Notas iniciais
Esse texto já havia sido postado por mim em uma outra fic, porém como a excluí a fic e gostei bastante desse texto, resolvi "migrar" para cá.

O ano era 1942. Depois da anexação da Áustria pela a Alemanha nazista, também conhecido como Anschluss, o exército alemão começou invadir outros países europeus. Sem piedade, o ataque massivo das forças alemãs ia consumindo cidades e mais cidades. O país da Tchecoslováquia não se viu livre da ameaça nazista, e já tinha grande parte de seu território dominado. O poder tcheco não era páreo para as tropas germânicas da SS. Uma invasão covarde, porém extremamente efetiva.

As tropas alemãs se dividiam em vários batalhões durante a ocupação. Um deles estava se aproximando de mais uma cidade. Sieke, líder desse batalhão, decidiu ir pelo leste, enquanto os outros iam pelo oeste e centro-oeste. O batalhão já havia perdido 1/3 dos seus combatentes, porém pelo fraco poderio militar tcheco e com poucas cidades ainda pela frente isso não seria um problema.

– Já estou ficando um pouco entediado, essas cidades tchecas só tem mulheres e crianças, parecem que os homens todos foram recrutados para armada e estão escondidos debaixo da terra — Disse Kuhnert, um dos soldados mais falantes do batalhão. Era o líder do Esquadrão de assalto e adorava uma boa carnificina. A sua vontade sanguinária ia de contraste com o seu jeito brincalhão de ser. Era um dos soldados mais respeitado do batalhão.

- Estou cansado, isso sim, essas malditas cidades não tem uma cama que preste, e hoje ainda é o meu dia de vigília. — Disse Köll, outro soldado. Diferente de Kuhnert, ele não gostava daquilo. Odiava estar no campo de batalha. Queria estar com os filhos em Munique, porém, assim como muitos que ali estavam, fora obrigado aquilo. Afinal, o seu país deveria prevalecer no final, e seus homens deveriam ser aqueles que trouxeram a glória, mesmo que no final seus nomes sejam esquecidos ou nem sequer mencionados. Köll sabia que seria um milagre sair da guerra vivo.

- Nossa. Não sabia que tínhamos uma senhora em nosso flanco. – brincou Kuhnert.

- Cale a boca.

- Chega, estamos quase adentrando em território inimigo — Falou Sieke, com sua voz autoritária. O líder do batalhão era extremamente sério e profissional. Rígido, não permitia falhas durante as invasões das cidades. “Sem prisioneiros”, dizia ele. Alguns o respeitavam, outros o temiam.

A cidade era pequena. Köll não entendia porque haviam marchado até ali se haviam tantas cidades para o norte as quais ainda não estavam ocupadas.

- Parece abandonada – comentou um dos soldados do esquadrão de assalto.

Realmente parecia. Nenhum sinal de vida era visto fora das casas acinzentadas. Um único prédio, de não mais que três andares, se erguia ao lado das casas, minúsculas perto dele. O chão não era pavimentado. Apenas lama, proveniente das chuvas constantes na região.

- Já era hora – disse Kuhnert. Queria qualquer coisa para tirá-lo do tédio.

- Esquadrão de assalto, — começou Sieke — vocês primeiro. Façam como viemos fazendo até agora: Sem Prisioneiros

- CERTO — Gritou o esquadrão.

- Vão! — Ordenou Sieke.

Kuhnert e o resto do batalhão começaram a se movimentar de modo rápido e furtivo. Ele chegou primeiro na entrada da cidade. Procurou algum sinal de armadilhas, não viu nenhuma. Fez um sinal para o resto do esquadrão e então, rapidamente, entraram na cidade.

As casas com as portas fechadas logo foram adentradas pelos soldados alemães. Mulheres se encolhendo, crianças chorando. Nenhum soldado. Tiros disparados, corpos inocentes caindo no chão. Kuhnert deu o sinal ao resto do batalhão que invadiu a cidade como um tornado. Em pouco mais de 1 hora a cidade já estava tomada.

- Nossa. Isso foi... Frustrante — Disse Kuhnert.

- Muito bem, peguem os corpos e arrastem para o meio da cidade para amanhã pela manhã incendiarmos antes de partir. – ordenou Sieke.

- E lá vem à faxina — resmungou Köll.

A “faxina” de corpos demorou 45 minutos e no final da tarefa já havia anoitecido.

- Acabei de checar o hospital — falou Sieke para o batalhão — Há o numero suficiente de camas para todos. Quero seis homens fazendo vigília.

- Boa sorte Köll — Gritou Kuhnert, rindo.

Köll não se deu o trabalho de responder, estava muito cansado e não queria discutir com Kuhnert.

