Um email mandado as 3:10am na tela do meu computador. Um telefonema recebido às 6:07am.. Duas coisas diferentes que se completam, que se justificam. O fim para uma história contada a mim na noite fria de 14 de janeiro de 2013.

“Já eram 7:00pm quando tocamos a campainha. Kevin, meu primo, nos atendeu prontamente, com um sorriso estampado no rosto. Deu-nos um abraço e nos convidou para entrar. A lareira da sala já estava acesa, o que deixava o ambiente agradavelmente quente. Kevin tirou nossos casacos e colocou-os no cabide no exato momento que Lorena, sua esposa, vinha da cozinha para nos recepcionar. Assim como Kevin, estampava um sorriso no rosto.

Depois de trocarmos abraços e comprimentos, meu primo foi pegar uma garrafa de vinho enquanto Lorena, minha esposa Laura e eu sentamos nas poltronas em frente da lareira. Kevin não demorou para trazer as taças uma garrafa de vinho tinto chamado Chateau Julia. O casal nos contou que comprou o vinho em sua lua de mel, qual eles acabaram de chegar a poucos dias.

- A Grécia é um lugar maravilhoso – dizia Lorena – Ficamos em um hotel com vista para o mar. Lindo.

- E este vinho, meu amigo – falava Kevin, enquanto entregava a cada um de nós uma taça e abria a garrafa – é ótimo.

Ele serviu cada um e por alguns segundos todos saboreamos o sabor do vinho. De fato era delicioso. O casal continuou contando sobre sua lua de mel. Laura adorava esse tipo de conversa, eu por outro lado... Fiquei olhando a sala. Seus móveis e objetos, quadros; não que eu seja bisbilhoteiro ou saiba reconhecer beleza nesse tipo de coisas, mas mesmo assim era mais interessante do que a conversa.

- Você não acha, James?

- Hãn? — algo despertou-me do devaneio.

- Você não acha que devemos ir para Grécia algum dia? — perguntava minha mulher.

- Ah sim... com certeza.

Lorena olhou o relógio na parede e espantou-se com a hora, eram 8:00pm. Chamou Laura para ir a cozinha com ela.

- Agora você pode contar sobre a beleza das mulheres gregas para o seu primo, Kevin. — falou Lorena para o marido, rindo.

- Oh, acho melhor não. Assim James logo vai querer ir para lá agora mesmo.

Dei uma risada para as duas, porém Kevin não. Elas se dirigiram para a cozinha.

- Olha Kevin, tenho que te dizer – comecei assim que as duas sumiram da sala – Você é um homem de sorte. – Servi-me mais uma taça de vinho – Lorena é uma bela mulher.

- Ah... — exclamou surpreso – Sim, obrigado.

Olhei-o atentamente, algo estava estranho. Meu primo sempre foi uma pessoa extrovertida, carismática, alegre, mas em seu rosto eu não via nada além de preocupação.

- Está tudo bem com você? — perguntei.

- Eh? Estou ótimo – respondeu, e olhou para um quadro em cima da lareira.

O quadro era de uma bela mulher, com um vestido vermelho. Sua pele era branca como a neve e em seu rosto um olhar penetrante parecia observar a alma. Estava de pé descalços em meio a uma terra desolada. Mesmo com um cenário tão triste ao seu redor seu olhar não emanava nada além de puro desdém.

- Belo quadro. – disse – Bom, bela mulher. – dei uma risada – Vocês compraram isso lá?

- Sim – respondeu Kevin.

- Quanto?

Ele não falou nada. Olhei para ele e seu olhar ainda estava vidrado no quadro. Ele soltou um suspiro, serviu-se de mais vinho e levantou da poltrona. Foi a junto da lareira e olhou para suas chamas.

- Não o comprei, eu o achei.

- Sério? — perguntei retoricamente – Nossa, você realmente é um homem de sorte.

Meu primo deu uma risada irônica, ainda olhando para a lareira.

- Você acredita no sobrenatural, James?

Demorei um pouco para responder, mais pela surpresa do que pela falta de uma resposta. Meu primo nunca havia tocado nesse tipo de assunto.

- Honestamente, não. — respondi – Porque?

Ele olhou mais uma vez para o quadro e então começou a andar, lentamente, para lá e para cá.

- Achei esse quadro no dia em que Lorena ficou num Spa natural na lua de mel. Enquanto ela ficou lá, fiquei rondando a pequena cidade em que ficamos. Achei um prédio abandonado um pouco afastado do centro. Ele era o maior que eu havia visto em toda cidade, tendo cinco andares. Entrei nele... — ele parou de falar por alguns segundos. — Me arrependo de ter feito isso.

