Trapaças do Destino
18 Sorria e acene
Notas iniciais
Como se não bastasse ter passado a manhã inteira ouvindo Olivia — a midgardiana desprezível e mais insuportável deste Reino — me dando sermões entediantes, como se fosse a dona da verdade, ordenando que eu executasse certas tarefas, como ajudar uma midgardiana caquética a atravessar a rua, e ainda por cima declarando, a cada segundo, o seu amor platônico pelo soldadinho fora do seu tempo — conhecido por aqui como o ilustre Capitão América e com quem eu já tive o desprazer de lutar certa vez — agora ela quer me arrastar para perto do seu amigo midgardiano igualmente desprezível? E quer que eu minta para ele? Para ajudá-la?
Mentir... Mentir... Mentir... Um alerta se acende dentro de mim, quando penso melhor no que Olivia insinuou que eu fizesse. Mentir.
Estamos a poucos metros da mesa do seu amigo — que continua distraído e com a cabeça baixa, enquanto toma uma bebida quente que desconheço — quando me dou conta de algo muito importante, que esta criatura insuportável, abusada e loira ao meu lado parece ter esquecido completamente.
Então, antes que Olivia estrague tudo, eu paro no meio da calçada, me desvencilho da sua mão e seguro em seu braço com força, a obrigando a deter o passo e se voltar em minha direção.
Tal gesto parece deixá-la surpresa e confusa, fazendo-a me encarar por longos instantes de um jeito questionador e com um brilho... Intenso no olhar.
Ultimamente, Olivia tem me olhado muito com este tal brilho. E uma parte de mim, não sei por que, gosta e quer corresponder.
Ao me dar conta de que o seu olhar me deixa um tanto confuso também, e incomodado com a nossa súbita proximidade, eu solto o seu braço e me recomponho rapidamente. Em seguida, resolvo que não vou perder mais nem um minuto do meu precioso tempo e começo de uma vez:
— Deixe-me ver se eu entendi. Você quer que eu minta para o seu amigo?
Percebendo que tal ideia não me agrada, Olivia arqueia as sobrancelhas de um jeito desafiador, que eu detesto, e rebate com um sarcasmo que me irrita profundamente:
— Qual é o problema? Por acaso você nunca fez isso antes, chuchu? Mentir? Eu pensei que fosse uma das suas especialidades.
Procuro manter a calma, embora a minha vontade seja de... Seja de...
Na verdade, eu não sei ao certo o que tenho vontade de fazer com Olivia Mills, mas, por um instante, imagino como seria bom se eu pudesse congelá-la com os meus poderes, até ela ficar incapacitada de falar e completamente roxa. Azulada seria melhor. Combinaria mais com o tom dos seus olhos.
Sorrio malignamente ao imaginar tal cena, mas, tentando manter o foco da conversa, indico o bracelete em meu braço — que por algum motivo, pode ser visto por esta midgardiana, mas não pelos outros seres do seu Reino — e esclareço:
— Este é o problema. — ela me fita e tenho a impressão de que não entendeu aonde eu quero chegar. Sendo assim, retomo: — Você se lembra da mensagem da minha... — hesito ao ser atormentado por certas lembranças e por uma culpa que me consome até um nível insuportável. Olivia me encara intrigada e, incomodado com a ideia de que ela me veja como um ser fraco como ela, prossigo rapidamente e do jeito mais frio que consigo: — Da mensagem de Frigga, certo? Se eu mentir para algum midgardiano desprezível, poderei ser reconhecido por ele.
Olivia morde o lábio inferior e percebo pelo seu olhar que ela, finalmente, entendeu o que eu quero dizer. Ainda bem. Às vezes, o seu cérebro limitado me irrita profundamente. Aliás, não há nada nesta criatura que não me irrite. Parece que ela tem o dom de me desestabilizar das mais diferentes formas. Algumas nem eu mesmo entendo.
