Trinity

14 Dissolver e Coagular


Notas iniciais
É só pra mostrar que eu não morri, e pra mostrar um pouco do que a Juno é capaz, eu vou tentar postar o resto (Que vai ficar com umas 2500 palavras), amanhã. Até as notas finais

Átila tremia.

Era difícil de entender o que estava acontecendo com seu corpo, mais difícil ainda era saber o que se passava em sua cabeça. Sua personalidade assustada confrontava ferozmente seu instinto protetor.

Ele estava com medo, mas precisava encontrar Juno, e rápido.

x-x-x

A garota de cabelos curtos tirou novamente seu moletom, ficando apenas com uma blusa preta, que aderia perfeitamente às curvas de seu corpo. Juno ainda estava suja, mas com certeza não a confundiriam mais com um garoto.

Ela estava fora de casa, e ali era perigoso, mas naquele momento ninguém ligava para uma garota caminhando, ninguém pensaria em estuprá-la ou mesmo em chamá-la de gostosa. O setor estava um caos.

Ela não sabia com se sentir em relação a isso, alguns continentais eram assassinados ao seu lado, mas a maioria deles estava mais viva do que nunca. Praticamente todos ali tiveram seus corpos invadidos pelo espírito revolucionário. As mesmas pessoas que outrora seriam consideradas más por serem traficantes, mercenários ou outros cargos que envolviam viver à custa da morte física ou psicológica de outras pessoas, estavam ali, tentando fazer o que a sua própria sociedade considerava como “certo”.

Mas o embate foi gerado justamente pelo conflito de ideias. O que os continentais do Setor 5-B acreditavam ser o certo era contra os interesses dos Atlantes. Basicamente eles estavam reivindicando seus direitos. Não pediam mais do que melhores condições de trabalho, menos preconceito quando estivessem em níveis comerciais, ou a trabalho em níveis inferiores.

Mas caso os atlantes cedessem aos requerimentos sua supremacia seria ferida. Nada, após isso, impediria de que outros setores também iniciassem outros protestos, e a marinha não tinha militantes o suficiente para conter mais a população, como fez na grande revolta.

Há tempos os continentais eram governados pelo medo, e para os atlantes isso deveria continuar assim. Então, foram ordenados a retaliar ao primeiro sinal da manifestação. Isso deveria amedrontar novamente o setor 5-B, e acalmar qualquer outro com os mesmos ideais.

Mas eles estavam preparados.

Não ficaram com medo.

x-x-x

Átila se escondia atrás de um latão de lixo no beco escuro em que se encontrava. O chão do local era úmido, mas não se sabia muito bem o porquê. O fedor de merda que exalava, aliado aos ratinhos e insetos que passeavam por ali, dava a impressão de que era como um esgoto a céu aberto. A cerca de duzentos metros dali a população massiva do setor 5-B se reunia na porta do elevador que levava aos níveis mais baixos. Todos os militares da marinha foram mortos na revolução, portanto os continentais só esperavam que algum técnico aleatório conseguisse invadir o sistema que bloqueava o elevador, para que assim pudessem continuar com a revolução. Atlântida não contava com o fato de que seu próprio poder seria usado na revolução, então foi bem fácil tomar aquele setor. Infelizmente Átila sabia que os próximos teriam um custo humano bem maior.

No beco ele observava a troca de olhares entre Pablo e um marinheiro à sua frente.

Os cabelos encaracolados do outro garoto balançavam junto a seu corpo quando o mesmo dava pequenos saltos, alternando o peso do corpo entre uma perna e outra. Átila dissera para ele que precisaria manter seu sangue quente e a circulação rápida, e por mais idiota que isso parecesse, dar pulinhos era a maneira que o continental encontrara para fazer isso.

Pablo era estranho, baixo para a idade, mas ainda assim maior do que Átila, e bem mais forte também, mesmo que fosse quase impossível de perceber seus músculos. Ele tinha um rosto oleoso e um estranho sorriso amarelado que raramente saía de sua boca.

E era um filho da puta, no sentido literal da palavra. Ainda assim, era o único contato que Átila e sua irmã poderiam considerar com uma “amizade”.