E então a vigília começou. Dentro do Hospital o resto batalhão dormia. Köll, e mais cinco homens estavam fora do prédio, vigiando o lugar.

Ele ficou com a parte sul. Estava sentado e encostado na parede de uma das casas, ao lado do hospital, quase dormindo.

"Vigília para que? Não há uma alma vida sequer além de nós nessa maldita cidade", pensou.

O sono finalmente o venceu. Sonhava com a sua família Munique. Sua esposa, sua filha de seis anos... Estavam em um pequeno parque perto de onde moravam. Sua filha corria perseguindo as borboletas enquanto ele e sua mulher estavam sentados na grama verde, observando-a correr. Era tudo que ele mais queria... Um tiro a poucos metros o despertou.

Köll levantou e começou a se mover para a direção da onde ouviu o tiro. "Malditos tchecos atacando a noite" pensou ele. Com cautela, ele espreitou para o lugar aonde deveria estar Stranz, um dos soldados que também ficou de vigia. Porém, o que viu o chocou mortalmente. Não era um soldado tcheco, era uma pessoa devorando Stranz. Köll ficou paralisado, não sabia o que fazer. Já havia visto muitas coisas perturbadoras nessa guerra, coisas que não deixavam sua cabeça, mas aquilo passava de tudo que havia visto.

Como se estivessem em sincronia, vários tiros começaram a romper da escuridão gélida. A pessoa que devorava Stranz olhou para cima e viu Köll. Sua pele era extremamente pálida. A íris de seus olhos era totalmente branca, assim como a pupila. A esclera, antes branca, estava completamente negra. Sua boca estava cheia com a carne do corpo do soldado que a criatura devorara, assim como o sangue, que escorria de sua boca até o peito da criatura, manchando sua roupa preta. O soldado percebeu que na altura do estômago havia um buraco de bala.

Com uma velocidade impressionante, a criatura se levantou e começou a correr em direção dele. Köll, com seu reflexo de soldado, pegou sua espingarda e deu um tiro no peito daquela coisa. A criatura caiu no chão.

Com medo, ele se aproximou da criatura para ver se realmente era humana. E era. Uma mulher de cabelos negros. Parecia conhecida para Köll, mas antes que tentasse lembrar-se de onde a conhecia, mais tiros foram disparados em sua volta. Ele se virou e quando começou a andar em direção dos tiros algo agarrou sua perna.

- Que diabos...? – Exclamou, e quando se virou para ver o que era viu a mulher em que acabava de atirar segurando seu pé com a mão.

"Mas... eu dei um tiro no peito, bem no coração, como isso ainda pode continuar vivo?".

Mesmo em pânico, ele atirou na cabeça dela. Mais uma vez ela ficou imóvel. Parecia que agora estava realmente morta.

Mais tiros ao seu redor. Köll foi à direção deles. Seus amigos de vigília estavam sendo cercados por várias daquelas criaturas. Elas vinham de todo lado. Rápidas, ferozes, famintas. Crianças, mulheres... E era isso, apenas crianças e mulheres, o que deixou Köll ainda mais atormentado. Da porta do Hospital o resto do batalhão, acordado pelos tiros, foi para o meio da batalha, que cada vez ficava pior para os germânicos.

- KÖLL? KÖLL? — Era Kuhnert. — KÖLL, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

- EU NÃO SEI, ESSAS COISAS COMEÇARAM A ATACAR DE REPENTE. ONDE ESTÁ SIEKE?

- NÃO SEI, DEVE ESTAR DENTRO DO HOSPITAL.

Nesse momento Kuhnert atirou no peito de uma das criaturas.

- Toma sua vadia.

- ATIREM NA CABEÇA — Gritou Köll para todos.

- O QUE? — Perguntou a maioria dos que ouviram.

- ATIREM NA CABEÇA, NÃO ADIANTA EM OUTRAS PARTES.

- O QUE VOCÊS ESTÁ QUERENDO DIZER? PELO AMOR DE DEUS, KÖLL...

Nesse momento a mulher que Kuhnert atirou se levantou e tentou agarrá-lo, porém Köll atirou na cabeça.

- ACREDITA EM MIM AGORA?

Kuhnert, assim como Köll, ficou em inicial estado de choque, então disse:

- Si...sim, acredito.

A batalha continuava. A situação estava cada vez pior, as criaturas vinham sem parar, porém eram sempre mulheres e crianças.

- KUHNERT, TEMOS QUE RECUAR PARA O HOSPITAL.

- O QUE? NÃO.

Kuhnert não era homem que recuava. "Desistir nunca" era o seu lema, porém nunca havia enfrentado uma situação como aquela.

