Trevas
1 Capítulo 1
Tudo que ouvi foi o som dos peixes que afundaram. Tudo que eu vi foi o interior de minhas papelbras pesadas. Tudo que eu disse falhou em alcançar ouvidos abertos. Palavras flutuando... cobrindo a visão...
\'Não ver, não ouvir, não falar maldade\' te deixa surdo, mudo e cego, pois maldade é tudo que você achará. Sim, meu coração adormeceu: de tédio e fadiga. Eu sempre dizia que queria morrer sorrindo, para transmitir paz. Agora emito do meu corpo um sorriso irônico, branco e gelado. E olhos um dia esperançosos são atravessados de emoções. Por um momento parecia que tudo ao meu redor tinha parado instantaneamente. Animais não corriam assustados. Árvores não balançavam. Água não corria. Porém não havia silêncio. O ruído de minha carne sendo cortada invadia meus ouvidos com leveza. E dor. O dia finalmente escureceu por completo.
A luz da lua caminhou ferozmente em nossa direção, mais uma vez, inundando-me os olhos prateada. Finalmente. De repente, foi como se ele nem sequer tivesse existido. Sua lâmina se esfarelou diante de teus olhos enquanto as trevas finalmente começavam a lhe consumir. Como uma protuberância infinita ela se espalhou pelo seu campo de visão. O cheiro de carne viva me animava. Sua face rústica e amedrontada brilhou a luz do luar. Ele tentava se arrastar indefinidamente. Entretanto, era inútil.
De seus membro inferiores, incompletos, escorria sangue e pedaços de sua carne ficavam para trás na sua tentativa insossa de fuga. Movi-me, com passos quase dançantes, em sua direção até alcançar suas mãos com os pés, apertando-as com força, debilitando-o finalmente. Pela primeira vez na semana aquele sorriso se manifestou. Nefasto. Diabólico. E então, o fim.
As trevas tomaram forma através de mim. Eu podia sentir o poder. A escuridão sendo absorvida. Podia ver também o mal. Não que não enxergasse antes. Agora ele tinha forma física e eu era parte dele. Eu acho.
Das minhas costas membros negros surgiram, famintos. Eles pareciam gargalhar entre si, ao meu ver. Eu sorri pra um deles enquanto o outro devorava a carne da tez da nossa presa. Então os senti, repartindo o coração do sujeito. Lambuzados em sangue, pareciam ainda mais feliz. Eu podia sentir mais poder em mim. O buraco em meu peito se fechava à medida que a escuridão me cobria, mais e mais. Mais maldade. Até que não haviam mais trevas. Havia apenas o grito amedrontado de dois monstros se recolhendo em mim. E o barulho da minha carne se abrindo novamente. O cheiro do meu sangue. E muita luz. Acho que era um carro. Não tive tempo, corri.
Notas finais
Aguardem o próximo capitulo, espero que gostem.
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