Trapaças do Destino

30 Abre alas que eu quero passar


Notas iniciais
Oi, gente! Não me matem... Eu sei que o capítulo demorou mais do que devia e desculpem por isso, mas é que ele deu bastante trabalho. Além disso, semana passada eu finalmente ressuscitei uma fic minha que estava em hiatus, decidi participar do desafio de setembro também, tive que fazer umas atividades do meu curso etc. Ou seja, estou bem atarefada ultimamente. Por isso mesmo, queria adiantar (com meu coração em frangalhos) que eu não conseguirei postar a fic toda semana. Não estou dando conta de tanta coisa, tenho que ser sincera com vocês... Então, acho que vou passar a atualizar de 10 em 10 dias, ou de 15 em 15. Não me matem, please. Bem, a boa notícia é que eu acho que consigo terminar a fic com uns 40 capítulos. Ou seja, está pertinho. Outra boa notícia é que a revelação sobre o papi soberano da Olivia virá antes do previsto, não será no finalzinho, será alguns capítulos antes. Well, sem mais delongas... Espero que gostem!

Sinto como se o meu pobre coraçãozinho midgardiano fosse sair pela boca de tão descompassado que está. O sabor inconfundível de algodão doce ainda está presente em meus lábios e minhas pernas estão tão trêmulas que mal consigo me manter em pé.

Mesmo assim, me obrigo a me recompor minimamente, dou um passo a frente, abro os olhos e sibilo profundamente surpresa:

— Gafanhoto...

A felicidade que sinto neste momento — e que senti durante aquele que foi o nosso segundo beijo oficial —, se dissipa assim que eu percebo que estou completamente sozinha no beco e dá lugar a uma confusão crescente.

Sem entender nada, olho tudo em volta na esperança de encontrar aquele trapaceiro irresistível em algum cantinho escuro, mas como não vejo nem sombra do dito cujo, coloco as mãos na cintura e, lembrando-me de uma típica frase de minha saudosa avó, falo sozinha e indignada:

— Mas que marmota é essa?!

Querendo respostas e sabendo que preciso de Loki para obtê-las, caminho meio aos tropeços para fora do beco e dou uma boa olhada para os dois sentidos da calçada a sua procura.

No entanto e mais uma vez, não vejo nem sinal do gafanhoto beijoqueiro, e a confusão que sinto apenas se intensifica e se mistura com uma inevitável frustração dentro de mim.

Onde foi que esse danadinho se meteu, minha Nossa Senhora Protetora Das Midgardianas Que São Atacadas Em Becos Escuros Por Deuses Asgardianos?

Espera... Loki me atacou em um beco escuro. Ele voltou para Midgard e veio atrás de mim. Ele me beijou. Mas... Ele parecia o Steve quando fez isso. Por quê? Por que o gafanhoto fez isso? Que tipo de fetiche é esse que eu nunca ouvi falar?

Enquanto me faço essas perguntas, caminho ainda com as pernas trêmulas pela calçada e dou mais uma boa olhada a minha volta. Porém, tudo o que vejo são alguns carros e táxis cruzando a rua e poucas pessoas passando pela calçada.

De repente, detenho o passo e uma possibilidade surge em minha mente. E se o deus trapaceiro e dono do beijo mais gostoso dos Nove Reinos se arrependeu de ter me destratado em nossa despedida, deu-se conta de que não pode ficar longe de mim, decidiu fazer uma brincadeirinha para me atiçar e agora está indo diretamente para o meu cafofo, para me esperar e pedir perdão de joelhos?

Menos, Olivia. Bem menos. Aquele poço de orgulho jamais te pediria perdão, muito menos de joelhos, mas... Se Loki voltou para Midgard, veio a minha procura e me beijou daquele jeito que só ele sabe é porque não está mais com tanta raiva de mim.

Talvez o gafanhoto beijoqueiro esteja mesmo arrependido, com saudade e queira... Recomeçar de onde nós paramos. Talvez ele esteja mesmo a caminho do meu humilde cafofo. Talvez ele queira ao menos conversar sobre o que aconteceu.

Ao cogitar tudo isso, a felicidade volta a me inundar junto com uma onda de esperança, espantando a confusão e a frustração para Far Far Away.

