Trapaças do Destino
31 Desastre em escala global
Notas iniciais
A forma como Loki se referiu a mim — midgardiana desprezível, como nos velhos tempos —, me atinge em cheio, fazendo com que eu recobre a consciência prontamente e pisque algumas vezes, enquanto o encaro.
Então, me lembro que o deus trapaceiro foi até Nova York, se passou por Steve Fofo Rogers e me agarrou em um beco escuro. E isso é o suficiente para reacender a revolta dentro de mim e me fazer jogar o Caco na direção do seu rostinho nada lindo, enquanto xingo indignada:
— Palhaço!
Sinto o Muppet verdinho cair perto dos meus pés e vejo Loki fechar os olhos por um instante, enquanto algumas mechas dos seus cabelos voltam para o lugar. Em seguida, ele abre os seus intensos olhos e me fita de um jeito nada satisfeito ao questionar entredentes:
— Como você ousa vir a Asgard, entrar nos meus aposentos desta forma e me afrontar assim?
O sangue ferve em minhas veias diante da forma sonsa com que o Deus da Trapaça faz tal questionamento e, sem pensar duas vezes, eu rebato cheia de raiva:
— Qual é o problema, chuchu? Por acaso só você que tem o direito de fazer uma visitinha surpresa? Eu só quis retribuir a gentileza! Ou seria a ousadia?
Para meu desespero, o gafanhoto asgardiano, beijoqueiro e abusado desvia do meu olhar e se faz de desentendido:
— Eu não tenho a menor ideia do que você está falando.
— Ah não?! — retruco ainda mais indignada, colocando as mãos na cintura e me sentindo possessa com tamanho cinismo. — Você me atacou, gafanhoto! — o acuso, dando um passo a frente e encostando o dedo indicador em seu peito, fazendo o deus trapaceiro olhar para a minha mão por um momento e voltar a me encarar com aqueles... Olhos lindos em seguida.
Sinto um leve estremecimento e afasto a minha mão do seu corpinho. Engulo em seco, enquanto o fito de volta e me dou conta de que não estava preparada para tal reencontro, já que é bem difícil encarar Loki depois de tudo o que aconteceu. A mágoa e a raiva dentro de mim se misturam constantemente com o desejo e com... Um sentimento que, infelizmente, nutro por este traste.
No entanto, apesar da confusão dentro de mim, faço um esforço para manter o foco e prossigo com as acusações com o dedo em riste:
— Você foi até Nova York, se passou pelo Capitão América e me agarrou em um beco, como se eu fosse uma qualquer! Você me beijou, como se eu não fosse te reconhecer! Você me usou e depois... Olha só que surpreendente! Depois você fugiu! Como fez naquele dia na estrada! Você é um covarde, Loki! É isso o que você é! Um trapaceiro e um covarde!
Noto uma discreta oscilação no semblante de Loki, como se ele estivesse surpreso com o que ouviu, como se estivesse assimilando as minhas palavras, como se estivesse feliz por um lado — talvez por eu ter o reconhecido naquele beco —, mas com raiva por outro — acredito que por eu ter o reconhecido naquele beco. Pois é, difícil de entender este trapaceiro... Irresistível.
No entanto, acho que posso resumir da seguinte forma: Loki quis tirar uma casquinha de mim — fato —, mas não estava contando com a minha astúcia, não estava contando que eu fosse reconhecê-lo e agora deve estar se sentindo ultrajado, pois isso significa que ele não tem como negar que foi atrás de mim por livre e espontânea vontade, que quis me beijar e que fez isso porque... Sentiu a minha falta de alguma forma.
Claro que Loki também estava testando a minha lealdade, afinal, o desgraçado se passou por Steve Fofo Rogers para me beijar. Porém — e me chamem de maluca por isso, se quiserem —, eu sei que havia um sentimento forte em seu beijo, havia entrega, havia paixão, havia desejo. Não era só um teste. Era um pretexto para tirar uma casquinha de mim.
