantes das camadas superiores seriam ainda mais explorados, e os eleitos se recuperariam em pouco tempo, afinal, eles dispunham de artifícios para fazer ambos.

O jovem olhou pela fresta da janela tapada, viu as ruas tranquilas.

“Tranquilas”.

Mal parecia que a cerca de cinco horas atrás ele fazia seu trajeto diário por ali, cumprimentando calorosamente os garotinhos Lykaios. Ele se perguntava onde eles estariam agora.

Mesmo que a luminosidade estivesse baixa ainda era possível ver na calçada um enorme tufo de cabelo, os longos fios lisos que outrora foram seus. Passou a mão levemente pela cabeça se sentiu seus dedos se espetarem aos poucos, de forma leve e viciante, em qualquer outro momento ele ficaria brincando com os fios picotados. A partir daquele momento sentia que toda vez que cortasse o cabelo, o que por acaso era bem raro, o faria com uma faca, já que o repicado ficou um tanto quanto divertido.

Ou melhor, quando tudo aquilo terminasse seria mais divertido ficar careca.

Quando voltou os olhos para seu irmão os pensamentos divertidos fugiram de sua cabeça assim como uma zebra fugiria de um leão. O mais velho se vestia como um marinheiro comum, roupas brancas e imponentes, mas a peça que mais se destacava era o próprio rosto, que apresentava uma feição nunca antes vista: um misto de tristeza, medo e impotência.

Agonia.

O cassetete sujo de sangue ainda fresco estava largado sobre o chão frio, pintando o assoalho de um mórbido vermelho escuro.

Mesmo que ele tivesse sido ferido diversas vezes naquela batalha, o que era visível claramente considerando os furos e cortes em sua roupa, seu corpo não apresentava nenhuma cicatriz ou qualquer vestígio de luta. Fisicamente ele estava íntegro, regenerado.

Psicologicamente não.

O garotinho que ao lado, seu filho, soluçava compassadamente em uma melancolia indescritível. Era visível que sua vontade era de chorar e gritar, mas não tinha mais nenhuma energia para aquilo. Assim as lágrimas em seus olhos eram o maior vestígio de uma tristeza profunda que se manteria firme por algum tempo: ele havia perdido a mãe. É algo difícil de entender e superar quando adulto.

Impossível quando se tem quatro anos de idade.

As paredes brancas pareciam se tornar mais escuras, e aos poucos, se fecharem sobre os três. O ambiente silencioso incomodava; não se ouvia nada além do choro contido do garotinho. Apesar disso ninguém disse nenhuma palavra quando os tiros recomeçaram.

Ninguém disse nada quando ouviu uma criança gritar, logo após os disparos.

Ninguém disse nada quando a explosão estilhaçou a casa vizinha.

O único momento em que algum dos três se manifestou foi quando ouviram a porta da própria casa ser destruída. O irmão mais velho se levantou do chão, deixado o garoto sobre a poça de lágrimas que ele mesmo havia criado. Pegou o cassetete jogado, ele não tinha arma ou qualquer outro método para conter mais de dois continentais.

Ele ia desistir.

Seu encargo como marinheiro estava acabado no momento em que precisaria sacrificar sua família para defender pessoas que estavam em uma situação errada da luta. Ele não precisava mais daquilo. O irmão mais novo olhava perplexo e paralisado com o medo.

Segurou o garotinho, que relutou em sair de seu lugar, e o entregou ao irmão mais novo, que o segurou com força, tapando sua boca para que o mesmo não gritasse. Mesmo que ele mesmo quisesse gritar.

Um pingo de lágrima caiu no chão. O mais velho estava de costas para a porta.

Ouvia-se o som de passos na escada.

Ele levantou o cassetete e golpeou o rosto do irmão com força, deixando-o com uma marca instantânea.

Golpeou novamente, fazendo com que a carne se tornasse roxa naquele ponto. Mesmo machucado ele ainda segurava o garotinho, que fazia força para se soltar.

O mais velho ergueu o cassetete novamente, mas não golpeou. Por outro lado, se pôs a falar:

— Vocês dois são continentais agora – ele chorava por não poder abraçar sua família naquele último momento Olhou para o irmão machucado no chão e para seu filho que se debatia. As lágrimas silenciosas que caíram de seu rosto demonstrava o sentimento dos três. Não havia ódio naquela sala, todos sabiam por que iriam morrer. Mas isso não impedia o momento de se tornar melancólico – Cuide bem do Glenn, Dante, por favor.

Crack

A porta se abriu.

