Trapaças do Destino
14 O que perdemos e o que ganhamos
Notas iniciais
Quando pensei em dar uma volta pela Torre Stark — depois de ter pagado o maior mico da minha existência, beijando o Capitão América à força na frente dos seus companheiros Vingadores, que ficaram DESMAIADOS com tal cena — eu não imaginei como este lugar me surpreenderia ainda mais. É realmente um mundo dentro de uma cidade. Um lugar enorme onde tecnologia e sofisticação estão em constante harmonia.
Se o fofo do Steve não tivesse me acompanhado, com certeza, eu teria me perdido pelos incontáveis cômodos e inúmeros corredores que nos levaram até uma sala bem aconchegante, com uma vista maravilhosa de Manhattan.
Neste momento, estou ao lado do velhote sarado — bota sarado nisso... Não tem como não reparar, me julguem — em um sofá da tal sala, assimilando tudo o que ouvi dele, enquanto tomamos algumas taças de um vinho bem docinho que Steve tinha pegado na adega do Homem de Ferro, antes de todo o meu papelão desta noite.
— Então esse seu amigo... Bucky... — começo depois de tomar mais um gole desta bebida de mulherzinha, como Tony mesmo classificou — é bonitão, livre e desimpedido?
Quase engasgo diante da expressão surpresa e confusa do Capitão América e não posso tirar a sua razão em ficar assim, afinal eu mesma não entendo por que perguntei isso. Não era o que eu devia perguntar em um momento como este, quando Steve Rogers está compartilhando coisas bem pessoais comigo. Tenho que parar de agir como uma periguete carente. Cruzes!
Pensando desta forma, me corrijo rapidamente:
— Digo... Ele simplesmente desapareceu do mapa? Sem deixar rastros?
— Exato. — o Capitão Lindo América confirma, já recuperado da minha pergunta anterior e, com um olhar distante, ele explica melhor: — Minha aposta é que o Bucky se lembrou de alguma coisa, afinal ele salvou a minha vida. Mas isso só deve ter o deixado mais confuso, então ele resolveu desaparecer. Sem deixar rastros. Mesmo assim, eu nunca vou desistir de encontrá-lo. Eu nunca vou desistir do meu amigo. Procurar por ele tem sido uma prioridade para mim. Inclusive, eu estava procurando por ele, quando Thor baniu o irmão para cá. Por isso, eu demorei um pouco para me juntar ao time de novo e à esta missão. Eu estava bem ocupado, seguindo mais uma pista que, infelizmente, não deu em nada. — depois de voltar-se na minha direção, Steve completa: — Me desculpe por não ter aparecido antes, Olivia. Eu vou continuar procurando o Bucky, mas eu quero que você saiba que, apesar disso, você pode contar comigo a partir de hoje. Eu estarei de olho em você e no Loki também.
Fofo! Fofo! Fofo!
É isso o que Steve Rogers é. Mais um ser fofo que tive o prazer de conhecer graças a essa missão maluca. Tão resoluto em encontrar o seu velho amigo, ao mesmo tempo em que se dispõe a me ajudar em relação ao gafanhoto. Que homem dedicado. Que herói altruísta. Que ser iluminado. Fofura define.
Um suspiro inevitável escapa dos meus pulmões, enquanto observo o Capitão Fofo América com uma possível cara de retardada. E quando abro a boca, a única coisa que consigo dizer é:
— Obrigada, Cap. — e depois que ele assente com um sorriso lindo e... Fofo, e toma mais um pouco do vinho, eu mudo drasticamente de assunto: — Quem é a felizarda?
Steve engasga diante da minha pergunta inconveniente e eu dou alguns tapinhas nas costas dele. Aliás, que costas, meu Deus... Tão larga e... Sarada.
Aproveito para dar uma discreta apalpada nos músculos sob a sua camisa. Na inocência e na amizade, é claro. Podemos não ser o par perfeito um do outro, mas isso não significa que eu não posso tirar uma casquinha dele. Na amizade e na inocência, só reforçando.
— O quê? — o Capitão indaga depois de se recuperar completamente, o que me leva, infelizmente, a afastar a minha mão daquele corpinho lindo e... Sarado.
