Trapaças do Destino
15 Saia Justa
Notas iniciais
Paralisada, em pânico e com os olhos arregalados até o limite. É assim que estou enquanto Josh continua me encarando, ansioso por uma resposta. Mas, é como se um gato do mal tivesse comido a minha língua porque, simplesmente, não consigo dizer nada.
— Eu perguntei quem é o bofe, Liv. — meu amigo insiste, ainda mais ansioso e até impaciente.
— Não tem bofe nenhum, Josh! — respondo no susto, aliviada por finalmente conseguir me pronunciar. — No máximo, um gafanhoto... — deixo escapar, murmurando baixinho.
No entanto, meu amigo escuta mesmo assim e indaga confuso:
— O quê? Que gafanhoto, Liv? Do que você está falando? E como assim não tem bofe nenhum? — enquanto examina algumas roupas sobre o sofá, ele questiona: — De quem são essas coisas então?
— De ninguém. — respondo no susto de novo.
— Sério? Mentindo para mim? — Josh protesta, antes de pegar uma das sacolas aos pés do sofá e examinar o seu conteúdo. — Oh não... Eu não acredito que você comprou cuecas para ele. — me recrimina com uma expressão nada satisfeita. — Liv, o que foi que eu te disse das outras vezes? — Josh indaga, mas não espera eu responder. Ele mesmo faz isso: — Que para comprar este tipo de roupa para alguém, precisa existir muita intimidade, envolvimento e sintonia entre o casal. Resumindo, precisa de tempo de relacionamento. No mínimo, seis meses de namoro. Agora, se você faz isso com um cara que acabou de conhecer, que eu tenho certeza de que é o caso, você assusta o gato e coloca tudo a perder, Liv. De novo. Quantas vezes eu já te disse isso? Por que você se recusa a me ouvir?
— Josh, Josh, Josh! Me escuta, por favor. — eu o corto desesperadamente, pois sei que se eu deixar, ele vai se empolgar em explicar cada detalhe dos fiascos que foram os meus relacionamentos amorosos relâmpagos, e eu não estou nem um pouco interessada em ouvir a palestra de auto ajuda do meu amigo pela milésima vez. Sendo assim, tento esclarecer de uma vez por todas: — Eu não estou namorando ninguém, não estou saindo com ninguém, não tem bofe nenhum e nada é o que parece ser. Portanto, desapega, okay?
Ainda mais confuso, Josh une as sobrancelhas e me encara, enquanto eu rezo mentalmente para que ele aceite meus fracos argumentos e vá embora. Depois, com calma, eu penso em uma desculpa melhor e invento uma história qualquer para explicar essas roupas masculinas no meu cafofo, mas, agora tudo o que eu preciso é que o meu amigo vá embora, antes que o gafanhoto...
— Eu ouvi vozes. Está tudo bem? — Loki indaga, vindo do toalete para a sala e fazendo eu e Josh olharmos em sua direção, até que ele para a certa distância de nós. — Oh... Você está com uma visita. — completa de um jeito sonso, olhando para mim de um jeito ainda mais sonso e com um sorriso, adivinhem, sonso no canto dos lábios.
Porém, eu não ligo para nada isso, pois estou boquiaberta e ocupada demais observando uma imagem... Surreal diante dos meus olhinhos de noite serena.
Loki — pasmem — está apenas com uma toalha em volta da cintura. E, por mais que eu odeie o que estou prestes a fazer, não resisto e simplesmente faço. Como se tivessem vontade própria, meus olhos percorrem o seu corpinho centímetro por centímetro e, com isso, o meu rosto enrubesce automaticamente e minha respiração falha sem explicação aparente. Sinto o meu coração disparar e um impróprio calor libertino se espalha por cada célula do meu corpo. Também sem explicação aparente.
E eu odeio admitir, mas tenho que dizer: o Deus da Trapaça tem um corpo muito... Bonito para um gafanhoto desprezível. Esbelto. Na medida certa. Quem diria, hein? Até que dá um caldo.
Espera! Meus Deus... O que foi que eu acabei de pensar mesmo? Devo estar possuída, só pode. Não, não e não! Eu não achei o Loki bonito! Nem gostoso! Nem por um milésimo de segundo! Que isso fique bem claro, okay? Okay.