Enquanto a imagino congelada como uma estátua azulada, ela olha de mim para o bracelete algumas vezes, como alguém que está procurando uma solução para o problema apresentado.
Confirmo que era exatamente isso que ela estava fazendo, já que, na sequência, a criatura argumenta:
— Pelo o que eu entendi, isso só se aplica se você tentar tirar algum proveito maquiavélico da situação. O que não é o caso, já que você estará me ajudando a consertar um erro que você mesmo cometeu, quando jogou o meu melhor amigo contra mim com o seu teatrinho ridículo. E isso é uma coisa boa, gafanhoto. Consertar os erros, sabe? Além do mais, eu vou mentir, você será apenas conivente. Por uma boa causa, só para ressaltar.
Apesar de ser um Gigante de Gelo, sinto o meu sangue ferver toda vez que esta midgardiana petulante e metida à esperta se refere a mim como um inseto nojento do seu Reino. Tenho vontade de fazê-la engolir tal apelido, tenho vontade de colocá-la no seu devido lugar, de subjugá-la de alguma forma que eu não sei exatamente como seria.
Procuro me recompor e não deixar que Olivia perceba o quanto tal apelido me incomoda. Em seguida, insisto:
— Mesmo assim é um risco.
Um sorriso insuportável se forma no seu rosto, quando ela indaga em tom zombeteiro:
— Humm... Por acaso você está com medinho de ser reconhecido e precisar sair correndo como uma donzela em perigo, é?
— Claro que não, sua insolente. — a corto de um jeito seco, irritado com a sua brincadeirinha. — Eu só estou tentando, pela primeira vez, fazer o que esta coisa — indico o bracelete novamente e completo: — orienta que eu faça.
Imediatamente, Olivia desmancha o sorriso e me encara intrigada. Eu pressinto que isso não é um bom sinal. E tenho a confirmação, quando ela tem a audácia de me corrigir:
— Você quer dizer o que a sua mãe orientou, quando decidiu que você merecia uma segunda chance e fez esta joia especialmente para você, certo?
Enquanto pisco algumas vezes, tentando não pensar em... Frigga, a midgardiana desprezível cruza os braços contra o peito e prossegue cheia de pompa:
— Ora, ora... Parece que alguém, finalmente, está dando ouvidos a mamãe, a mim e aceitando os fatos. Muito bem. Quem diria, não é mesmo? Parece que você finalmente está mudando um pouquinho. Bem pouquinho, é claro. O que vindo de você é um verdadeiro milagre, gafanhoto. Eu quase ouço as aleluias ao fundo, sabia?
Trinco o maxilar, respiro pesadamente, fecho as mãos com força ao lado do corpo e a fuzilo com um olhar mortal, enquanto meu sangue ferve mais uma vez. Em parte por Olivia ter me chamado por aquele maldito apelido de novo, e em parte por ela insistir em falar sobre... Sobre Frigga comigo. Será que é tão difícil de entender que isso é um assunto proibido para mim?
Talvez percebendo que eu não estou com um pingo de paciência para as suas provocações e piadinhas — aliás, geralmente, nunca estou — Olivia endireita a sua postura, respira fundo e retoma o assunto de um jeito mais sério:
— Olha, a sua mãe parecia te conhecer muito bem. Ela sabia que pedir para você não mentir seria como pedir para um peixe não nadar. Inclusive, se nós pensarmos bem, você já mentiu. Para o próprio Josh, quando insinuou que eu e você... Que eu e você...
Olivia hesita, visivelmente sem graça e desvia o seu olhar do meu, enquanto seu rosto fica ligeiramente vermelho. Acho isso engraçado, mas não me dou ao trabalho de me perguntar por que ela ficou assim, já que me pego analisando o que ela disse.
E, por mais que eu odeie admitir, até que a infeliz tem razão. De forma indireta, eu menti para o amigo dela, e ele não viu minha real aparência. Talvez o funcionamento do bracelete esteja atrelado à relevância da mentira e não ao simples ato de mentir.
