Notas iniciais
Oi, gente! Espero que gostem, último capítulo :D

Nunca fui religiosa, mas eu ainda rezo por Petrus às vezes, como no caso das minhas preces pela morte de Irina Cara de Rato. Rezo por sua alma cheia de luxúria, de orgulho, de estupidez. Cego pelo desejo, pelo o que quer que Irina Cara de Rato lhe oferecia. Prazer, palavras bonitas, promessas? Eu não sei. Mas ela fazia direito. Ou Petrus não teria se rendido a isso e pagado com sua vida no final.

Bater na porta de Petrus foi fácil. Testar a maçaneta e descobrir que essa se abria quando ninguém me atendeu foi fácil. Difícil foi ver que não havia ninguém no apartamento. E, por fim, mais difícil foi ouvir o som do tiro no andar de baixo sem precisar me aproximar para saber o que significava.

Dois outros disparos se seguiram ao primeiro.

Peguei as escadas quando o elevador demorou demais para chegar. O apartamento de Dimitri era no andar debaixo e, mesmo que de salto alto, eu não tive problemas para chegar até ele e parar no batente da porta aberta.

Eu sabia antes mesmo de ver, mas assistir de fato a cena foi a pior coisa que eu já fiz. Normalmente, era fácil manter-me em uma pose confiante e equilibrada. Fria. Mas não depois daquilo. Era simplesmente demais para mim e simplesmente deixei que as lágrimas caíssem e borrassem minha maquiagem, por mais que odeie admitir.

Vi primeiro Dimitri. Ele estava deitado no chão, deitado sobre a poça de sangue que pertencia a si mesmo. Havia dois tiros em suas costas. Ele caíra com os pés em direção a porta, um filete de sangue saindo de sua boca, os olhos vibrados. Eu não consegui entender. Eu não queria entender.

Depois vi Petrus. Petrus, cujo espírito ameaçador e a mente brilhante só poderiam ter sido derrotados por um tiro certeiro. Em um primeiro momento, parecia apenas deitado no chão, como se descansassem, os olhos fechados. Mas havia sangue manchando sua camisa branca. E, quando tentei sentir sua pulsação pelo pescoço, não achei nada.

Foi só então que eu vi as armas. Uma na mão do próprio Petrus, a outra caída perto de Dimitri e uma terceira perto da porta. Minha respiração se tornara ofegante. Eu atirara minha antiga arma dentro de uma caçamba de lixo, mas a faca presa em minha perna se tornou fria de repente.

A verdade era que eu não sabia o que fazer. Petrus e Dimitri estavam mortos e o terror começava a me consumir…

Não foi fácil voltar à razão fria. Mas, quando o fiz percebi uma coisa. Petrus e Dimitri estavam mortos, mas Hugh não estava em lugar nenhum que eu pudesse ver. Afastei-me do corpo de Petrus e corri em direção ao telefone antigo da casa, cambaleando no salto alto.

Não consigo lembrar se o telefone tocou uma vez ou dez. Apenas me lembro de que pareceu levar um século até que finalmente a voz rouca de Hugh viesse do outro lado.

– Alô?

– Hugh? Sou eu, a Dama de Copas. Estou no apartamento do Valete. Ele e o Rei de Espadas estão mortos.

Hugh xingou. Não me lembro de nunca antes ter ouvido o controlado Hugh xingar, mas ele xingou naquele momento. Levou um tempo até que finalmente voltasse a falar alguma coisa.

– Ania, saia da cidade – e aconselhou. – Agora. Não sei o que aconteceu com Rei ou Valete, mas não é seguro para nenhum de nós ficar aqui.

Certo, pensei. Sair da cidade. Já tínhamos combinado que faríamos isso. E, claro, Petrus e Dimitri estavam mortos, mas eu não estava e tinha acabado de roubar o Banco Nacional da Rússia. Não podia simplesmente sentar no chão e esperar ser presa.

Porém, foi apenas quando desliguei o telefone que percebi uma coisa.

Hugh estava com todos os diamantes. Petrus e Dimitri estavam mortos, ele me aconselhara a fugir da cidade. E Hugh tinha todos os diamantes.

Se eu fugisse naquele momento como o aconselhado por Hugh, estando Petrus e Dimitri mortos, ele ficaria com todos os diamantes.

E uma ideia surgiu em minha cabeça. Qual a possibilidade de ter sido meu amigo mal encarado a ter planejado tudo aquilo? Seria o crime perfeito. Aproveitar do trabalho dos outros para ficar com a recompensa final. Eu não sabia muito sobre Hugh, mas sabia que seria capaz de qualquer coisa suja se envolvesse seu próprio núcleo.

