Trapaças do Coração
31 Quem é Olivia Mills?
Notas iniciais
A misteriosatempestade, que assolou esta área de Nova York de súbito, por fim começa a cessar, de uma forma repentina também. Logo, apenas alguns pingos me separam do olhar incisivo de Loki. Os trovões também silenciam. Em algum lugar da cidade, Thor deve ter dado o ar de sua graça. Provavelmente, na Torre dos Vingadores — o ponto de encontro e local de partida para o casório de Natasha e Clint. Só não entendo o que o Deus da Trapaça está fazendo aqui. Não que eu não esteja feliz por revê-lo, só gostaria de compreender melhor o que está acontecendo.
Não sei por quanto tempo fico assim, paralisada e o encarando em meio ao caos que sua presença causa na Terra, mas em dado momento finalmente paro de bestagem e me encho de coragem. Já que Loki está aqui, eu quero entender o motivo e evitar uma possível confusão.
Agindo por puro instinto, desafivelo o cinto de segurança e abro a porta do carro. Saio devagar e me apoio no veículo por um segundo antes de fechar a porta e dar alguns passos a frente. A chuva a essa altura parou de vez.
Sigo caminhando e não me detenho nem quando sirenes de polícia ecoam por toda a parte e crescem no ar à medida que duas viaturas aproximam-se rapidamente. Elas derrapam alguns centímetros antes de pararem a poucos metros do deus asgardiano. Alguns policiais nova-iorquinos saltam e apontam as armas para ele aos gritos de "Não se mova!"
Loki não se intimida. Ao invés disso, olha com certo divertimento para os defensores da ordem e segurança pública, ri com incredulidade e zomba:
— Perdoem-me, mas nós já não passamos por isso? Eu já não derrotei suas primitivas e inofensivas armas antes? Já não foi o bastante? Vocês querem mais? Que espécie perseverante vocês são. É louvável, admito. E estúpido.
Enquanto os policiais hesitam, sem saberem se tentam almejá-lo ou se será mesmo desperdício de tempo e munição, o Deus da Trapaça volta-se para a multidão que resistiu ao ímpeto de correr para as colinas e agora cerca toda a área, encarando-o com revolta.
— Povo de Midgard, por que me tomas? Por que tanto desprezo nesses rostos patéticos? Vocês não acompanharam as últimas notícias? Sem a minha pronta ajuda em Sokovia, nenhum de vocês estaria aqui hoje. Vocês seriam meras cinzas agora.
Reviro os olhos e, enquanto continuo andando até ele, resmungo baixinho:
— E lá vamos nós...
Neste momento, acho que um dos policiais nota minha presença e deduz qual é a minha intenção, já que ouço uma ordem muito enfática:
— Senhorita, para trás! Não se aproxime! Ei! Eu disse para trás! Mantenha distância! Ele é perigoso! Senhorita?!
Ignoro-o e paro diante do Deus da Trapaça. Ele, por sua vez, faz questão de fingir que não me viu e, bem mais à vontade, prossegue com seu discurso inflamado:
— Isso mesmo, eu, Loki de Asgard, os salvei de um desfecho trágico. O mais impressionante e que vocês talvez ainda não saibam: a pedido dos ilustres Vingadores. Exato, os grandes heróis, os defensores oficiais de Midgard, não foram capazes de conter a situação sozinhos. Eles precisaram de mim. Vocês precisaram de mim.
— Pelo relógio do Ben 10, fica quieto, gafanhoto — recrimino, porém sou ignorada de novo.
— Senhorita, afaste-se daí imediatamente! — outro policial berra, irritado, mas também com uma ponta tangível de preocupação. — É uma ordem!
— Eu sei que em alguns anos, poucos anos, isso não fará a menor diferença, afinal vocês terão morrido de qualquer forma, são tão efêmeros e frágeis. Mas, um pouco de gratidão agora é o mínimo que eu espero. Portanto... — O deus abusado abre os braços e arremata com um sorriso cretino: — Ajoelhem-se perante Loki. Agora.
—Ok, já chega, chuchu. — Expiro com força e me irrito de vez diante desta gota d'água. Então, termino com a distância entre nós, puxando-o pelas lapelas da única roupa que parece existir no seu guarda-roupa limitado, e o calo com meus lábios, pressionando os seus com força e urgência.