Tentando me convencer disso, faço um esforço para desviar o meu olhar deste... Pecado em forma de gafanhoto asgardiano e tento raciocinar direito. Chego a conclusão de que Loki ainda não tomou o seu banho, mas já devia estar nu em pelo, quando eu atendi a porta. Provavelmente, ele ouviu parte da conversa e resolveu vir checar. Com certeza, para tirar algum proveito disso. Ou — o mais provável — para me contradizer na frente do meu melhor amigo, me fazer passar por mentirosa e me colocar em uma baita saia justa.
Desgraçado!
Estou o amaldiçoando mentalmente, quando olho na direção de Josh, pensando em explicar esta situação de alguma forma — embora, eu ainda não saiba como exatamente — quando meu amigo lembra baixinho:
— Eu pensei que você tivesse dito que ele era gay.
— O quê?! — Loki indaga no mesmo instante, visivelmente surpreso e confuso com o que ouviu. P da vida, eu diria. Me fuzilando com um olhar mortal, só para constar.
— O quê...? — eu murmuro para Josh, a princípio sem entender por que ele disse aquilo. Mas, quando lembro que meu amigo viu o deus trapaceiro versão midgardiana desprezível na boate Inferno, há alguns dias, bato em minha própria testa e digo: — Oh! Certo! Você já o viu antes. Claro!
— O que diabos está acontecendo aqui, Liv? — Josh pergunta de um jeito sério e magoado. Nem parece o meu melhor amigo, sempre tão carinhoso comigo e alto astral. Mas, claro que a sua postura tem uma explicação. Ele está decepcionado comigo. Porque eu menti. Porque eu sou um ser humano horrível...
— É uma ótima pergunta... Amor. — Loki diz entredentes na sequência.
— Amor? — Josh repete com certa surpresa, enquanto eu lanço um olhar fulminante na direção do gafanhoto, rezando para que ele cale a sua maldita boca de uma vez!
Mas, para meu desespero, Loki prossegue com o seu joguinho teatral:
— Por que você disse para o seu amigo...
De repente, ele para de falar, esperando por um nome. Com isso, um alerta se acende dentro de mim e estou prestes a inventar um nome falso qualquer, quando o meu melhor amigo se apresenta de um jeito seco:
— Josh.
Droga... Agora o gafanhoto vai deduzir que este Josh é o mesmo Josh que eu, teoricamente, encontrei na noite passada. O amigo com o qual eu saí. E, com certeza, não vai demorar muito tempo para que o deus trapaceiro deduza que eu menti sobre isso e comece com toda aquela desconfiança de novo.
Como se tivesse lido os meus pensamentos, Loki me encara de um jeito dissimulado e recomeça:
— Por que você disse para o Josh que eu sou.. Gay, amor? Que brincadeira de mau gosto foi essa?
Antes que eu sequer assimile o que ouvi e pense no que responder, meu melhor amigo se volta para mim e indaga com uma mágoa palpável:
— É, Liv. Por que você me disse isso? Por que mentiu sobre o seu novo namorado? E por que tem mentido para mim, desde que eu coloquei os pés aqui? Você acha que eu sou idiota? Que eu não ia entender e te apoiar como sempre faço?
— Ele não é meu namorado. — é a única coisa que consigo dizer, enquanto sinto uma tristeza profunda por ter magoado o meu melhor amigo. E tudo por culpa deste maldito gafanhoto manipulador e sonso! Ele me paga!
— Como não? — Loki indaga, fingindo que ficou ofendido, o que faz uma onda de raiva me dominar, enquanto o fuzilo com o olhar mais uma vez.
— Já chega. Eu já ouvi demais. — Josh se irrita com a situação e começa a caminhar a passos largos em direção à porta.
Desesperada, eu o sigo dizendo:
— Josh, espera. Por favor. Não é nada disso que você está pensando. Eu posso explicar.
Ao ouvir isso, ele se vira na minha direção, cruza os braços contra o peito e intima impaciente:
— Sério? Tudo bem. Então explique.