Afinal, se Loki queria apenas me testar, ele não precisava ter sido tão... Convincente, por assim dizer. E isso significa que, assim como da primeira vez, o trapaceiro gostou de me beijar novamente. Mais do que isso, ele quis me beijar de novo.
Uma parte de mim, claro, fica feliz ao constatar isso, mas a outra parte só quer que o Deus da Trapaça negue tudo, para que assim eu possa odiá-lo e ir embora daqui o mais rápido possível, já que estou começando a me arrepender de ter vindo.
Me julguem, mas estou com medo de esquecer todas as coisas que Loki me disse em nossa despedida e me deixar levar por aquela primeira parte de mim. A parte que só quer beijar este trapaceiro irresistível de novo e de novo.
Ave Maria! Será que essa macumba poderosa nunca vai perder o efeito, meu Deus?
Para meu desespero, Loki não nega o seu crime. Tampouco, afirma. Tudo o que ele faz é colocar os braços para trás e indagar com uma raiva contida:
— Como você sabia que era eu? E não ele?
Droga! Droga! Droga! Por que este maldito trapaceiro tinha que perguntar isso?
Engulo em seco, enquanto a raiva começa a se dissipar dentro de mim, e me ouço respondendo um pouco mais calma, porém hesitante:
— Por que o seu... Beijo é... Inconfundível. — Loki estreita o seu olhar em minha direção e eu sinto o meu coração disparar. — Tem gosto de algodão doce.
As lembranças do beco e do nosso primeiro beijo invadem a minha mente e perturbam os meus sentidos, fazendo o meu coração midgardiano disparar mais um pouco.
Já não sei mais o que eu vim fazer aqui. Digo... Eu devia bater em Loki, certo? Brigar com ele? Puxar os seus cabelos negros e sedosos, não é? Arrancar um a um? Esfregar o seu rostinho nada lindo no chão? Pisar no seu dedo mindinho com bastante força? Dar uma joelhada nos seus Países Baixos?
Então por que agora não sinto mais a menor vontade de fazer isso? Por que estou ficando com vontade de fazer outra coisa? Por que meu coração não para de acelerar e eu não paro de pensar em nossos dois beijos? Por que estou começando a desejar o terceiro? O quarto... O quinto... O milésimo beijo?
Faço um esforço para afastar tal anseio, mas não consigo. Especialmente, quando o Deus da Trapaça dá um passo em minha direção, ergue levemente a cabeça e sibila:
— Não me diga.
Pisco algumas vezes e levo alguns instantes para me lembrar do que o gafanhoto está falando. Na sequência, engulo em seco e digo aos gaguejos:
— Algodão doce é... Uma... Guloseima midgardiana. Muito... Muito boa, por sinal. O meu... Doce favorito, aliás.
Jesus, Maria e José! Não acredito que eu disse isso! Eu não precisava frisar tanto que sou louca por algodão doce, precisava? E não precisava fazer essa relação com o beijo de Loki!
Droga! Burra! Burra! Burra! Agora esse mequetrefe do mal vai se sentir a última Coca-Cola do deserto! Ou melhor, vai se sentir o último algodão doce do universo! Ótimo! Tudo o que eu precisava!
Posso ver a satisfação estampada em um sorriso displicente que surge no rosto dele, quando Loki se aproxima mais um pouco de mim e diz:
— É mesmo?
Querendo contornar a situação, recuo um pouco, cruzo os braços contra o peito e articulo com desdém:
— Pois é, mas o ruim do algodão doce é que depois de um tempo, enjoa.
Mentirosa... Mal consigo encarar Loki quando digo isso. Com certeza, o infeliz percebeu que estou desconversando e mentindo na maior cara de pau, afinal eu poderia me empanturrar de algodão doce e não enjoaria nunca, never, jamais. Assim como, para meu desespero, também sou incapaz de enjoar do beijo deste traste.