- PARE DE SER IDIOTA KUHNERT, ESTAMOS PERDENDO, TEMOS QUE VOLTAR E FALAR COM SIEKE E CRIARMOS UMA ESTRATÉGIA.

- MAS E SE ELES CONSEGUIREM ENTRAR NO HOSPITAL?

- A PORTA É FORTE, E PODEMOS COLOCAR COISAS ATRÁS DELA PARA FORTALECÊ-LA. ALÉM DO MAIS SÓ HÁ JANELAS NO PRIMEIRO ANDAR. DEVE SEGURAR ESSAS COISAS POR ALGUM TEMPO.

Kuhnert pensou por um segundo.

- CE...CERTO. RECUAR HOMENS, RECUAR.

Os que sobraram da batalha começaram a correr em direção do hospital, Koll a frente deles. Chegando ao hospital, trancaram as portas e começaram a empurrar móveis para frente da porta. As criaturas começaram a bater na porta, que se mexia um pouco, porém continuava firme.

- Muito bem — começou Kuhnert — Em quantos somos?

- Em 12, senhor. — falou um dos soldados.

Kuhnert olhou para Köll. Aquilo era muito pouco, não sobreviveriam.

- Senhor, o que são aquelas coisas? — Perguntou um dos soldados, apavorado.

- Não faço a mínima idéia.

- SÃO DEMÔNIOS, O CÉU ESTÁ NOS CASTIGANDO PELO QUE ESTAMOS FAZENDO.

- Calado, soldado — Ordenou Kuhnert.

- São elas. — sussurrou um dos soldados.

- Elas quem? — perguntou Kuhnert.

O soldado o olhou nos olhos e falou:

- As pessoas que matamos hoje.

Kuhnert o encarou... então riu.

- Está em choque, Schneider.

- Não, estou falando sério, uma das mulheres que atirei agora a pouco eu... eu já havia matado hoje. Lembro-me porque além de atirar nela a arrastei para o monte de corpos.

"Então é isso, aquela mulher que devorava Stranz eu já havia visto hoje... quando a matei" refletiu Köll.

- Está delirando.

- Não...

- CALADO — gritou Kuhnert. — Quero 6 homens aqui guardando a porta, 3 lá em cima nas janelas. E você — Kuhnert disse a Schneider — vá ao terraço e veja se há mais deles vindo. Eu e Köll vamos atrás de Sieke. Alguém sabe onde diabos ele está?

- Ele disse alguma coisa sobre estar no escritório do diretor do hospital, fica no terceiro andar. — Disse um dos soldados.

- Certo, eu e Köll vamos lá, o resto de vocês se dividam e façam o que eu mandei.

Kuhnert, Köll e mais quatro soldados se subiram as escadas. Três deles ficaram nas janelas do primeiro andar, Kuhnert, Köll e Schneider continuaram subindo até chegarem ao terceiro andar.

– Agora me escute bem, Schneider – disse Kuhnert, segurando o braço do soldado que começava a subir para o terraço. – Independente do que sejam não quero mais ouvir você falar dessas criaturas. Já estamos em poucos, não quero criar mais pânico entre os soldados do que já há. Entendido?

- Sim senhor – falou Schneider.

- Muito bem, agora vá.

Ele largou o braço do soldado, que subiu as escadas para o terraço como um trovão.

- Você daria um bom líder – falou Köll.

- Eu prefiro ficar lá fora com aquelas criaturas do que ser o líder.

Os dois começaram a andar pelo corredor mal iluminado do terceiro andar, checando as salas a procura de Sieke.

- Falando nelas – começou Köll, enquanto olhava dentro de uma das salas – O que você acha que elas são?

- Sinceramente, não faço à mínima ideia.

- Você acha que Schneider estava certo?

- Você acreditou naquela loucura? – riu Kuhnert.

- Bem... A mulher que estava devorando Stranz... Eu já havia matado hoje.

Kuhnert olhou para ele, sério. Köll nunca havia visto aquela expressão no rosto do amigo.

– Você tem certeza? – perguntou Kuhnert

– Quase absoluta.

Eles se encararam por mais alguns momentos, então Kuhnert voltou a checar as salas.

– Temos que achar Sieke.

Os dois nada mais conversaram até chegar à última sala do corredor. Ela estava fechada e na porta se lia: Sala Do Diretor Geral.

– É aqui. – falou Köll.

Kuhnert tentou abri-la, mas ela estava trancada. Ele então começou a bater.

– SIEKE? – gritava ele, enquanto batia – VOCÊ ESTÁ AÍ?

Passos foram ouvidos dentro da sala. O barulho de chave foi seguido pelo girar da maçaneta.

– Posso saber o que significa isso? – perguntou Sieke, abrindo a porta.