Sorrio largamente e, sem pensar em mais nada e em mais ninguém a não ser em Loki, acelero o passo e quando dou por mim estou correndo.

Cruzo a rua, mas paro no meio do caminho quando um carro buzina e freia bruscamente a poucos centímetros do meu corpinho frágil e mortal, me causando um sobressalto.

Meu coração para por um instante, minha vida passa como um filme diante dos meus olhinhos de noite serena e levo a minha mão a boca para conter um grito de espanto, enquanto o motorista esbraveja:

— Maluca! Está tentando se matar?!

— Foi mal, moço! É que eu sempre esqueço de olhar para os dois lados! — explico, antes de me por em movimento de novo e alcançar o outro lado da via.

Sigo correndo rumo ao meu prédio, esbarrando em alguns pedestres pelo caminho e tropeçando em minhas próprias pernas em alguns momentos, mas sempre com um sorriso no rosto.

Ainda não acredito que aquele trapaceiro voltou, ainda não acredito que ele me beijou de novo, ainda não acredito que isso está mesmo acontecendo!

Depois de tudo o que ele me disse antes de partir para Asgard sem olhar para trás, eu devia odiar o Deus da Trapaça e conter a empolgação que sinto com o seu retorno, mas não consigo evitar. É mais forte do que eu e do que a razão. Estou muito feliz. E muito disposta a discutir a relação por algumas horas e acertar os nossos ponteiros.

O gafanhoto voltou. Ele voltou para mim. E o mínimo que eu tenho que fazer é ouvir o que aquele traste tem a dizer. Claro que antes eu vou querer mais um beijo... Rá! Me julguem!

Nem sei como consegui chegar ao meu prédio tão rápido, mas aqui estou eu, cruzando a portaria como um foguete e me dirigindo para o o hall do elevador.

Fico andando feito barata tonta e tentando conter a ansiedade que cresce a cada instante, até que a porta dupla finalmente se abre e eu me lanço para dentro da cabine.

Aperto o botão do meu andar umas cinco vezes, como se isso fosse me fazer chegar ao meu cafofo mais rápido. Porém, para meu desespero, o percurso nunca demorou tanto. Parece até que eu fiquei presa em algum tipo de loop do tempo.

Volto a andar feito barata tonta, só que desta vez dentro da cabine. Quando o elevador finalmente para de me torturar e chega no meu andar, mal espero a porta se abrir e saio aos tropeços.

Corro até a entrada do meu humilde apartamento e estranho o fato da porta ainda estar trancada.

Tudo bem, eu a tranquei antes de sair com Josh e Amy, mas então como Loki entrou? Será que ele lembra que tem uma chave extra embaixo de um vaso com uma orquídea bem ao lado da entrada? Mas então por que tal chave ainda está lá?

Bitch, please! Loki é o Deus da Trapaça, com certeza ele tem os seus meios de fazer uma porta se abrir. Isso é fichinha para ele. Com certeza é isso.

Ele veio. Ele está aqui. Com certeza está.

Pensando assim, finalmente abro a porta e entro, sorrindo largamente. Estranho o fato do meu cafofo estar completamente escuro, mas me convenço de que o gafanhoto beijoqueiro só quer fazer um suspense.

Então, acendo a luz da sala, jogo minha bolsa em qualquer lugar e o chamo, olhando tudo em volta:

— Gafanhoto!

Silêncio e vazio. Loki não está na sala.

Sinto uma pontinha de frustração, mas não me deixo abalar por muito tempo. Ao invés disso, sigo procurando este danadinho trapaceiro por toda a parte, enquanto o chamo:

— Gafanhoto? Cadê você? Eu sabia que você não ia aguentar muito tempo longe de Olivia Mills! Rá! Cadê você, seu trapaceiro irresistível? Gafanhoto? Loki? Lokito? Oi?

Vou até a cozinha, dou uma olhada básica embaixo da mesa e dentro da geladeira, checo o banheiro social logo depois, corro até o meu quarto e checo o meu banheiro também. Saio e olho embaixo da minha cama só por descargo de consciência, mas duvido que o Deus da Trapaça esteja aqui. Ele não está.

Aquela pontinha de frustração volta a se abater sobre mim, mas procuro manter a esperança quando volto para a sala e olho atrás das cortinas e também na varanda.