Abro a boca para falar, mas as palavras simplesmente não saem. Não consigo formular nada para dizer. E então me dou conta de que qualquer coisa que eu diga neste momento será mais uma mentira para o meu melhor amigo.
Infelizmente, eu não posso lhe contar a verdade, não posso envolvê-lo nesta missão. E mesmo que eu pudesse, não tenho a menor ideia de como ele iria reagir, se iria entender ou aceitar, se seria perigoso para ele. Estou em um beco sem saída, em uma tremenda saia justa. Maldito Loki! Maldita missão! Ó céus! Ó vida!
Com o coração apertado e a tristeza estampada em meu olhar, eu engulo em seco e lamento:
— Na verdade, eu não posso. Me desculpe, eu... Eu sinto muito, Josh. Eu não posso explicar. Mas eu preciso que você confie em mim, por favor.
Depois de rir sem humor e me lançar um olhar cheio de decepção e incredulidade, meu melhor amigo me dá as costas, abre a porta do meu cafofo e, antes de passar por ela como um foguete, encerra profundamente magoado:
— Tchau, Liv.
— Josh, espera... — eu peço, mas é em vão, já que ele simplesmente some do meu alcance de visão ao descer as escadas às pressas, incapaz de esperar pelo elevador.
Eu devia ir atrás dele, mas o que eu lhe diria? Mais mentiras? A verdade? Eu não posso. Droga, eu não posso!
Sendo assim, permaneço parada na soleira da porta, fitando o corredor com um olhar vazio e triste, até que a voz de Loki me desperta:
— É engraçado, não? Que você tenha visto o seu amigo ontem e hoje ele diga que ficou preocupado porque você anda... Como ele disse mesmo? Ah! Sumida.
Enterro a tristeza por ter decepcionado Josh dentro de mim, bato a porta, me volto na direção do Deus da Trapaça, cruzo os braços contra o peito e o critico:
— Ouvir a conversa dos outros é muito feio, sabia?
— Mentir também. — o asgardiano rebate prontamente, me encarando de um jeito firme e ameaçador. — A questão é: se você não viu o seu amigo ontem, então com quem você esteve? Com a tal Amy? Com outra pessoa? Com outras pessoas?
Sim, Loki me pegou na mentira. Eu devia ter sido mais esperta e evitado isso, mas, infelizmente, falhei. O jeito agora é contornar esta situação o mais rápido possível.
Pensando desta forma, eu dou uma rápida olhada nos seus trajes — ou reparo melhor na ausência deles — e peço:
— Será que você pode se vestir, por favor? Ou ir tomar o seu banho de uma vez?
Para minha surpresa, Loki ri um pouco do meu pedido e, aparentemente, deixa a questão da minha mentira de lado. Na sequência, ele se aproxima lentamente e para diante de mim, fazendo com que eu prenda a respiração sem perceber e lhe dê um discreto confere. Também sem perceber. Juro juradinho!
Depois disso, Loki me encara profundamente e questiona com certo divertimento:
— Por quê? Por acaso isso te incomoda?
Se me incomoda ver o Deus da Trapaça só de toalhinha, a poucos centímetros de mim, fazendo o meu olhar recair sobre o seu corpo constantemente e o meu rosto ficar vermelho de novo e de novo?
— Não. — minto, me obrigando a fitá-lo nos olhos, enquanto um nervosismo inexplicável surge dentro de mim e se alastra como uma praga pelo meu ser. — Eu só não quero ter pesadelos à noite. — completo com deboche.
Loki ri mais uma vez, se aproxima mais um pouco, me fazendo dar um passo para trás e engolir em seco, e anuncia:
— Eu vou ser direto, midgardiana... Difamadora. — e depois de dar mais um passo à frente, me fazendo recuar e apoiar as costas na porta, ele diz: — Eu não gostei, nem um pouco, do que você falou de mim para o seu amigo. Na verdade, eu odiei.
Minha respiração falha, enquanto eu penso no que dizer em minha defesa, mas está muito difícil me concentrar com Loki assim tão perto de mim, me encarando de um jeito raivoso e ao mesmo tempo... Eu não sei explicar, mas tem outra coisa em seu olhar que eu não consigo entender o que é. Mas tem. É um brilho diferente.
