Trauma

4 Capítulo 04- Anabelle 04


–Nós não podemos deixar isso barato! Vamos revidar- tinha esquecido como o Sask gritava alto.Ele mudou bastante. Nem o reconheci quando o vi sentando em volta da Mesa Amarela. Com um e oitenta de altura e músculos definidos por todo o corpo, nem parece com o gravetinho que terminou o ensino médio comigo. Bob me disse que o Sask comanda a execução das operações e treina aprendizes. -Meus garotos podem sequestrar qualquer um daqueles filhinhos-de-papai de olhos vendados- Tão modesto.

–E então? O que faríamos com eles?- Nachu pergunta em tom quase irônico.

Sask não responde. Ele sabe que não podemos fazer com quem quer que seja o mesmo que fizeram ao Eli. Eu o entendo. Poucas horas se passaram desde o ocorrido. O abalo é perceptível no rosto de todos. Mas alguns exigiram uma reunião. Todos querem justiça, mas como ser justo com a ferida aberta e ardendo?

–Não podemos alimentar essa briguinha, Sask. Vai ser sempre isso? Eles matam um nosso e nós matamos um deles até não sobrar ninguém? Há milhares de vidas em jogo. É impossível jogar tudo pro alto agora.Vamos resolver o que fazer, mas depois de esfriar a cabeça. Estão dispensados Nachu acaba com a discussão.- Levanto-me com o apoio da mesa. Ainda ando com um pouco de dificuldade.Acho isso estranho. Meu abalo foi psicológico. Já devia estar mais forte.

Alguém oferece o braço para me ajudar. Olho para o rosto do homem e reconheço aquele sorriso de galã.

–Oi, Den- ele não mudou muito.Loiro, de olhos verdes e de cantadas fáceis, Daniel sempre foi malandro.Conseguia tudo com um sorriso.

–Dez anos se passaram e você só fica mais bonita. Tá tomando pílula pra retardar o envelhecimento?- ele ri.Algo naqueles dentes me lembra o presidente. 'E nós vamos retribuir'. Ele não podia. O Eli não teve culpa. Mas talvez soubesse sobre a Organização.-Oi? Você ainda tá aí?

–Desculpa, Den.

–Ainda pensando no padeiro? Ele era importante para todos aqui. Vão dar um jeito de vingá-lo- Daniel fala sem dar importância e com um certo tom de desdém. Você vai amar saber o que eu faço por aqui. É um dos trabalhos mais importantes para a Organização- todos tão modestos.

Perco-me em meus pensamentos.Den não percebe, ou pelo menos parece que não. Melhor assim.Saímos da ala de paredes amarelas para a de paredes laranjas, depois vermelhas,roxas, azuis e finalmente verdes. Todos os quartos ficam nessa ala, eu acho. O meu é um dos primeiros.

–Obrigada por me fazer companhia,Den.

–Nossa, já chegamos? Eu nem tive tempo de te contar como eu salvei..

–Outro dia, Daniel. Preciso dormir.

–Tudo bem então- ele sorri- Quarto 602 B não é? Que tal eu vir te acompanhar para o jantar?

–Jantar?- Bob e Tia trouxeram todas as minhas refeições para mim.Não imaginava que havia um lugar específico para comer. Como eu sou burra. Óbvio que existe.

–É. No refeitório. Posso passar aqui às oito?

Confirmo com a cabeça. Ele perguntaria até eu aceitar. Só tornei isso mais fácil. Den sorri, me abraça e vai embora.

A parede desliza como que por mágica permitindo minha entrada no quarto.

–Bob?- nenhuma resposta.- Bob?

Tiro meus tênis e deito na cama. Há outra muda de roupa sobre a mesa robótica. Mas nenhum sinal do Bob. O relógio marca duas e meia. Talvez ele foi buscar meu almoço ou talvez só quisesse sair um pouco.

Tento dormir, mas não consigo. Cada vez que fecho os olhos, Eli aparece, com o rosto inchado e o corpo envolto em sangue. Foi tudo tão horrível. E era mentira. A Organização não seria capaz daquilo. O Governo matou os que sobreviveram à explosão, eu vi.

Matador. "Sim, odeio".' E os dois mortos pela Maige? Será que eram como ele?

Um toque suave de gotas de chuva interrompe meus pensamentos. Tem uma campainha aqui? A mesa robótica se projeta na minha frente,mostrando quem está lá fora. Do lado da imagem aparecem as opções de 'permitir a entrada' e 'negar a entrada'.Escolho a primeira. A parede desliza e ele aparece.

–Também não consegue dormir?- os dentes dele não são perfeitamente brancos,seu porte não é atlético,seus olhos e cabelo não têm nada de especial. Que bom que ele continua o mesmo.

–O Eli era importante pra mim.

–O Eli, seus pais e seu irmão. Eu sei- ele se aproxima e senta na beirada da cama.

–Rob, eu preciso de alguma coisa pra ler- seria uma boa saída para ocupar a mente.

–Livros tipo aqueles que eu te emprestava quando a gente era mais novo?

–É. Qualquer um serve, na verdade.