Paro de pensar nessas coisas, quando Loki volta a se manifestar:
— Então, você sabia mesmo que era eu?
Com raiva, respiro fundo, solto o ar com força e rebato:
— Qual parte de eu te reconheci pelo beijo, você não entendeu, chuchu?
O Deus da Trapaça me analisa por alguns instantes e, embora mantenha o controle para não demonstrar qualquer emoção, consigo notar de novo aquele sorriso discreto em seu rosto, que me faz ter certeza que ele gostou de saber que eu só correspondi ao beijo porque sabia que era ele e não o Vingador patriota me agarrando.
Estou relembrando nosso beijo no beco novamente, quando o gafanhoto asgardiano questiona com relutância e visivelmente incomodado:
— Então você e aquele... Soldadinho infeliz não... Nunca...
Eu devia dizer a verdade, que eu e o Capitão América nunca tivemos nada, que somos só amigos e ponto. No entanto, hesito ao me lembrar daquele fatídico dia na Torre Stark, quando eu banquei a periguete para cima daquela coisa fofa.
Claro, isso não muda o fato de que eu e Steve somos apenas bons amigos, mas me parece errado esconder tal detalhe do gafanhoto. Ainda mais agora que o seu sorriso desapareceu completamente, dando lugar a uma expressão fechada, carrancuda — lê-se: Loki está com a sua clássica cara de limão azedo.
— Você o beijou — ele afirma, desviando do meu olhar e trincando o maxilar.
— Não só ele — deixo escapar e me xingo mentalmente por isso. Porém, percebo que é melhor esclarecer tudo de uma vez e, sendo assim, completo: — Okay, isso vai soar meio chocante para você, mas talvez eu... Tenha beijado o Hulk também. — Diante da expressão ainda mais insatisfeita de Loki, resolvo provocá-lo: — Sim, aquele mesmo que te deu uma surra. Versão fofa, é claro.
Não resisto e me permito esboçar um sorriso, até que ele se alarga e vira uma sonora risada, que escapa da minha garganta sem que eu consiga controlar, fazendo o Deus da Trapaça franzir o cenho e questionar nem um pouco satisfeito:
— Posso saber qual é a graça, midgardiana tola?
Comprimo os lábios como o Baby da Família Dinossauros e analiso a situação por alguns instantes, até que decido expor exatamente o que está se passando na minha cabeça neste momento e seja lá o que Deus quiser:
— A graça é que eu não vim aqui para isso, gafanhoto. Eu não vim para explicar a minha relação com Steve ou Bruce, eu vim aqui porque eu fiquei revoltada com a palhaçada que você aprontou para cima de mim e pensei que dar uma boa joelhada no Loki Jr. ia fazer eu me sentir melhor.
Em resposta, o gafanhoto beijoqueiro fica tenso imediatamente, de um jeito discreto coloca as mãos na frente do corpo, protegendo sua integridade física, e desvia do meu olhar depois de engolir em seco.
Então, eu controlo o ímpeto de rir novamente e concluo:
— Mas nada pode se comparar ao prazer de ver você com ciúme de mim. É impagável.
Quase no mesmo instante, Loki volta a me encarar, ri sem humor como se eu tivesse dito um absurdo, inclina um pouco a cabeça e replica:
— Quem disse que eu estou com ciúme de você, sua criatura insignificante?
Sem me abalar, retruco:
— Não mente, chuchu, que está ficando feio.
Adivinhem que cara o gafanhoto faz em seguida? Sim, a sua famosa cara de limão azedo de novo. E eu me delicio com isso porque é um claro sinal de que o deixei sem argumentos. Ponto para Olivia Mills! Rá!
