Trinity

19 Alegoria


Notas iniciais
Oi! Como prometido, ainda saiu no final de semana. Eu sei que o capítulo passado foi bem curto, mas esse teve um tamanho normal, o que é uma surpresa pra mim mesmo, considerando que fiz simulado ( AI QUE NOVIDADE NÉ) hoje, e tava bem cansado quando escrevi. Enfim, nos vemos nas notas finais.

A formação geológica daquela caverna privilegiaria a vida de um Neandertal nômade. A abertura formada na base de um pequeno monte se estendia para dentro do mesmo, de forma com que se assemelhasse a uma mansão secreta: inúmeros corredores levavam a galerias escondidas, onde alguém que não conhecesse bem o local se perderia facilmente. Ainda assim a cavidade provia abrigo tanto contra fatores naturais, como chuvas, ventos, frio ou calor, quanto contra predadores, o que a tornava um tanto quanto convidativa. Os pequenos animais que viviam ali, como alguns artrópodes e mamíferos noturnos, em geral se demonstravam inofensivos, além de que faziam companhia para o humano que residia ali.

Em sua entrada era possível ver claramente os efeitos do entardecer. O bosque que ficava a frente do monte exemplificava claramente a mudança de turnos naturais: animais com hábitos diurnos voltavam às suas tocas enquanto os noturnos tomavam o ambiente, de forma rápida e discreta, em busca de alimento. O horizonte apresentava apenas metade da figura do sol, cuja luminosidade alterava novamente a cor do céu, que se tornava cada vez mais escuro e vermelho. Em contraponto, a lua já se apresentava no ocidente.

Esse horário propiciava um efeito interessante no interior da caverna. Os raios de luz incidiam diretamente sobre a o bosque, que por sua vez projetava sombras perfeitas sobre a cobertura rochosa, fazendo com que imagens se formassem. Em geral, os vultos vistos tomavam o aspecto das árvores, mas vez ou outra era possível distinguir um pequeno animal que transitava sobre o local.

A sobreposição de sombras e luz fazia com que a entrada da caverna se assemelhasse a um teatro da vida real, e entretivesse o homem deitado sobre o chão duro e frio. O aspecto de seu rosto o dava uma aparência jovem, que entrava em contraste com sua expressão séria e madura. Os olhos puxados referenciavam à uma descendência asiática, o que não era incomum quando se considerava que a Oceania é um continente relativamente próximo. Apesar de viver isolado da sociedade seu corpo era limpo e sua higiene parecia ser ótima, mas fora isso ele era comum: altura comum, corpo comum, cabelo comum... todas as características de um homem comum: imperfeito.

Imperfeição.

A palavra, aliada as sombras que começavam a se desfazer no teto, o fazia lembrar-se de um mito que aprendera na academia quando mais novo. Assim como ele algumas pessoas viviam dentro de uma caverna e, para elas, a projeção das sombras formava o mundo real. Quando um dele se dispôs a quebrar as correntes que o prendia a ilusões, foi criticado. Em um momento de reflexão o homem de olhos puxados acreditou estar em um caminho oposto: ele preferiu se isolar da sociedade “real” e se colocar, sozinho, em um ambiente onde as preocupações eram, no mínimo, menores.

Sua própria imperfeição, dificuldade de se relacionar com as pessoas e personalidade amarga eram, ao mesmo tempo, seu céu e inferno. Por mais que encontrasse conforto em viver isolado, e fizesse o possível para convencer a si mesmo de que era feliz assim, sabia no fundo o quanto era frustrado por possuir tais características. Talvez se fosse um pouco mais corajoso, ou um pouco mais forte, poderia escolher uma carreira que agradasse sua família.

Mas não se arrependia da medicina.

O rapaz se perdia no meio de seus pensamentos, de uma forma em que melancolia e êxtase existiam mutuamente. O sol se pôs, as sombras se desfizeram completamente, mas ele ainda continuava em um universo imperfeito.