Me sinto desconfortável com a nossa proximidade, mas, por algum motivo, não penso em afastá-lo. Eu teria que tocá-lo e eu não quero isso. Eu não quero tocá-lo? Não, não e não! Eu não quero tocar o Loki!
Então, eu devia dizer alguma coisa. Desarmá-lo de alguma forma. Dizer algo como "Vai se queixar ao Bispo" ou "Não gostou? Olha a minha cara de preocupada." Mas, ao invés disso, engulo em seco de novo e falo com a voz trêmula:
— Desculpe... Eu só... Estava... Brincando.
Eu me odeio! Eu não acredito que pedi desculpas para este traste! E eu não acredito que estou tão nervosa diante dele? O que diabos está acontecendo comigo? Pelo amor de Deus, alguém providencia um exorcismo com urgência? Chamem os irmãos Winchester!
— Tem certas coisas, Olivia, com as quais não se deve brincar. — Loki recomeça e eu sinto um arrepio ao ouvir o meu nome em sua boca maldita. Olho para a sua boca. Me obrigo a parar de olhar. — A masculinidade de um homem, ou de um deus como eu, é uma delas.
Meu coração está inexplicavelmente disparado, minhas mãos suadas, minhas pernas tremendo e meu corpo incrivelmente quente. Não sei o que Loki está fazendo comigo ou o que pretende com este joguinho, mas, de alguma forma, isso está mexendo comigo. Mais do que eu gostaria e mais do que eu consigo compreender.
Novamente, penso em afastá-lo. E, novamente, desisto, incapaz de fazer isso.
Para meu desespero e bálsamo, o Deus da Trapaça, se aproxima mais um pouco, praticamente colando o seu corpo ao meu, me deixando completamente encurralada contra a porta e fazendo o meu corpo inteiro se arrepiar ao sentí-lo assim tão perto de mim.
Em seguida, para meu desespero e bálsamo de novo, ele começa a mexer nos meus cabelos e continua com esta verdadeira tortura:
— Sabe o que eu devia fazer? Inverter o jogo e te dar uma boa lição. Uma lição para que você nunca mais... Nunca mais ouse dizer, ou sequer pensar em brincar com algo assim.
Sabem o que eu devia fazer? Empurrar este desgraçado de uma vez por todas! Talvez lhe dar uma joelhada certeira nos seus Países Baixos e inutilizar o seu corpinho para sempre!
Mas, como o meu cérebro parece ter derretido e o meu corpo paralisado completamente, tudo o que consigo fazer é perguntar com a voz quase inaudível:
— Que tipo de lição?
Loki sorri, inclina um pouco a cabeça, estreita o seu olhar no meu e me desafia:
— Eu acho que você sabe muito bem, Olivia.
Sim, eu sei. Imagino. Mentalizo. Fantasio...
Epa! Epa! Epa! Olivia Mills, pare agora mesmo de ter pensamentos impróprios e pecaminosos com esta coisa de outro mundo!
É o que estou tentando fazer, quando Loki desliza a sua mão do meu cabelo para o meu rosto, e continua derretendo meus neurônios e me despertando certos desejos, à medida que diz:
— E eu acho que, lá no fundo, você quer isso. Muito. E acredite, eu até te daria esta lição. Com todo o prazer. — prendo a respiração e fecho os olhos, quando Loki aproxima os lábios do meu ouvido e sussurra pausadamente: — Se, é claro, eu enlouquecesse completamente, a ponto de querer me envolver com uma midgardiana desprezível como você.
What? Como é que é? O quê? Como assim?!
Abro os olhos, profundamente ofendida e com muita raiva. Não acredito que me deixei levar pelo papo furado deste maldito deus asgardiano e que ele só estava se divertindo às minhas custas. Ah, mas isso não vai ficar assim! Não vai mesmo!
Sendo assim, quando Loki volta a me encarar com um sorriso satisfeito naquele rostinho nada lindo, eu finalmente o empurro um pouco, o fuzilo com o meu olhar mais mortal de todos e rebato duramente:
— Sabe, seria o melhor momento da sua existência. Se eu enlouquecesse completamente e desse trela para uma gentalha alienígena como você.
