Tratado dos Párias

2 Conselho de três ações


Notas iniciais
Olá pessoal :) Espero que gostem *-*

Eu nem conseguiria gritar mesmo, pois era como se a punhalada tivesse sido em minha garganta e não em meu estômago, e cortado minhas cordas vocais no processo.

Ele foi gentil e eu não entendia o porquê. Me cobriu com seu sobretudo forrado de peles e me ajudou a seguir.

Por um longo tempo caminhamos e o meu ferimento tinha estancado parcialmente com a pressão daquela coxa fria, ainda assim eu não tirava a mão dali. Apertando enquanto andava ainda estava confusa com aquele ato do homem que tentou me matar, agora me ajudava a fugir do celeiro.

Logo ele parou e segurou meus ombros. — Não seja pega garotinha, se fosse Samuel que tivesse te encontrado em fuga você estaria com sérios problemas agora.

Senti uma onda nervosa em meu estômago, um arrepio na espinha e chorei sem som e com muitas lágrimas. Ele tinha razão.

— Daqui tenho que voltar, não vou dizer que sinto muito, mesmo sendo verdade se dissesse, apenas digo que cumpri ordens e não entendo o motivo disso. Vá menina, aproveite o tempo extra que lhe dei e viva, fique forte e descubra se quiser.

Logo depois desse conselho ele voltou me deixando sozinha. Primeiro fiquei perdida, com medo de seguir em frente, contudo tinha mais medo de voltar, de Samuel me encontrar e me abrir ao meio também. Apenas esse medo me fez continuar a seguir em frente.

O conselho do meu malfeitor novamente voltou a mim e assim fiz. Foram três etapas de um conselho simples, mas segui a risca.

Primeiro viver, segui pela floresta por muito tempo, adentrando cada vez mais em seu interior e me assustando até com os galhos secos que eu quebrava ao pisar.

A febre começou a me queimar depois de um tempo, mas o sangue tinha diminuído de sair depois de tanto eu apertar meu ferimento.

Chorei todo o tempo em que me arrastava trôpega pela floresta, várias vezes me equilibrei nas árvores para tomar fôlego e olhei para trás muitas vezes com receio de ser uma armadilha, de ele estar me perseguindo e esse medo me fez criar forças para continuar a me distanciar.

O escuro da floresta, os sons estranhos, o farfalhar de galhos, o ranger natural das árvores. Tudo parecia extremante ameaçador, eu sentia que até o vento da floresta queria me matar.

Era quase de manhã quando o cansaço finalmente venceu meu medo, minhas pernas quase nem mais me obedeciam.

Estava fraca com febre, havia perdido muito sangue e toda aquela lembrança não me saia da cabeça.

Queria tentar correr, me distanciar mais daquele monstro de dentro do celeiro, daquela carnificina que ele havia feito e tinha gostado tanto, mas já não podia nem dar passos mais e então de exaustão caí e não quis mais levantar.

Estava tão bom, tão aconchegante aqueles galhos retorcidos me cutucando e ferindo meu corpo, as folhas úmidas decompostas coladas ao meu rosto.

Até as picadas das formigas que começaram e me morder era agradável. Eu precisava dormir, meu corpo e minha mente pediam descanso.

E então quando achei que estava finalmente em paz, uma silhueta. Forcei para abrir os olhos e ali estava o vulto mais perto, então fui carregada.

Me aconcheguei nos braços do meu assassino, salvador, inimigo ou amigo.

Poderia ser muitas coisas, mas o conforto do colo era bom. No fundo de minha sobra de consciência rezei para morrer ali para não saber o que ia acontecer comigo, ao menos morreria com a sensação de conforto naquele colo. Logo não vi mais nada, dormi ou desmaiei de exaustão.