Trapaças na Noite Escura
4 Capítulo 4
Eu queria saber onde Irina Cara de Rato está nesse momento. Uma mancha vermelha cor de vinho aparece em minha mente toda vez que penso sobre ela, sobre os mistérios que a cercavam e sobre todas as outras coisas cruéis. Será que algum dia eu voltarei a vê-la? De uma coisa estou certa, se não em vida vamos nos ver novamente no inferno. Devo admitir que não conheço sua história completa, mas sei o bastante para julgá-la e saber que se trata de um demônio na forma de uma rata quase humana.
Já fiz coisas horríveis, confesso, e em minhas mãos há sangue, mentiras e trapaças. Mas nada parecido com o que Irina Cara de Rato fez…
Eu já tinha dúvidas quanto ao caráter de Irina Cara de Rato antes mesmo de ela mostrar suas presas, mas nunca desconfiei que fosse tão desumana. Algumas vezes me pergunto se Hugh, sempre tão exato ao julgar as pessoas, já teria percebido a trama que nos cercava cada vez mais, sufocando cada um de nós sem que percebêssemos. Há momentos que acho que sim, mas depois penso um pouco e imagino que se soubesse, nunca deixaria que as coisas acontecessem como aconteceram…
E Petrus? Será que se Petrus soubesse teria renunciado ao prazer físico e talvez emocional de estar ao lado dela em favor da nossa sociedade? Nunca tive a oportunidade de perguntar isso a ele, e não acho que perguntaria mesmo que pudesse. Tenho medo que se o fizesse, receberia uma resposta a qual não gostaria de ouvir.
Naquela noite, tenho certeza que ele não pensava nas consequências enquanto envolvia Irina Cara de Rato cada vez mais nos nossos planos, sem que qualquer um de nós soubesse exatamente o que eles estavam fazendo e tudo o que pudemos fazer foi desconfiar de suas intensões. Nós demoramos mais do que eu teria preferido para planejar nosso assalto ao Banco da Rússia, tudo em decorrência da presença de Irina Cara de Rato e em como não discutimos nada disso em frente a ela. Então, quando eu, Hugh, Dimitri e Petrus nos encontramos naquela noite, para finalmente colocarmos em prática o plano, eu me sentia quase aliviada.
Depois de tanto tempo, estávamos finalmente realizando o nosso plano mais sombrio, o que nos daria dinheiro o suficiente para vivermos no luxo pelo resto de nossas vidas. Claro, ninguém tinha certeza quanto ao futuro da sociedade depois disso, afinal, quão perigoso seria continuarmos juntos depois do assalto que tomaria proporções gigantescas? Quero dizer, quantas pessoas podem dizer que assaltaram o Banco Nacional da Rússia?
Passada aquela noite, nós quatro podiam dizer isso. Eu entrei primeiro, seduzi alguns guardas, lembrei-me das câmeras e escondi meu rosto com um dos chapéus de Petrus. Petrus, Dimitri e Hugh entraram depois e todos nós tínhamos armas carregadas. Alguns disparos foram feitos, mas eu fui a única que tirei vidas.
Entretanto, não acho que precise entrar em detalhes sobre isso… Afinal, tudo está relatado e guardado com os policiais e o governo. Veja bem, não estou negando que cometi um crime ou que matei aquelas pessoas. Sim, eu matei. Dimitri, Petrus e Hugh não tiveram necessidade de usar suas armas, mas a minha, uma pistola com um silenciador, causou mortes. Se você nunca disparou uma arma ou esteve em um tiroteio, não sabe o quão o som de um disparo é alto. Claro, o silenciador não evita o barulho, mas o diminuiu e tem outras vantagens além dessa…
De qualquer jeito, o furto foi um sucesso. Saímos de lá rapidamente, com o dinheiro em mãos, cada um de nós carregando uma parte e o colocando no carro sem placa que Dimitri tinha arranjado na ultima hora. Não muito longe dali, trocamos de carro mais uma vez, a fim de evitar perseguições. Fomos rápidos o bastante e silenciosos o bastante para ganhar vantagem sobre a polícia. E, claro, a maioria dos que poderiam ter avisado alguém, estavam mortos.