Loki sorri, se divertindo com a situação e, aparentemente, sem se abalar com o que eu disse. E isso só me deixa com mais raiva. Cuspindo fogo pelas ventas!
E me faz tomar uma decisão. Que eu coloco em prática imediatamente, flexionando o meu joelho e acertando em cheio os documentos do traste, o fazendo recuar no mesmo instante, se curvar com as mãos na frente do corpo e gemer, enquanto fecha os olhos com força em uma careta de dor. Ótimo!
Me deliciando com tal imagem, eu abro a porta e encerro o round dizendo com sarcasmo:
— Desculpe, chuchu, mas você tem toda a razão. Com certas coisas não se deve mesmo brincar. Com mulheres como Olivia Mills, por exemplo. Fica a dica.
Saio do meu cafofo sem saber ao certo para onde vou, só sei que preciso me afastar daqui. Ou melhor, me afastar deste abusado! Ainda estou com muita raiva. Mais de mim do que dele, na verdade.
Chamo o elevador e entro nele, me dando vários tapas na cara e me xingando loucamente:
— Burra! Burra! Burra! — mas paro com a autoflagelação, quando a porta se abre no andar seguinte e me deparo com a minha vizinha, uma senhora de aproximadamente sessenta anos, segurando o seu netinho, de dois, nos braços. — Bom dia, Sra. Taylor. — cumprimento-a, mas a mulher não responde. Apenas fica me encarando, como se eu fosse maluca, doente ou leprosa, enquanto a criança baba consideravelmente em seu colo. Eca! — Dia ruim, sabe? — tento me justificar, lhe lançando um sorriso amarelo.
— Eu vou esperar o próximo, querida. — é tudo o que a Sra. Taylor me diz, visivelmente assustada, antes de se afastar da porta e abraçar o netinho com força.
— Tenha um bom dia! — lhe desejo enquanto a porta se fecha. — Burra! Burra! Burra! — volto a me xingar e a me estapear loucamente.
Paro com a autoflagelação de novo, quando chego ao térreo. Saio do prédio decidida a ir atrás de Josh e tentar explicar o inexplicável, ou pelo menos me desculpar e ganhar algum tempo.
Sigo pela calçada e, de tão nervosa que estou, atravesso a rua sem olhar para os dois lados, como minha avó sempre me aconselha a fazer.
Estou no meio do percurso para o outro lado, quando ouço o som crescente e estridente de uma buzina. Detenho o passo e giro o meu corpo, tendo um sobressalto. Arregalo os olhos ao ver o carro que se aproxima em alta velocidade de mim. Ele vai me acertar.
Aqui jaz Olivia Mills...
Mentalizo a minha lápide e espero a minha vida passar como um filme diante dos meus olhos. Mas, isso não acontece. Ao invés disso, ouço alguém gritar o meu nome, vejo este alguém me alcançar e me puxar rapidamente para a calçada do outro lado, antes que o carro me atinja em cheio. Este alguém me salvou no último instante. E este alguém é Bruce Banner.
— Olivia! Meu Deus! — ele exclama ofegante e atordoado, ainda segurando o meu braço. — O que deu em você? Você podia ter morrido!
Sabe aquele momento na sua vida em que você se dá conta de algo elementar? Algo que estava tão óbvio, tão na cara e escrito nas estrelas, mas que mesmo assim você foi cega o bastante para não enxergar antes? Pois é. É assim que estou me sentindo neste exato momento diante deste ser fofo e iluminado. Como eu nunca reparei nele antes? Como???
— Você salvou a minha vida. — balbucio, sentindo uma enorme felicidade me inundar, enquanto uma certeza absoluta cresce dentro de mim.
É isso! Bruce Banner é o meu par perfeito! Minha alma gêmea! A tampa da minha panelinha! Eu não sou uma frigideira!
— Não foi nada. — o meu par perfeito ameniza o fato de ter me salvado, enquanto se recompõe e solta o meu braço devagar. — Mas não faça isso de novo. Deus... Você quase me matou de susto.
Fofo! Fofo! Fofo! Bruce não conseguiria viver em um mundo onde eu não existisse! Foi isso o que ele acabou de insinuar, certo? Ai que romântico! Tô gamada!