Nada. Nem sinal daquele traste.

Talvez eu tenha vindo muito rápido e cheguei primeiro que ele. Me agarro a esta possibilidade, respiro fundo e me sento no sofá onde Loki dormiu tantas vezes, sempre reclamando como era desconfortável, é claro.

Aliás, do que aquele poço de orgulho e arrogância não reclamava?

Rio baixinho ao me dar conta de que estou com saudade até mesmo das suas reclamações.

Respiro fundo mais uma vez, procurando relaxar, cruzo as pernas e olho na direção da porta. Ela está destrancada, então é só o deus trapaceiro girar a maçaneta e entrar. Sorrio levemente e aguardo.

E continuo aguardando pelos próximos minutos, mas nada da porta se mover. Também não ouço o elevador chegando ao meu andar e começo a estranhar tal fato. Será que Loki virá voando? Ele pode voar?

Ansiosa, me levanto, caminho apressada até a varanda e olho para a rua lá embaixo. Nem sinal dele.

Em seguida e tentando manter o otimismo, cruzo a sala, abro a porta e olho para os dois lados do corredor. Silêncio e vazio imperam.

Por via das dúvidas, dou uma olhada na saída de emergência também, mas duvido muito que Loki tenha resolvido vir de escada. Preguiçoso do jeito que é...

Rio novamente ao me lembrar da novela que foi convencê-lo a lavar uma simples louça. E me convenço de que o Deus da Trapaça vai evitar qualquer esforço que canse demais a sua beleza. Ele virá de elevador. Com certeza virá.

Longos instantes se passam enquanto eu ando de um lado para o outro e nada da porta metálica se abrir.

A frustração tenta sufocar o meu otimismo e em dado momento... Ela consegue. Embora uma parte de mim ainda queira manter a esperança, a outra parte sabe muito bem que o gafanhoto asgardiano já deveria ter chegado aqui há séculos.

Sem saber o que pensar e cansada de esperar por um milagre, volto para o meu cafofo, tranco a porta, pego o Caco na poltrona da sala e me sento com ele no colo.

Fico olhando para a carinha do Muppet verdejante e tentando encontrar uma explicação para Loki não ter vindo para cá, enquanto a frustração se transforma em um desapontamento profundo. Em tristeza, por fim.

— Ele não vem, não é? — falo com a pelúcia, mas não obtenho resposta, óbvio.

Mesmo assim, parece que o Caco está rindo da minha cara. Então, me encho dele e o jogo no outro lado da sala. Em seguida, me levanto com raiva e vou para o meu quarto, praticamente marchando.

Não acredito que aquele mequetrefe fez isso comigo. Não acredito que ele veio até Midgard, tirou uma casquinha de mim em um beco escuro e depois simplesmente foi embora.

Mas... Será que Loki foi embora mesmo? É o que me pergunto mentalmente, numa última tentativa de manter a fé. Mas tal tentativa fracassa, perde força, não se sustenta.

— Não seja estúpida, Olivia Mills — digo sozinha. — Ele não vem. Ele foi embora. De novo.

Convencida disso, e sentindo muita raiva de mim mesma por ter esquecido de tudo que aquele mequetrefe do mal me falou antes de partir e por ter agido como uma boba apaixonada diante do seu possível retorno, ligo o meu piloto automático, vou até o banheiro, arranco minhas roupas de qualquer jeito, tomo um banho rápido para os meus padrões, visto o meu pijama do Zé Colmeia e me jogo na cama.

Me reviro sobre o colchão várias vezes — como aqueles frangos de padaria girando e girando —, até encontrar uma posição razoavelmente agradável. Então fecho os olhos e me obrigo a relaxar.

Não consigo e me levanto instantes depois. Vou até a sala e volto carregando o Caco. Me deito novamente e abraço o sapo fofinho com força, tentando me redimir por tê-lo arremessado contra a parede da sala minutos antes e também porque... Preciso abraçar alguma coisa neste momento e ele vai ter que servir.

Então, procuro esvaziar a minha mente, não pensar em mais nada e esquecer o ocorrido naquele beco. No entanto, e como era de se esperar, também não consigo.