— Não se faça de desentendido. — eu o pressiono prontamente, sorrindo. Mas, percebendo que talvez ele não tenha mesmo entendido aonde quero chegar, respiro fundo e explico: — Eu acho que vou me sentir melhor, se houver outra pessoa no seu pensamento. Talvez no seu coração. Assim eu vou ter mais alguém para culpar pelo fiasco do nosso romance.
Eu sei, é ridículo, mas eu realmente preciso saber se Steve Rogers tem alguém especial em sua vida. Saber que ele está interessado em alguém vai fazer com que eu me sinta menos idiota por ele não ter sentido nada por mim, quando eu o agarrei feito uma piriguete maluca e sem noção. Preciso culpar alguém, além de mim mesma, é claro, embora no fundo, eu esteja conformada com a sua rejeição, já que também não senti o que eu queria ter sentido por este velhote gato. De certa forma, eu também o rejeitei.
Após hesitar um pouco, mas percebendo que eu não vou desistir de arrancar aquela informação dele, o Capitão coloca a sua taça vazia em uma mesa atrás de nós, pressiona uma mão na outra por alguns instantes, disfarça um sorriso e, com um brilho perceptível no olhar, finalmente admite:
— Existe alguém. Mas... Nós não estamos... Juntos.
— Ainda não. — eu profetizo, surpresa comigo mesma por não estar com raiva da garota sortuda que ganhou o coração do Capitão América. Na verdade, estou aliviada. É mais um sinal de que este velhote sarado não é mesmo o meu par perfeito. Não poderia ser.
Gostando da minha previsão, Steve sorri para mim e concorda:
— Ainda não.
A curiosidade me domina e eu tenho que perguntar:
— E qual é o nome da dita cuja? — como Steve hesita em responder, eu insisto em tom divertido: — Ah... Vamos lá. Me dê um nome para que eu possa canalizar a minha inveja branca.
Steve continua resistindo em me contar tal detalhe, quando de repente, uma espécie de alto falante — só que muito mais moderno e discreto, acoplado em um canto da sala — começa a reproduzir a voz de Tony Stark em alto e bom tom:
— Agente Jessica Wally. Ou simplesmente Jessie. Ou ainda, como eu prefiro chamá-la, a Sra. América.
A expressão de Steve se fecha imediatamente. Não sei se porque ele não gostou da interrupção, ou se porque ele ficou envergonhado por ter um detalhe da sua vida pessoal compartilhado justo pelo debochado Homem de Ferro. Ou se pelas duas coisas.
— Ouvindo a nossa conversa, Stark? — o Capitão indaga de um jeito sério e nada satisfeito. — Que educado.
— Eu só estava procurando por vocês, e acidentalmente, ouvi o final da conversa. — Tony se defende prontamente, enquanto eu me sinto no Big Brother Midgard, afinal, eu tenho quase certeza de que em algum lugar desta sala, deve haver alguma câmera. Ou várias. Talvez um completo sistema de vigilância. Não só nessa sala, aliás, mas em toda a Torre. — A propósito, por que é tão difícil para você responder uma pergunta tão simples da nossa Adestradora de Rena? — Stark questiona na sequência, mas antes que eu ou Steve falemos qualquer coisa, ele encerra: — Chega de entediar a minha convidada com o seu papo de velho, Capicolé. Eu quero vocês dois na sala de karaokê em dois minutos. Olivia, ajude o idoso a se levantar. O tempo está passando.
O silêncio se faz presente depois que a voz de Tony se extingue por completo, e eu tenho que me segurar para não rir das coisas que ele falou.
Depois de respirar profundamente e soltar o ar com força, o Capitão América volta a olhar para mim e diz:
— Vamos?
Quando ele faz menção de se levantar, eu seguro em seu braço — Nossa Senhora! Que braço sarado! — e proponho:
— Só mais uma perguntinha.