– EU QUE PERGUNTO – explodiu Kuhnert – VOCÊ NÃO VIU O QUE ESTÁ ACONTECENDO LÁ FORA?

Sieke se surpreendeu com a atitude do soldado.

– O QUE É ISSO, SOLDADO? – berrou – LEMBRE-SE COM QUEM ESTÁ FALANDO.

Os dois continuaram a se encarar até Köll falar:

– Parem com isso. Senhor, algo está acontecendo. Há centenas de criaturas lá fora. Elas nos atacaram agora de madrugada. Estamos apenas em 12.

– Criaturas? Explique-se, soldado.

– Acho que está bem claro – disse Kuhnert, ainda nervoso – Criaturas... Pessoas, seja o que for aquilo, começaram a nos atacar e tivemos muitas baixas.

– Pessoas? Como que pessoas desarmadas conseguiram matar mais de trezentos do nosso batalhão?

Kuhnert e Köll se entreolharam.

– Elas não eram... Normais. – falou Köll.

– O que isso quer dizer?

Os dois nada falaram.

– RESPONDAM – berrou Sieke.

– Mortos-vivos. – respondeu Köll.

O rosto de Sieke ficou com uma expressão estranha. Eles esperaram o comandante berrar, ou simplesmente rir. Mas o que Sieke fez foi levar as mãos na cabeça e começar a sussurrar:

– É verdade, tudo aquilo era verdade.

– Senhor...

Sieke parecia estupefato. Virou-se e começou a andar em direção a uma mesa no centro da sala. Vários papéis estavam sobre ela. Kuhnert e Köll entraram na sala, preocupados com o comandante.

Ele então começou a jogar os papéis em cima da mesa para o chão. Parecia procurar alguma coisa em específico.

– Sieke, o senhor está bem? – perguntou Köll.

O comandante nada respondeu, continuava procurando alguma coisa... Até que finalmente encontrou. Era um pequeno envelope amarelo. Ele guardou dentro do seu paletó.

– Sieke, o que está acontecendo?

– Eles nos mandaram aqui – o comandante começou a falar, frenético, sem olhar para os dois. Havia pego uma caneta agora e escrevia alguma coisa em um pedaço de papel. – sabendo que isso iria acontecer. Desgraçados...

– Eles quem? – perguntou Kuhnert.

Antes que Sieke pudesse responder, Schneider entrou correndo pela sala.

– A porta não vai durar muito, eles irão entrar. – disse ele, assustado.

– DROGA – berrou Kuhnert – E agora Sieke? – ele se aproximou do comandante – Hein? O que faremos agora? Você tem algum plano nessa sua mente astuta?

Sieke começou a gargalhar. Sua gargalhada era cheia de dor e culpa, como a de um louco.

– DO QUE VOCÊ ESTÁ RINDO?

Sieke parou de rir e agarrou Kuhnert pela gola de sua camisa.

– Você é testemunha – ele sussurrava no ouvido do soldado – de que cumpri todas as minhas ordens.

Ele o largou e então colocou a folha na qual acabara de escrever no bolso direito da camisa. Nele, se lia: A VERDADE ESTÁ DENTRO DO MEU PEITO.

- A verdade? O que isso significa?

Sieke voltou a gargalhar. Foi então que puxou sua arma do cinto. As lágrimas começaram a cair de suas pálpebras. A gargalhada deu lugar ao choro desenfreado. Ele colocou a arma verticalmente embaixo de seu queixo.

- NÃO. – berraram em sincronia os três soldados.

O sangue jorrou pela parte superior de sua cabeça junto com a bala que atravessou o crânio do comandante. Seu corpo caiu no chão, inanimado.

A audição abandonou Köll, fazendo-o parar num tempo, em um silêncio infinito. Ele viu Kuhnert e Schneider correrem para o térreo, mas as portas já haviam sido arrombadas. A esperança também o havia abandonado. Suas pernas começaram a se mover inconscientemente e sem perceber ele já estava na frente do corpo de seu outrora comandante. Abaixou-se e pegou o envelope que o comandante havia guardado dentro de seu paletó. Abriu-o. Em uma folha comum, uma caligrafia difícil de decifrar percorria todas as linhas.

Antes que pudesse começar a ler, sentiu um peso o jogando no chão e sua carne sendo triturada. Bocas vorazes começavam a lhe dar o fim da vida. Nunca mais iria ver sua mulher ou sua filha. Nunca mais iria sentar em um gramado verde e assistir sua pequena princesa perseguir borboletas sob o sol do outono. Diante da morte, restava apenas o relance da única frase que conseguiu ler da carta: “E sob os campos de guerra, os mortos finalmente serão os heróis”.