Dante viu o irmão cair no chão, com tiros pelas costas. Mas isso não o mataria, portanto, o continental explodiu sua cabeça com uma escopeta, fazendo com que o sangue se espalhasse.

As paredes deixaram de ser frias.

As paredes deixaram de ser brancas.

Dante tapou a boca do garoto para que ele não dissesse nada, mas ele próprio gritara. O continental com a arma tinha as mãos manchadas e sorriu gentilmente, dizendo:

— Calma rapaz, nós viemos ajudar.

Alguns ferimentos eram impossíveis de regenerar.

Não!!

A visão de Dante mudou de forma repentina ao mesmo tempo em que sua cabeça tentava reorganizar as informações. Onde ele estava e como fora parar ali? O que aconteceu com Glenn?

Suas costas estavam pressionadas sobre uma cama, e seus olhos enxergavam um teto metálico. Tentou se levantar e sentiu seus músculos queimarem de dentro para fora, o que fez com que gritasse de dor. Músculos queimando, mas ele não se lembrava de nenhum esforço físico.

Aliás, se lembrava sim. A respiração ainda estava pesada por conta de uma corrida cansativa pela sua vida.

Com isso suas lembranças começaram a se encaixar. Ele estava patrulhando; exercendo o melhor trabalho que encontrara em Columbia, assim talvez encontrasse um garotinho que ia para o mesmo lugar, mas se perdera no meio do caminho. A patrulha tava de boa, mas aí do nada não tava de boa mais. Tinha névoa, um cara gigante, uma menina de olhos puxados e uma moto que voava. Descrevendo dessa forma parecia um sonho idiota, fruto da imaginação de umgaroto de dez anos, mas Dante sabia que aquilo era real.

Quando virou sua cabeça para a direita conseguiu ver que não estava sozinho. Sentados em um sofá próximo estavam dois homens, um negro e um caolho, ambos eram fortes e ameaçadores o suficiente para que Dante imaginar que teria que ser o engraçadão para não apanhar. A primeira frase que ouviu, um comentário do negão, fez com que esse pensamento se dissolvesse. Por um instante ele não era mais ameaçador. Nem um pouco

— Meu tratamento ninja acorda até essa bela adormecida – parou a frase e olhou a diretamente para a careca de Dante, que conseguia saber quando as pessoas reparavam isto – que com toda certeza não é uma Rapunzel. Enfim, eu sou Nelson, bom dia flor do dia!

A piada fez com que Dante quisesse dormir novamente. Ele já ponderava sobre qual dos dois novos amigos gostava mais: do ninja ou da caladona.

Aliás, onde será que estavam aquelas garotas?

x-x-x

O coração de Yang-Mi batia forte o suficiente para que ela conseguisse sentir as sístoles e diástoles que ocorriam em seu peito.

Tu – Tum. Tu – Tum

Estava cansada, ofegante e desconfortável, encostada sobre uma rocha. Ela não entendia muito bem o porquê, mas gostava de reparar as coisas, mesmo que estivesse em uma situação desfavorável, e esse foi o caso. Notou que a pedra era de um porte relativamente grande, considerando que a tapava totalmente e fazia uma sobra convidativa, a superfície era bem lisa e fria ao toque, alguns musgos subiam sobre a mesma.

Não era o melhor lugar para descansar, mas fora o primeiro que oferecia a possibilidade de não olhar para o gigante morto atrás de si. Ainda assim, infelizmente não a impedia de imaginar o estado do mesmo.

Nem fazia com que o seu medo e remorso diminuíssem. Ela ainda estava trêmula pelo que acabara de acontecer. Correr de um gigante carnívoro fora uma experiência traumática e esquisita que a deixava um tanto quanto desconfortável. Mais desconfortável ainda era pensar no fato de que em todos os momentos ela teve de ser salva, não tendo uma participação efetiva no combate contra o mesmo. Ela inclusive não o enxergou em sua frente, fazendo com que o homem, Dante, se arriscasse para salvá-la de ser vista. Não deu muito certo, mas não fosse por ele, Kim estaria morta.

Já fazia cerca de quinze ou dez minutos de quando o homem partiu, não sabia ao certo já que a noção de tempo estava prejudicada pelo choque que acabara de vivenciar. Ele havia sido levado pela moça da moto. A mesma que destruiu suas roupas e fez o simples ato de buscar uma luva de ferro na mochila do careca.

Era simples, mas inegavelmente fora essencial para que todos ficassem vivos, afinal.

