Trinity
15 Do ventrículo direito para a artéria pulmonar
Notas iniciais
O sangue sujara a pele branca de Juno, ela tentava, sem muito esforço, retirar da calça o que sobrara dos miolos do marinheiro. Não havia entendido muito bem o motivo de seu irmão a ter repreendido tanto, afinal, ela fizera aquilo para salvar ele e Pablo. No fim, Átila cedeu e entendeu o porquê de suas atitudes, não concordou, mas entendeu. Diferente dele, Pablo ainda estava assustado, muito assustado, fato que fazia Juno se sentir um pouco mal.
O rapaz estava sentado em sua frente naquele veículo, mesmo assim evitava olhar diretamente para ela. Ele se sentia desconfortável enquanto Átila parecia indiferente.
“Ao menos meu irmão está feliz por eu ainda estar viva” – pensou a garota, enquanto tentava estabelecer comunicação visual com Pablo, atitude que se mostrou ineficaz, mesmo considerando o momento em que se encontravam. Juno queria parabenizá-lo pelo plano genial que montara em conjunto com Átila, mas ele não se mostrava sociável – “Anotado. Da próxima vez sem pregos e martelos”.
Tudo aconteceu rápido demais para Juno, ela não entendeu muito depois do acontecimento do beco. A revolta, os buffs... Tudo. Logo que um dos elevadores da pirâmide foi burlado, os atlantes montaram seu plano de defesa. Como esperado eles focaram em estabelecer seus batalhões nos níveis médios e inferiores, onde a elite local se concentrava.
Mas diferente da primeira revolta de Atlântida, onde os continentais eram guiados pelo ódio, essa pequena revolução fora guiada pelo medo, aliado a uma esperança de vida autônoma. O setor 5-B era grande, cerca de cem mil continentais conviviam ali; claro que tal convivência não era nem um pouco harmoniosa, mas ela ainda existia. Todos eram guiados pelo medo, viviam em função de um vestígio da esperança de que um dia conseguiriam sair do controle dos continentais.
Um dia a esperança apareceu, funcionando como uma argamassa, uma ideologia comum e compartilhada que uniu pessoas completamente diferentes entre si em busca de um objetivo comum:
Migrar.
Logo que os continentais descobriram que os buffs ,que aqueles garotos golpistas encontraram, eram uma manifestação real de que seu sonho era possível passaram a chamar a sua pequena revolução interna do setor de “diáspora”.
O nome referenciava bem o que viviam ali, mas sabiam que seu povo não seria lembrado nos livros de história.
Os atlantes acreditavam que o povo do 5-B iria para o sul.
Eles foram para o norte.
Quanto mais próximo da superfície, menos combustível as naves gastariam para emergir. Os guardas despreparados dos hangares, que se localizavam no topo da pirâmide, foram surpreendidos por dez levas de continentais saídas de vários elevadores que levavam ao topo.
A liberdade foi retomada pelo roubo, mas o valor daquele furto era insignificante comparado ao que lhes foi tirado.
Átila fornecera tal liberdade, “de graça”. No fim ele só queria fazer o mesmo que os continentais: sair dali e procurar viver em outro lugar. Por mais hostil que a ideia parecesse, ele não tinha tanto medo do desconhecido quanto tinha da própria Atlântida, e isso refletiu em sua negociação. Ele poderia ter pedido dinheiro, putas, assassinatos... Poderia ter pedido qualquer coisa que imaginasse em troca dos buffs, mas a empatia falou mais alto. Mesmo contra as vontades de sua irmã, ele concordou em fornecer todos os buffs (bem... Quase todos, segundo o que se encontrava em sua mochila) para os continentais em troca de uma simples atitude.
Ele e Juno teriam que ser os primeiros a sair dali. E assim aconteceu.
Um veículo que era uma espécie de submarino com avião com barco, que claramente Átila não conseguia definir, era o seu transporte. Havia espaço para cerca de vinte pessoas ali, e toda uma estrutura para viagens longas: camas, banheiros, cozinha... Tudo ocupava o mínimo de espaço possível, mas estava ali.
