Trinity
13 Humanidade
Notas iniciais
— O interior das montanhas de Columbia escondia muito mais que simples moradias. Eu sabia disso, e desejava fervorosamente que o governo da cidade não soubesse. Nos meus quinze anos, Nelson, eu já sabia muito mais sobre isso do que qualquer habitante comum dessa cidade.
Minha natureza era lutar pra mudar isso.
Quando eu tinha lá meus catorze anos eu conheci gente que queria a mesma coisa que eu: se opor seja lá o que essa cidade fazia. Na época eu não sabia, ninguém me contou exatamente o que o governo fazia com as pessoas, mas isso não me impediu de tentar descobrir o que era, muito menos de me colocar contra as decisões da cidade. Na cabeça dos demais poderia soar como ingratidão, afinal, Columbia foi minha casa desde que eu nasci, e em todo esse tempo eu nunca sofri nada que justificasse a minha rebeldia. Meu pai achava estranho, minha mãe estava morta, mas minha irmã me entendia. Ela sabia que o fato de nossa família ser bem tratada quando chegou aqui não significava necessariamente que todos eram bem tratados.
De alguma forma ela sabia que outras pessoas sofriam.
O simples fato da cidade se localizar na Indochina, relativamente próxima da África, e quase todos os habitantes dali serem brancos e ocidentais era estranho para nós dois. Éramos novos e não conhecíamos o antigo mundo, mas tudo que os livros apresentavam não batiam com a realidade dali. Afinal, os refugiados geralmente migram para as regiões pacíficas mais próximas possíveis do local de origem. E novos refugiados estavam se tornando um tanto quanto incomuns.
Tudo isso não era natural, ou ao menos tudo conspirava para que não fosse.
Eu segui meus ideais, e achei um grupo de pessoas com pensamentos parecidos. Foi aí que eu conheci sua mãe.
Era um grupo. Eles não tinham um nome específico, como “os salvadores da pátria” ou “força jovem”, afinal, a maior parte dos integrantes era adulta, o que fazia eu me sentir um tanto quanto isolado, mas ao mesmo tempo nunca me senti tão incluído, afinal, eles seguiam um ideal de conscientização e libertação psicológica.
Antes mesmo de eu me juntar a eles, ou mesmo antes de saber que viria a me opor a esse governinho de bosta, eles já existiam. Eu tinha lá meus seis anos quando começaram, se eu me lembro bem da história eles foram guiados pelo seu conhecimento de mundo pré-guerra, entendiam que um sistema democrático não funcionava sem um conflito, uma síntese de ideias.
E não havia nenhum conflito nessa cidade.
Então se manifestavam publicamente, mesmo sem saber realmente o que acontecia naquela sociedade. Sociedade essa que os tratava como lunáticos. É natural do ser humano se manter em seu estado de conforto, dar ouvidos a um grupo que dizia que sua “cidade perfeita” era algo utópico provavelmente geraria um conflito. E o que as pessoas menos queriam naquele momento era um conflito, e o motivo era óbvio, o pessoal tinha acabado de sair de uma guerra: eles não queriam isso.
No começo só foram marginalizados, continuando sendo amparados pela democracia. Alguns deixaram o grupo, e outros loucos se adentraram a ele, mas a porcentagem era mínima. De fato eles não tinham alguma interferência social ali.
Mas isso mudou com o seu pai, você sabia?
— Quê? — Nelson não conseguiu conter o tom de voz, na conversa que deveria ser silenciosa. Eles estavam no quarto do garoto, mas chamar atenção era o que os dois menos queriam naquele momento. Nelson se desculpou com Jake, que abanou com a mão como se dissesse “deixa pra lá”, e continuou em um tom mais baixo – Desculpa, mas isso é estranho pra mim. Eu não cheguei a interagir muito com ele — O semblante sorridente do negro mudou um pouco, passando a apresentar um aspecto mais triste, mas logo retomou o sorriso — bom, se você me conhecesse bem saberia que um bom ninja evita relações afetivas, isso poderia me atrapalhar. De toda forma eu nunca fui muito de interagir com ninguém não...
— Eu percebi quando te vi pela primeira vez naquele quarto cheio de peças – Jake interviu na fala do rapaz, que pareceu ignorá-lo, estando com o pensamento distante.
— Talvez se ele tivesse participado mais da minha vida... – O rapaz percebeu o rumo depressivo que o diálogo estava tomando, ele tentaria disfarçar e levantar o clima. Mas alguma coisa, talvez o seu sentido ninja, dizia que isso iria piorar — Mas isso nem vem ao caso, foda-se você. Continua sua história.
Jake riu internamente. Nelson estava isolado, mas diferente de si, o isolamento não partira diretamente dele. Talvez a falta de convivência com pessoas houvesse tirado a noção do rapaz de quais momentos e quais sentidos eram atribuídos para se usar a expressão “foda-se”, mas como ele mesmo disse: isso nem vinha ao caso. O ruivo continuou sua história:
— Você se lembra de como Tori gostava de você, não é? Vocês tinham a mesma idade, acho que onze anos, e ela havia te achado enquanto rondava por aqui. Mesmo que você fosse meio estranho ela gostava de você...
