Trapaças do Destino
26 Quebra-cabeça
Notas iniciais
Quando tive o desprazer de conhecer a midgardiana Olivia Mills jamais imaginei que um dia eu, Loki de Asgard, apreciaria tanto beijá-la.
Sim, eu não nego. Eu gostei. Eu quis fazer isso. Beijá-la. Então, eu fiz.
Claro que, se eu pudesse escolher, teria preferido que ela, e não eu, tivesse cedido primeiro. No entanto, no momento em que Olivia me deu as costas e ameaçou ir embora de vez, este detalhe perdeu completamente a importância, porque a única coisa que importava realmente era a minha total incapacidade de vê-la partindo sem fazer nada.
Nunca fui um sentimental idiota, mas simplesmente não pude ficar parado, vendo-a se afastar cada vez mais. Como Olivia mesma costuma dizer, me julguem.
Então sim, eu me deixei levar pelas coisas que ela havia me confessado antes e por uma fagulha que eu vinha sentindo dentro de mim, já há algum tempo. E em poucos segundos, esta fagulha se transformou em chamas intensas que me consumiram por completo. Principalmente, quando Olivia correspondeu ao meu beijo, meio no susto, é verdade, mas com a intensidade que eu ansiava.
Naquele momento, eu tive certeza de que não havia imaginado os seus olhares indiscretos sobre mim e o seu nervosismo cada vez maior na minha presença.
Sim, me chamem de presunçoso, mas eu sabia. No fundo, eu já sabia que Olivia nutria certos sentimentos por mim. E se no começo eu a julguei completamente estúpida por isso, durante o nosso impensado beijo, eu me senti profundamente grato. Grato por ela se sentir assim. Por ela sentir algo por mim. Algo bom. Isso é tão raro na minha existência que custo a acreditar que é mesmo verdade.
Resumo da ópera, eu gosto da ideia de exercer este tipo de controle sobre os sentimentos de Olivia. E, por mais impróprio que possa parecer, descobri que gosto do controle que ela exerce sobre mim. Por isso a beijei. Porque ambos exercemos este controle mútuo e não há o que se fazer, apenas... Ceder e deixar-se queimar entre fagulhas e chamas.
Mas, se por um momento, as coisas ficaram claras para mim, agora tudo está nebuloso e confuso. Embora profundamente satisfeito por ter me libertado do bracelete, não consigo entender como ele se desfez subitamente.
Tampouco, consigo encontrar uma explicação plausível para tal fato, pois estou ocupado demais encarando o imbecil do Thor, que surgiu de repente no meio desta estrada midgardiana e agora caminha determinado até nós, segurando o seu inseparável Mjölnir. Patético...
Eu deveria ter me tornado alguém melhor, certo? Então por que a sua presença ainda me incomoda tanto? Será que um dia serei realmente capaz de não odiar Thor? Ou pelo menos, voltar a fingir que sou seu irmão?
Seja como for, sua expressão é uma mistura de tensão e serenidade, alívio e incredulidade, quando o excelentíssimo Deus do Trovão finalmente para diante de mim e Olivia.
Estou pronto para confirmar se realmente recuperei os meus poderes, me preparando para criar várias ilusões de mim mesmo e partir para cima deste paspalho como em nossos últimos duelos, mas hesito assim que Olivia sibila:
— Oi...
Então Thor olha para a midgardiana e eu faço o mesmo, confuso com certa naturalidade que senti em seu tom de voz, apesar dela parecer tensa com toda esta situação.
Olivia parece arrependida de ter dito isso em seguida, já que me encara com os olhos um tanto arregalados, percebendo que eu notei como ela se dirigiu ao Deus do Trovão sem qualquer indício que denunciasse surpresa, espanto, admiração, qualquer coisa. Como se esta não fosse a primeira vez que ela está diante dele.
Essa suspeita surge dentro de mim e se confirma, quando Thor a encara com a mesma naturalidade, repousa a mão direita em seu ombro e diz:
— Eu nem sei o que dizer, mas... Obrigado. Muito obrigado.