Não preciso formular a tal pergunta, pois, aparentemente, ela está estampada no meu olhar curioso. Na verdade, acho que Steve Rogers já respondeu esta pergunta tantas vezes, que deve ter aprendido a ler este tipo de olhar. Tenho a confirmação disso, quando ele responde:
— A parte mais difícil não foi acordar em uma época totalmente diferente da minha ou lidar com os avanços tecnológicos, mas perceber que as pessoas mais próximas de mim, meus amigos, aqueles que eu conhecia... Se foram. A maioria deles, pelo menos. — posso sentir a tristeza nostálgica do Capitão América ao dizer essas coisas e, inevitavelmente, sinto ela se misturar a minha própria tristeza. Uma tristeza que eu pensei que estivesse enterrada dentro de mim, mas que, infelizmente, quando eu menos espero, vem à tona. — Você consegue imaginar essa sensação, Olivia? O vazio? — Steve pergunta sem olhar para mim diretamente. — É como...
— Um pesadelo. — eu completo o seu raciocínio quase sem perceber, sentindo um nó surgir em minha garganta de repente. — Como se não fosse real e, a qualquer momento, o seu mundo fosse voltar ao normal. Como se você fosse acordar a qualquer minuto e tudo estaria nos eixos de novo.
O Capitão América me encara imediatamente e assente em concordância. Mas, ao perceber que meus olhos estão ligeiramente marejados, ele articula com certa culpa:
— Stark está certo. Eu não devia conversar com você sobre essas coisas. É papo de velho mesmo. Ou pelo menos, de um velho que parou no tempo.
Tenho a impressão de que Steve continua falando comigo, porém eu não consigo ouví-lo. Aos poucos, me desligo da sua imagem e me perco em um mundo de lembranças dolorosas. Um mundo onde chove muito e o meu carro se movimenta por uma estrada, durante uma madrugada qualquer. Mergulho neste mundo. Profundamente. E me afogo nele.
Sinto a minha garganta se fechando. Ardendo. Não consigo respirar. A água invade os meus pulmões. A sensação é dolorosa.
— Olivia? — ouço a voz de Steve me chamando e sinto quando sua mão toca o meu braço de um jeito gentil. Desperto imediatamente e o fito com uma provável cara de paisagem. — Você está bem?
Droga... Eu não estou com cara de paisagem. Eu estou com cara de velório, isso sim!
Antes que uma lágrima escape de um dos meus olhos, passo as mãos rapidamente pelo rosto, rio sem humor, apenas para disfarçar a dor profunda que sinto, e desconverso:
— Desculpe, é só que... Isso é tão triste.
— Não se preocupe. Eu superei esse vazio com o tempo. — Steve me tranquiliza, sem perceber que não estou triste só por causa dele. — Eu quero dizer... As boas pessoas que passaram pela minha vida sempre farão falta, claro, mas eu conheci outras incríveis depois que acordei, então... Eu percebi que é melhor valorizar o que eu ganhei, do que ficar me lamentando pelo o que eu perdi.
Eu queria pensar como o Capitão América. No fundo, sei que ele está coberto de razão. Eu também conheci pessoas incríveis. Principalmente, nos últimos dias. Mas, apesar de saber que eu deveria valorizar isso, não consigo parar de me lamentar pelo o que eu perdi. E o pior disso tudo é que eu lamento em silêncio, incapaz de compartilhar meu passado com as pessoas incríveis que entraram na minha vida. E eu não estou falando apenas dos Vingadores, mas de Amy e Josh também. Não consigo me abrir com eles. Josh acabou descobrindo a verdade por si só e, de vez em quando, tenta me confrontar com isso. Com o assunto proibido.
— Olivia? — a voz de Steve me desperta novamente e eu o fito com a visão meio embaçada. — Tem certeza que você está bem?
Antes que eu pense no que responder, para fugir do assunto, Tony adentra a sala reclamando:
— Eu falei dois minutos.
Automaticamente, eu e o Capitão América levantamos e nos voltamos na direção do Homem de Ferro.
— Nós já estávamos a caminho. — o loiro rebate.
Quando Tony para diante de nós, eu enxugo meus olhos rapidamente e forço um sorriso amarelo. Mentalmente, rezo para ele não perceber o meu estado e não fazer nenhum comentário sobre isso. Mas, para meu desespero, acontece justamente o contrário e Stark reclama novamente:
— O que eu falei sobre entediar a minha convidada com o seu papo de velho, Capicolé? Nossa... Ela está até chorando de tanto tédio.