Eu sei. Em virtude da minha partida repentina de Asgard, eu não deveria agir de forma tão calorosa com o gafanhoto. Deveria ser mais cautelosa com seus sentimentos. Mas juro juradinho que, quando deixei meu carro para trás, há poucos instantes, e vim até o dito cujo, não estava planejando agarrá-lo no meio de Nova York.
Não estou ignorando a raiva que Loki deve estar nutrindo por mim ou menosprezando a situação desconfortável que causei por ter ido embora sem lhe explicar nadica de nada.
Na verdade, minha justificativa para esse beijo é bem simples: me pareceu a única maneira de fazê-lo fechar a matraca e pôr fim ao seu discurso provocativo. E digam o que quiserem, mas está funcionando muito bem até agora, obrigada. O dito cujo está mudinho como o Dunga. Talvez surpreso com minha atitude, porém nem um pouco relutante a minha investida.
Claro que a situação em si mexe muito comigo, fazendo-me esquecer da motivação inicial e me entregar ao que não consigo deixar de sentir por Loki. Que não quero deixar de sentir nunca, aliás.
Por isso, claro que não resisto ao ímpeto irresistível de alcançar sua nuca com minha mão, aproximando mais os nossos rostos em busca do encaixe perfeito. Claro que não sou capaz de ignorar o turbilhão de emoções que desperta dentro de mim e que me leva a invadir sua boca com todo o meu calor e jeito piriguete de ser, logo vertendo o beijo roubado em um beijo correspondido. Claro que sinos e borboletas dão o ar da graça de forma avassaladora. Claro que o sabor peculiar de algodão-doce também.
Em outras palavras, claro que tiro uma boa casquinha e proveito da situação antes de conseguir romper o nosso contato. Pouco a pouco e bem devagar, relutante em permitir que esse momento mágico termine.
Ainda me demoro por muito tempo no olhar indecifrável do trapaceiro irresistível antes de lembrar que há um mundo a nossa volta. E fico passada no creme de amendoim quando percebo que há celulares por toda a parte, nos filmando há sabe-se lá quanto tempo, segurados por mãos trêmulas de nova-iorquinos abismados e confusos com a cena de romance que presenciaram.
Os policiais se entreolham e mantém as armas em mira, porém nada além disso indica que pretendem usá-las. É como se tivessem esquecido o que estavam dizendo antes e agora não tivessem a menor ideia do que fazer. A mulher que eles tentavam proteger — lê-se eu mesma — acabou de beijar a potencial ameaça da qual queriam preservá-la — lê-se Loki.
Em outras palavras, os policiais estão embasbacados ao cubo com o ocorrido, tentando colocar as cacholas para trabalharem e assim compreenderem que marmota foi essa que testemunharam.
Enquanto eles e os civis em volta continuam petrificados no mais sepulcral dos silêncios, sinto uma respiração quente no meu cangote e me arrepio inteira quando o Deus da Trapaça sussurra em meu ouvido com ironia:
— Muito bem, tormento. Muito bem. Desta vez, você se superou. Parabéns.
Esta aproximação é vista como um alerta por um dos policiais que, despertando da paralisia momentânea, aponta a arma com mais firmeza e vocifera se aproximando:
— Para trás, monstro!
— Pedindo assim — Loki finge concordar, mas então no mesmo instante usa sua força para empurrar o policial alguns metros para trás, levando-o a se desequilibrar, cair no meio do asfalto e soltar a arma em consequência, mas sem se ferir.
Quando os outros policiais assumem uma postura ofensiva em resposta, Loki limita-se a sorrir displicente, em desafio. Todos que tentam se aproximar de nós na sequência, são contidos pela sua força da mesma forma.
Enquanto isso, os cidadãos comuns, que até então observavam a cena como meros telespectadores, finalmente reagem. Uns correm e se refugiam em becos e estabelecimentos da região; outros voltam para os seus carros, mas continuam filmando o evento com seus modernos smartphones; os mais apreensivos dão partida enquanto sirenes do reforço policial crescem no ar.
— Nós temos que sair daqui — alerto, temendo uma confusão ainda maior ao ver os policiais se reagrupando, embora ainda pareçam meio incertos do que devem fazer exatamente.