E então Olivia arregala mais os olhos na minha direção, deduzindo o que eu estou pensando e visivelmente apreensiva, enquanto as peças de um intrigante quebra-cabeça se juntam rapidamente dentro de mim, me levando à verdade, afinal.
No mesmo instante, me lembro do dia em que ameacei usar Olivia para atrair Thor até aqui. Me lembro de certo pânico no rosto dela, quando eu contei que suspeitava que ele estava me vigiando de alguma forma. Me lembro de como Olivia foi persuasiva naquela ocasião e me convenceu a desistir de tal plano. Me lembro da ajuda que ela me ofereceu desde o começo, sem nunca explicar realmente por que tinha decidido me ajudar. E me lembro também de todas as suas saídas misteriosas, de suas respostas rápidas e prontas, de outras pouco convincentes e evasivas, de todo o mistério que a cercava, da sensação que eu tinha de que ela estava me escondendo alguma coisa.
Agora eu entendo que não foi apenas uma sensação ou paranoia minha. Olivia não estava mesmo sendo totalmente honesta. E ao enxergar isso, começo a me perguntar se em algum momento ela realmente foi.
Estou sentindo um gosto amargo em minha boca e algo ruim arder dentro de mim, quando Thor tenta se aproximar, dando a entender que irá me abraçar e diz:
— Loki...
Recuo imediatamente e rio sem humor, enquanto olho ora para ele, ora para Olivia, que permanece com os olhos arregalados e a expressão tensa.
Engulo a raiva que sinto, para não dar o gostinho da vitória a esses dois, e então pergunto retoricamente:
— Então é isso? Tudo não passou de um plano entre vocês dois? Uma missão conjunta e altruísta para me salvar? Para me colocar na linha? — E olhando especificamente para Thor, completo: — Você não desiste nunca, não é, filho de Odin?
Prontamente, o imbecil retruca com o seu habitual sentimentalismo barato:
— Nossa mãe não deixou que eu desistisse de você, Loki. E por incrível que pareça, nem mesmo o nosso pai deixou.
— Seu pai — corrijo, dando um passo em sua direção com um dedo em riste.
Isso parece desarmar Thor por ora — sempre o desarma, afinal —, e é neste momento que volto a olhar para Olivia por sobre o ombro dele, intrigado com o seu silêncio que apenas confirma a sua culpa e que ela era mesmo cúmplice de Thor no meu exílio em Midgard.
Vejo Olivia abrir a boca, talvez pensando em se explicar finalmente, mas antes que ela consiga dizer qualquer coisa, somos repentinamente interrompidos e olhamos para trás. E então eu os vejo. O pedante soldadinho da América e aquele ser que se acha engraçado, o Homem de Ferro.
Enquanto o soldado estaciona uma motocicleta midgardiana barulhenta a poucos metros, o Vingador riquinho aterrissa perto de nós, revela o seu rosto acionando algo em sua armadura ridícula, se aproxima um pouco e diz de um jeito pomposo:
— Olá, todo mundo. Cheguei! Podem ficar alegres.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Olivia questiona, com uma expressão insatisfeita enquanto observa os dois.
É inevitável. Mais uma peça do quebra-cabeça se encaixa, quando percebo que ela também não ficou nem um pouco surpresa com tais aparições, apenas incomodada.
E só há uma explicação para tudo isso: Thor pediu a ajuda dos seus coleguinhas medíocres para me vigiar, para o auxiliar na missão, quem sabe até para proteger Olivia de alguma forma.
— Depois da sua última conversa com o Thor, nós decidimos ficar por perto, Olivia. Por segurança, caso você realmente mandasse Loki embora e ele não reagisse bem — o soldadinho explica, olhando demais para ela para o meu gosto.
Me sinto incomodado com isso. Com a forma cúmplice com que eles se olham. E com outras coisas também. Com a confirmação de que Olivia ia mesmo me enxotar e com o fato deste soldadinho desprezível cogitar que eu a machucaria. Talvez eu até devesse, mas, mesmo agora, com a raiva que sinto, não conseguiria machucar essa midgardiana infeliz.