Sons de galhos se quebrando, aliado a um coaxar incomum para o horário e região, o trouxeram de volta para o plano físico.

Visitas.

Que droga.

Dominic não estava em condições emocionais adequadas para prestar atenção no local que o rodeava, por mais que fizesse isso naturalmente. Apenas notara que, ainda que estivesse a um bom tempo na região que cercava sua vila, não sabia praticamente nada sobre a região onde se encontrava. Existiam alguns pontos de referência, como o riacho que acabaram de atravessar e algumas rodovias abandonadas, mas de maneira geral, não conseguiria voltar para casa se o largassem ali. A pequena montanha a sua frente tinha uma abertura na base, e Sky corria para a mesma, enquanto deixava para ele e Helena a responsabilidade de carregar o homem que sobrevivia bravamente. Ele não se deixaria carregar caso soubesse a vontade de Dom em retirar essa bravura.

Em contraste ao homem quase morto, o garoto sapo parecia um tanto quanto vivo. Por mais que Dominic tivesse passado apenas uma tarde em sua companhia, era notável o fato de ele estar feliz. Sua liberdade era sensível e contagiante; ele explorava e redescobria o mundo, mesmo não se afastando mais do que vinte metros do restante do grupo. Dom se entretinha o assistindo brincar, até que

— JACK, EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AÍ, APAREÇA. – o grito que veio de Sky chamou sua atenção. Ele ainda se impressionava com o fato de uma garota tão pequena ser tão... bruta.

O homem que saiu da fresta rochosa tinha uma estatura mediana, diferente de tudo o que ele havia imaginado. Por exceção de seus olhos tinha uma aparência normal, nada de um físico desenvolvido, ou mesmo um perna manca, como seria de se esperar de um médico.

Apesar disso, tinha uma expressão carrancuda, de poucos amigos, consideravelmente adequada a partir do momento em que ele foi chamado de seu abrigo durante o início da noite.

O silêncio se fez.

Jack analisava os visitantes antes de dizer qualquer coisa. Ele já conhecia Sky; ela o irritava periodicamente com pedidos de remédio, ajuda, entre outras coisas que os habitantes das vilas demandavam, mas em contraponto vez ou outra trazia bebidas e notícias, o que gerava certa simpatia. Fora ela, estava ali uma mulher com roupas rasgadas e uma expressão dura, mas bonita, provavelmente com a sua idade ou um pouco mais velha; Um híbrido, que incrivelmente parecia ser consciente, o que era uma surpresa comparado à todos os outros humanos com características animalescas que vira quando estudara medicina e um rapaz forte com o aspecto triste, que foi o que mais chamou sua atenção: ele tinha um físico de um marinheiro de Atlântida e a aparência de um eleito, que se justificavam pelo seu cabelo azul; o tempo que Jack trabalhou no exército permitiu o contato com as elites militares das outras cidades, e o rapaz a sua frente realmente se assemelhava à uma ameaça.

Mas nenhum dos outros sabia.

E, ah, havia outro com eles. Um militar de Telúria, que gotejava sangue pelo abdome.

— Oi Sky – disse, não olhando uma vez sequer para os olhos de qualquer um dos membros do grupo, com exceção ao híbrido – O que você quer? Não, espera, deixa eu pensar... Quer conversar? Hum... – fez uma pausa, rondando em círculos, continuando a desviar o olhar – Não, você não quer conversar! Sempre precisa de algo! Não te julgo, mas sinto que dessa vez não posso ajudar. Vai embora.

Todos olharam para ele, estupefatos. Ainda que com o rosto confuso, Sky foi a primeira a falar:

— Quê!? Desculpa, mas pelo o que eu me lembre eu não disse nada – ela segurava as próprias mãos com força, como se estivesse se contendo – Glenn, tape os ouvidos, por favor – o garoto não questionou as ordens da outra asiática.