Steve abre a boca, possivelmente para protestar, mas antes disso, eu me manifesto:
— Eu estou bem, não se preocupe. — e enquanto Tony me encara um tanto desconfiado, bem como o Capitão América, eu mudo drasticamente de assunto: — Ah! Por acaso você falou algo sobre karaokê?
Stark me encara por mais alguns instantes, troca um olhar indecifrável com Steve, depois volta a me olhar, estende o braço para mim e assente tranquilamente:
— Sim, eu disse. Vamos, Adestradora de Rena?
Sem pensar duas vezes, entrelaço meu braço ao dele e depois faço o mesmo com o de Steve. Enquanto deixamos a sala, procuro enterrar a tristeza que sinto em um lugar remoto de minha mente. Na verdade, minha vontade é de inventar uma desculpa e ir embora, mas sei que se fizer isso, meus novos amigos vão perceber que eu não estou bem e isso os levará a fazer perguntas que eu não quero responder.
Sendo assim, decido me desligar dos meus problemas e traumas, fingir para mim mesma que estou completamente bem e viver este momento como se apenas isso importasse. E é o que eu faço durante as duas horas seguintes. Até me arrisquei a cantar I Love Rock and Roll no karaokê e aplaudi aqueles que se arriscaram a cantar qualquer coisa também — lê-se Tony Stark, que praticamente monopolizou o karaokê só para si.
Bebi mais um pouco e participei de todas as conversas, sempre sorrindo ao final de cada frase, mesmo quando o assunto não era engraçado. Em dado momento, finalmente esqueci os meus problemas e me diverti de fato, genuinamente.
No final das contas, talvez Steve Rogers esteja certo. Talvez eu deva parar de me lamentar pelo o que perdi e aproveitar o que eu ganhei. Mesmo assim, é difícil.
Algum tempo depois
Com certa dificuldade e depois de algumas tentativas frustradas, finalmente consigo encontrar o maldito buraquinho da fechadura e abro a porta do meu cafofo. Em seguida, adentro o lugar um tanto distraída e, enquanto fecho a porta, a voz insuportável de Loki ecoa pela sala:
— Posso saber onde você estava?
Um sobressalto toma conta de mim e eu me viro trêmula, enquanto levo a mão ao meu coração midgardiano acelerado e reclamo:
— Virgem Santa! Você quase me matou de susto!
Enquanto respiro fundo repetidas vezes, tentando me recompor, vejo Loki acendendo um abajur ao lado do sofá e se levantando lentamente. Então, ele me encara de um jeito firme e questiona com um irritante ar superior:
— Por quê? Por acaso você estava fazendo algo de errado?
Já totalmente recuperada do susto, dou alguns passos na direção daquele ser que parece ter nascido para tirar a minha paz, cruzo os braços contra o peito e rebato:
— Loki de Asgard, o cara que atacou Nova York com um exército de aliens, perguntando se eu fiz algo de errado? Você tem noção de como isso soa... Estranho, chuchu? Aliás, desculpe perguntar, mas desde quando eu devo satisfações da minha vida para você? Oh! Certo, eu não devo.
— É uma pergunta simples, Olivia. — o Deus da Trapaça insiste e eu sinto um arrepio ao ouvir o meu nomezinho em sua boca. Não sei por que, mas sinto. Me julguem. — Algum problema em respondê-la?
Ótimo. O gafanhoto está desconfiado. Que bom! Só que não...
Tenho que manter a calma. E, por mais que eu não queira dar satisfações para este gafanhoto intrometido, fugir do assunto pode deixá-lo ainda mais desconfiado. Sendo assim, penso rápido e decido dizer a verdade. Ou pelo menos, parte dela:
— Eu estava com alguns amigos. Sabe, amigos? Pessoas que gostam de você e que você gosta também. Geralmente, essas pessoas se divertem juntas e... — de repente, paro de falar, levo a mão à minha boca por um instante e ironizo: — Oops, foi mal, eu esqueci que você não é capaz de entender isso.
Loki sorri com desdém, aparentemente sem se ofender com a minha crítica velada, dá um passo a frente, parando bem diante de mim, me analisa por algum tempo, cruza os braços atrás do corpo e recomeça:
— E esses seus amigos... Eles tem nomes?