Ainda mais porque começo a me perguntar por que o gafanhoto asgardiano assumiu a aparência de Steve Fofo Rogers para me beijar, sendo que ele o odeia mais do que tudo, sendo que morre de ciúme da minha relação com o primeiro Vingador e foi embora acreditando que eu e o grande herói da América somos bem mais do que bons ami...

— Desgraçado — murmuro, me sentando na cama e finalmente matando a charada. A pegadinha do malandro, por assim dizer.

Não era um fetiche maluco, afinal. Loki estava me testando. Por isso ele se passou pelo Capitão Gato América e partiu para cima de mim daquele jeito. O desgraçado estava me testando.

E ao mesmo tempo, Loki aproveitou para tirar uma boa casquinha de mim, já que se a intenção era apenas provar o meu "envolvimento" com o velhote sarado, ele não precisava ter me beijado. Bastava uma simples conversa e perguntas soltas no ar para Loki comprovar a minha "traição".

Ao me dar conta de tudo isso, a raiva que estava sentindo de mim mesma é transferida totalmente para aquele traste abusado e trapaceiro.

E apesar de tudo estar muito claro agora, ainda não acredito que Loki teve a pachorra de fazer isso comigo. Não acredito que ele me enganou. E não acredito que eu corri toda serelepe por Nova York e quase fui atropelada, porque estava doida para chegar logo ao meu cafofo e encontrá-lo.

Não acredito que eu fiquei aqui, o esperando ansiosamente, como uma boba. Não acredito que o Deus da Trapaça fez jus ao seu codinome e me enganou desta forma covarde. Sim porque é isso que Loki é, um covarde trapaceiro. Maldito!

Com o coração batendo a mil devido a raiva que me domina por completo, tomo uma decisão, não me dando outra escolha a não ser colocá-la em prática imediatamente. Então, me levanto em um pulo e calço minhas pantufas dos Minions. Segundos depois, abro a porta do meu cafofo e sigo em direção às escadas.

Quando alcanço o terraço, sinto o vento frio me atingir e me encolho um pouco, abraçando meu próprio corpo, ao mesmo tempo em que percebo que trouxe o Caco comigo.

Penso em voltar, deixar o Muppet para trás e pegar um agasalho, como minha avó certamente aconselharia se estivesse aqui. No entanto, tenho medo de voltar atrás em minha decisão, se eu fizer isso. Não posso recuar por nenhum motivo. Agora eu vou até o fim.

Determinada — e me sentindo meio ridícula também —, olho na direção do céu, respiro fundo e grito:

— Rádio Patroa! Na escuta? — Óbvio que não obtenho resposta, mas isso não me abala e eu prossigo: — O negócio é o seguinte, chuchu, eu exijo que você abra a ponte do arco-íris agora mesmo! Avise ao top model asgardiano se for preciso, mas abre alas que eu quero passar! — Faço uma pausa, observo o céu estrelado em cima de mim e prossigo ainda aos berros: — Eu sei que estou pedindo demais e eu não quero te prejudicar, mas eu tenho certeza que você viu o que aquele estrupício aprontou comigo! — Observo o céu novamente, mas ele permanece estático. Então, respiro fundo mais uma vez e concluo com a voz um pouco mais baixa: — Eu não te conheço, Heimdall, mas eu sei que a esta altura do campeonato, você deve me conhecer melhor do que ninguém. Você viu tudo, seu enxerido. Então... Se você tem um pouquinho que seja de consideração ou simpatia por mim, por favor, abre esse diacho de Bifröst de uma vez e me conceda a honra de chutar o traseiro daquele trapaceiro. Eu preciso disso.

Longos segundos se passam e nada acontece. O céu permanece imóvel. As estrelas e a Lua me encaram como se rissem de mim.

Começo a me sentir ridícula por ter feito pedido tão absurdo. Com certeza, se ouviu minhas palavras, a Rádio Patroa deve estar com cara de paisagem agora, se perguntando o que me levou a pensar que ele faria algo assim.

Eu nem conheço o sentinela enxerido, mas com certeza, abrir a ponte do arco-íris para uma midgardiana, simplesmente porque ela está pedindo, não parece muito certo. Com certeza não é uma decisão que cabe a ele. Com certeza ele precisa do aval de algum membro da realeza asgardiana para isso.