Um pequeno período de silêncio se fez.

...

— SEU JAPONÊS FILHO DA PUTA, EGOÍSTA DO CARALHO. OLHA PARA O ESTADO DEPLORÁVEL DESSE OUTRO FUDIDO AQUI – gritava ela, apontando para Lázaro, que ainda estava nos braços de Dominic – VOCÊ NÃO CONSEGUE RACIOCINAR QUE TALVEZ A VIDA DELE SEJA SALVA? SUA ATITUDE É UMA BOSTA! SE TIVESSE UMA FAMÍLIA ELA SENTIRIA DESPREZO POR TER UM MEMBRO TÃO ARROGANTE.

Jack provavelmente ignoraria os insultos e entraria novamente para a caverna, mas sua consideração para com a mensageira fez com que comprasse a briga.

— Você entende que me insultar não vai me fazer mudar de ideia, não é? Desculpa Sky, eu poderia dar uma puta explicação dos meus motivos, mas eu não vou gastar tempo tentando. De toda forma, se você não percebeu o homem que está sangrando não parece ser a melhor as pessoas, por que você quer ajudar ele?

A discussão foi quebrada por um grito de dor de Lázaro, seguido de um comovente:

Ajuda, por favor.

Jack e Sky o silenciam em uníssono:

Cala a boca!

Jack voltou seus olhos para ele, ao mesmo tempo em que percebia suas vestimentas.

— Ele ainda é militar, caralho! Você trouxe alguém do exército para minha casa, vai tomar no cu! Eu não vou ajudar ele não.

O comentário fez com que a cabeça de Helena se enchesse de dúvidas. Aquele homem acabara de invadir sua vila e capturar seu povo, não fazia muito sentido ele ser do exército de Telúria. Perguntou para Jack:

— Como você sabe?

Os braços de Dom se cansaram com o peso do homem. O rapaz de cabelos azuis largou o militar no chão bruscamente e sentou-se. Por mais que estivesse do lado da Sky naquela discussão, não queria intervir. A morte ou vida do soldado pouco importava naquele momento.

Não era problema dele.

Jack se colocou a explicar:

— A roupa branca, o cabelo padronizado, a barba bem feita... Sério que não repararam?

— Nossa vila fica a mais de dois mil quilômetros da capital. Nenhum de nós nunca viu a capital, muito menos os poucos que trabalham pra ela. Como você sabe disso?

A postura, ao mesmo tempo dura e gentil, de Helena cativou Jack, que por um momento se interessou em explicar seus motivos para a mulher.

— Pra resumir nasci lá, ou melhor, eu conheço bem as tropas. Não quero ajudar militares.

— Cá entre nós, se ele ficar vivo, eu asseguro que não voltará a ter contato com o exército.

— Eu não estava me referindo ao homem machucado – pela primeira vez seu olhar focou em algo: Dominic.

O rapaz ficou assustado com isso, mesmo que não tivesse entendido muito bem o comentário. Ou ao menos fingiu que não entendeu. De toda forma a circunstância não era a melhor hora para qualquer tipo de interação com aquele homem.

— O que você quis diz...

— PARA DE FALAR, PORRA, TEM UM HOMEM MORRENDO AQUI.

Ajuda... Eu posso ajudar... Vagabundos...

­— SEU GUARDA, EU NÃO SOU VAGABUNDA!

— Jack, não é? – Dominic se pôs a falar, tentando se acalmar – Ajude ele a nos ajudar, por favor.

— Foi mal, boina branca, não dá pra confiar.

Silêncio.

A claridade do local era responsabilidade da lua. O sol já havia se posto totalmente. Sky andava em círculos resmungando palavrões, de línguas que deixariam qualquer habitante mundial ofendido, tentando se conter. Helena observava tudo, mas não entendia nada do que estava acontecendo. Glenn já estava distraído há um bom tempo com uma colônia de cupins, só não se sabia ao certo se ele brincava ou comia.