— É você, não é? — indago, dando um passo em sua direção, enquanto o observo maravilhada.
— Eu o quê? — ele rebate, me encarando com certa confusão.
Fofo! Fofo! Fofo! Adoro quando os homens se fazem de desentendidos! É tão sexy!
— É você. — eu afirmo sem qualquer sombra de dúvida.
Imediatamente, lhe lanço um enorme sorriso e passo os meus braços em volta do seu pescoço, deixando nossos corpos bem próximos um do outro. Com isso, Bruce finalmente entende aonde eu quero chegar e parece meio assustado quando tenta se esquivar e diz:
— Não, Olivia... Isso é um erro... Você está confusa, não sou eu... Por favor, não faça isso. Não faça algo que você vai se arrepender depois, por favor. Não...
Não lhe dou ouvidos. Ao invés disso, fecho os meus olhinhos de noite serena e o silencio com um beijo, encaixando meus lábios nos dele e os pressionando com ímpeto.
Bruce não me afasta nem reluta, mas fica completamente imóvel, assim como Steve quando eu o ataquei. É como beijar uma estátua de Michelangelo de novo. E, assim como naquela fatídica ocasião, desta vez, eu também não ouço os benditos sinos, nem sinto as benditas borboletas fazendo festa no meu estômago.
Infelizmente e inexplicavelmente, nada disso acontece. Não sinto absolutamente nada. Apenas um grande constrangimento e arrependimento, quando o solto me perguntando:
— Mama Mia... O que foi que eu fiz? — noto que Bruce está mais vermelho do que um tomate maduro, e completo: — Ai meu Deus... Me desculpe... O que foi que eu fiz?
— Está tudo bem, Olivia. — Bruce tenta me tranquilizar, embora esteja tão envergonhado quanto eu. — Só vamos esquecer isso, tudo bem?
Esquecer? Como eu vou conseguir esquecer mais um ataque de piriguetismo da minha parte? Como eu vou esquecer que fiz isso de novo? Desta vez, pra cima do fofo do Bruce? Meu amigo! Como eu pude? Qual é o meu problema?
— O que deu em mim? — me pergunto atordoada, dando um passo para trás, evitando olhar diretamente para ele, sentindo o meu rosto queimar de tanta vergonha e desejando que um buraco se abra bem embaixo dos meus pés.
— Está tudo bem, sério. — Bruce assegura, dando um passo à frente e gesticulando com as mãos.
Mas, incapaz de manter a calma como ele, eu decido sair correndo. Desta forma, me viro na direção da rua e, sem olhar para os lados de novo, me ponho em movimento de qualquer jeito.
E é então que alguém grita:
— Sai da frente, moça!
Não tenho tempo de fazer isso, nem de ir muito longe na travessia. Antes disso, algo me atinge com um impacto absurdo. Uma bicicleta, eu acho. Então, eu me desequilibro, despenco no meio fio como uma fruta madura e vejo os finos pneus passando por mim, antes da minha cabeça atingir a guia com força. E isso doeu um bocado, só para constar.
— Au! — eu grito, levando minha mão à nuca, que lateja de dor.
O mundo gira em torno de mim. Minha visão fica embaçada. E vozes se misturam com as constantes buzinas ao meu redor.
— Eu não tive culpa. Ela praticamente se jogou na frente da minha bike. — ouço o que parece ser o carrasco que me atropelou covardemente.
— Eu sei, está tudo bem. Pode ir, eu cuido dela. — reconheço a voz de Bruce.
Pela primeira vez, não o acho nem um pouco fofo. Afinal, o mínimo que ele tinha que fazer era se transformar no Incrível Hulk e esmagar este idiota abusado que teve a pachorra de me atropelar assim, em plena luz do dia e diante de várias testemunhas!
Que absurdo! Em que mundo nós vivemos, meu Deus? Ninguém respeita mais ninguém! É isso mesmo, produção?
— Olivia? — ouço Bruce me chamando, mas não consigo responder.
Antes que eu abra a boca, as luzes se apagam. Acho que desmaiei, gente.
Fale com o autor