Mas quem sabe Heimdall esteja providenciando isso agora mesmo? Quem sabe esteja falando com o Deus do Trovão sobre o meu pedido desvairado e por isso está demorando um pouco?

Uma pontinha de esperança se acende dentro de mim e por isso continuo esperando. Porém, à medida que o tempo passa e nada acontece, volto a me sentir ridícula.

Não acredito que vim até o terraço do meu prédio, no meio da noite e gritei a plenos pulmões para o céu. Não acredito que cogitei ir para Asgard. É claro que meu visto não será concedido, minha ida para lá seria uma verdadeira insanidade.

Mesmo ciente de como meu pedido foi absurdo, não consigo conter certo desapontamento, já que uma parte de mim acreditava que Heimdall tinha alguma empatia por mim e fosse ao menos considerar me ajudar a dar uma lição naquele gafanhoto abusado. Pelo visto, me enganei feio.

Sendo assim, fecho a cara e praguejo, olhando para o céu novamente:

— Tudo bem! Eu não queria mesmo, seu fofoqueiro de uma figa!

Me viro com raiva e me ponho em movimento imediatamente, decidida a voltar ao meu cafofo e esquecer tudo isso. Porém, detenho o passo quando uma espécie de clarão ilumina o terraço.

Receosa, me viro novamente e olho para o céu. E desta vez, ele está bem diferente. Um feixe de luz surgiu em um ponto bem em cima da minha cabeça e está se expandido consideravelmente em várias matizes coloridas.

Deduzindo o que isso significa, engulo em seco, abraço o Caco com mais força e me pergunto:

— Será que dá tempo de pegar um agasalho antes?

Não dá tempo. Antes que eu respire novamente, os feixes de luz se expandem ainda mais, depois se unem rapidamente, formando um clarão único e colorido, que desce em direção ao terraço, me envolve e me puxa para cima com uma velocidade e uma força tão descomunais que sinto que devo ter deixado o meu estômago para trás.

A boa notícia é que o processo é rápido. Fecho os olhos e alguns segundos depois, sinto que meus pés estão em terra firme de novo, que o ar parece mais puro e o clima incrivelmente agradável a minha volta.

Me obrigo a parar de tremer feito vara verde e, hesitante, abro primeiro um olho e depois o outro. E o que vejo me faz ter certeza de que não estou mais em Midgard.

Pensem na Disney. Agora multipliquem a Disney por infinito e joguem bastante dourado e purpurina em cima.

— Bem vinda a Asgard, midgardiana Olivia Mills — uma voz grave e um tanto mecânica fala bem atrás de mim, me causando um sobressalto e me fazendo virar imediatamente em sua direção com os olhos arregalados até o limite.

E então eu o vejo. Um sujeito no mínimo... Pitoresco diante de mim. Alto, forte, com um gosto duvidoso para o dourado e com enormes chifres em uma espécie de capacete em sua cabeça. Ele me encara com seus olhos... Meio dourados também e segura uma espécie de espada — adivinhem... Dourada — junto ao chão e próxima ao seu corpo robusto.

O sujeito, cuja cor preferida eu não preciso perguntar, não está sozinho. Logo ao lado dele, o top model asgardiano — lê-se Thor — encontra-se em pé, me olhando um tanto confuso e impaciente.

De repente, ele pigarreia para chamar a minha atenção e finalmente faz as devidas apresentações:

— Olivia, este é Heimdall. Heimdall, você já sabe quem ela é.

Heimdall... A Rádio Patroa. O asgardiano tarado, o sentinela enxerido e leva e traz que ficou me espiando por semanas, enquanto o Deus da Trapaça estava exilado em Midgard. Claro! É ele! Suspeitei desde o princípio!

Sinto certa vergonha quando me lembro de que o xinguei consideravelmente há alguns instantes, mas quando percebo um sorriso discreto em seu rosto, relaxo um pouco, retribuo o gesto e digo simplesmente:

— Apesar de você ser muito fofoqueiro, é uma honra conhecê-lo.

Parece que Heimdall gostou da minha piadinha, mas se mantém firme em uma postura profissional, quando replica:

— A honra é toda minha, midgardiana Olivia Mills.