Dominic se irritou.

Em um movimento rápido e inesperado o rapaz de cabelo azul agarrou Jack pelo pescoço e o jogou no chão. Logo e seguida colocou o pé sobre o peito do mesmo, que mesmo com muito esforço não conseguia se soltar: ele era fraco.

— GLENN, FECHA OS OLHOS – Sky entrava em um estado de frustação. Estava sendo ignorada desde o começo do encontro, mas mesmo assim não deixava de resmungar sobre os acontecimentos do mesmo – ISSO DAÍ, MACHÃO, MATA ESSE DESGRAÇADO.

Me ajuda, caralho...

FICA QUIETO, CORNO.

Dominic observava o outro abaixo de seus pés, como uma presa encurralada. Ainda assim, não se sentia no domínio do mesmo.

— Escuta. Por favor, não torne o que a gente está passando ainda mais difícil – disse, escondendo o rosto com o antebraço. Lágrimas não seriam uma boa apresentação naquele momento. Manteve a voz firme — Esse é, com toda certeza, o pior dia da minha vida... Eu matei um homem – lembrou-se da cena na Vila de Helena, mas a guardou para si – A minha irmã morreu...

...

— Eu não ligo.

A expressão de Dominic mudou, a tristeza se transformou em raiva ao mesmo tempo em que ele pressionou o peito de Jack com o pé, que com muita força, e pouco ar nos pulmões, conseguiu pronunciar:

Continuo não ligando.

Helena puxou Dominic para trás, mesmo que contra sua vontade. Jack deu pequenas batidas em seu peito, limpando a poeira do recente pisoteio, se apoiou no chão e se sentou de pernas cruzadas.

— Você pode ter me interpretado mal, fortão. Respeito seu sofrimento, mas não é isso que vai me fazer mudar de ideia, além de que eu não te conheço, sua vida não diz respeito a mim. – disse calmamente – você não deveria deixar com que suas emoções te levem a esse ponto, isso faz um mal danado para o coração sabia? Mas de toda forma, mudei de ideia.

...

— Eu vou ajudar, mas por causa dela – disse, apontando para Sky com a mão livre.

— Vai tomar no cu.

x-x-x-x-x

A sala onde a operação estava sendo feita não era um exemplo de estrutura medicinal, pelo contrário, era apenas uma parte da caverna mais limpa, arejada e fresca do que as outras. A higiene do local não apresentava nenhum risco de infecção, e algumas irregularidades na parede da caverna serviam de prateleira para artigos hospitalares como remédios, agulhas entre outros objetos cirúrgicos.

Estes, por sua vez eram velhos e desgastados. Alguns pareciam inclusive improvisados, como algumas lâminas que pareciam mais facas de cozinha.

Ou de um açougueiro, dependia do ponto de vista.

Lázaro observava Jack vestir luzas e uma máscara com os olhos arregalados. Seu medo de hospitais fez com que reunisse as últimas forças de seu corpo para perguntar, assustado:

— Você não tem algum tipo de analgésico, ou anestesia?

— Tenho, só não vou usar.

Notas finais
Então vocês conheceram o Jack Jack Chuu Legal o nome, né, me lembra um ator que faz aqueles filmes das 18:00 ( hora do rush hur dur, sou piadista). Enfim, eu gostei de brincar com ele. Se perceberam o capítulo tá meio mal acabado, o que é proposital. O próximo capítulo não é desse arco, mas as decisões vão ser conjuntas, já que a explicação do que tá acontecendo + possibilidades de decisão estão no próximo cap ou no depois do próximo. ME DIGAM QUE NÃO ME ABANDONARAM Aliás, qualquer erro que encontrarem, ou qualquer sugestão, crítica e esse tipo de coisa, me falem POR FAVOR. TCHAU Tem referencia de musica de corno no capítulo