Eita... Acho que este infeliz continua desconfiado. E eu devia ter imaginado que ele estaria, afinal, há algumas horas, Loki ameaçou me jogar pela janela porque acreditava que o seu irmão estava o monitorando diretamente de Asgard. Por um momento, pensei que tinha o convencido do contrário, mas, pelo visto, me enganei feio.
Loki é esperto e, passar as últimas horas sozinho, deve ter feito ele repensar o assunto. Pior, talvez agora o deus trapaceiro não esteja desconfiado apenas de que o top model asgardiano tem o vigiado, talvez ele esteja começando a desconfiar do meu envolvimento nisso também. Quem sabe até tenha se lembrado dos Vingadores e de que eles também podem estar envolvidos nisso tudo?
Paranoica! Paranoica! Paranoica! Estou sendo paranoica e tenho que parar com isso, antes que o gafanhoto espertinho fique ainda mais desconfiado, ligue os pontos e descubra a verdade. Isso não seria nada bom para a missão.
Pensando desta forma, controlo a onda de nervosismo que se abateu sobre mim e respondo rapidamente:
— Josh e Amy. Esses são os nomes deles. Satisfeito? — não espero Loki responder. Ao invés disso, reparo melhor em como ele está vestido e indago: — Humm... Então você gostou do pijama?
Ótimo, Olivia Mills. Mudar drasticamente de assunto. Nem um pouco suspeito, não é? Gênia...
Mentalmente, rezo para o gafanhoto megalomaníaco não achar isso estranho e tento controlar uma nova onda de nervosismo, enquanto ele me encara de um jeito sério e intimidador, como se pudesse ler os meus pensamentos.
Engulo em seco. Ai meu Deus! Será que esta coisa lê pensamentos?
Para meu alívio, Loki desvia do meu olhar, observa o pijama que dei para ele, depois volta a me encarar e diz:
— Até que é... Razoavelmente confortável.
A surpresa toma conta de mim e eu não resisto:
— Espera aí! Por acaso, isso foi um elogio ao meu presente? Ou quem sabe uma forma velada de me agradecer por ele?
— Nem uma coisa nem outra, midgardiana tola. — o Deus da Trapaça é rápido e ríspido na resposta. — E claro que este pedaço de pano pegajoso não se compara aos tecidos refinados e nobres que eu estou acostumado a...
Um riso escapa da minha garganta e o gafanhoto para de falar imediatamente, me encarando com certa confusão, provavelmente, sem entender qual é a graça.
Como resposta, eu coloco a mão no seu ombro, o encaro fixamente, arqueio uma sobrancelha e digo:
— De nada, Loki.
Seu olhar se estreita na direção dos meus com certa confusão e, apesar da relativa escuridão na sala, reparo melhor naquelas orbes verdes e cristalinas. Talvez pela primeira vez. E tenho que admitir, os olhos do Deus da Trapaça são tão... Intensos e... Bonitos.
Subitamente, percebo uma confusão maior neles, mas não é o suficiente para me despertar deste... Transe? Feitiço? Macumba?
Epa! O que está acontecendo comigo?
Estou me perguntando isso, quando Loki observa a minha mão em seu ombro por um instante e depois volta a me encarar de um jeito questionador. E isso é o suficiente para me trazer de volta à realidade. Então, rapidamente, tiro a minha mão dali e dou um passo para trás, desviando do seu olhar e pigarreando um pouco.
Okay, eu vou colocar a culpa na bebida. É isso! Eu estou bêbada e imaginando coisas, pensando coisas... Sentindo... Coisas que eu não deveria. Que eu não devo!
— Você parece nervosa. — Loki diz e eu o fito imediatamente. — Algum problema? — indaga com um ar superior e ao mesmo tempo com um divertimento visível.
Desgraçado! Ele está zombando de mim! Porque, devido ao álcool, eu estou agindo de um jeito estranho e inapropriado.
Com raiva dele e de mim mesma, fuzilo este serzinho desprezível com um olhar fulminante e, antes de me afastar rapidamente, encerro:
— Tenha uma péssima noite, gafanhoto.