Então, me esquecendo completamente da motivação que me trouxe até aqui e me deixando levar por aquela parte de mim que não consegue resistir ao Deus da Trapaça, me aproximo dele, passo os braços em volta do seu pescoço, ignoro um nervosismo crescente dentro de mim, deixando um desejo também crescente me dominar, e o provoco:
— Sabe de uma coisa? Como eu sou muito boazinha, eu vou relevar o que você fez comigo, a forma patética como se comportou quando foi me ver em Midgard, e vou te contar como foi que eu beijei o velhote sarado e aquela criatura fofa. — Loki não me afasta nem tenta recuar, mas permanece com a expressão fechada. — Foram só duas bitoquinhas — relato, me deliciando mais uma vez com o seu ciúme mal disfarçado. — Um selinho no Capitão América e um selinho no Bruce. Na amizade e na inocência, é claro. — Fito o Deus da Trapaça por tempo demais, depois olho para a sua boca, me esqueço do que pretendo com essa conversa mole, me obrigo a voltar a olhar em seus olhos e anuncio: — Bem assim.
Eu sei que não devia fazer isso e que estou brincando com fogo, mas não consigo mais resistir, me julguem!
Então, sem pensar nas consequências, fecho os meus olhinhos de noite serena e toco os lábios de Loki suavemente com os meus, enquanto meus dedos acariciam seu rosto incrivelmente quente para um Gigante de Gelo.
Juro juradinho que eu só queria dar um selinho nele — nem tanto na amizade, nem tanto na inocência —, mas basta este encaixe sútil de nossas bocas para multiplicar aquele desejo dentro de mim e deixar meus sentimentos pelo gafanhoto à flor da pele. Sendo assim, permito que meus lábios se abram e envolvam os seus aos poucos.
Apesar de relutante no começo, parece que eu não sou a única aqui que não está conseguindo resistir, já que Loki logo corresponde, invadindo a minha boca e me estremecendo com o seu beijo sabor algodão doce.
Nossa Senhora Protetora das Midgardianas! Isso é muito bom! Socorro!
Me entrego ao que sinto e ao que quero, beijando o gafanhoto asgardiano com mais avidez enquanto ele corresponde com a mesma impetuosidade.
Em seguida, seus braços envolvem a minha cintura, sobem pelas minhas costas e nossos corpos ficam mais próximos a cada instante, provocando uma onda de calor entre nós.
Juro juradinho que não era isso que eu pretendia quando invoquei a Rádio Patroa e zarpei para cá. E juro juradinho que ainda não sei o que pretendo exatamente.
Tudo o que sei é que minha mente, meu corpo, meu coração e todos os meus sentidos parecem ter ganhado vontade própria. A tal ponto que quando o trapaceiro irresistível dá alguns passos para trás, me levando consigo, eu vou prontamente e sem pestanejar.
Na sequência, ambos caímos sobre a sua cama extremamente macia e tudo o que sei é que me afundo nela, quando Loki inverte as posições entre nós, ficando sobre mim.
Jesus! Maria! E José! O que é que eu estou fazendo, minha gente?
Me perguntando isso, luto para me desvencilhar do seu beijo, recupero o fôlego e tento ganhar tempo:
— Eu só espero que você saiba que não foi assim que eu beijei o Steve e o Bru...
A boca impaciente de Loki me silencia antes que eu conclua minha frase e suas mãos envolvem o meu rosto, me tomando para si de um jeito afoito, urgente e me levando a crer que o que eu diria perdeu completamente a importância para ele.
Então, quando o seu corpo pesa mais sobre mim e suas mãos deslizam pelo meu pijama do Zé Colmeia com afinco, eu só consigo pensar em uma coisa: Calor! Calor! Calor! Calor multiplicado por infinito!
Será que alguém pode chamar os bombeiros, por obséquio? Está quente aqui e eu sinto que vou entrar em combustão a qualquer momento. Socorro!
E será que alguém pode dar um jeito nesses malditos sinos que cismaram de tocar nos meus ouvidos e dar um fim nessas malditas borboletas que não param de fazer festa no meu estômago?
Droga... Será que toda vez que eu beijar o gafanhoto asgardiano será assim?
Espera... Como assim toda vez que eu beijá-lo?