De um jeito discreto, o gafanhoto toma a minha frente, protegendo-me com seu corpo retesado, em alerta. Não consigo conter um sorriso bobo diante de sua atitude fofa, fofa, fofa!
Neste momento, os policiais fazem mira mais uma vez. De repente, hesitam, perplexos com as imagens de vários Lokis e inúmeras Olivias que surgem diante dos seus olhinhos de noite serena como num passe de mágica.
Apesar do clima tenso por toda a parte, de todo o barulho e da apreensão crescente, confesso que uma parte de mim acha as ilusões criadas pelo Deus da Trapaça bem curiosas e me distraio por longos instantes observando várias versões de nós dois. Elas se propagam cada vez mais, formando uma espécie de barreira entre nós e o resto da cidade em polvorosa.
Quando olho para o protótipo original de novo, ele me pede silêncio com o indicador sobre os lábios. Assinto com um meneio de cabeça e procuro por sua mão por puro instinto. Loki me encara e me prende com seus olhos esmeralda.
Neste momento, não importa que as coisas tenham ficado meio estranhas e mal resolvidas entre nós, sua mão está lá do mesmo jeito. Seguro-a e, quando dou por mim, já estamos no afastando do olho do furacão.
À medida que nos afastamos, noto que minha aparência muda. Meu cabelo fica mais preso em um coque que não existe de verdade e meu vestido de festa verte-se numa combinação bem mais discreta de camisa e saia. Loki também muda consideravelmente, criando a ilusão de roupas midgardianas que chamam bem menos a atenção.
Logo deixamos a barreira de Lokis e Olivias para trás e nos misturamos à multidão de civis. Ainda ouço os policiais dando ordens ao longe e fazendo perguntas a fim de descobrirem onde fomos parar. Também os vejo se atrapalharem com as figuras holográficas do Deus da Trapaça e minhas.
Sem olhar mais para trás, dobro a esquina e continuo caminhando ao seu lado com passos apressados. Quando, por fim, estamos longe o bastante da confusão, Loki solta a minha mão de forma abrupta e apressa o passo, logo me ultrapassando com a cabeça erguida.
Por um momento, acho que ele vai dar um jeito de voltar para Asgard imediatamente. Depois, e para minha surpresa, percebo que, mesmo afastados, estamos seguindo na mesma direção. A Torre dos Vingadores não fica longe afinal.
Se Thor está na Terra e, de alguma forma, obrigou o irmão a acompanhá-lo, despachando-o no meio da cidade daquele jeito, talvez Loki esteja planejando algum tipo de acerto de contas com ele.
Querendo entender tim tim por tim tim o que está acontecendo, ando mais rápido e o alcanço. Surpresa ao constatar que pela sua expressão Loki está rindo por dentro, indago meio nervosa:
— Posso saber qual é a graça?
— Você me beijou — diz no ato, fazendo meu rosto corar. — Você foi embora de Asgard, mas não resistiu a mim quando me viu há pouco e selou nossos lábios com volúpia. Você é complicada, midgardiana. Difícil de entender.
Com meu orgulho feminino subitamente abalado, tento fazer pouco caso da situação e me explico:
— Você precisava calar a boca, aquilo foi pura estratégia. Além disso, você correspondeu, rá!
— Seria rude não corresponder a uma dama tão empenhada.
Fuzilo-o com o olhar diante da provocação e acho melhor mudar de assunto, questionando irritada:
— Por que você está aqui mesmo? O top model asgardiano te enxotou de novo? Por qual motivo desta vez?
— Não importa — o trapaceiro desconversa, sem me olhar diretamente, parecendo incomodado. Em seguida, acrescenta: — Não é com isso que você deve se preocupar. Caso não tenha notado, existe algo urgente em jogo.
— Urgente? — Franzo o cenho. — Como assim?
Loki não responde. Apenas ri com certo escárnio e incredulidade, como se a resposta fosse óbvia demais.
O que será que eu estou deixando passar, minha Nossa Senhora Protetora das Midgardianas Distraídas?
Algum tempo depois
— Macacos me mordam! — exclamo perplexa diante das imagens que o Homem de Ferro começa a reproduzir em uma série de telas na sala principal da Torre dos Vingadores assim que Loki e eu chegamos aqui.