O rapaz só não entendia muito o motivo de haver um veículo para viagens longas ali, o mundo estava destruído, não havia lugares para se visitar.
Ou havia?
Átila afastou o pensamento de sua cabeça, e se pôs a pensar no veículo novamente. Mesmo que o espaço fosse enorme, ele não estava ocupado. Só existiam sete tripulantes e, assim como ele, todos os que estavam ali contribuíram diretamente para o êxito da revolução, portanto a eles foi concedida a mesma opção que outrora fora a exigência dos irmãos: serem os primeiros a saírem dali.
Ele e Juno se destacaram por conseguirem os buffs.
Pablo por elaborar o plano de fuga.
O velho John por incitar a manifestação popular. Ele era como um ícone religioso para aquelas pessoas; um “messias”, que os guiaria para um lugar onde viveriam sem abusos. Átila não gostava dele, primeiramente por que suas ideias eram utópicas, e algo dizia que ele próprio sabia que elas não funcionariam na prática. Segundo por que ele usava a desculpa de ser velho para que as outras pessoas servissem a ele, assim como os eleitos usavam a desculpa de terem a cidade para que os continentais servissem a eles. E por último, mas não menos importante: Ele não estava guiando seu povo. Ele o deixou para trás.
Os outros três eram apenas gênios: os irmãos senheiros. Átila achava divertido chamá-los assim, ao menos em pensamentos, já que uma manifestação em voz alta significaria outra surra. Eles eram reclusos, mas sociáveis entre si. Marie, Erwin e Werner. Não se sabia muito sobre sua história, mas segundo Átila era “alguma coisa sobre pai técnico da marinha que foi exilado e eles ficaram putos”.
Marie era da idade de Átila, e era pequena e magra, assim como ele. Seus cabelos e olhos tinham a mesma cor: dourados, o que faziam sua aparência se tornar um tanto quanto bonita na opinião do rapaz. Claro que ele não havia notado que seu cabelo era longo o suficiente para que seu rabo-de-cavalo chegasse ao quadril, muito menos de que seu sorriso de canto era tímido e fofo, mas não o suficiente para fazer com que borboletas surgissem no estômago do rapaz, claramente não era fofo a este ponto. Ela parecia genial em tudo o que falava.
Por algum motivo Átila gostava dela, mas Juno não.
Quanto aos seus irmãos, Erwin e Werner, eram gêmeos. Se Átila conhecesse um pouco mais os pais dos rapazes ele arriscaria dizer que os nomes eram um trocadilho com um físico austríaco e outro alemão, até mesmo o nome de Marie não parecia estar ali ao acaso. Os cabelos e olhos dos gêmeos eram exatamente da mesma cor dos da irmã, mas diferente de Marie, o rosto dos dois expressava uma seriedade. Seriedade essa que era quebrada a quando eles abriam a boca, já que todas suas frases envolviam algum trocadilho que só os dois entendiam.
Átila não entendia muito bem, mas pelo o que parecia, Juno tentava rir daquilo, mas não conseguia. Isso sim era engraçado. Ele se divertia ver a irmã tentando uma socialização com qualquer pessoa que não fosse ele mesmo. Exceto as muitas vezes quando mentia Juno não era a rainha das conversas, ainda assim ela se dava melhor do que Átila nesse quesito. Ela não sabia como se portar, mas a influencia disso era mínima: sua irmã não tinha medo, ele sim.
Os gêmeos eram fortes e altos. Seus corpos, magros e definidos, lembravam a estrutura física de um boxeador. Ainda assim se destacavam muito mais pela sua inteligência do que pela constituição.
Logo que entraram no veículo, os dois assumiram o comando, mesmo com os protestos do velho John. Átila se sentia muito melhor com o velho longe dos continentais em geral. Antes, ele era um deus, agora era passível de receber um grito de “você não tem poder aqui”.