Epa! Epa! Epa! Não foi para isso que eu vim aqui, foi? O que eu estou fazendo mesmo? Por que estou me embrenhando em uma cama com o estrupício do Loki? Por que eu estou beijando este ET do mal, quando eu deveria estapeá-lo loucamente? Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?
Eita! E o que o top model asgardiano, Jane e a Rádio Patroa devem estar pensando de mim agora? Que eu estou demorando demais nos recintos do Deus da Trapaça? E o que Loki está pensando de mim neste momento? Que eu o perdoei fácil assim? Que eu sou uma qualquer que ele agarra em um beco escuro e depois joga em uma cama como um troféu? Como uma periguete?
— Eu não sou uma periguete... — balbucio, interrompendo o beijo a certo custo e afastando o gafanhoto asgardiano de cima de mim. — Eu não sou uma periguete... Eu não sou uma periguete! — repito resoluta e com certa raiva, me desvencilhando dele e me inclinando para o lado com o intuito de levantar da cama.
Acabo caindo no chão e engatinho cerca de dois metros antes de conseguir me pôr de pé de novo. Com as pernas bambas, tropeço no Caco e me desequilibro um pouco. Porém, logo consigo endireitar o corpo e alcanço a porta.
Na sequência, respiro fundo, tento ordenar meus pensamentos e me preparo para abri-la. No entanto, e para minha surpresa, Loki me alcança antes disso e segura o meu braço com força, me virando em sua direção.
Mergulho em seus olhos cheios de desejo por alguns instantes e sinto o medo me dominar. Sim, medo. Esta maldita sensação que volta e meia se abate sobre mim.
Para variar, estou com medo do que sinto por este traste e aonde isso pode me levar. E não, eu não estou falando só de... Só de... Acasalar com ele, eu estou falando da minha total incapacidade de pensar racionalmente quando o assunto é o Deus da Trapaça e o que eu sinto por ele. Afinal, como eu pude me esquecer das coisas que o dito cujo me disse antes de voltar para Asgard? Como eu pude esquecer que ele se passou por Steve só para me testar? Como eu pude me esquecer de tudo isso e agarrá-lo como se não houvesse amanhã?
Tudo bem, talvez não haja mesmo amanhã, todavia eu não posso agir como uma periguete por causa disso. Não com Loki. Não quando, infelizmente, eu gosto mesmo deste infeliz e não quero estragar tudo. Não quando eu me lembro de todas as vezes que me entreguei por completo, meti os pés pelas mãos e meus relacionamentos fracassaram.
Me julguem, mas eu preciso de muito mais do que um beijo sabor algodão doce para me entregar de novo. Eu preciso acreditar que desta vez será diferente. Eu preciso que Loki me dê algum sinal de que está arrependido das coisas que me disse e fez. Eu preciso sentir que ele não está apenas se deixando levar por um momento, como de fato, nós dois estávamos fazendo até agora. Eu preciso saber se isso vai dar certo. Se vale a pena tentar ou se é melhor desistir de uma vez e evitar uma decepção maior no futuro.
Sendo assim, enquanto as mãos firmes do deus trapaceiro envolvem o meu rosto ruborizado, retomo o fôlego e questiono:
— O que você quer de mim, gafanhoto?
Aos poucos, o desejo no olhar de Loki se dissipa, se apaga, se esvai. Deduzo que minha pergunta o atingiu em cheio, fazendo-o perceber que está tão confuso quanto eu e sentindo tanto medo quanto eu, afinal... Qual a probabilidade de alguma coisa dar certo entre nós? Eu sou um fiasco em relacionamentos e Loki é um fiasco com sentimentos. Some um mais um e você terá um desastre em escala global.
Não sei quanto tempo se passa, mas em dado momento, Loki finalmente recua um pouco, desvia do meu olhar, enquanto sua expressão se fecha consideravelmente, e diz de um jeito apático e hesitante:
— Eu quero... Eu quero que você vá embora, Olivia.