— O que eu quero dizer é que o Josh não te reconheceu. — a midgardiana desprezível retoma, voltando a me encarar. — Então, talvez o funcionamento do bracelete esteja atrelado à relevância da mentira e não ao simples ato de mentir.
Fico impressionado, já que parece que esta criatura leu os meus pensamentos. Talvez Olivia esteja começando a me conhecer, afinal. Curioso.
Enquanto penso nisso, ela opina:
— Sua mãe parecia ser bem inteligente e, com certeza, pensou neste detalhe. Que viver sem contar uma mentirinha de vez em quando é impossível, ainda mais em se tratando de você. Sem ofensa.
Fico incomodado quando ela cita... Frigga mais uma vez, porém, disfarço bem e Olivia prossegue:
— Olha, você não estará agindo de má fé. Você só precisa me deixar confirmar o que insinuou para o meu amigo. Eu não posso contar a verdade para ele, então é melhor ele pensar mesmo que eu e você... Que eu e você... Que nós... Digo... — Olivia gagueja, hesita novamente e engole em seco, antes de concluir às pressas: — Resumo da ópera, você só precisa continuar com a farsa que começou. Assim, você estará me ajudando a fazer as pazes com o meu amigo. Não é como se você estivesse mentindo para dominar Midgard, é? Porque isso sim seria algo grave e relevante.
Me pego refletindo sobre tudo o que Olivia argumentou e, infelizmente, tenho que admitir que, algumas vezes, o seu cérebro não parece ser tão limitado assim. Até que ela é razoavelmente inteligente. Apenas razoavelmente, é claro.
— Mas, se por acaso eu estiver errada e o bracelete te denunciar, tudo o que você tem que fazer é correr. Tipo, sebo nas canelas, sabe? Fugir para o mais longe possível, enquanto eu rolo no chão de tanto rir da sua cara de apavorado. — Olivia completa com deboche.
Então, um novo sorriso se forma no seu rosto e eu a amaldiçoou mentalmente por estar brincando com a sorte deste jeito. Aliás, uma das coisas que não suporto nesta midgardiana é a sua total incapacidade de demonstrar respeito por mim. Temor, seria melhor.
No começo, Olivia até demonstrava isso, mas então, de repente, ela parou de me levar a sério e passou a abusar da minha benevolência levianamente.
Claro que tudo seria bem diferente, se eu tivesse os meus poderes de volta. Com certeza, eu faria Olivia engolir esse senso de humor irritante e totalmente inapropriado, que ela parece amar exibir durante as nossas conversas, e a faria tremer de medo novamente.
Aliás, se eu tivesse os meus poderes de volta, com certeza, Olivia Mills não teria a chance de dizer mais uma palavra sequer. Porque eu a calaria para sempre.
É isso o que repito mentalmente algumas vezes, como se quisesse convencer a mim mesmo de que eu eliminaria Olivia tão logo tivesse a chance, embora no fundo, eu não entenda por que não a joguei pela janela quando tive a oportunidade para tal.
Aliás, não entendo como ela conseguiu me convencer, por que hesitei naquele momento, por que desisti, sendo que minha intenção nem era matá-la, apenas usá-la para atrair Thor. Pior, não entendo por que a ideia de arriscar a sua vida... Me incomodou um pouco. Apenas um pouco, é claro.
Talvez seja porque eu sei que, infelizmente, preciso desta midgardiana para me ajudar a me livrar deste maldito bracelete. Talvez seja porque sei que, infelizmente, Olivia tem se mostrado útil para mim neste momento conturbado.
Ainda estou pensando em tudo isso, quando esta criatura que, embora útil, parece ter nascido para me atormentar e me confundir, segura a minha mão, me obriga a voltar a caminhar e diz determinada:
— Agora chega de frescura, Tom. Sorria e acene.