Não espero Loki responder, retrucar ou mesmo assimilar o que eu disse. Entro no meu quarto imediatamente e tranco a porta atrás de mim. Me apoio nela, enquanto tento controlar a minha respiração ligeiramente ofegante, uma nova e inexplicável onda de nervosismo que se abateu sobre mim e também os meus batimentos cardíacos, misteriosamente, acelerados.
Eu hein... Eu não sabia que o álcool podia causar essas sensações em mim. Que coisa esquisita. Eu nem estou tão bêbada assim, estou?
Tentando me desligar dessas... Sensações, me dirijo ao banheiro, tomo um banho rápido e depois despenco na cama. Demoro para pegar no sono, — inexplicavelmente também — mas em dado momento, finalmente consigo apagar.
No dia seguinte
Acordo com uma enxaqueca horrível e vou cambaleando até o banheiro, enquanto amaldiçoou Tony Stark e até o fofo do Steve por terem me feito beber tanto.
Em seguida, tomo um banho relativamente rápido, engulo meu antidepressivo, um analgésico, escovo os dentes e volto para o quarto. Coloco a primeira roupa que encontro no guarda-roupa e depois me dirijo para a sala. Detenho o passo, quando vejo Loki sentado no sofá, inclinado na direção do meu notebook que está sobre a mesinha de centro.
Antes que eu diga qualquer coisa, Loki indaga com os olhos fixos na tela e com certo desprezo:
— Por que você tem uma imagem deste... Soldado no seu computador?
Neste momento, eu deveria estar apavorada porque o gafanhoto está fazendo mais uma pergunta que pode representar um risco para essa missão maluca. Mas, ao invés disso, não consigo conter certo divertimento, quando rebato:
— Soldado? Você quer dizer o super soldado, grande herói, destemido, patriota, lindo e loiro Capitão América?
Sim, me julguem, mas eu salvei uma imagem do velhote gato como meu papel de parede, afinal, até ontem eu estava convencida de que Steve Rogers era a tampa da minha panelinha. Mas, pelo visto, eu devo ser uma frigideira mesmo. Afinal, frigideiras não tem tampas, coitadas.
Me sinto triste ao pensar desta forma, mas me recomponho rapidamente, quando Loki se levanta do sofá, me analisa como se fosse um daqueles investigadores de séries policiais e recomeça:
— Me corrija se eu estiver enganado, mas, quando eu tive o desprazer de te conhecer, você não se lembrava da minha tentativa de governar Midgard como um deus benevolente. E agora, tem uma imagem do ilustríssimo Capitão América no seu computador?
E lá vamos nós... Loki está desconfiado. De novo. Que legal. Haja paciência. Tenho que contornar a situação, antes que ela saia do controle.
Sendo assim, respondo do jeito mais natural que consigo:
— Este é o ponto, gafanhoto. Eu não me lembrava da sua tentativa de destruir Nova York, como o deus megalomaníaco que você é, mas, em nenhum momento, eu disse que não me lembrava da existência desses seres iluminados, mais conhecidos como Vingadores. Mesmo porque, dê uma boa olhada no Capitão América e me diga se eu realmente poderia esquecer um corpinho desses. Nem que batessem minha cabeça na parede até eu desmaiar.
Loki ri por alguns instantes e eu finjo que não gostei disso, embora no fundo, esteja aliviada por ter dissipado um pouco da sua desconfiança.
— Não me diga que você nutre uma paixão platônica por ele? — indaga na sequência.
Sem saber exatamente o que planejo com isso, decido provocá-lo mais um pouco:
— Dá para me julgar? Ele é gostoso.
A expressão do deus trapaceiro se fecha e ele desvia o seu olhar do meu, visivelmente incomodado. E sem saber exatamente por que, me regozijo com tal reação. Aliás, me chamem de maluca, mas eu acho que lhe provoquei uma pontinha de ciúme. Ou pelo menos feri o seu orgulho masculino.
De repente, me dou conta de uma coisa. Estou agindo exatamente como ontem, quando tentei mostrar para Loki que ele não queria, muito menos conseguiria, me jogar pela janela. Ontem, eu quis provar para o Deus da Trapaça que, de alguma forma, ele se importa comigo. E hoje, eu quis lhe despertar ciúmes.