–Você quer esquecer não é?- continuo imóvel, mas ele sabe.- Gostei do que você fez com a sua televisão. Eu uso a minha como alvo.Dardos, bolas. Depois de um tempo fica mais fácil.

–Eu não te vi na reunião.

–É que eu estava no modo ninja- ele faz uma careta e eu rio. -Como foi o caminho de volta pro quarto?

–O Den veio comigo.- eu não precisava dizer nada a mais para que ele entendesse.

Rimos juntos. A gente sempre teve essa conexão. É bom saber que isso não mudou.

–Você já conhece tudo aqui?- balanço a cabeça negativamente e respondo:

–Só os corredores coloridos e a sala da Mesa Amarela. O Bob me disse que cada cor representa uma ala.

–Amarelo para Operações, laranja para Treinamento. A parte hospitalar fica no vermelho e a de pesquisa no roxo. O azul é para o refeitório e o verde são os quartos.

–É tudo tão colorido aqui. E alegre...

–Diferente de como é lá fora- ele completa- Esse é o motivo.

Continuamos a conversa e nos esquecemos de todo o resto.Bob aparece e se junta a nós. Eles me explicam que a Mesa Amarela tem esse nome por falta de criatividade, contam piadas bobas e me fazem rir. Sem assuntos polêmicos, mortes ou coisas que não queremos lembrar.

Somos interrompidos por gotas de chuva.

–Droga. Tinha esquecido.

–O quê?- Rob pergunta.

–Den disse que vinha me pegar pra jantar. É ele lá fora.

–E se fóssemos nós quatro? Sabe,vocês dois, eu e o Bob.- a campainha toca de novo.

–Eu não vejo problema.

Levanto da cama e calço meus tênis.Caminho em direção a parede e eles me seguem. Aperto um botão roxo e a porta desliza.

Explico ao Den que nós quatro vamos jantar juntos. Ele não aceita. Deixo-o com seus argumentos vazios e vou para o refeitório.

O cheiro é tão bom. Pizza. Nem lembro da última vez que comi pizza. O refeitório é enorme, com aproximadamente quarenta mesas redondas e coloridas e paredes brancas. Pouco mais da metade das mesas está ocupada. A maioria das pessoas veste jeans e camiseta.Algumas, vestidos, outras calções.Não existe uniforme obrigatório fora das operações.

Entramos na fila. Bob poderia se transformar em algo maior e capaz de se servir, mas prefere manter sua forma humanóide e acompanhar a fila no ombro de Rob.

Os sabores são variados, mas só coloco em meu prato duas fatias de pizza de frango, a minha preferida. Rob serve-se de quatro queijos e carne.As bebidas estão no final da mesa.Refrigerante. Faz tanto tempo desde a última vez que tomei coca-cola que eu nem lembro o gosto.

–Bob, o que você vai comer? Porcas e parafusos?- pergunto sorrindo.

–Na verdade, os pesquisadores da Organização desenvolveram uma bebida que nós,robôs,podemos tomar.Não nos acrescenta nada, mas é melhor do que ficar sentado vendo-os suprir sua necessidade alimentar.

Como meus dois pedaços de pizza e Rob repete os dele, enquanto Bob bebe uma, duas, três,quatro latas.

–Tá tarde. Melhor eu ir.- digo,bebendo o último gole do meu refrigerante.

–Eu te acompanho.- Rob fala- Você vem com a gente, Bob?

Só então percebo o quanto o robôzinho está bêbado. Suas duas câmeras oculares estão fora de sincronia: uma gira sem rumo enquanto a outra pisca loucamente.Seu dedinhos metálicos parecem estar tremendo.

–Será que ele está bem?- pergunto,preocupada com meu companheiro.

–Claro que sim- Rob sorri e coloca Bob na palma da mão.- Uma noite carregando e o efeito da bebida passa.Talvez ele reclame de uma ou outra engrenagem emperrada, mas é normal.

Saímos do refeitório, com Bob se queixando de alguma coisa. Eu e Rob conversamos sobre a comida do refeitório e outros assuntos banais.Uns dez minutos depois, já estamos na porta do meu quarto. A parede desliza e entramos. Sento na cama e observo Rob colocar o robô para carregar dentro de uma caixa do tamanho de sua forma humanóide.

Sem perceber, começo a cantarolar.Rob assobia a melodia da música e eu agora a canto mais alto.

De alguma forma estranha, a música se encaixa no que estamos vivendo. Suas notas e tons tomam conta de nossas vozes.

Rob se levanta, me deseja boa noite e vai embora. Tiro minha roupa e visto um pijama lilás que estava em cima da mesa metálica. A temperatura do quarto é perfeita. Não há lâmpadas.Um ponto do lado da cama ilumina uma parte do recinto, funcionando como um abajur. Deito e me enrolo com o cobertor. Olho para a televisão na minha frente (ou para o que sobrou dela). Depois da transmissão do assassinato do Eli, eu a esmurrei até que o que eu estava sentindo passasse. Mas não me machuquei.Pensando melhor agora, isso parece estranho. Será que a sopa da Tia me deu força sobrehumana? Não, parece provável. Tento procurar alternativas mais possíveis e acabo dormindo sem achar alguma.