Trauma
3 Capítulo 3- Anabelle 03
Acordo, mas permaneço de olhos fechados. Começo a lembrar de coisas que não queria. Será que foi tudo um sonho? Abro os olhos. Paredes pintadas de verde-grama me rodeiam e um corbertor de xadrez verde e roxo me cobre. Minhas cores preferidas.Ainda devo estar sonhando. Então vejo um relógio lilás na parede à minha frente e uma televisão logo abaixo. Os ponteiros marcam dez horas.Da noite ou da manhã? Uma porta desliza na parede ao meu lado, permitindo que uma mulher entre.Rugas preenchem seu rosto,bmanchas de sol, sua pele negra. Os olhos parecem cansados, mas felizes. Deve ter uns 60 anos. Isso é impossível. Estou sonhando.
Oh, querida, você se recuperou tão bem. quero perguntar porquê estou aqui, que lugar é esse, onde estão meus amigos, quem é ela.Calma,querida. Vou trazer seu lanche, ok? a velhinha beija minha testa e sai. Verde e roxo. E aquela senhora. Ela não devia estar viva. Todos com mais de 50 foram mortos. É mais um daqueles sonhos. Daqui a pouco eu vou acordar e voltar a comer pílulas. A parede desliza de novo, deixando uma mulher magra entrar. Seu cabelo cor de chocolate dança feliz nos cachos que emolduram seu rosto.Vestida de calça jeans, camiseta e coturno, Nachu parece a mesma de anos atrás. A Tia disse que você tinha acordado. Ainda bemela me abraça.Uso todas as minhas forças para retribuir. Gostou do quarto? Faz um bom tempo que ele ficou pronto, mas a gente não conseguiu te trazer pra cá antes. Eu não queria que fosse daquele jeito. Ninguem aqui queria. Nachu derrama uma lágrima, mas retém as outras. Ela está diferente. Você precisa saber de tudo... a velhinha aparece na porta segurando uma bandeja. Mais tarde vocês colocam o papo em dia. Ela precisa comer,Nachu. Tá bom, tá bom. Essa lindeza aqui é a Tia.ela aperta as bochechas da velhinha. Pode ficar tranquila.Você está em ótimas mãos. Nachu sai do quarto, me deixando sozinha com a Tia.Olho para a bandeja.Sopa e um copo d'água.Comida. Sopinha de carne. Está uma delíciaela sorri enquanto coloca a tigela sobre uma mesa ao meu lado.Então aperta um botão. A parte de cima da mesa levanta,suportada por um braço mecânico, colocando-se à minha frente. Começo a comer desesperadamente. Faz tempo que não tomo sopa. Calma, querida.Você vai se engasgar desse jeito Tia me repreende, ainda sorrindo. Ela tem mais de sessenta e está aqui pra contar a história. Tem motivo para ficar feliz. Termino minha refeição. Estou tão cansada. Deito-me empurrando a mesa, que volta a seu estado original.Tia arruma meus lençóis. Quando acordo, o relógio marca dez e quarenta e cinco. Sério?Só alguns minutos? Sento-me e observo meu quarto. O relógio e a tv continuam no mesmo lugar. A mesa robótica, ainda do meu lado.Não tenho muito para me entreter. Olho para a porta-parede. Um vaso cheio de umas florezinhas roxas está lá. Obrigo-me a levantar. Meus pés não aguentam meu peso, apesar de eu conseguir ver minhas costelas.Cada passo no carpete verde é um tormento. Se eu tropeçar aqui,ninguém vai me segurar. Apoiando-me na parede consigo chegar ao vaso. Caio de joelhos, sentindo a dor rasgar minhas pernas. Passa um tempo até que ela só arranhe e eu me sente.Começo a mexer nas flores. Jurava que não sobrara nem uma pétala de vocês e suas irmãselas também foram dizimadas. "Nada de verde", eles disseram quando colocaram placas de metal nas ruas e jardins. Algo se move no meio das flores.Sempre é bom demais pra ser verdade. Escuto um zumbido. Afasto-me do vaso .O que é aquilo? Uma borboleta cinza voa até mim, pousando na minha perna. Ela é feita de metal.Tem parafusos e é fria,muito fria. Olá diz uma vozinha robótica esganiçada.Olho para a borboleta.Olá. Oi respondo ainda confusa B.O.B 1.0 se apresentando. Prazer, Bob. Achei que você fosse um tipo feminino de robô. Essa forma de animal ligada ao sexo feminino foi apenas para ajudar na camuflagem. Vejaele se transforma em algo próximo a imagem humana. Isso é impressionante, Bob. Então a tv liga sozinha. O Presidente aparece na tela.Seus cabelos ruivos estão presos num rabo de cavalo.O terno branco faz uma boa combinação com a camisa vermelha por baixo e com o símbolo da cidade preso no bolso. Um coração branco sobre um fundo vermelho.Paz por sangue. Queridos cidadãos, estou aqui para dar-lhes uma explicação sobre o ocorrido no metrô ele diz, com dentes perfeitos e brancos. Não queríamos que aquele horrível acidente acontecesse. Fizemos o possível para evitar qualquer problema, mas eles não nos escutaram.O Governo não foi o responsável pela bomba no trem. Um grupo de rebeldes e ingratos, que dizem querer ajudar vocês cidadãos,matou todos os passageiros daquele trem para nos abalar. E nós vamos retribuirele sorriVejam com os próprios olhos. Um homem encapuzado aparece na tela, arrastado por um guarda. Sua cabeça é descoberta. Seu rosto está inchado e roxo.Outros três guardas se posicionam em volta dele, armados.Então atiram.O sangue logo banha o chão. Focam no rosto do homem. Eu o reconheço. Eli.
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