Começo a pensar que se esses dois midgardianos metidos a heróis estão aqui, os outros membros da magnífica equipe Vingadores também devem estar envolvidos. E Olivia... Olivia estava de conluio com todos eles. O tempo todo. Desde o começo. Recebendo orientações, repassando o andamento da minha estadia em seu apartamento regularmente, relatando a minha evolução, como se eu fosse o seu objeto de estudo.
É isso o que ela é, apenas mais uma peça nesse jogo. Foi tudo combinado, tudo armado, talvez até a parte em que Olivia me fez acreditar que tinha sentimentos por mim. Claro, com certeza a equipe decidiu que era a única forma de derreter o meu coração de gelo. Valia a tentativa, ao menos.
Embora uma parte tola de mim não queira acreditar nisso, tudo indica que eu fui mesmo manipulado. E ao me convencer disso, a decepção me inunda pouco a pouco. Mas, me fortalece ao mesmo tempo, como um animal que se sente acuado e procura se defender em seguida.
Então, lutando para não demonstrar qualquer emoção ou fraqueza, me volto para Olivia e enumero friamente:
— Agora eu entendo, todas as vezes em que você desapareceu misteriosamente e ficou nervosa quando eu te enchi de perguntas. Era Thor, não era? Eram eles. Por perto, o tempo todo. Agora eu entendo porque você fez questão de me manter sob o seu teto, Olivia. Foi esperto e lógico, eu admito. Manter as aparências, enquanto você fazia um favor para os ilustríssimos Vingadores.
Visivelmente desconcertada, a midgardiana dá um passo em minha direção e finalmente consegue sibilar alguma coisa:
— Não foi um favor... Eu quero dizer, no começo sim, mas...
Não quero mais ouví-la.
— Parabéns! — a interrompo do jeito mais frio que consigo, mas mesmo assim com uma ponta de agressividade que a atinge de imediato, fazendo seu olhar oscilar trêmulo na direção do meu. — No seu lugar, talvez eu não tivesse sido tão perspicaz. — Percebo que Olivia vai retrucar algo em sua defesa, mas realmente não quero mais ouví-la. Então finjo um interesse exagerado e questiono: — Ah! Mas eu confesso que estou muito curioso. O que você pediu em troca, Olivia? Em troca disso que, com certeza, deve ter sido um enorme sacrifício para você.
Visivelmente ofendida e confusa com o meu tom acusatório, a midgardiana não consegue organizar as palavras e responder. Quem acaba fazendo isso é o insuportável Homem de Ferro:
— Ah, nada de mais. Ou melhor... Bem, na verdade, eu soube que ela fez uma lista.
Vejo Olivia arregalar os olhos na sua direção, como se implorasse para ele calar a boca. Porém, inconsequente do jeito que é, e talvez pensando que está atingindo só a mim, Tony Stark revela distraidamente:
— Um emprego novo, nas Indústrias Stark, ter a chance de presenciar o casamento da Dona Aranha com o Legolas, que provavelmente devem estar se casando neste exato momento em segredo... Ah! E um encontro com o Capicolé. Acho que tinha mais alguma coisa na lista...
— Um encontro? — repito, sentindo algo arder dentro de mim novamente.
— Não é o que você está pensando — Olivia apressa-se em dizer, mas seu argumento é tão fraco que mal consigo olhar para ela.
Finalmente percebendo que falou demais, o Homem de Ferro atrapalha-se em uma tentativa patética de consertar o estrago:
— Sim! Digo, não... Realmente, não é o que você está pensando, Homem Rena. A sua adestradora e o velhote não deram certo.
— Não deram certo? — destaco, arqueando as sobrancelhas. — Então eles tentaram. — afirmo, voltando a olhar para Olivia.
Visivelmente em pânico, ela não diz nada. E nem precisa. Olivia nunca fez questão de esconder o seu amor platônico pelo Capitão América. Muito pelo contrário, sempre fez questão de me afrontar com isso. Com certeza, para me induzir a sentir algo. Com certeza, pensando apenas em sua missão.
— Bem, não foi uma tentativa ou um encontro, mas teve um... Momento entre eles... Bem rápido... — Stark atrapalha-se novamente, nos fazendo olhar em sua direção. — Não importa. Aparentemente, a Olivia não gosta do tipo bom moço, mas sim do tipo... De... — Ele me mede da cabeça aos pés, mas, na sequência, parece se dar conta de algo, se volta para o soldadinho e questiona com certo assombro: — Espera! Por acaso eu acabei de te elogiar implicitamente, Capicolé? Isso foi estranho...