Ãn? Cuma? Hein? Oi? Então é isso?
Okay, eu não sei exatamente o que esperava, mas com certeza não era isso. Acho que no fundo, eu queria que o trapaceiro irresistível me pedisse para ficar, me tomasse em seus braços e... Eitcha lelê! Queria que Loki afastasse o medo que sinto, mas parece que ele sofre do mesmo mal.
Somos dois covardes, é isso. Não vale a pena lutar, afinal. Somos mesmo um desastre.
Com raiva e sem conseguir esconder certo desapontamento, faço uma reverência que transborda sarcasmo e encerro a conversa de uma vez:
— Seu pedido é uma ordem. Até nunca mais... Loki.
Então, sem pensar duas vezes, olho para ele uma última vez, abro a porta e deixo o seu quarto para trás.
Caminho apressada pelo mesmo corredor pelo qual vim antes, sem olhar para trás, por puro medo de fraquejar, voltar e tirar mais umas casquinhas do trapaceiro irresistível. Me julguem. Por sorte, consigo me manter firme.
Nem sei como consigo me lembrar do caminho, mas finalmente alcanço aquela espécie de hall do palácio e encontro o top model asgardiano e sua girl magia. Os dois parecem ansiosos quando me veem chegando, mas antes que eles perguntem qualquer coisa ou façam qualquer comentário, comunico:
— Eu quero voltar para Nova York agora mesmo.
Passo pelos dois e eles me seguem prontamente. Jane é a primeira a protestar:
— Como assim? Não... Olivia, espera!
Em seguida, é a vez do Deus do Trovão tomar a palavra:
— O que o meu irmão fez?
Rio sem humor e respondo com escárnio:
— Nasceu.
De repente, Jane me alcança, toma a minha frente, fazendo-me deter o passo, ergue as mãos na altura do peito e pede:
— Espera um pouquinho, Olivia, você não pode ir embora assim.
Franzo o cenho e retruco confusa:
— Por que não? Não tem nada que me prenda aqui.
Mentirosa... Tem sim. Tem alguém. Mas isso não vem ao caso.
— Mas... Mas você acabou de chegar — Jane justifica de um jeito meio suspeito, me despertando de tal pensamento. — Fique mais um pouco.
Abro a boca para perguntar se por acaso ela está esperando que eu faça um tour por Asgard antes de ir embora, quando Thor para ao lado da sua midgardiana fofa, endireita a postura e avisa:
— Meu pai gostaria muito de te conhecer, Olivia.
Oi? O pai do top model asgardiano e do gafanhoto quer me conhecer? Tipo... Odin, o Pai de Todos? O Rei de Asgard?
Dou uma olhada nos meus trajes completamente impróprios para se conhecer um Rei e dispenso:
— Talvez em outro momento.
Em seguida, tento passar por Thor e Jane, mas toda vez que eu vou para um lado, eles se colocam na minha frente e nós ficamos nesta dancinha interminável.
Ainda estou tentando achar uma brechinha para me espremer entre eles, quando o top model asgardiano volta a se pronunciar:
— E eu e a Jane estávamos pensando se você não gostaria de ficar até o seu aniversário e comemorar... Aqui.
Detenho o passo novamente, tomada pela surpresa de tal convite. Fico alguns instantes encarando o rostinho lindo de Thor e da sua namorada fofa, enquanto me pergunto se eu entendi direito.
Não preciso de muito tempo para deduzir o que o casal está tentando fazer. Os dois estão tentando ganhar tempo, pois os dois querem me induzir a ficar mais um pouco em Asgard. Talvez porque, assim como Bruce Fofo Banner, os dois também...
— Espera. — Pisco algumas vezes, me sentindo meio zonza com a conclusão a qual cheguei. — Por acaso vocês shippam também? — O casal troca um olhar confuso e eu resolvo deixar essa questão para lá. — Não importa. Caso vocês não saibam, aquele gafanhoto trapaceiro me odeia.
