Trinity
20 Sorvete
Notas iniciais
Átila perdeu o sono pela segunda vez na noite. Pela primeira se forçou a ficar quieto e tentar dormir novamente; conseguiu, mas agora era diferente, por mais que tentasse controlar a respiração ou mesmo pensar em carneirinhos ele não conseguia pegar no sono novamente.
Estava incomodado.
Olhou para a cama que ficava do lado da sua e viu Juno dormindo profundamente, diferente dele a irmã não tinha problemas com relação ao sono. Sua expressão estava tranquila, mas não era por menos, aquela fora primeira noite em que tinham a possibilidade de dormir razoavelmente bem desde que conseguiram os buffs. Átila checou sua mochila e se certificou de que alguns dos pequenos frascos do líquido que permitiram sua saída de Atlântida estavam lá. Ele não sabia o porquê, mas sentia que eles seriam úteis mais tarde.
Até o momento ele não havia conseguido pensar sobre o que havia acontecido. Em resumo ele, a irmã e Pablo fugiram de um ambiente hostil com certo louvor. Até certo ponto os fatos caminhavam para um final feliz: poderiam de alguma forma reconstruir suas vidas longe de Atlântida. O que realmente incomodava o rapaz era a responsabilidade atribuída.
Precisava espairecer.
Com cuidado para não acordar sua irmã, Átila se levantou de sua cama e se moveu para a porta do quarto. Não se importou com o fato de estar sem camisa, afinal o relógio apontava três da manhã, todos os tripulantes ainda estavam dormindo. Na ponta dos pés e fazendo o mínimo de barulho possível chegou à cozinha.
O ambiente era compacto, mas aconchegante. A estrutura da nave, que Werner batizou de Ariel – uma referência a algum tipo de princesa que queria fugir de Atlântida -, o lembrava de sua casa. Não o setor 5-B, que era um lixo, mas sua antiga casa. Ele sabia que assaltar a geladeira naquele momento provavelmente comprometeria uma de suas refeições posteriores – Erwin havia avisado que o racionamento de alimentos era de suma importância para uma convivência pacífica, e que a quebra do mesmo resultaria em punições – mas Átila não ligava. Ele só precisava esfriar a cabeça, e nada melhor do que um sorvete para tal.
Escolheu um sabor aleatório, abriu o pote e começou a comer ali mesmo, escorado sobre um balcão de madeira que separava o fogão da pia. Concentrou-se no sabor doce do sólido gelado que se liquefazia em sua boca: há muito tempo ele não saboreava algo realmente gostoso, deveria aproveitar aquele pequeno momento.
Mal notou quando uma garota entrou no ambiente, malvestida despenteada, e se assustou ao se deparar com um rapaz magrelo sem camisa.
— AAH!
O coração de Átila disparou com o grito. Assustado, se sentiu impotente por um milésimo de segundo, mas conseguiu chegar até a garota e colocar a mão sobre sua boca para que a mesma não acordasse ninguém. Levar um esporro naquela hora não lhe parecia agradável.
Porém, soltou imediatamente quando percebeu que era Marie. Seus batimentos se aceleraram ainda mais e sua pele tomou um aspecto pálido, por exceção do rosto, corado.
— O- Oque? – foi a única frase que conseguiu formular no momento.
Marie desviou o olhar para baixo, ficando calada. Obviamente ela também estava envergonhada, afinal, ambos estavam despreparados para aquele encontro repentino. Quando Átila percebeu que estava seminu, tentou esconder seu corpo atrás do pote de sorvete.
A atitude chamou a atenção da garota; não por Átila estar sem camisa, mas pelo pote de sorvete. Ela disse baixo, ainda olhando para o chão:
— Você sabe que não pode tomar isso, não sabe?
O garoto desviou o olhar, ainda mais envergonhado. Droga, ele só queria comer alguma coisa antes de morrer.
— Sei...
— Então por que está tomando?
Átila não conseguia formular uma resposta decente, em sua cabeça todas pareciam idiotas perante aquela linda, e inteligentíssima, garota. Em qualquer outra ocasião – leia-se golpe – ele poderia colocar qualquer desculpa para ganhar tempo, como dizer que seu corpo precisava de açúcar para sobreviver ou algo do tipo, mas os cabelos compridos de Marie o distraíam demais para isso. Disse a primeira frase que veio à tona:
— Porque eu quero.
A resposta chocou a ambos.
— Oi? – Perguntou Marie, com a sobrancelha levantada.
— ...
— Olha – começou, saindo da entrada e caminhando em direção a Átila, que continuava a desviar o olhar.
“Porque eu quero, que droga de resposta” — pensava, enquanto a observava caminhar. Ela, porém, pareceu mais tranquila depois do comentário do rapaz.
– Pelo pouco que eu sei de você, Átila essa atitude foi surpreendente – a fala o espantou. Esperava outro tipo de resposta, como ver a garota se incomodar com tamanha grosseria, porém, a quebra de expectativa fez com que ele ficasse avulso ao universo, refletindo por alguns segundos.
Aproveitando-se do garoto paralisado, Marie pegou um pouco de sorvete com o dedo e comeu, trazendo Átila de volta à realidade:
– Eu esperaria isso do seu amigo, Pablo, afinal ele é trombadinha o suficiente para sair arremessando pratos, mas vindo de você é uma surpresa... Você parecia tão...
— Cagão?
Ele realmente era, mas não era uma boa imagem a ser construída.
— Desculpa...
Marie voltou a encarar o chão. Então Átila percebeu o quão rude estava soando em suas falas, não por maldade ou apatia, mas por timidez. Ele precisava arrumar isso de alguma forma, mas continuava com medo da interação.
Além de que ela era bonita e inteligente demais para ele, falar algo parecia banal, era muito mais confortável ficar calado.
E a única pessoa que ele havia beijado era a irmã.
E pensar nisso dava náuseas, por mais que ele não soubesse como se sentia.
Mas como isso havia chegado a sua mente? “É só uma conversa Átila, vocês não vão se beijar nem nada do tipo” — Pensou consigo. Por mais que ele quisesse que envolvesse “algo do tipo”.
Um pequeno silêncio se fez. Marie ainda roubava o sorvete roubado sem que Átila percebesse.
Mais silêncio.
A garota dos cabelos compridos já se voltava para a porta quando Átila reuniu todas suas forças para tentar dizer algo:
— Você... camisola.. err... bonita... hum... O prato jogou o Pablo mas é legal!
...
...
A frase confusa fez com que Marie revesse novamente seus conceitos sobre a personalidade do rapaz. Estranho, cada frase dele era uma surpresa.
Além disso, ela percebeu que ambos estavam com pouca roupa.
Corou.
— Nossa conversa vai se reduzir a você falando coisas que me assustam?
...
— Desculpa, não sou muito bom com palavras.
— Não foi isso que me disseram. Você enganou um oficial da Marinha com elas, não foi?
— Foi diferente.
...
— O que eu quis dizer foi: Você está de camisola e ela é bonita, digo, você está bonita e é de camisola, e... – soltou o ar dos pulmões, mãos trêmulas — deixa pra lá, o que eu realmente queria falar é pra não ficar chateada com o Pablo. Ele não é nenhum “trombadinha” ou algo do tipo, ele só se irrita fácil. De toda forma, peço desculpas por ele ter brigado com seu irmão.
Marie pensou um pouco.
— Só pra constar eu estou desarrumada demais pra você me achar bonita, então, deixa isso pra outro dia. Segundo, seu amigo não tem culpa nenhuma – disse, sorrindo – o Werner é meio babaca.
Átila se divertiu com a resposta. Por mais que ainda se mantivesse nervoso, conversar não parecia uma ideia tão ruim quanto isso. Além de que ela estava tomando – leia-se roubando – seu sorvete.
Ambos se sentaram sobre o chão gelado da cozinha apoiando as costas na geladeira, um ao lado do outro, dividindo a fria sobremesa. A conversa se desenrolou com determinada facilidade para Marie. Por mais que Átila tivesse um pouco mais de dificuldade, se acostumava e ficava mais tranquilo a cada frase, afinal, a garota a seu lado era gentil, e uma boa ouvinte. Os assuntos variaram: Marie contou sobre sua família, amigos, entre outras peculiaridades de sua vida em Atlântida.
— E você? Pelo que sei você morava no 5-B, não é?
— Não era bem “morar”, mas sim.
— Não entendi.
— Minha casa era uma bosta.
— Ah.
— Mas dava pra se esconder da chuva e tal.
— Não tem chuva em Atlântida.
— Exatamente.
(...)
O sorvete acabou.
Abriram outro pote.
(...)
— Então você não sabe o que está acontecendo na cidade? Ou mesmo o motivo pelo qual revolução foi feita nesse momento? Caralho, eu imaginava que você, como um dos primeiros... Refugiados? Não sei ao certo a palavra; enfim, achei que você sabia o contexto político. Ao menos se lembra do que aconteceu há cinco anos, né?
— Vagamente – mentiu.
— Revolta, o pessoal matou uma galera lá de baixo, e depois eles explodiram uma parte lá de cima... Não é uma coisa fácil de esquecer e tal...
Átila se esforçou para se manter calmo.
Foi nessa parte que seus pais morreram.
E ele se lembrava bem.
(...)
— Quer dizer que as outras cidades existem? Por que nós não vamos pra lá?
— Atlântida, Columbia... Até mesmo Telúria, é tudo a mesma coisa.
— Como?
— Olha, a gente não tá fugindo por que nossa vida era uma bosta. Isso é um motivo, mas ainda assim não faria com que outras pessoas arriscassem morrer tentando fugir. – disse, bufando – A gente tá tentando fugir para sobreviver.
— Eu ainda não entendi como isso se relaciona com as outras cidades, não dá pra sobreviver lá ou algo do tipo?
— Isso. Inclusive a Marinha está nos continentes, capturando pessoas, matando, fazendo experimentos científicos em humanos sem nenhum conceito de bioética e tudo mais...
— Então pra onde a gente vai?
— Não sei.
(...)
— Engraçado... – disse com um olhar distante, como se pensasse em fatos que ocorreram há muito tempo – nossos pais nos contaram isso quando éramos crianças, e todas as pessoas que eu conheço também sabiam disso... – fez uma pausa, como se tivesse esquecido um detalhe importante e o buscasse no fundo de sua mente.
Átila já sabia qual era o detalhe desde o início da frase de sua nova amiga, mas ainda sentiu um aperto no peito ao lembrá-la:
— Nós perdemos nossos pais.
Marie percebeu o erro deu um abraço fraco em Átila para tentar oferecer algum tipo de consolo. Não funcionou, ele sequer conseguiu se sentir feliz por isso.
Juno estava escorada no corredor, ao lado da porta da cozinha. Seu choro era baixo e contido para que nenhum dos dois a escutasse.
Sem o irmão ao seu lado não havia ninguém para abraçar.
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