— Nem me fala. Bom moço? Isso soou antiquado até para mim, Stark — o entojo patriota replica, antes de me encarar de um jeito firme e articular seriamente: — Não que você mereça saber, mas eu e a Olivia somos apenas amigos. E se você quer saber a minha opinião, eu acho que ela merecia algo melhor do que...
— Sua opinião é totalmente dispensável, soldado — o interrompo, o fuzilando com o olhar, possesso por Steve Rogers querer me convencer de que Olivia não me manipulou o tempo todo, de que foi sincera quando... Permitiu que eu a beijasse. Não acredito que eu, o mestre das manipulações, me deixei enganar desta forma. — Mas, obrigado por ser tão prestativo e por estar tão preocupado com ela — digo com escárnio, determinado a não ouvir mais nenhuma palavra sobre os dois ou sobre esta missão idiota. — Nós podemos ir agora, irmão? — indago, olhando relutante para Thor, antes de passar por ele e caminhar em direção a um descampado nas imediações da estrada.
— Gafanhoto... Espera...
Ouço Olivia me chamar e sinto os seus passos apressados bem atrás de mim. Então, procuro manter a calma, detenho o passo, me viro em sua direção e resolvo feri-la da única forma que posso, com palavras:
— Meu nome é Loki, de Asgard. E você, midgardiana desprezível, cumpriu a palavra que me deu na noite em que eu fui banido. Você deveria estar feliz agora. Graças ao seu empenho em ajudar a si mesma, eu vou voltar para Asgard. E como prova da minha gratidão, eu vou permitir que você viva. Quem sabe assim, você e o soldado possam tentar novamente?
Para minha surpresa, Olivia não se deixa abater. Apesar de não conhecê-la há muito tempo, notei que, ultimamente, ela se tornou emocionalmente mais forte. E vejo isso claramente, quando ela me encara de igual para igual e retruca indignada, quase convincente:
— Steve é meu amigo, seu idiota! E você fica muito ridículo com esse ciúme bobo! Pode parar com essa palhaçada!
— Eu não estou com ciúme de você — tal frase sai de minha garganta, mas não sei se é totalmente verdadeira. Não importa, desde que Olivia acredite.
Para meu desespero, ela não parece acreditar em mim e isso me intriga profundamente. Será que não consigo mais mentir para esta infeliz? Será que em tão pouco tempo ela aprendeu a me decifrar? Será que sou tão transparente assim diante de Olivia Mills?
— Você me beijou — ela relembra um pouco mais calma, claramente mudando de estratégia enquanto olha nos meus olhos. — Você sentiu alguma coisa. Você sente alguma coisa. Eu sei, porque eu senti também.
Por um momento, ela parece tão sincera, que quase acredito em suas palavras. Mas, agora que sei como as coisas realmente aconteceram, não posso me deixar enganar de novo. Isso não faz o menor sentido. Não sei por que ela e os outros estão insistindo nisso.
Sendo assim, e por mais que Olivia tenha razão quando diz que eu sinto alguma coisa, nego calmamente:
— Eu não tenho ideia do que você está falando, mas eu asseguro, eu não senti nada.
Imediatamente, Olivia estreita o olhar sobre mim, coloca as mãos na cintura e esbraveja:
— Negação? Sério? Eu jurava que nós tínhamos passado desta fase.
Perco a paciência e despejo duramente:
— A missão acabou, Olivia. Você já pode parar de fingir.
Finalmente pareço tê-la desarmado. Finalmente Olivia parece ter percebido que eu entendi tudo. No entanto, ao invés de parar com aquele maldito e desnecessário teatro, ela se faz de ofendida e retruca:
— Então é isso? Você acha que foi fingimento? Que não foi real?
A parte tola de mim começa a se perguntar isso, mas me recomponho e me mantenho firme, quando o débil Homem de Ferro pergunta:
— Por acaso, vocês querem mais privacidade para discutir a relação?