Por que estou fazendo isso — mesmo depois da Viúva Negra ter me aconselhado a manter certo distanciamento do gafanhoto — não tenho ideia. Tudo o que sei é que isso não está certo e tenho que parar, antes que eu descubra por que estou agindo assim.
Desta forma, lhe lanço um sorriso amarelo e mudo de assunto:
— Por que você não toma um banho e coloca uma das roupinhas chiques que eu comprei? Depois nós podemos dar uma volta pela cidade e seguir com o plano. Talvez... Praticar umas boas ações por aí. Acho que vai te fazer bem. O que você me diz?
A princípio, Loki não me diz nada. Apenas me analisa mais uma vez. Me mede da cabeça aos pés, exatamente como fez quando nos conhecemos. Mas, apesar do desprezo implícito neste gesto, tenho a impressão de que Loki só faz isso para lembrar a si mesmo de que ele não me suporta. Por que é isso, certo? Loki não me suporta e a recíproca é verdadeira. É... É isso. Ponto.
— Eu vou tomar o meu banho, midgardiana desprezível. — ele finalmente se pronuncia e em seguida caminha até o banheiro.
Achando ridículo que aquele infeliz queira ter a última palavra, reviro os olhos e murmuro baixinho:
— Tão maduro...
Sim, eu sei. Falou a garota dos pijamas infantis, que age como uma fã sem noção diante dos Vingadores e que também faz questão de ser a última a falar. Essa é minha vida, esse é meu clube.
Afastando esses pensamentos, dou uma olhada na sala e me irrito com a bagunça que o gafanhoto asgardiano está fazendo no meu cafofo. Há roupas e sacolas espalhadas por toda a parte.
Talvez, apenas talvez, seja melhor ceder um espacinho mínimo no meu guarda-roupa para este traste.
Estou pensando nisso, quando a campainha toca. Sacudo os ombros instintivamente, devido ao susto que levei, e em seguida, me dirijo a porta e a abro com um movimento rápido.
— Mama Mia! — exclamo diante de um novo susto. Desta vez, porque vejo Josh parado na soleira, diante de mim.
Só consigo me xingar mentalmente, porque eu devia ter visto quem era pelo olho mágico antes de abrir a porta. Eu devia ter pedido para o porteiro me avisar se o meu amigo aparecesse por aqui. Eu devia ter me preparado para esta saia justa. Eu devia ter evitado isso.
Infelizmente, com Loki aqui, eu não posso receber os meus amigos como costumo fazer. Mas, infelizmente, só me dei conta disso agora. Tipo... Tarde demais, não?
Paralisada. É assim que estou quando Josh sorri levemente, se aproxima, me dá um beijo no rosto e diz:
— Bom dia, gata. Você anda tão sumida ultimamente que eu fiquei preocupado e com saudade. Então eu fui no seu emprego, pensando em te fazer uma surpresa, mas me disseram que você não trabalha mais lá. É verdade? O que aconteceu?
Antes que eu pense no que responder, meu amigo passa por mim e adentra minha sala. Giro nos calcanhares, o acompanhando com um olhar de pânico, e vejo quando ele detém o passo e observa a bagunça que está o meu cafofo.
Mais do que isso, Josh está olhando atentamente para cada sacola, para cada peça de roupa masculina espalhada pelo lugar e, claro, chegando a uma conclusão óbvia.
Josh me conhece muito bem e já presenciou situações assim antes. Não é a primeira vez que ele vê roupas masculinas espalhadas pelo meu humilde apartamento. Mas, diferente das outras vezes, a explicação é outra. A explicação é algo que Josh não pode imaginar nem deve descobrir. Tem um deus asgardiano do mal usando o meu chuveiro, não um namorado novo, como, certamente, meu amigo está imaginando neste exato momento.
— Quem é o bofe? — Josh indaga, voltando-se na minha direção com um sorriso surpreso e a empolgação estampada no rosto. — E por que você não me disse nada, sua bandida? — completa com uma ansiedade crescente.
Droga... Como eu vou explicar que focinho de porco não é tomada?
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