— Bitch, please! — exclamo, dando um tapa no ar. — Sem essa de midgardiana para lá e midgardiana para cá, me chame apenas de Olivia, okay? Acho que vossa senhoria já me conhece o suficiente e formalidades não são necessárias.

Visivelmente satisfeito, mas ainda assim focado em sua postura inabalável e quase mecânica, o sentinela diz pausadamente:

— Eu concordo com os seus termos. Desde que a senhorita... Digo você, Olivia, me chame como costumava se referir a mim em Midgard.

Franzo o cenho e procuro confirmar:

— Rádio Patroa? — Vejo um novo e sútil sorriso se formar em seu rosto e então ele assente com um meneio de cabeça. Surpresa, sorrio também, me permito dar um leve soco no ombro do asgardiano e digo animada: — Não me diga que você gostou do apelido? Que fofo! — nem espero ele se manifestar e já emendo: — Ah! Valeu por abrir a ponte do arco-íris, viu? Eu acho que meu estômago ficou para trás, mas até que foi divertido.

Heimdall... Digo, a Rádio Patroa luta para manter a postura ereta e séria, mas uma risada rouca acaba escapando de sua garganta e ele relaxa minimamente.

Olho para Thor e ele franze o cenho, visivelmente intrigado com o comportamento do sentinela. De certo, a Rádio Patroa não é muito de rir e interagir com as pessoas. Talvez seja algo natural devido ao posto que ele ocupa por aqui. Ele precisa ser alguém bem focado. Quase distante do mundo real.

Por falar nisso, deve ser um tédio ficar em pé aqui, tipo forever alone, olhando para o universo ininterruptamente. Quando tem algum babado nos Nove Reinos deve ser legal, mas na maior parte do tempo, deve ser um tédio sem tamanho, tadinho.

Seja como for, o meu mais novo amigo se recompõe rapidamente e fica mais sério do que antes, permitindo assim que o Deus do Trovão tome a palavra:

— Olivia, Heimdall me explicou por alto o que aconteceu, repassou o seu pedido a mim e eu permiti que ele abrisse a Bifröst.

Me volto para o top model asgardiano e desmancho meu sorriso, me lembrando do motivo que me trouxe até aqui. Loki. Aquele gafanhoto beijoqueiro, trapaceiro e abusado! Ele me paga!

Sem pensar duas vezes e mesmo sem saber ao certo como encontrar o dito cujo, fecho a cara e me ponho em movimento imediatamente, marchando com raiva enquanto indago a plenos pulmões:

— Cadê ele?! Cadê aquele traste?! Eu quero, preciso e exijo falar com aquele trapaceiro de uma figa imediatamente!

— Olivia, por favor, fique calma e me explique melhor o que ele fez — Thor pede, enquanto me segue.

Sua atitude apaziguadora me irrita um pouco e me dou conta de que estou com certa mágoa do Deus do Trovão, mas sem um pingo de paciência para conversar com ele agora.

Sendo assim e enquanto caminho pela extensa ponte que parece ser feita de cristal ou algo assim, desconverso:

— É uma longa história. Depois eu explico, porque primeiro eu preciso dar um tapa bem dado no rostinho nada lindo daquele abusado! E um bom chute nos seus documentos também!

— Olivia... — o top model asgardiano insiste, mas não lhe dou chance de prosseguir.

Ao invés disso, detenho o passo, me viro em sua direção e explodo com sarcasmo:

— Obrigada por mandar notícias, Thor.

Minha crítica velada parece desarmá-lo por um segundo, mas em seguida, ele se defende:

— Eu posso explicar por que não entrei em contato.

— Depois — digo, lhe dando as costas e voltando a caminhar a passos largos pela Bifröst, enquanto Thor, para meu desespero, volta a me seguir feito uma sombra.

— Olivia, fique calma e não faça nada que você possa se arrepender depois — aconselha.

Perco a paciência de vez e resolvo ameaçá-lo, esperando que surta algum efeito:

— Thor, querido, se você me disser para manter a calma mais uma vez, eu juro que vou dar na sua cara também.

Sei que não sou páreo para o Deus do Trovão, e também sei que jamais o agrediria mesmo que eu fosse. Mas, pelo menos a minha ameaça parece fazê-lo entender que eu não estou para brincadeira, já que o dito cujo se cala imediatamente, resignado. Mesmo assim, Thor continua me seguindo.