Mas esse era um crime que eu não podia permitir. Abaixei e tentei pegar a arma caída perto de Dimitri, mas minhas mãos trêmulas e enluvadas não conseguiam segurá-la. Então arrancei as luvas e foi em direção ao elevador, que dessa vez se abriu assim que apertei o botão.

Comecei a tremer assim que entrem meu carro, jogando a arma no banco do passageiro e esquecendo momentaneamente como ligar o carro. Minha cabeça doía, as mortes de Petrus e Dimitri me perturbavam e a suposta traição de Hugh me deixava tonta. Fora tanto tempo junto com aqueles homens, que eu devo ter me apegado demais a eles. Eu não devia ter feito isso.

Quando finalmente consegui ligar o carro, parti para a casa de Hugh sem me lembrar de que sequer existiam leis de transito. Estava tão transtornada que não pensava direito, a visão se embaçando ocasionalmente. Tudo o que eu conseguia pensar e que sussurrava como em uma prece era “Hugh está com os diamantes”.

Até hoje não tenho certeza de como entrei o caminho para a casa de Hugh naquela situação, nem como o fiz tão rápido. De repente estava parada em frente ao prédio velho, a arma tremendo em minhas mãos e o frio da faca presa em minha cocha quase me queimando.

Subi as escadas ruidosamente, tenho certeza disso. Toda a elegância fora esquecida e destruída junto com minha maquiagem ainda borrada.

Bati na porta de Hugh várias vezes. Não cheguei a considerar que talvez ele já tivesse saído, mas hoje percebo que talvez tenha sido imprudência ir até lá sem ter certeza de nada. Mas, para minha sorte, o homem forte não demorou a atender-me.

– Ania? – ele me encarava com susto em sua voz. – O que está fazendo aqui? Eu disse para sair da cidade!

Eu não disse nada. Até hoje me pergunto o que eu devia ter falado em um momento como aquele. Ele provavelmente percebeu meu descontrole, disse para eu entrar e avisou que ia pegar alguma coisa forte para eu beber antes de sumir para dentro do apartamento, provavelmente sem saber o que fazer comigo.

Eu não entrei de imediato como ele tinha sugerido, preferindo esperar que ele estivesse fora de vista para poder dar alguns passos para dentro, a arma finalmente também amostra. Eu ainda estava procurando pelos nas gavetas de uma cômoda quando ele voltou com um copo cheio de uma bebida transparente.

Assustei-me com sua chegada repentina e apontei-lhe a arma. Hugh parou, sério, olhando para mim sem qualquer reação. Não creio que estivesse preparado para isso.

– Onde estão os diamantes, Hugh? – perguntei, a arma ainda apontada para ele.

– O que você está fazendo? – ele perguntou, sem esboçar nenhuma expressão.

– Os diamantes… Onde estão? – nesse ponto eu me controlava para não cair em lágrimas.

– Ania… Abaixa a arma. Vamos conversar direito. – ele disse enquanto colocava o copo com a bebida no chão e começava a se aproximar de mim.

– Os diamantes!

– Eu não estou com eles, Ania, Dimitri… – ele começou a falar, sem parar de andar.

Mas não acreditei nas palavras de Hugh.

Eu tremia, mas a arma estava firme em minhas mãos. Eu consigo me lembrar de quase tudo daquele momento. Da falta de expressão de Hugh andando em minha direção, do ar gélido entrando em meus pulmões com dificuldade, da roupa elegante em que meu amigo estava vestido.

A roupa que eu manchei de sangue.

Os sons daqueles disparos me assombram até hoje. Pareceram mais altos do que todos os que eu já ouvira, penetrando meu cérebro e acertando o ombro direito e a testa de Hugh.

E Hugh estava morto. Eu ofegava. Acabara.

Os diamantes! Voltei a procurar por eles, revirando o apartamento de Hugh. Tinham que estar em algum lugar por ali em algum lugar.

Foi enquanto ainda procurava que a ideia me ocorreu. O que eu tinha feito? Eu matara Hugh, mas a clareza só atingiu minha mente depois, os fatos se ligando rapidamente.

Os diamantes não estavam com Hugh, ele falara a verdade. Estavam em outro lugar.

Vários flashes de clareza passaram por minha mente.

Lembrei-me da ligação que Dimitri me fizera tanto tempo antes, falando sobre Irina Cara de Rato ter estado em seu apartamento. “Você já dormiu com tantas pessoas…”, ele dissera. Teria ele perguntado isso ou parecido tão alucinado se Irina não tivesse feito algo que não simplesmente confundir os apartamentos?