Enfim, ela foi tirar satisfações com a sua mãe sobre o porquê de ela nunca ter te apresentado e tal, e ela explicou tudo de forma bem gentil.
Seu pai trabalhava como engenheiro diretamente para o conselho, e descobriu algumas coisas que o fizeram largar a profissão, ela não me disse o que era especificamente. Daí que vocês mudaram para cá e abriram essa oficina de pequenos concertos, certo?
O negro assentiu com a cabeça.
Então, ele morreu em um assalto. Sua mãe ficou com medo, ela desconfiou das circunstâncias que envolviam. Violência, se não a doméstica, é algo extremamente raro aqui. Um assalto e um esfaqueamento, em série, é um fato que não se pode desconsiderar. A guarda afirmou insanidade por parte do assassino, mas ainda assim...
Então ela passou a se esconder mais, além disso, ela parecia querer proteger algo que seria muito mais importante que a própria ideologia de liberdade. Ela queria proteger você, por isso ela te escondeu.
Nelson ficou triste, mas não podia demonstrar. Ele realmente não entendia boa parte do que Jake falava. Ele não se importava muito com a liberdade, afinal, nunca convivera muito com ela. Sua mãe, mesmo que protetora, o ensinou basicamente tudo que ela sabia sobre mecânica, enquanto lidava com o grupo que insistia em se opor a Columbia. Nelson não trocou mais que vinte palavras com qualquer outra pessoa que não fosse sua mãe ou Jake e Tori, mas mesmo assim não sentia falta da sociedade... Ele tinha seus filmes de ninja, ele tinha seus quadrinhos...
Ele tinha amor...
O pensamento o abalou um pouco, foi inevitável que algumas lágrimas escorressem pelos seus olhos. Jake foi rápido, retirou o pano vermelho que cobria a própria boca.
E enxugou o rosto do antigo amigo.
Não disse nada, apenas enxugou as lágrimas, enquanto esperava a recuperação emocional do rapaz antes de continuar sua história. Ele não podia parar por aí.
Nelson deu um tempo, agradeceu a Jake e pediu para ele continuar. Seu corpo vivia um misto de alegria e felicidade. Sua mãe morrera da mesma forma que o pai, e isso o abalou. Mas o que mais o comoveu naquele momento foi pensar em tudo o que ela havia feito e sacrificado para protegê-lo.
Jake começava a soluçar, a próxima parte da história não doeria tanto em Nelson como doeria em si mesmo. Mas ele tinha o direito de saber.
— Sua mãe disse para não nos aproximarmos muito de você, por que isso iria chamar atenção ou algo do tipo. A princípio eu segui as ordens dela, mas como você percebeu minha irmã não. Era frequente ela sumir quando a gente tinha que fazer alguma coisa aqui na oficina, e eu tinha que ir atrás dela pra me assegurar de que ela não se metesse em alguma confusão. Não que você fosse confusão, mas provocar sua mãe com certeza era.
Os olhos de Jake brilhavam, refletindo a luz fluorescente do quarto. Nelson entendia que as lágrimas estavam se formando no rosto dele, só não entendia o motivo, afinal, ele acabara de fazer uma piadinha. Bom, pelo menos parecia uma piadinha, só não soava bem em um momento como aquele. Os anos de isolamento do ruivo provavelmente o fizeram esquecer dos momentos apropriados para piadinhas.
— Tori... – continuou falando, ignorando o negro que o analisava – ela era linda e divertida. Muito mais inteligente que eu. Vocês criaram certa amizade, não é? Os dois estavam entrando na puberdade e... Nelson, você chegou a beijar ela? Aliás, não me conte, eu não quero saber.
Você deve estar se perguntando por que a minha voz ficou um pouco mais densa e tudo mais, seus sentidos ninjas devem ter percebido que isso não é algo fácil para mim. Essas queimaduras, o tapa-olho... tudo isso – O ruivo apontou para seu corpo, enfatizando seu rosto - remete a um erro que eu fiz. Eu me isolei, saí do grupo com quinze anos. Tudo foi culpa minha.
Aquele último carregamento que a gente precisou levar. Ela insistiu em participar, e como sempre eu fui com ela. Os barris carregavam ácido.
Vo.. Você sabe que a cidade não é normal. Ela tem plataformas, e...
Ela estava em uma plataforma, carregando um, e eu estava na de baixo. Ela fazia muita força para conseguir levantar. E-Eu não resisti, chamei ela pelo apelido... “Torinha”..
Nelson percebia o quanto o homem chorava enquanto contava aquilo, as palavras saíam picotadas devido ao soluço. Todo o aspecto sério e ameaçador de Jake fora substituído naquele instante. Nelson não sentia mais medo do antigo amigo, sentia pena... Ele próprio não conseguiu segurar suas lágrimas. Tori era uma amiga, foi sua primeira paixão. Jake ainda nem havia contado o restante, mas era possível deduzir.
Mas aceitar era completamente diferente.
— Ela tropeçou, Nelson. Ela tropeçou e caiu em cima de mim. Ela cobriu o lado direito do meu corpo.
Jake não conseguiria mais falar. O amigo não precisava de mais detalhes. Enfim, um entendeu o sofrimento do outro. Ambos se isolaram, por motivos diferentes.
Por amor.
Pela dor.
Era a vez de Nelson enxugar as lágrimas.
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