O marinheiro dissipou os pensamentos de Átila no momento em que partiu para cima de seu amigo com raiva. Ele não estava armado, apenas alguns militares tinham esse privilégio, armas eram escassas. Ainda assim ele era bem forte, e com toda certeza conseguiria espancar alguns continentais sem muito esforço, com Pablo, em teoria, não seria diferente.

Mas ele estava em um mundo prático. O garoto latino continuava a dar pulinhos sorrindo, enquanto o marinheiro movimentava o cotovelo para trás de suas costas, preparando um soco enquanto continuava a correr. A mão fechada do marinheiro atingiu com força o rosto de Pablo, fazendo com que ele desse um passo para trás. O militar não perdeu tempo e tentou chutar as costelas do rapaz, que aparou o golpe com as mãos absorvendo parcialmente o impacto.

Antes mesmo que Pablo pudesse pensar em contra-atacar recebeu outro soco em seu rosto, mais fraco que o anterior, e um chute direto no estômago. O garoto ficou sem ar, o golpe o forçou a abaixar seu tronco, para que a respiração se tornasse mais fácil, mas logo que se abaixou recebeu uma cotovelada em suas costas, que veio de cima para baixo, levando-o ao chão.

Átila poderia intervir facilmente naquele momento, mas novamente estava com medo. Aquele marinheiro era diferente do último que encontrara, portanto a surra também seria diferente, as possibilidades de morrer apanhando eram bem altas. Além disso, Pablo havia dito para não interferir, então, ele não o iria fazer.

Observou o amigo no chão, se contorcendo de dor, enquanto o marinheiro o observava cautelosamente de cima. Aquela briga não seria justa, como as que aconteciam nos ringues clandestinos espalhados pela zona superior de Atlântida.

Vendo que o rapaz que acabara de espancar esboçava alguma reação, um vestígio de que poderia se colocar de pé novamente, o marinheiro se voltou para uma das paredes úmidas do beco em busca de qualquer objeto que o ajudasse a machucar o garoto. Viu uma garrafa de vidro a cerca de três metros atrás de si, na entrada do beco. O militar foi em direção a garrafa e pegou-a, mas quando voltou seus olhos para o garoto, ele não estava mais lá.

Confuso, passou os olhos pela viela em que se encontrava, buscando qualquer rastro de Pablo. A última coisa que conseguiu ver foi um rapaz, ainda mais franzino do que aquele que havia sido espancado, saindo de trás de uma caçamba de lixo.

Os olhos do marinheiro foram perfurados por dois pregos, que foram fundo o suficiente para atravessar o globo ocular, mas não chegaram a matar. A dor era perfurante, e ele estava cego, o que tornava o sentimento ainda mais intenso. O sangue jorrava, e ele sabia disso. Tentou fechar os olhos para parar o sangramento, mas as pálpebras encontravam o metal, agora quente, ensanguentado.

Pablo desceu de um dos prédios que formavam o beco, enquanto observava Juno no chão, com um martelo na mão. Ele não sabia como ela havia chegado ali, e muito menos como ela arremessou os pregos, mas aquela garota dava arrepios. Acabara de cegar um homem, formando uma cena grotesca, mas sua expressão não demonstrava algum tipo de remorso.

Ela não entendia que aquilo era errado, então, se sentia bem cegando alguém, se isso significasse salvar seu amigo e seu irmão.

E com a mesma ausência de expressão, Juno seguiu lentamente em direção ao marinheiro ajoelhado, que arrancava os pregos de seus olhos. Levantou o martelo o mais alto que conseguiu

E martelou a cabeça do marinheiro.

Martelou

E martelou

Toc

Toc

Toc

Até a casca se quebrar.

Notas finais
Oi Galera eu estou estudando mais do que eu poderia querer. (E tenho que ir pra fazenda agora, por isso a pressa pra postar) Final de semana passado eu tinha escrito esse capítulo, mas ficou uma bosta. Eu não queria colocar um capítulo bosta aqui, então, peço desculpas. Enfim, eu reescrevi mudando tudo, porque eu fui obrigado pela minha consciência, e estou postando hoje porque me sinto melhor assim. Tá curto, mas é porque o de amanha vai ser maior. Novamente me desculpem, estou de coração partido. Até