Encaro Olivia e respondo:
— Não, não há o que se discutir, é tudo muito simples e lógico. Agora eu enxergo tudo perfeitamente — e depois de lhe dar as costas e voltar a me afastar, concluo: — Eu só quero ir embora deste Reino maldito e esquecer tudo o que vivi neste lugar.
Ao chegar no descampado em torno da estrada, giro nos calcanhares e observo-a por um instante. Não sei o que vejo no seu olhar, mas parece ser raiva e incredulidade.
Então, Thor caminha até ela, toca o seu ombro e diz em um tom baixo, mas que eu ouço perfeitamente:
— Eu vou conversar com ele com calma e explicar tudo. Não se preocupe, Loki só está se sentindo...
— Feliz! — o interrompo, abrindo os braços e me obrigando a sorrir como se não me importasse com nada disso. E quando vejo que tenho a atenção dos dois, prossigo: — Eu estou muito feliz, por finalmente ter conseguido o que eu queria desde o começo. Obrigado, midgardiana desprezível, você foi muito útil. Eu espero que tenha valido a pena e que você seja devidamente recompensada pelo ótimo trabalho. Quem sabe você possa entrar para os Vingadores depois dessa?
Desta vez, vejo outra coisa no olhar dela. Dor. E isso me faz perguntar se Olivia Mills é apenas uma ótima atriz ou se existe uma possibilidade dela ter sido realmente honesta comigo. Será que estou enganado a seu respeito? Será que estou sendo injusto? Ou apenas fraquejando porque, no fundo, quero acreditar nela?
Tais questionamentos perdem a importância, quando o soldadinho pergunta para Thor, mas com os olhos fixos em mim:
— Tem certeza que o bracelete serviu para alguma coisa? Porque para mim ele continua sendo um idiota.
— Para mim também — o Homem de Ferro concorda, antes de se voltar para Thor e dizer: — Sem ofensa, Shakespeare, mas convenhamos, o seu irmão continua sendo um pé no saco.
Fuzilo os dois com o olhar e juro que se estivesse com paciência para esta situação toda, iria fazê-los engolir tais palavras. Mas, não quero mais sujar minhas mãos com qualquer ser ou qualquer coisa de Midgard. Só quero ir embora.
— Não se preocupem, o bracelete era eficaz — o idiota do Thor afirma, antes de fazer um cumprimento tipicamente asgardiano para eles e agradecer: — Obrigado pela ajuda, eu assumo as consequências daqui.
Então, o Deus do Trovão deixa seus amigos para trás e caminha em minha direção.
Para minha surpresa, Olivia o segue, o ultrapassa, fazendo Thor deter o passo um pouco receoso, caminha de um jeito apressado e com uma expressão raivosa até mim, para na minha frente, ergue a cabeça e despeja, olhando em meus olhos com uma carga de emoção que me abala um pouco, só um pouco, é claro:
— Se você não acredita em mim, se você acha mesmo que eu fiz tudo isso só pela missão, se você acha que eu fingi aquele beijo, que eu não senti nada, que eu não sinto nada... Então Steve está certo. Eu mereço coisa melhor.
Algo estremece dentro de mim e o desejo de acreditar neste tormento em forma de midgardiana se fortalece. No entanto, quando abro a boca, é o meu orgulho e o meu instinto de preservação quem respondem:
— Adeus, Olivia.
Numa clara tentativa de me provocar, a midgardiana resolve então fazer uma reverência. Uma maldita reverência que transborda sarcasmo, como nos velhos tempos. E então ela encerra a conversa de uma vez:
— Já vai tarde, Loki.
Imóvel e tentando não demonstrar qualquer sinal de fraqueza e hesitação, vejo-a me dar as costas e se afastar. Paro de observá-la, quando o soldadinho toca o seu braço, a fazendo deter o passo ao seu lado, e lhe diz algo reconfortante. Algo arde dentro de mim. Odeio admitir, mas sei que é ciúme.
