Tratado dos Párias
1 Noivado com um Assasino
Estava deitada ainda. Era madrugada, mas não tinha sono, sentia uma angústia dentro de mim. Hoje é um dia diferente dos habituais, um dia que espero há dois anos. Poderei finalmente conseguir algum fragmento de informação sobre meu futuro noivo Samuel.
Um assassino cruel e muito sanguinário. Posso dizer que tenho sorte de ter conquistado ele, também agradeço minha boa sorte por ele não me reconhecer ou desconfiar de mim.
Como é engraçado a visão que temos um do outro, ele sempre me diz que foi amor à primeira vista, pobre infeliz, não posso dizer o mesmo.
Tive sorte de quase ser morta pelo parceiro dele e não por ele, não me esqueço de nada, nenhum detalhe daquele funesto dia...
Escondida atrás do celeiro pude ver tudo através das frestas largas da parede de madeira, via todas elas apavoradas com o que lhes ia acontecer, presas sem poder fugir.
Havia dois deles, o que estava ali dentro e outro do lado de fora, eu sabia por causa dos gritos vindos de todos os lados. Não conseguia imaginar como estava sendo com as meninas fora do celeiro, só rezava para não ser encontrada e não acontecer comigo o que acontecia com elas ali dentro.
Estava escondida, coberta dentro de uma carroça encostada a parede e então minha visão era privilegiada.
No começo parecia ser um banquete para um homem só, ele escolhia uma dentre o grupo de uma das baias.
Havia quatro baias e ele escolhia aleatoriamente, havia várias meninas em todas elas, gritavam, se negavam a acompanhá-lo, mas ele as arrastava as tirando de lá e então ele as estuprava fazendo atrocidades com as pequenas. E depois de deixá-las sangrando por baixo com sua brutalidade ele as estripava.
Por fim, sem nenhuma pena ele as matava deixando no meio do celeiro o corpo aberto com seus olhos vidrados pelo choque e a morte lenta.
Tive tempo de ver todos os estupros, depois foi apenas morte, apenas despir e matar.
Até hoje vejo aquilo como uma festa onde tinha um banquete farto para um único convidado que se farta com o que consegue comer e depois de ficar enfastiado permanece na festa por obrigação.
Depois de estuprar e matar umas seis meninas ele já não via mais graça naquilo, já começava apenas a despi-las e enfiar o punhal em suas barrigas profundamente. Começava pelo baixo ventre e subia por toda parte mole deixando um imenso corte vertical.
A pilha ia aumentando no centro do celeiro, meninas ainda vivas e abertas agonizavam uma em cima da outra, ao menos a sortuda da sétima menina até o resto tiveram mais sorte que as primeiras.
Me lembro de quando a lona que me escondia foi arrancada de mim, da luz do céu invadindo meu pequeno refúgio.
Queria poder ter gritado, me esperneado e pedido por favor, entretanto já tinha visto o bastante lá dentro para saber como seria comigo ali fora, até sentia a dor antecipada no local aonde seria dando o primeiro golpe.
O que eu sentiria quando a faca começasse a subir eu não sabia, mas era a parte que mais me apavorava.
Foi mais rápido do que imaginei, passou tudo como um raio na minha cabeça. Em segundos fui arrancada da pequena carroça em que estive escondida, fui despida apenas do colete de noviça do templo e recebi uma única, rápida e limpa dor perto do umbigo ao lado direito.
Vi o olhar de dor do meu malfeitor, a agonia que ele sentia ao me matar, também vi a raiva nos olhos dele e estranhamente eu sabia que não era de mim, era de algo mais.
Eu não estava morta, mas estava tão entorpecida que nem gemia e talvez foi isso que salvou minha vida, ele me carregou e me levou até o celeiro me colocando com delicadeza em cima da pilha de corpos.
Hoje penso na ironia que é um assassino gentil e preocupado com a maneira de largar um corpo no seu ultimo lugar.
Fiquei ali quieta e em estado de choque, ouvindo o último suspiro de várias meninas enquanto esperava o meu último suspiro chegar.
Ainda consegui ouvir a discussão dos dois, nem me mexia por medo de Samuel, medo de ele ver que eu ainda estava viva e decidisse fazer comigo as atrocidades que fez com as primeiras que ele matou.
Não sei como funciona isso, mas se era um banquete aquilo, só pude supor que sua fome iria voltar ou talvez eu fosse a saideira, não sei. Sei que fiquei imóvel respirando o mínimo possível e não emitindo um único som.
Meu malfeitor estava irado. — Não precisava isso tudo Samuel, era apenas fazer o que nos foi ordenado, deixar os corpos aqui e pendurar os coletes para que a sacerdotisa pudesse ver eles antes dos corpos aqui dentro.
— Acha mesmo que vendo tantas garotas eu não ia aproveitar André? Elas iam morrer de todo jeito seu idiota, elas eram nossas presas, eu apenas aliviei a tensão antes de completar o serviço.
—Tensão? Você quase as abriu ao meio seu infeliz. O que você fez foi uma crueldade desmedida. Por sorte não servimos juntos ao senhor…
Uma gargalhada fez minha espinha gelar, sabia que desmaiaria ou morreria a qualquer momento. Meu corte estava pressionado pela coxa de uma menina que tinha dado espasmos antes de morrer, o sangue havia diminuído seu fluxo, ainda assim me sentia sonolenta, as vozes começaram a ficar distantes, ainda entendi quando o meu malfeitor falou.
— Não consigo entender essas ordens, éramos aliados e colaboradores uns dos outros, fomos enviados aqui para cuidar dessas meninas até vir à sacerdotisa, e olha o que realmente tínhamos que fazer.
Então não ouvi mais nada, tudo ficou escuro. Acordei minutos ou horas depois não sei, mas já era noite.
Havia uma fogueira lá fora ao longe, a vozes dos dois estava distante, a janela do celeiro era baixa e eu não perdi tempo, com esforço afastei a perna endurecida e fria e levantei cambaleando e a alcancei.
Estava quase passando por ela senti uma mão pressionar minha boca, uma voz sussurrada e urgente em meu ouvido.
— Não grite!
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