Tento passar por Jane novamente, mas a danadinha toma a minha frente mais uma vez, me fazendo respirar fundo e conter certa irritação. Mas então, ela me desarma quando articula:
— Eu acho que nós três sabemos muito bem que Loki não odeia você, Olivia.
Talvez não. Mas, assim como eu, ele também não está sabendo lidar com um certo... Sentimento. Por isso, mantenho minha postura orgulhosa e replico:
— Ele me mandou embora.
Finalmente passo pelos dois, mas hesito quando Thor argumenta com segurança:
— Eu tenho certeza que não foi isso que Loki quis dizer.
Confusa, pisco algumas vezes, me viro na direção do casal e questiono intrigada:
— Okay, o que significa isso? Desde quando vocês dois viraram defensores dos animais? Aliás, o Thor tudo bem, eu até entendo, Loki é seu irmão. Mas você, Jane?
O casal troca um olhar cúmplice, até que Jane dá um passo em minha direção e, ao invés de responder meu questionamento, me deixa com cara de paisagem quando articula calmamente:
— Olivia, eu não sou do fã clube do Loki, mas eu concordo com Thor. Ele pode ter dito com todas as letras, mas não significa que quer mesmo que você vá embora. Então, se uma parte de você também não quer partir agora e assim, fique.
Jane, Jane, Jane... Por que você tinha que dizer essas coisas? Por que suas palavras mexem tanto comigo a ponto de me fazer questionar a decisão que tomei instantes atrás? Por que a ideia de ir embora já não parece a mais certa a ser seguida? Por que, de repente, me vejo hesitando diante dela e do seu boy magia?
E agora? Não sei se vou ou se fico. Tudo virou uma confusão ainda maior dentro de mim e só consigo ordenar um pouco os pensamentos, quando ela sorri discretamente e propõe:
— Se não for para... Você sabe, tentar mais um pouco, fique para retribuir todo o tempo que Loki passou em Midgard, no seu apartamento, te atormentando. Em outras palavras, você tem a oportunidade ideal para retribuir a estadia dele por lá, Olivia. Longe de mim usar esta expressão, mas eu acho que você pode encarar essa estadia em Asgard como uma... Vingancinha pessoal.
É inevitável, meus olhos brilham ao ouvir tal argumento, afinal... Uma vingancinha pessoal viria bem a calhar neste momento, não?
Além disso, que mal tem em ficar um pouquinho mais por aqui? Pelo menos até o meu aniversário? Eu não queria comemorar, mas quando a vida te oferece a oportunidade de festejar vinte e cinco primaveras em um mundo tão... Tão dourado como Asgard, você não pode recusar assim, não é?
Ai Jesus! E agora? Fico ou não fico? Vou ou não vou?
Estou me perguntando isso e tentando afastar o resto de hesitação dentro de mim, quando ouço passos e ergo meu olhar por sobre o ombro de Jane Foster. E então eu o vejo. O dito cujo. O gafanhoto asgardiano. O trapaceiro irresistível. Loki.
Com certeza, ele veio para confirmar se eu já fui embora, mas detém o passo, visivelmente surpreso ao constatar que eu ainda estou aqui.
E basta a sua presença e essa troca de olhar entre nós para dissipar o resquício de indecisão que eu sentia até o momento. Ainda mais por que me agarro a duas coisas. Um, o conselho da minha avó, sentir o medo e enfrentar o medo. Dois, quando Loki disse que queria que eu fosse embora, ele não olhou nos meus olhos. Logo, ele mentiu.
Sendo assim, e sabendo muito bem que não estou fazendo isso apenas por uma vingancinha pessoal — mas também porque, no fundo, não quero desistir do gafanhoto —, permito que um sorriso displicente surja em meu rosto, arqueio as sobrancelhas e respondo para Jane e Thor, porém olhando para Loki:
— Se é para o bem do povo e felicidade geral da nação... Eu fico.
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