Na sequência, Thor finalmente volta a caminhar e logo para ao meu lado, enquanto diz em um tom baixo:
— Você entendeu tudo errado, Loki. E quando nós chegarmos em Asgard, teremos muito o que conversar. Sobre Olivia, sobre o quanto ela te mudou a ponto de você se libertar do bracelete, e sobre esse retorno para casa. Eu preciso ter certeza de que você mudou o suficiente, para que eu consiga confiar em você de novo, entendeu?
Thor disse muitas coisas, mas é o que ele falou sobre Olivia ter me mudado que chama mais a minha atenção.
Será que foi por isso que o bracelete se desfez, afinal? Por causa do que eu sinto por ela?
Com essas perguntas ressoando em minha mente, vejo Thor de soslaio. Então, ele olha para o céu, ergue o Mjölnir e chama:
— Heimdall! Nós estamos prontos!
Entre os feixes de luzes coloridas que nos envolvem em seguida, vejo Olivia pela última vez. Tenho a impressão de ver uma tristeza profunda em seu semblante, quando ela me fita de volta. E então Midgard fica para trás. Como tem que ser.
XXX
Meus pés atingem a Bifröst e eu me ponho em movimento imediatamente, deixando Thor para trás.
Sinto um alívio por finalmente ter voltado para Asgard, mas este alívio não é pleno, já que é como se eu tivesse deixado algo importante para trás.
Me recuso a admitir que isso tem alguma coisa a ver com aquela midgardiana desprezível e procuro preencher o vazio que sinto, olhando tudo em volta e deixando cada imagem de Asgard me anestesiar.
Quando passo sem dizer nada por Heimdall, devidamente em seu posto de sentinela e guardião da Bifröst, ele se manifesta:
— Bem vindo de volta... Gafanhoto.
Apesar de sua voz soar quase mecânica, noto uma nuance de humor nela e detenho o passo no mesmo instante, incomodado com o apelido que ele usou para se referir a mim.
Controlo certa raiva, rio sem humor, me volto em sua direção e questiono:
— O que foi que você disse?
Sem desviar o seu olhar de algum ponto do universo, Heimdall replica:
— Você foi injusto com ela, gafanhoto. A midgardiana Olivia Mills, apesar de estar em uma missão a pedido de Thor, foi verdadeira com você. É difícil de explicar e de você entender agora, mas eu asseguro. Eu vi tudo.
Ele viu... Claro, como eu pensei, Heimdall estava mesmo me vigiando. É apenas nisso que estou pensando e não no que ele disse sobre Olivia, quando determino duramente:
— Não me chame desta forma. Nunca mais.
Faço menção de voltar a caminhar, mas hesito quando o infeliz retruca tranquilamente:
— Por quê? Eu gosto dos apelidos que ela colocou em nós. Gafanhoto, top model asgardiano... Rádio patroa.
Um sorriso quase imperceptível, mas mesmo assim impróprio, surge no semblante de Heimdall. E, quando eu olho para Thor, na esperança de que ele diga alguma coisa que faça o guardião se recompor, vejo que ele está sorrindo também.
E o sorriso de Thor se alarga ainda mais, quando ele admite:
— Eu também gosto.
Deixo os dois para trás sem dizer mais nada e sigo pela Bifröst, sabendo muito bem o que me aguarda agora. Ou melhor, quem me aguarda. Odin.
Sim. Odin, o Pai de Todos. Menos o meu.
Eu devia ter me livrado dele, quando tive a chance para isso, mas optei por apenas escondê-lo em um lugar remoto entre os Nove Reinos, esperando que nunca fosse encontrado, usando minha magia para silenciá-lo e impedir que ele clamasse por Heimdall.
Tudo veio à tona, quando Thor percebeu que não era Odin que estava ocupando o trono. Mas eu. Então ele me desmascarou, colocou aquele maldito bracelete em mim e me baniu. Não sem antes dizer que Heimdall, como a criatura prestativa que é, tinha conseguido localizar o Pai de Todos com sua visão aguçada, vasculhando cada canto do universo com afinco.
Finalmente liberto da minha magia e do exílio, Odin deve ter voltado para Asgard tão logo eu fui banido para Midgard. E agora nós vamos nos reencontrar. Adoraria pular esta parte dramática, mas ao que tudo indica, é inevitável.
Pensando nisso, adentro o palácio de cabeça erguida.
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