Alguns metros a frente, outra coisa me irrita e eu questiono impaciente:

— E essa ponte que não termina nunca, meu Deus! Se eu soubesse tinha trazido os meus patins!

De repente e para minha surpresa, o top model asgardiano se aproxima mais de mim e passa um dos seus braços fortes e másculos em torno da minha cintura.

Em outros tempos, eu até tiraria uma casquinha dele — na inocência e na amizade, é claro —, mas depois que eu me dei conta dos meus sentimentos por Loki, não consigo sequer cogitar a possibilidade de tirar uma casquinha de quem quer que seja.

Por isso, tudo o que faço diante desta situação meio constrangedora é franzir o cenho e perguntar:

— O que você está fazendo, cara pálida?

E tudo o que o top model asgardiano diz em resposta é:

— Segure firme, Olivia.

Não tenho tempo de retrucar, já que na sequência, Thor ergue o Mjölnir, se impulsiona para frente e quando dou por mim, estou... Voando ao seu lado. Cuma? Pois é.

Estamos voando pela Bifröst em direção ao palácio — e mama mia, que palácio lindo e... Dourado! — enquanto eu tento, a todo custo, manter o equilíbrio para não me estatelar no chão, me segurando como posso no Vingador alienígena.

Graças a minha Nossa Senhora Protetora das Midgardianas Que Vão Para Asgard De Repente, o percurso dura pouco e logo Thor me põe no chão, em uma espécie de hall de entrada do palácio.

Caminho meio trôpega, sentindo minhas pernas tremendo e olhando tudo em volta. E tenho que dizer duas coisas que percebi até agora sobre os asgardianos. Um, eles gostam de exibir chifres por aí. Dois, definitivamente, eles amam dourado.

Se eu soubesse dessa segunda parte, teria trazido os meus óculos escuros de lentes azuis espelhadas, porque a impressão que tenho é que meus olhinhos de noite serena não estavam preparados para tanto dourado, tanto brilho, tanta luminosidade.

Tenho medo de ficar cega a qualquer momento, mas não posso negar que apesar de meio extravagante, este lugar é também muito bonito.

Parece saído de um filme, de um livro, algo assim. Não parece real, parece mágico. Mas, ao mesmo tempo, são as duas coisas. Real e mágico em perfeita harmonia. Dourado demais para o meu gosto, mas ainda assim, lindo. É como estar sonhando, eu acho.

— Você está bem? — A pergunta de Thor me desperta de tais devaneios e eu me volto em sua direção.

— Onde ele está? — é tudo o que sai da minha garganta, quando novamente me lembro do motivo que me trouxe até aqui.

Noto uma ruga de preocupação no semblante do top model asgardiano, quando ele propõe cauteloso:

— Olivia, talvez seja melhor eu avisar que você está aqui primeiro.

— Por quê? Por acaso alguém se preocupou em me avisar que aquele infeliz ia para Midgard me atacar em um beco escuro? — rebato indignada.

No mesmo segundo, Thor se defende:

— Eu não sabia que Loki planejava ir para Midgard. Na verdade, todas as vezes que eu sugeri que ele voltasse ao seu Reino, para que vocês conversassem sobre tudo o que aconteceu, ele foi taxativo e afirmou que jamais pisaria em Midgard novamente. — Faço um bico, sem conseguir esconder como doeu ouviu isso, e Thor resolve desconversar: — Não importa, Olivia. Meu irmão não estava falando sério. Prova disso é que ele foi atrás de você, não foi?

Não respondo a pergunta retórica. Ao invés disso, articulo com raiva:

— Isso mostra que Loki mentiu para você, Thor. E você devia dar uma martelada na cabeça dele por isso. Se sobrar alguma coisa daquele infeliz, eu te aviso, mas agora e pela última vez, onde ele está?

Thor me encara, mas hesita em dizer. Estou prestes a puxar os seus cabelos loirinhos, a fim de obrigá-lo a me contar, quando ninguém mais ninguém menos do que Jane Foster adentra a área onde estamos e responde calmamente:

— Siga até o final do corredor, suba dois lances de escadas, vire à direita, porta no final do corredor.

— Jane — Thor a repreende de um jeito sútil, quase carinhoso, enquanto ela se aproxima.