Posts em redes sociais e trechos de várias reportagens mostram a chegada triunfal do Deus da Trapaça à cidade, o impacto e confusão que gerou, eu me aproximando dele como que atraída por um ímã. Ele discursando, eu me irritando, o beijo de cinema que silenciou a multidão em volta e as especulações sobre quem é essa mulher e por que fez tal coisa.
— Stark, desligue isso — Steve, também presente, pede como um verdadeiro cavalheiro tentando me preservar de um constrangimento maior.
Ao me dar conta de que não estou constrangida, apenas em choque com a repercussão, tranquilizo Tony:
— Não, está tudo bem. — Aproximo-me mais de uma das telas. — Eu quero ver.
Sim, agora eu entendo perfeitamente o que Loki quis dizer sobre eu ter algo urgente para me preocupar. Há poucos minutos, graças a velocidade e ao alcance de divulgação da internet, o mundo inteiro me viu agarrá-lo como se não houvesse amanhã. E o mundo inteiro viu Loki também. Viu que ele não me afastou, tampouco tentou me ferir, como o deus maquiavélico que atacou Nova York no passado certamente faria.
Especulações acerca de como nos conhecemos, há quanto tempo e de um inegável romance entre nós tomam conta dos Trend Topics do Twitter e da imprensa de uma forma geral. Não demora muito e alguém faz uma comparação entre a mulher misteriosa de hoje com uma filmagem de Sokovia que me mostra de relance algumas vezes e perto dele. O motivo para Loki ter ajudado os Vingadores finalmente está claro para todos.
Sei que agora é apenas questão de tempo, pouco tempo, para que meu anonimato vá para o beleléu. E sei também que isso mudará a minha vida para sempre. Não sou idiota. Em breve, estarei no centro dos holofotes. E tudo isso colocará a segurança dos meus bacuris em jogo também.
Engulo em seco quando uma das reportagens insinua que talvez Loki não seja mais um monstro, que talvez tenha mesmo mudado. Por amor. Um amor que as imagens provam que é correspondido. Em outras palavras, o mundo está em polvorosa pelo ship Lokivia, embora ainda não saibam que é assim que se chama.
— Desligue, Homem de Lata — peço, desta vez constrangida pela repórter ter dado nome aos bois, e por boa parte da opinião pública concordar com o termo amor.
Stark acata meu pedido e a sala fica silenciosa de imediato. Silenciosa demais para o meu gosto.
Sem querer querendo, olho na direção do Deus da Trapaça bem no instante em que ele também me encara. Assim como eu, parece bem desconfortável com a repercussão. Em nada lembra o provocador de minutos atrás. Isso também o atinge, afinal ele acha que tem uma imagem a zelar.

— Sabem, isso faz a minha célebre frase “Eu sou o Homem de Ferro” parecer insignificante agora — Tony alfineta, meio distraído.
Em seguida, Thor, que assim como eu previa está na Torre, volta-se para mim e lamenta bem sem graça:
— Olivia, minha intenção não era te expor. Eu só queria que você e meu irmão se entendessem, que conversassem. Eu não imaginei que você iria beijá-lo daquela maneira na frente de todos.
— Ok, ok, pode parar por aí, chuchu — corto-o, sentindo meu rosto queimar.
Apesar disso, não estou brava com o top model asgardiano de verdade. Não posso responsabilizá-lo por minhas atitudes. Ainda mais quando não me arrependo nenhum pouco da última que tomei.
Fui irresponsável por não medir as consequências daquele beijo público, eu sei, mas eu estava seguindo meu coração e, se querem saber, foi maravilhoso esquecer todas as caraminholas que têm rondado minha cabeça ultimamente e permitir que o meu coração falasse mais alto desta vez.
Foi maravilhoso agir por impulso e perceber que não estou mais com medo das mudanças que minha história com Loki trouxe para minha vida. Nunca deveria ter ficado aliás, porque ele foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Aquela repórter está certa afinal. O mundo está certo sobre meus sentimentos por Loki.
Quem eu estava tentando enganar quando fui embora de Asgard? Como pude pensar que aguentaria viver com a distância? Como pude querer tempo e espaço quando tudo o que queria, que ainda quero, é ficar com o dito cujo para sempre? Como pude estragar tudo? Existe conserto para o que eu fiz? É por isso que Loki está aqui? Por isso correspondeu ao meu ataque de piriguetismo? Ou só fez isso porque seria rude não corresponder a uma dama tão empenhada? É tarde demais para nós? Ou não?