O garoto franzino sorriu com o canto da boca, enquanto ouvia John falar sobre como deveriam proceder, e simplesmente ser ignorado pelos gêmeos.
— Senhor, você já tem mais de cinquenta anos. Observe aquela poltrona – Werner apontou para um assento em um dos saguões da nave. Provavelmente era ali o local ideal pra se sentar enquanto emergiam – Imagine que ela é a última cadeira da fila para a aposentadoria. VÁ, MEU AMIGO, SENTE-SE E ESPERE.
A frase do garoto só enfureceu ainda mais o velho, que parou de falar. Apenas encarou o rapaz e seguiu, com relutância, as ordens. Werner infantilmente mostrou a língua enquanto John o encarava.
Após o pequeno conflito, eles seguiram. Deixaram o Hangar em segurança.
Deixaram Atlântida.
x-x-x
Átila enfim entendera que ser um dos primeiros a desbravar o “novo antigo mundo” não era necessariamente uma vantagem, e pela expressão que o velho estranho fez, ele também.
Assim que estavam reunidos no compartimento da nave que Átila apelidou carinhosamente de “ventrículo” (ele precisava de um contraponto para o “átrio” das construções romanas), uma espécie de sala de reuniões com uma mesa branca enorme, circundada por cadeiras acolchoadas da mesma cor, Werner se pôs a explicar a situação, causando espanto a todos, exceto aos próprios irmãos:
— Bem vindos à mesa, cópias infiéis de Colombo – ele disse em pé, apoiando os braços sobre a mesa, tentando estabelecer uma postura dominante. Todos os outros estavam sentados, então, ele provavelmente conseguiu já que estava sendo olhado de baixo para cima — Vocês devem ser espertos o suficiente para entender o motivo de nós estarmos aqui, não é mesmo? – fez uma pausa, fingindo esperar uma resposta, o que deixou John um pouco irritado — Exatamente senhor Gaspar – ele observou um vazio entre as cadeiras da mesa, sorrindo – nós nascemos com o cu virado para a lua! Claro que existem pessoas que são ainda mais sortudas que nós, os eleitos por exemplo...
Dito isso olhou estranhamente olhou para Átila e Juno, o que assustou um pouco o jovem. Será que ele sabia de sua procedência? Átila esperava que não; mas rapidamente Werner voltou a sua pose padrão e voltou a proferir para o grupo como um todo:
— Mas deixe os eleitos de lado, nós somos continentais! Ou mais do que isso, agora nós somos outra coisa... Migrantes, fugitivos, judeus, caipiras, favelados... Seja lá o que for que sejamos nós não estamos isolados, nós ainda somos um povo. É importante frisar que nós fomos os primeiros a sair dali, mas não vamos ser os últimos, mas é claro que todos sabemos disso, não é mesmo? – disse sorrindo com o canto da boca – Mas para o seu desgosto, meu amigo vigário, nossa vantagem pode ser a nossa perdição. Caralho, vocês não pensam não? Tipo, oferecem a oportunidade de saírem daquela pirâmide e vocês aceitam mais rápido do que um Jamaicano perto de um americano dopado – Juno não entendeu a referência, mas ignorou – Aposto que não leram os termos de contrato!
Átila arriscou uma piada
— Na verdade não, eu vendi minha alma?
— Não
— Ufa!
— Foi pior do que isso! Eu acho que passar uns dias com o capeta seria melhor do que aturar o que vai acontecer.
John reprimiu os dois com o olhar, provavelmente não gostava que falassem tão abertamente sobre assuntos que envolvessem o plano espiritual, aquele era seu domínio. Seu esforço silencioso para que aqueles jovens não profanassem o local foi ignorado por Pablo, que estava brincando com um prato de porcelana que encontrara na mesa, e também tentou ser bem humorado:
— Cara, eu estou perto da sua irmã. Mesmo que eu tivesse que descer ao inferno eu ainda estaria no paraíso!