Reparo que Jane está vestindo trajes tipicamente asgardianos, um vestido longo, lilás e delicado com uma espécie de túnica cinza claro por cima, e começo a me sentir desconfortável por estar de pijama e pantufas. Pijama do Zé Colmeia e pantufas dos Minions, só para constar. E segurando um Muppet verde, só para arrematar o look. Ou seja, estou um arraso.

Procuro não pensar nisso, já que não pretendo ficar muito tempo em Asgard mesmo, e me concentro no que a namorada de Thor disse, antes de voltar a me pronunciar:

— Que bom te ver de novo, Jane. E obrigada pelas informações. Eu vou ali matar um gafanhoto, mas já volto para a gente colocar o papo em dia, okay?

Não espero a girl magia do top model asgardiano responder, muito menos ele tentar me impedir. Ao invés disso, sigo as orientações de Jane e me ponho em movimento imediatamente, caminhando com raiva e pressa. Soltando fogo pelas ventas, como diria a minha amada avó.

Avisto alguns guardas à medida que me afasto dos dois, mas eles não tentam me impedir de passar. Ao contrário, eles meio que abrem caminho para mim. Não sem antes olharem com certa estranheza para os meus trajes.

Olho para trás e vejo Thor fazendo um sinal para os tais guardas, para que eles não me impeçam de prosseguir. Vejo Jane me lançar um sorriso discreto também. E estranho isso.

Será que ela entendeu que eu estou aqui para arrancar cada fiozinho de cabelo negro, sedoso e levemente repicado do Deus da Trapaça?

Claro! É por isso que ela está sorrindo. Depois de tudo que Loki aprontou em Midgard e para cima de Thor, é óbvio que Jane Foster quer que eu acabe com a raça daquele desgraçado. É isso.

Nem sei como consegui me lembrar de todas as orientações dela, já que a raiva costuma me fazer perder o foco, mas finalmente chego ao corredor que Jane mencionou, depois de ter subido os dois lances de escadas.

Caminho até o final dele com um olhar mais raivoso do que o do Hulk e, sem hesitar por nem um segundo, empurro a porta e adentro o... Quarto de Loki. Sei que é o quarto dele porque o infeliz está aqui, sentado no chão, perto de uma mesa, lendo um livro distraidamente.

O desgraçado está lendo um maldito livro! Como se não tivesse acontecido nada! Como se não tivesse ido até Nova York e tirado uma casquinha de mim!

Ainda com mais raiva, e ao mesmo tempo estranhamente nervosa por estar diante deste traste de novo e ainda por cima no quarto dele — onde certamente caberiam quatro apartamentos como o meu —, vejo o dito cujo finalmente erguer o olhar em minha direção.

Loki tenta disfarçar a surpresa e a incredulidade, mas elas estão lá. Em seus olhos. Em seus olhos intensos como sempre.

Quando ele fecha o livro, trinca o maxilar, num claro indício de raiva, e começa a se levantar do chão, me dou conta de que não sei o que fazer.

Eu deveria bater nele, é claro, mas não sei se sou capaz disso, pois mal consigo raciocinar direito diante de sua intimidante presença.

Me odeio por isso, mas minha pulsação acelera. E desta vez, eu sei que não é devido à raiva. É por outra coisa.

Quando o trapaceiro irresistível começa a se aproximar, ainda não decidi o que fazer. Ficarei feliz se conseguir pelo menos dizer alguma coisa.

Porém, tudo o que faço é engolir em seco, quando Loki finalmente para na minha frente, estreita o olhar na minha direção e indaga friamente:

— O que você está fazendo aqui... Midgardiana desprezível?

Notas finais
E aí? Gostaram? Olivia em Asgard? É isso mesmo, produção? Preciso dizer que eu ameiiiiiiiiiiiii escrever este capítulo apesar de todo o trabalhinho? Preciso dizer que me diverti horrores? Preciso dizer que adoreiiiiiiiiiiii escrever a parte que a Olivia conhece o Heimdall??? E esse reencontro com o gafanhoto então??? Sim, eu terminei bem aí, me julguem! Quero saber o que ocês acharam e o que acham que vai acontecer agora, okay? Contem tudinho! Reviews? Beijos de luz e inté a qualquer momento!