Antes que eu mergulhe em mais e mais perguntas, Stark me desperta ao pigarrear discretamente e dizer:
— Nós vamos pensar em uma solução para lidar com isso, Olivia. Não se preocupe. Mas agora nós temos um casamento para ir, lembra? Os outros já estão lá.
— Certo.
— Você vem, Homem Rena? — indaga, voltando-se para Loki e me causando espanto com a civilidade.
De repente, me vejo apreensiva, esperando pela resposta do Deus da Trapaça, intimamente torcendo para uma afirmação. Mas ele apenas me encara, como se me perguntasse se eu quero que ele fique em Midgard ou avaliasse se eu mereço que ele fique.
Por fim, o Deus do Trovão apoia a mão em seu ombro e responde a pergunta de Stark:
— Claro, vamos todos.
***
Estamos no Quinjet há cerca de uma hora, voando no mais completo silêncio rumo ao local da cerimônia de casamento de Clint Barton e Natasha Romanoff e posterior festa. Rumo à minha fazenda no interior do Texas.
Isso mesmo, os pombinhos queriam um lugar tranquilo onde pudessem trocar alianças sem grandes alardes e badalação. Como uma das madrinhas, concordei na lata, é claro.
Enquanto a viagem evolui, observo Loki a certa distância. Ele fez questão de trocar de lugar com Thor no começo do trajeto, sentando-se bem afastado de mim, ao lado do Capitão América. Talvez para me afrontar, talvez para deixar claro que ainda está com raiva por eu ter partido de Asgard, talvez para que eu saiba que um beijo apaixonado no meio de Nova York não muda nada.
— Eu disse que você estava em perigo — o top model asgardiano sussurra ao meu lado.
Volto-me em sua direção e rebato também baixinho:
— Cuma?
Ainda aos sussurros, Thor explica o babado:
— Loki estava insuportável sem você. De novo. Eu não sei o que aconteceu em Asgard, mas senti que precisava fazer alguma coisa, interferir. Então eu menti para ele. Disse que a Hydra havia voltado e estava a sua procura, que você estava em perigo. Eu atraí Loki até a Bifröst. Mas nesse meio tempo, você já havia deixado seu apartamento. Então Heimdall o mandou para onde você estava no momento.
Depois de assimilar sua explicação, ouço-me retorquindo:
— Por que você está me contando isso?
Thor sorri daquele seu jeito meigo. Sorri como se eu tivesse feito uma pergunta óbvia.
— Porque Loki não hesitou nem por um segundo em me seguir até a Bifröst. Até agora, não demonstrou a menor intenção de voltar para Asgard. — O deus trovejante faz uma pausa, aproxima-se mais do meu ouvido e completa: — Não é tarde demais.
Não consigo evitar. Sorrio de volta animada com seus argumentos que me enchem de uma sensação boa, de esperança, de que eu posso sim consertar o que fiz, de que um recomeço — um final feliz — é possível.
Nem mesmo a cara de limão azedo que Loki esboça quando eu volto minha atenção a ele me desanima. Muito pelo contrário. Sei que essa é a sua arma de defesa, sua camuflagem, sua forma de se preservar.
Sabendo disso, o encaro de um jeito mais incisivo. Então sorrio de novo, desta vez para ele. E aceno como um pinguim de Madagascar.
Loki veio afinal. E quando eu o beijei, ele me beijou de volta. Thor está certo. Não pode ser tarde demais.
Algum tempo depois
Tenho que dizer, Stark fez um ótimo trabalho com a fazenda, transformando-a em um verdadeiro buffet com direito a muitas guloseimas, bebidas à vontade, mesas e cadeiras delicadas espalhadas pelo extenso gramado, decoração impecável, um tipo de palco onde um DJ se prepara para a festança de logo mais e uma pista de dança para requebrarmos os esqueletos até o dia amanhecer.
Isso porque a Dona Aranha e seu boy arqueiro magia queriam algo simples e intimista. Tolinhos...
Os Vingadores estão em peso por aqui e mais membros juntaram-se de vez à equipe: a Ex-Bruxa Má do Oeste, seu irmão Papa-Léguas, Máquina de Combate, o Falcão e o fofo do Visão. Além deles, Pepper Potts, