Trigêmeos

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Capitulo 2 de 50.

Devia ser por volta das dez da noite. Passaram um dia e tanto. Ela conseguiu concluir tudo e só faltava a parte dele para que pela manhã começassem a por em pratica. Há pelo menos trinta minutos ele estava parado olhando-a dormir.

O olhar subia e descia sobre o corpo adormecido sobre sua cama. Cachos grossos estavam espalhados, assim como papeis, canetas e afins. Trajava uma calça de algodão branca e uma baby look estampada em vários tons de verde. Ela se moveu e abriu os olhos, sonolenta.

- Desculpa, peguei no sono.

- Não precisa se desculpar. _ Disfarçadamente girou a cadeira para ficar de frente para o computador. – Pode voltar a dormir.

- Se precisar de alguma coisa me chame. _ Estava cansada demais pra recusar a oferta.

- Claro. _ Claro que não iria fazê-lo.

Depois de alguns minutos, quando se certificou que ela voltara a dormir, foi até a cama, juntou as coisas e a cobriu. Então foi para o banheiro, tomar um banho para voltar ao trabalho em seguida. Tinha muito que fazer, provavelmente iria virar a noite.

Enquanto a água caia em suas costas, diferentes imagens de Thais passavam em sua mente. Estava tão preocupado com os problemas da empresa que não notara como sua relação com ela tinha evoluído. Agora na tranqüilidade que a imagem dela lhe causava foi que percebera.

Com ela não mantinha a aparência de homem seguro e bem sucedido, não era necessário. Sentia-se à-vontade. O empresário sério, que só bebia formalmente, não fumava e que via o trabalho como centro de sua vida não existia na frente dela. Ele não era um empresário de inicio de carreira, já tinha seus trinta e dois anos e não era nenhum novato.

Conversavam com simplicidade, sem reservas, e até a observara dormir, mais de uma vez. Parecia um tolo apaixonado, mas era diferente. Sem coração acelerado ou frio na barriga. Era como se convivessem a vida toda. Totalmente natural tê-la dormindo em sua cama.

Embora como homem deseja-se tocá-la nunca pensou que não pudesse fazê-lo. O que sentia era que ela já era sua, que sempre fora. Saiu do box deixando o chuveiro aberto, puxou uma toalha e foi a procura do seu celular, ainda molhado. Discou um código e uma conferencia foi feita entre três celulares.

- Eu a encontrei.

Somente uma noticia como essa para trazer seus irmãos à realidade. Danilo era advogado, um dos melhores criminalistas do Estado, e o terceiro na lista dos mais requisitados. No entanto, essa imagem não lhe era característica.

Daniel sempre achou que o irmão optaria por uma profissão que o fizesse viajar. Sempre foi aventureiro, louco por emoção, fascinado por descobertas. Depois do fracassado casamento com Pilar Goreth, uma promotora, Danilo se voltara ao trabalho.

Teimoso, nunca aceitou a previsão de sua mãe quanto a estar destinado a dividir com seus irmãos. Dante era um químico, sempre trancado em seu laboratório. Interessava-se mais por seus tubos de ensaio do que por mulheres, nunca teve muito jeito pra coisa.

Não que lhe faltasse amantes, mas nada, além disso, nenhum relacionamento sério. Trancou-se em seu laboratório e deixou nas mãos de seus irmãos a busca por sua mulher, não se importava em dividir, o fizera durante toda a vida.

As diferenças eram poucas. Dante tinha a barba por fazer, Danilo tinha os cabelos bagunçados dando um ar jovial. O mesmo rosto, o mesmo corpo; trigêmeos. Durante toda a vida os três dividiram tudo. Sua mãe fizera a previsão de seus futuros e dissera que estavam destinados a compartilhar.

Não é o tipo de noticia que gêmeos gostam de receber, mas eram muito jovens para se rebelarem. O motivo da separação de seus pais foi exatamente a obsessão de sua mãe quanto a isso. Ela implantou em suas mentes jovens a importância e o desejo de entender e aceitar o destino.

Ela conseguiu afinal, estavam os três ali. Estava perto do amanhecer quando os dois finalmente chegaram. Foi uma alegria, se cumprimentaram animadamente, fazia tempo que os três não se encontravam.

Daniel os levou até o quarto onde Thais dormia tranquilamente. Três pares de olhos analíticos passeavam pelo corpo feminino. As curvas que se formavam por debaixo das cobertas, os cachos avermelhados que cobriam-lhe parte do rosto, a expressão serena...

Quando ela se mexeu, provavelmente sentindo o peso do olhar deles, eles resolveram sair do quarto e deixá-la dormir. Foram para a sala de estar, se acomodaram cada um com sua bebida. Tantas lembranças aquela casa trazia.

