Trauma

5 Capítulo 5- Anabelle 05


Notas iniciais
O seu subconsciente mostra-se claro em seus sonhos? O de Anabelle, sim.

Ela estava em casa de novo. Sentada naquele sofá marrom velho que fora de sua avó com um livro na mão. O irmão dormia em seu colo. Ela desfazia os nós do cabelo dele com um sorriso estampado no rosto. A mãe ajudava o pai a pôr os pratos na mesa para o jantar.

–- Mãe, o Eli vem?-- ela perguntou, ainda acariciando o cabelo do irmão.

–- Vem. E vai trazer sobremesa.

Algumas pessoas a achavam parecida com a mãe. Talvez ela fosse. O rosto redondo, os cachos do cabelo cor de carvão, os lábios cheios, todos eram iguais nas duas. Ela tinha uns 12 anos nessa época, mas já era maior que a mãe.

O pai fora na cozinha, terminar de preparar o jantar. O cheiro de tempero tomava conta da casa. Ele cozinhava muito bem. A filha sempre o incentivou a abrir um restaurante, mas ele achava bobagem. Preferia usar seu toque mágico no orfanto onde trabalhava, ensinando as crianças a ler. Ele também era bonito: o cabelo marrom-escuro fazia uma bela combinação com os olhos verdes, o nariz fino lhe dava um ar nobre. Ela também parecia com o pai: sempre calma, mas com uma presença que impunha respeito. Seus ideiais também eram parecidos com os dele.

O irmão acordara, mas continuava deitado no colo dela. Os pais colocaram o jantar na mesa. Não era nenhum dia especial, mas a casa estava arrumada como se fosse. As cortinas beges, que o pai tanto gostava porque faziam uma boa combinação com o marrom cor de areia da parede, estavam presas nos cantos da janela, deixando os tons roxos e laranjas do crepúsculo inundarem a sala. As almofadas no sofá eram novas, uma vermelho-escuro, uma verde-escuro e uma laranja. Toda a decoração da casa tinha tons terrosos, menos a cozinha, incrivelmente branca.

Ela levantou-se, colocando o livro na mesa de centro e a cabeça do irmão(que voltara a dormir) sobre a almofada vermelha. Foi até à grande porta de carvalho da entrada e mexeu no interruptor que havia do lado. As luzes da sala acenderam e ela foi para o quarto.

Seu quarto não era grande. Tinha uma cama de solteiro encostada na parede, uma janela de vidro no fundo do quarto, um armário do lado oposto ao da cama. As paredes amarelas destacavam o marrom dos móveis.

Foi ao espelho do lado do armário. Seu cabelo havia secado e começava a ficar ondulado. Ela o penteou com os dedos e o prendeu num rabo-de-cavalo. O vestido era verde, que destacava o tom em seus olhos e o preto do cabelo. Era justo na cintura e as mangas deixavam o pescoço e parte do busto à mostra; a saia lisa caía até o joelho. Ela gostava daquele vestido.

Ouviu batidas na porta e desceu as escadas correndo. "Eli", pensou. Quando chegou na sala, ele já estava lá, falando com os pais dela amigavelmente, fazendo piada sobre a cara de santo que o Jean tinha quando dormia. Ela o abraçou e ele retribuiu o carinho.

–-O que você trouxe pra sobremesa?-- a menina perguntou, ansiosa.

–-Bolo de brigadeiro-- ele respondeu sorrindo, sabendo que ela amava brigadeiro.

Eli era um velho amigo da família. Trabalhava como cozinheiro no mesmo orfanato do pai da menina. Eli era um irmão para ela, sempre foi. Só pensar na ideia de perdê-lo fazia seu coração doer, mas ela sabia que um dia isso aconteceria.

A garota não entendeu como, mas eles já estavam terminando o jantar. Iam começar a sobremesa, quando um homem saiu da cozinha. Ela não o conhecia. Os outros na mesa continuavam comendo, como se nada estivesse acontecendo.Mais dois homens apareceram atrás dele. Os três vestiam um tipo de uniforme cinza e coturnos. O cinto estava abarrotado de facas. Eles não demonstravam emoções.

O primeiro homem chegou por trás do pai da menina. Os olhos verdes dele olharam para os dela, quase como se conseguissem entrar em seu cérebro e arrancar-lhe os sentimentos. Ele deu um sorriso triste. E então a garota viu sangue jorrar do pescoço do homem que mais amava.

Seu instinto fez com que ela tentasse se levantar para socorrer o pai, que já desfalecia no chão. Mas algo a impedia. Parecia que uma força invísivel a prendia na cadeira e quanto mais a moça tentava sair, mais a força a segurava.

A garota levantou a cabeça a tempo de ver um homem cinzento atrás de cada assento. As outras pessoas sentadas à mesa continuavam comendo, ignorando totalmente o corpo do patriarca banhando o chão com seu sangue. Com perfeita sincronia os homens sacaram suas facas. E com essa mesma perfeição as cravaram na nuca da mãe, do irmão e de Eli. E então sumiram.

Com eles foi-se a força que a mantinha presa à cadeira. A moça levantou-se e sentiu algo viscoso ao colocar os pés no chão. O vermelho pintava o carpete bege de forma macabra e bela.

Suas pernas perderam as forças e ela caiu, manchando o vestido com pintas vermelhas.

E então ela acordou.

Notas finais
Certo. Vez ou outra capítulos-sonhos aparecerão. Pode ser estranho mudar completamente o foco narrativo e o tempo. Foi só uma forma de mostrar que é um sonho.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.