A disposição dos corpos no apartamento de Petrus, com a porta aberta, três armas, mas só dois corpos, o que poderia indicar a presença de uma terceira pessoas que já tinha saído dali…

As últimas palavras de Hugh “Eu não estou com eles, Ania, Dimitri…” e a frase incompleta que começava com o nome de meu amigo morto.

Não fora Hugh que tentara nos roubar, não era Hugh que tinha os diamantes.

Era Irina.

Ela tinha seduzido Petrus e Dimitri, feito os dois brigarem no apartamento de Petrus mais cedo, deixado que Dimitri atirasse em Petrus antes de atirar ela mesma em Dimitri. Então pegara os diamantes e correra e fora por isso que o elevador demorou a chegar quando tentei descer.

De repente tudo fazia sentido. Ela esperara que nos roubássemos o dinheiro e ficou com o prêmio maior para si mesma no final.

Eu perdi tudo naquele dia. Dimitri e Petrus estavam mortos, eu matara Hugh. Não ficara com uma parte dos diamantes para mim e não deixei a Rússia para viver confortavelmente com um nome diferente do meu. Nosso maior plano fracassara.

Os policiais me encontraram duas horas depois de ter matado Hugh, sentada no chão de seu apartamento, encarrando o nada, com a maquiagem e o cabelo estragados. Os vizinhos deviam ter ouvido o som dos tiros. Não ofereci resistência quando me levaram, acusada de ter assaltado o Banco Nacional da Rússia e matado Hugh, Dimitri e Petrus. Crimes os quais sou apenas em parte culpada.

Contei tudo o que sabia, falei-lhes a verdade. Já não me importava mais ser presa, só queria que encontrassem Irina e a fizessem pagar.

Os diamantes nunca foram encontrados e eu contei a eles minhas suspeitas a respeito de Irina Cara de Rato, mas ela também não foi encontrada.

Na verdade, mesmo quando voltaram ao meu antigo bairro e perguntaram sobre Irina, ninguém parecia sequer tê-la visto alguma vez na vida. Eles dizem que ela nunca existiu.

Dizem que eu estou a inventando. Mas eu não estou. Irina Cara de Rato existe, eu sei que não estou enlouquecendo, sei que ela nos enganou e roubou os diamantes.

No começo eu era tratada como uma criminosa que representava perigo, mas no final eles me trancaram em um asilo de loucos e me enchem de remédios.

Perdida. É assim que eu me sinto.

Perdida em um mundo sem sentido, sem cor. Um mundo que já foi bom, mas, agora, está podre.

Por isso estou escrevendo isso, para tentar trazer alguma luz ao meu mundo e não deixar que eles espalhem a versão errada sobre minha história. Não estou negando que matei, roubei e me prostitui, mas não sou maluca. Sei o que eu vi, sei o que senti, sei que Irina Cara de Rato está por trás de tudo o que aconteceu.

Eu sinto falta, também, de Dimitri, Hugh e Petrus. Perdi as únicas pessoas que algum dia realmente gostaram de mim. Perdi as únicas pessoas que algum dia já me deram valor. Perdi meus amigos. Meus únicos amigos.

Porque, afinal, somos todos humanos. Menos aqueles três. Eles eram mais do que isso.

Por esse motivo, preciso vingá-los e ter de volta os diamantes pelos quais lutamos. Sei que o governo e os policiais não vão fazer nada, mas não podem me manter drogada aqui para sempre.

Esse é o outro motivo pelo qual escrevo. Preciso encontrar Irina Cara de Rato, preciso fazê-la pagar por o que ela faz; colorir meu mundo branco com um pouco de seu sangue vermelho.

Eu não sou louca. Irina não era uma ilusão.

E, não importa o que eu tenha que fazer, hoje eu vou sair daqui.

Notas finais
E aí? O que vocês acham que aconteceu no final? Lembrando que a Ania não é uma narradora confiável, porque ela só sabe o que aconteceu do ponto de vista dela, então é complicado dizer se ela está certa ou não. No final não dá nem para ter certeza se a Irina existe ou não... Mas eu quero saber a opinião de vocês. O que aconteceu? Obrigada por terem acompanhado até aqui :D Vejo vocês em outra história! Comentários? *-* OBS: Será que vocês podem curtir a página do livro da minha amiga? Obrigada! https://www.facebook.com/ALendaDosCristais?fref=ts
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!