Assim, simplesmente voltamos paras nossas vidas normais no bairro escuro de Moscou. Calculávamos que ainda tínhamos uma vantagem de uma hora antes de começarmos a ser procurados. Assim, Hugh nos deixou no McMills e dirigiu com o dinheiro para trocar tudo aquilo pelos diamantes que havíamos combinado. Claro, acabaríamos perdendo uma quantia do dinheiro, pelo silêncio do homem que nos venderia os diamantes, mas era muito mais seguro andar por aí com as pedras do que dinheiro vivo e tínhamos dinheiro o bastante para não reclamar pela quantia perdida.
Lembro-me ainda de ter pedido uma bebida no bar, mesmo quando meus amigos foram embora. Afinal, nosso ataque fora tão sutil, tão discreto… Nada como nos filme, com refém, gritos e o caos. Era como o efeito de um veneno. Silencioso e podendo demorar dias, mas mortal do mesmo jeito.
Eu tinha acabado de assaltar o Banco Nacional da Rússia e tinha matado alguns homens cujas mãos tinham percorrido meu corpo, mas não era assim que me sentia. Eu estava feliz, é claro, tinha dinheiro pelo resto da minha vida e tudo corria como o esperado…
Mas eu estava meio triste ao mesmo tempo. Nenhum de nós dissera em voz alta, mas nossa sociedade chegava a um fim, isso era evidente. Logo sairíamos da Rússia, junto, em direção à Mongólia. E, de lá, cada um iria para um destino diferente, com nomes diferentes dos que tínhamos usado até então.
“Quanto mais longe, melhor” Petrus tinha dito. Ele próprio pretendia rumar para a Argentina, e eu achava difícil vê-lo imaginá-lo livre de suas roupas elegantes… Ao mesmo tempo, me sentia incomodada sobre como ele provavelmente levaria Irina Cara de Rato consigo; e imaginar os dois dançando tango me causava náuseas.
Já Dimitri sonhava com a América. Que fosse Nova Iorque com suas luzes e arranha-céus ou a Califórnia com praias e mulheres quentes. A terra dos sonhos, ele chamara. O lugar onde você pode ser o que quiser. Eu o achava louco.
Eu não tinha tanta certeza sobre Hugh. Ele sempre fora o mais misterioso de nós e, quando não disse para onde pretendia ir, nenhum de nós o forçou a falar. Nós podíamos não saber muito sobre o mundo fora de Moscou e suas trapaças e jogos sujos, mas sabíamos que não devíamos incomodar Hugh. Uma vez ele mencionou algo sobre sempre ser possível achar trabalho na África, embora eu costume pensar que ele se encaixaria perfeitamente na máfia italiana, se quisesse.
Não tenho tanta certeza quanto a mim. Creio que sempre estive apegada demais à Rússia para imaginar uma vida longe dali. Mas eu sempre quis conhecer a Austrália. Sim, talvez Austrália fosse uma região longe o bastante para se esconder por uma vida.
Naquele dia, ainda sentada no bar e tentando tomar minha bebida rápido, mas, ao mesmo tempo, querendo que eu pudesse ficar sentada ali para sempre, eu imaginava o quão ruim seria deixar de ser Ania, deixar a Rússia, deixar a sociedade. Hoje, teria dado tudo o que ainda me resta para que essa ideia maluca de Dimitri tivesse dado certo até o final.
No final, coloquei algum dinheiro sobre a mesa – o bastante para pagar pela bebida – e sai. Depois de assaltar um banco, a última coisa que eu queria que o McMills chamasse a policia por não ter pagado uma bebida. Assim, rumei meu apartamento e peguei minhas coisas – as duas malas pequenas que eu empacotara com todas as minhas coisas. Não havia qualquer sentimento de apego em relação ao apartamento, entretanto, e deixá-lo foi relativamente fácil.
Eu tinha que encontrar os outros. Tivemos sucesso em nossa última missão, mas eu não ganhara minha parte ainda. Hugh tinha todo o dinheiro com ele e tínhamos combinado de nos reunirmos para dividir os diamantes em partes iguais.
Claro, iriamos nos encontrar no apartamento de Petrus. Afinal, além de ser o mais perto para todos nós, era também no caminho para a estação de trem. De lá nossa fuga seria facilitada.
Então, foi para lá que eu fui, crente que os outros já estariam me esperando impaciente. Preparei, também, para encontrar-me com a figura indesejada de Irina Cara de Rato. Mas nada teria me preparado para o que viria a seguir…
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