Diferente dos comentários de Átila e Weber, Pablo chamou a atenção. Juno olhou para ele como se dissesse “É sério isso?”, enquanto Marie corou e desviou o olhar. Átila sentiu uma pontada aguda no coração, estaria ele ficando velho? John estremeceu de raiva, mas bem menos do que os gêmeos, já que Erwin disse ironicamente:
—Vai com calma tigrão, ela não se interessaria por um filho da...
Vendo onde o comentário iria chegar, e na esperança de evitar uma possível briga ( e de quebra tentar conseguir qualquer motivo para conversar com Marie) Átila se pôs no meio da fala do gêmeo, dizendo
—Opa! Isso é um tanto quanto engraçado, mas não vamos perder o foco! Eu estou com fome e acredito que Juno também – disse apontando para fora – A cozinha tem alguns mantimentos, e assim como eu aceitei a proposta de ser o primeiro rapidamente, eu não vou perder tempo em atacar o-que-quer-que-esteja naquela geladeira. Então, Werner, acho que você deveria continuar explicando o que começou.
Átila teve êxito em seu objetivo, a atenção foi voltada para ele. Fez-se um minuto de silêncio.
— Puta...
Pablo atirou o prato que estava em sua mão como um disco na direção da cabeça do gêmeo. O impacto fez com que a porcelana se quebrasse, e Erwin caísse para trás com o susto. John saiu da sala resmungando, Juno riu.
A viagem seria longa.
x-x-x
Erwin estava com a boca tapada e o olho roxo. Pablo com as mãos amarradas e um letreiro em seu peito que dizia “não devo agredir os outros tripulantes”. Era o castigo mais infantil que se poderia imaginar para o momento, mas se mostrava eficaz.
Foi sugerido por Juno, que de alguma maneira conseguiu forçar os rapazes a serem constrangidos. Átila começava a repensar a sua ideia de quão boa ela era com pessoas.
Visto que os ânimos estavam acalmados, Werner continuou:
— Espero que você não me interrompa mais, rapazinho – apontou para Átila, que de uma forma ou outra, havia começado aquela confusão – na próxima vez eu não vou pensar duas vezes antes de te mandar para a diretoria. De toda forma, vamos ao que interessa. Vocês já devem saber que aquele cara ali – ele apontou para John – é como um Messias, um príncipe do egito, um líder nato... Um símbolo. – Olhou para a expressão de todos na mesa, e notou o desgosto estava estampado nos rostos em geral, exceto do próprio John que parecia lisonjeado – É, eu entendo vocês, eu também não gosto deles, e acho religião uma questão inútil.
O velho estava pronto para protestar contra a frase, mas parou logo que o próprio Werner fez um sinal com a mão. Percebeu que a conversa tomava um tom sério, e continuou a escutar.
— Para sua infelicidade – disse diretamente para John – eu não estava brincando quando disse que ser o primeiro a sair de Atlântida era uma vantagem. Nossa nave é mais rápida, sim, mas o combustível dela é escasso. A consequência disso é de que temos uma viagem de ida apenas.
Conforme ele ia falando, os rostos se tornavam mais atentos, envolvidos pela conversa.
— Todos nós nos destacamos em um quesito para os continentais de Atlântida. Sagacidade, religiosidade, poder – voltou-se para Átila e Juno – Mentira... De qualquer jeito, nós sete como um todo representamos muito mais do que isso, nós representamos a esperança.
A frase chocou, Átila já sabia o que viria a seguir.
— Nós não somos privilegiados, nós somos um esquadrão quase suicida. As naves de Atlântida são o suficiente para que os continentais passem a se tornar marítimos. Desculpe o trocadilho. Nossa missão é justamente achar algum lugar onde a vida seja viável, de uma forma rápida. Fomos escolhidos porque eles acreditam em nós, sabe? Nós não sabemos o que encontraremos pela frente, independente de ser melhor ou pior do que Atlântida, eu assumo que estou com medo...
...Nós devemos viver para que eles vivam, e é isso que me assusta.
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