Outra coisa que eu não suporto. O nome midgardiano que ela arranjou para mim. Tom? De onde essa insolente tirou esse nome tão simplório? Eu sou um deus! Mereço algo melhor do que... Tom! Francamente! Isso é uma afronta! Um ultraje!
Engulo a raiva, quando percebo que Olivia realmente está sorrindo e acenando para o seu amigo, que finalmente notou nossas presenças e queimou a língua com a bebida quente, tamanha foi a sua surpresa em nos ver juntos.
Sem saber exatamente por que, imito os gestos de Olivia, mas de um jeito mais discreto. Com má vontade, eu diria, já que continuo achando isso ridículo e um grande risco.
— Oi, Josh! — ela cumprimenta o amigo quando, finalmente, paramos diante de sua mesa, e então dispara de um jeito afoito: — Olha, eu sei que o nosso último encontro terminou de um jeito desastroso e eu sinto muito por isso. Então será que você pode me dar uma chance para explicar tudo? Para esclarecer as coisas? Colocar os pingos nos is? As cartas na mesa? — antes que o infeliz consiga responder alguma coisa, Olivia me apresenta: — Okay, vamos lá. Eu quero que você conheça o Tom. E você estava certo, ele é mesmo meu... Namorado. — diante da inexpressividade do midgardiano, Olivia pigarreia e finaliza a apresentação: — Tom, querido, este é o Josh.
Querido? Esta infeliz me chamou de querido? Acho que prefiro que ela me chame de gafanhoto mesmo. Soa menos falso em sua voz insuportável.
Pior do que querido, foi ouví-la se referindo a mim como seu namorado. Realmente não me incomodo em mentir, mas manter esta farsa é... Quase insuportável.
Desperto de tais pensamentos, quando Olivia tem a audácia de me dar uma cotovelada. E embora eu não tenha gostado nem um pouco disso, entendo, imediatamente, que preciso cumprimentar o seu amigo. Então faço um gesto tipicamente asgardiano, flexionando o meu braço direito na frente do peito e abaixando ligeiramente a cabeça, mas sem me curvar um milímetro. Afinal, a ideia de me curvar para um parasita deste Reino me dá náuseas.
O tal Josh franze o cenho, visivelmente confuso, e acena discretamente para mim, enquanto vejo, de soslaio, que a midgardiana desprezível revirou os olhos.
— Desculpe, ele não é daqui. Ainda está se adaptando. — Olivia deixa escapar e eu estreito meu olhar em sua direção de um jeito repreensivo.
Ela percebe que falou demais, porém não tem tempo de consertar o seu maldito erro, causado por sua língua grande, já que antes disso o midgardiano indaga:
— Como assim?
Vejo o tormento de saias ao meu lado abrindo a boca, mas as palavras não saem de sua garganta.
— Ela está brincando. — me apresso a dizer, já que percebo que o nervosismo derreteu o seu cérebro, que não deve ser mesmo grande coisa, afinal. — Ela tem um senso de humor impressionante. Mas você já deve saber disso, certo? — digo, lançando um sorriso forçado para o parasita, antes de tomar uma decisão que me anima imediatamente. — Aliás, eu confesso, foi isso o que me conquistou nela. — completo, concretizando tal decisão, antes de olhar para Olivia, passar um dos braços sobre os seus ombros, a aproximando de mim, e lhe lançar um sorriso também.
Sinto ela tremer diante do meu toque em seu ombro desnudo, enquanto me encara de um jeito envergonhado, e me delicio internamente com isso. Sim porque qual é a única coisa boa em toda essa situação maldita na qual o idiota do Thor me colocou? O prazer mórbido que sinto em provocar Olivia Mills. Como esta manhã, quando insinuei que ela tinha dito o meu nome enquanto dormia.
A verdade é que eu precisava de uma boa desculpa para estar diante da sua cama quando ela despertou, mas mesmo sendo mentira, foi muito divertido ver o pânico em seu semblante ruborizado com tal possibilidade.