- De ter feito o que?

- Entrado naquele prédio. Havia algo dentro dele, algo maligno.

Soltei uma risada e servi-me de mais vinho.

- Você está brincando comigo, Kevin.

Olhei para ele. A expressão em seu rosto era aterradora.

- Você... não está?

- Quem dera, meu amigo.

- Mas o que tinha de tão maligno nesse prédio?

Ele serviu-se de mais vinho e sentou na poltrona.

- Antes de tudo, deixe-me contar a história dele. Ele não tem nome atualmente, mas em 1920, quando foi construído, era chamado de Hospital Psiquiátrico de Mesolongi.

- Um sanatório?

- Exato. Ele foi construído para os veteranos gregos da primeira guerra mundial. Muitos enlouqueceram com os terrores da guerra. O sanatório manteve-se funcionando até 1927 quando os pacientes e funcionários começaram a morrer.

- O que houve?

- A caldeira que esquentava todo o complexo estava emitindo uma quantidade letal monóxido de carbono. O mais interessante é que eles nunca detectaram esse problema mesmo fazendo uma checagem semanal na caldeira. Nem preciso dizer que o prédio foi fechado depois disso. — continuou Kevin – Alguns anos depois, em 1951, o prédio foi comprado por um grupo de acionistas que fizeram dele um abrigo para os sem tetos. O prédio foi reformando, a caldeira foi removida e colocaram uma nova. Uma bela placa escrita “ABRIGO PARA TODOS” foi posta na fachada do prédio. Porém ele nunca foi aberto, o lugar foi apenas feito para lavagem de dinheiro. Porém, em 1958 todos os acionistas que compraram o prédio morreram misteriosamente. Não encontrei uma fonte confiável sobre suas mortes. Mais uma vez o prédio foi fechado, até que em 1982, o prédio foi comprado por menos da metade do preço que valia por uma rede de supermercados. O prédio foi mais uma vez reformando. Tudo corria bem, até a noite de 26 de Julho de 1989 quando um grande incêndio que iniciou-se nos arredores do local e tomou conta do prédio. Tudo foi consumido pelas chamas. Desta vez, apenas duas casualidades ocorreram. Dois zeladores que cuidavam do lugar de noite. A rede de supermercados também fechou o prédio e colocou-o a venda. Em 2002, sem nenhuma oferta, decidiram doar o prédio a prefeitura da cidade.

- Essa história é de fato impressionante, mas o que tem de ver com o quadro? — perguntei.

Kevin se levantou mais uma vez da poltrona e novamente foi para perto da lareira, olhando o quadro.

- Esse quadro é uma obra de um autor desconhecido. Não há assinatura nele. Ele esteve na família do primeiro proprietário a anos quando ele decidiu colocá-lo no manicômio.

- Você quer dizer...

- Esse quadro esteve no prédio desde o começo. Ele estava lá quando o monóxido de carbono fez centenas de vítimas; estava lá quando os acionistas foram mortos misteriosamente; estava lá quando o fogo consumiu tudo, menos ele. Melhor dizendo, ela, a moça de vermelho. Quando entrei no prédio senti como se ela me chamasse. Um canto, como aqueles cantos que levavam os piratas até as sereias em histórias fictícias. Mas dessa vez, ele era real. Eu a ouvia. Eu subi 3 andares diretamente até ela. Tudo estava carbonizado, menos ela. Esplêndida na parede, sem nenhum defeito. Não resisti a seu encanto e a trouxe comigo.

Eu já estava amedrontado. Ele não estava em si, estava louco, delirando.

- O jantar está pronto. — Lorena surpreendeu-me entrando na sala.

- Certo, querida – disse Kevin, virando para ele. Seu rosto estampava seu sorriso habitual de sempre.”

Coloco o telefone no gancho. A ligação era de Lorena. Kevin se matou durante a madrugada no lago do Wilton Park. Não sei o que pensar direito, não sei o que fazer. Está tudo cinza em minha mente. A tela do computador mostra-me o final trágico dessa terrível história.

“De Kevin LaFrentz – 26/Jan/2020 3:10am

James, chegou-se a hora. Ela está me chamando e eu tenho que ir com ela. Agora entendo, ela esperava por mim em todos esses anos. Completamo-nos. Ela levou centenas há 93 anos atrás, alguns há 62 e dois há 31. Porém hoje ela levará apenas a mim. Irei com ela nadar no lago do Wilton Park, pois é lá que nossa eternidade nos aguarda.

Adeus meu amigo.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.