De toda forma, a maioria dos méritos estava diretamente ligada ao homem. De alguma maneira ele se tornou muito mais forte do que aparentava ser. Quando ela viu as capacidades fisiológicas do homem se alterar um arrepio lhe subiu a espinha, ela já havia visto algo do tipo acontecer com os marinheiros de Atlântida, que com toda certeza não eram pessoas legais. Logo depois afastou o pensamento, era extremamente improvável de aquele careca com um sorriso simpático ter alguma ligação com a Marinha. Além de tudo, ele desmaiou logo que tocou o chão, o que o tornava completamente inofensivo.

Mas mesmo que seus sentimentos brigassem dentro de si, ela ficou preocupada com isso. Esperava que ele estivesse bem.

“Ele vai ficar bem”. Foi o que a outra garota disse, sem tirar o capacete nem nada, ela estava apressada. Sabia que era uma garota pela voz e pela silhueta marcada pela roupa colada; não fosse por esses dois fatos ela poderia ser confundida facilmente com um homem.

Afinal, ela era um motoboy dos céus.

“A moto só tem lugar para mais um. Eu vou levar ele para se recuperar em um lugar seguro e volto para te buscar o mais rápido possível, espere por aqui”. Ela não entendia muito bem o motivo de confiar na garota, mas ela acabara de salvar sua vida, provavelmente era uma boa pessoa. Além disso, conseguir algum contato em Columbia era essencial para que pudesse encontrar sua mãe.

O que a deixou tensa foi a expressão “algum lugar seguro. Poxa, o gigante já estava morto, por que ali não era seguro?

Não teve tempo de perguntar.

A garota dos olhos puxados inspirou e expirou fortemente. Já perdera a noção do tempo enquanto estava ali e a sua carona ainda não havia voltado. Em qualquer outra situação já estaria começando a se sentir entediada. Naquela não. Era impossível se sentir entediada quando um gigante carnívoro está morto atrás de si, ainda que se evitasse olhar para ele.

Suas mãos tremiam com a vontade de cutucar o corpo do cadáver, ver do que ele era feito, se tinha órgãos como um humano normal, ou mesmo saber se tinha alguém em sua barriga. Mas era impossível. Seus sentimentos eram conflitantes, ao mesmo tempo em que sentia vontade de explorar o corpo e o local, se sentia com medo.

Ela não se colocaria novamente em risco.

Olhou para os sapatos, que estavam sujos e desgastados. A pequena faca em sua cintura era leve, e fazia o único som naquele ambiente ao chocar-se com a própria bainha metálica, larga demais para ela. Percebendo o silêncio ela passou a estalar os dedos em compasso com seu coração.

O ritmo foi quebrado por um grito masculino.

— Caralho! Olha isso daqui.

O coração da garota acelerou. As batidas saíram do compasso do estalar de dedos, que logo cessou. O grito partia de um ponto distante, além do gigante morto.

Mesmo que relutante, colocou seu rosto um pouco para fora da rocha, e olhou. Dois homens faziam o que ela desejava cerca de dois minutos atrás: observavam o corpo da criatura, em especial os ferimentos.

O seu corpo gritava para que ela saísse dali o mais rápido possível, mas sua razão falou mais alto. Controlando o medo que sentia, apenas se manteve escondida atrás da rocha, na esperança de que eles se distraíssem tempo o suficiente para que Vex pudesse chegar. Ainda que tivesse certeza de que não sabiam estava ali, Kim se sentia desconfortável perto daqueles homens. Eles tocavam o corpo do defunto como cientistas analisariam um rato.

— Parece que esse daqui foi bem afetado. Pelo sistema digestivo curto, ele provavelmente era carnívoro – o segundo homem falava de maneira muito calma, inesperado perante a um mutante como aquele. Será que ele já havia visto outras mutações em humanos? — Me pergunto se o patrulheiro designado para essa região não viu outros parecidos, já que seu sinal vital cessou algum tempo atrás.

— Deixa isso pra lá – respondeu o outro, ainda espantado – no final...

Kim não conseguiu ouvir o restante da frase. Foi interrompida por um susto. Um braço forte segurou seu corpo enquanto uma mão forçou um tecido úmido sobre seu nariz e boca.

A garota nem se deu conta de que desmaiou.

Notas finais
Decisões no próximo. Eu ainda não saquei pra quem eu vou dar a Vex, mas todo mundo opode dar uma ideia de como ela vai salvar a Kim, mesmo que a Kim não queira ser salva. Enfim, CHEGAMOS A 100 COMENTÁRIOS 21 ACOMPANHAMENTOS E 8 FAVORITOS AMO MUITO VOCÊS. Ah, espero que tenham gostado do "plot twist", que explica mais as relações entre os personagens e arcos e blá blá blá. Até a próxima!