A propósito, não sei por que fui ao quarto desta insolente esta manhã. Acho que fiquei impaciente porque ela não acordava nunca e tenho pressa em resolver a minha situação e deste maldito bracelete. Então, quando dei por mim, já estava diante de sua porta. E quando vi que Olivia não havia trancado o quarto, como costuma fazer, resolvi entrar. Não sei por que. Ou melhor, sei. Foi apenas porque fiquei impaciente mesmo. Apenas isso.
Por outro lado, não sei explicar por que olhei para Olivia, por mais tempo do que devia esta manhã, quando ela se levantou da cama, vestindo apenas alguns centímetros de tecido midgardiano, que ela chama de roupa de dormir.
Mas, talvez — apenas talvez — eu tenha imaginado, por um milésimo de segundo, as suas pernas desnudas em volta do meu quadril. Apenas talvez. E apenas por um milésimo de segundo. E é claro que reprimi tal pensamento prontamente e com muita facilidade, afinal, eu sou um deus e Olivia Mills é apenas... Uma midgardiana desprezível que tive o desprazer de conhecer.
— Eu não entendo. — a voz do energúmeno midgardiano dissipa meus pensamentos e faz com que eu e Olivia voltemos a olhar em sua direção. — Se ele é seu namorado, por que você mentiu para mim? — ele indaga para o tormento de saias, visivelmente magoado e desconfiado.
— Porque... Porque... Porque eu... Ãn...— ela tenta responder, mas parece que o seu cérebro entrou em pane. Com certeza, na ânsia de resolver aquela situação logo, Olivia não pensou nos detalhes do seu plano.
Resolvo intervir e, imitando o seu senso de humor, digo:
— Porque fazia apenas alguns minutos que eu havia lhe feito a proposta e ela ainda não tinha acreditado que eu estava mesmo falando sério. Com certeza, Olivia achou que eu era muito mais do que ela merecia. Na verdade, eu aposto que ela ainda acha, não é... Amor?
Sorrio para ela, que me fuzila com o olhar de um jeito discreto — talvez com receio de que o seu amigo não acredite em nossa farsa se continuarmos demonstrando toda a antipatia que sentimos um pelo outro — e em seguida rebate com sua característica língua afiada que eu tanto detesto:
— Você está completamente certo, amor. Eu realmente não mereço você.
O midgardiano desprezível solta uma leve risada e finalmente parece convencido de que eu e esta criatura insuportável ao meu lado estamos... Juntos, já que diz:
— Tudo bem. Neste caso, vocês não querem sentar e tomar um café comigo?
Tomara que ela diga não. Tomara que ela diga não. Tomara que ela...
— Claro! — Olivia responde para meu desespero, sorrindo largamente antes de puxar uma cadeira e se sentar.
Demoro alguns instantes para disfarçar o quanto isso me aborrece. Em seguida, imito o seu gesto, puxando uma cadeira. Porém, antes que eu me sente ao seu lado, a infeliz tira algum dinheiro da bolsa que traz a tiracolo, estende as notas na minha direção, franze o cenho de um jeito cínico e pede com uma voz manhosa:
— Amor, você pode pegar os cafés lá dentro?
Eu deveria protestar, mas por um lado, fico aliviado por poder me afastar destes dois seres desprezíveis por alguns minutos. Sendo assim, pego o dinheiro, lhe lanço um sorriso falso e respondo antes de deixá-los a sós:
— Claro, Sweetheart.
XXX
Faço questão de demorar o máximo de tempo possível dentro da cafeteria, sempre deixando que outros midgardianos passem na minha frente na fila.
Será que isso conta como uma boa ação? Não importa.
Em dado momento, finalmente saio do lugar, segurando apenas o café para Olivia, mas hesito na calçada ao ver um comerciante vendendo umas coisas inúteis que acho que os seres deste Reino chamam de ursinhos de pelúcia.