A casa de sua mãe, onde cresceram. Somente Daniel quis permanecer ali depois que a mãe morreu. A vida deles estava ali, em cada canto. Perguntavam-se intimamente se estavam prontos para voltar, para compartilharem.

Depois de grandes dividiram seus quartos, mesmo contra a vontade de sua mãe. Havia cinco quartos que davam em uma sala, que era onde estavam. Um sofá circular, uma mesa de centro e um pequeno bar eram tudo o que tinha nesse cômodo.

Cada um dos irmãos ficou com um quarto, a mãe com outro e um para hóspede. Os quartos estavam todos intactos, toda a casa permanecia a mesma. Reviveriam os tempos de infância e não sabiam se estavam preparados para isso. A única diferença era ela.

- Thais Gaspard, vinte e nove anos. _ Daniel quebra o silencio e a linha de pensamento dos irmãos. – Mestre em psicologia, formada em administração, especialista em recursos humanos.

- Inteligente. _ Murmura Dante.

- Trancou a faculdade de Marketing para me ajudar na empresa. Foi aluna de nosso pai e chegou a estagiar com ele.

- Eram próximos? _ Danilo se interessou, era o mais apegado ao pai.

- Sim, até chorou a morte dele.

- Por que acha que é ela? _ Dante verbalizou o que Danilo tinha em mente.

- Por que não me perguntaram o que ela faz na minha cama?

Daniel encarava os irmãos com um sorriso triunfante. As expressões dos dois permaneceram limpas por alguns instantes. A pergunta nem sequer havia passado pela cabeça deles. Não estavam incomodados por ela estar na cama dele.

Parecia normal. Não viam a cama dele, mas uma cama, apenas uma cama onde se encontravam algo deles. Ela estava ali, para eles. Assim como sua mãe previu. Bastava agora dizer isso a ela. Como fariam?

~OoO~

Thais acordou com o sol em seu rosto. Sentou-se na cama e a primeira coisa que veio a sua mente foi Daniel. Passou os olhos pelo quarto e o achou em frente ao computador, como se lembrava ter visto antes de dormir. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e levantou.

- Ainda ai.

- Bom dia. _ Cumprimentou estranhamente animado.

- Bom dia. _ Estranhou o tom de voz. – Falta muito?

- Não, já estou acabando.

Thais se perguntava o que poderia ter acontecido de tão bom para Daniel está sorrindo abertamente. O que ela não sabia era que aquele a quem ela massageava os ombros não era o Daniel. Os irmãos haviam decidido se passar por Daniel para conviverem com ela um pouco.

Danilo estava lendo um processo, e pensando no trabalho que daria para se mudar para aquela casa, quando ouviu a voz de Thais. Melhor do que a voz doce próxima ao seu ouvido foram as mãos femininas em seus ombros. Esqueceu-se até de manter a pose séria do irmão.

Daniel estava em outro quarto terminando seu trabalho enquanto Dante avaliava seu antigo laboratório, o primeiro, e as mudanças que teria que fazer antes de se mudar. Os três faziam planos, Thais estava inclusa na maioria deles, mas não sabia disso. Nem imaginava.

~OoO~

Thais sentou-se a mesa e manteve o silencio que já estava. Olhou fixamente para Daniel. Ele estava de óculos e comendo mamão. Ele odiava mamão. Decidiu não comentar. Tomou seu suco, tranqüila, comeu torradas com geléia. Quando acabou percebeu que Daniel a olhava. Ergueu o rosto e encontrou o olhar dele. Ele ajeitou os óculos e baixou o olhar para seu copo.

- Não sabia que usava óculos. _ Ela não agüentou, tinha que saber por que ele estava usando óculos.

- Não uso. _ Dante apressou-se em dizer, tirando os óculos em seguida. – Deveria usar, pra descanso. Os vi hoje e resolvi por.

- Hum... _ Aceitou a resposta por não querer aprofundar o assunto. – Fica bem em você.

- Obrigado.

Dante soltou o ar aliviado. Tinha posto os óculos pela força do habito. Ela parecia ser uma pessoa interessante, o irmão tinha feito uma boa escolha. Thais não quis pensar sobre as mudanças entre o Daniel da noite, da manhã e o de agora. Resolveu pensar no seu dia e em como seria.

- Vamos?

Daniel apareceu na sala, já pronto para irem trabalhar. De terno e gravata, como sempre. Thais optou por uma saia tubinho preta e uma blusa lilás, com as costumeiras sandálias de salto fino. Daniel abriu a porta para ela e foram no carro dele.

Notas finais
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