Observo um midgardiano presenteando sua companheira com uma daquelas coisas imprestáveis e ela sorri, antes de unir seus lábios aos dele em agradecimento.
Não que eu queira que Olivia faça algo assim, longe disso, mas constato que presenteá-la com uma dessas coisas pode ser uma boa forma de reforçar a nossa relação para o seu amigo, acabando com qualquer dúvida que ele ainda possa ter. E assim nós dois poderemos sair deste lugar e nos concentrarmos no que realmente importa: me livrar deste maldito bracelete logo.
Além disso, a ideia de irritar a midgardiana desprezível, gastando o seu dinheiro com algo totalmente fútil e desnecessário que ela vai detestar, me agrada profundamente. Sorrio enquanto caminho até o comerciante.
Algum tempo depois, finalmente me aproximo da mesa onde Olivia e seu amigo parasita estão conversando. Imediatamente, me sento, interrompendo a conversa que parecia ser séria, empurro a coisa verde que comprei — e que o comerciante disse ser um Muppet chamado Caco — na direção dela, junto com o copo de café, e digo sorrindo:
— Para você, querida. Verde como um gafanhoto, mas é um... Muppet.
Eu não tenho ideia do que seja um Muppet, mas acho essa coisa parecida com um anfíbio bem abundante aqui em Midgard.
Olivia, como eu previa, fica em choque e me lança um olhar nada agradável, que ela rapidamente disfarça, já que, independente de qualquer coisa, temos que manter a farsa.
— É lindo. Obrigada, Tom. — ela diz, antes de sorrir e acariciar o meu rosto. O que me deixa apreensivo, já que me lembro do casal midgardiano que vi há pouco e do... Contato íntimo entre eles.
No entanto, a encenação termina por aí, já que na sequência, Olivia para de me tocar, praticamente joga aquela coisa medonha em uma cadeira de frente para mim e se concentra em tomar o café que eu lhe trouxe, enquanto o seu amigo olha de mim para ela algumas vezes, antes de abaixar a cabeça e fitar um ponto qualquer da mesa.
Constato que a conversa entre eles deve ter tomado um rumo sério durante a minha ausência. Não sei por que, mas Olivia parece triste com alguma coisa, o que me deixa curioso. Já percebi que ela tem muitos segredos. Será que algum deles é obscuro o bastante para deixá-la deste jeito? O que será que ela esconde? Será que o midgardiano tocou em algum assunto proibido para ela?
Algum tempo depois
Apesar de ter me livrado daquela situação entediante — eu, a coisa verde e medonha que comprei, Olivia e seu amigo em volta de uma mesa, em silêncio — não posso dizer que estou aliviado quando eu e a midgardiana desprezível finalmente voltamos para o seu apartamento minúsculo e desconfortável. Na verdade, estou intrigado. Isso porque, durante o caminho, Olivia não disse mais nem uma palavra. Nem mesmo sobre o pedante Capitão América.
Pelo seu semblante, constato que ela está realmente triste com alguma coisa. E tenho que conter um ímpeto de perguntar o que está acontecendo, já que não quero que esta criatura inferior pense, por um segundo, que eu me importo com ela. Mesmo porque eu não me importo. Só estou curioso e intrigado. Apenas isso, que fique bem claro.
Em silêncio, Olivia caminha até o seu quarto, com o tal Caco pendurado em uma das mãos, entra e fecha a porta. Ouço o barulho da chave girando na fechadura e chego a uma conclusão: Olivia Mills vai me enlouquecer.
Se eu não voltar para Asgard o mais rápido possível, esta criatura vai me enlouquecer. Os seus altos e baixos vão me enlouquecer. Eu não consigo entender como ela funciona, como o seu cérebro limitado funciona.
Qual é o seu problema, afinal? E por que eu... Por que eu me importo?
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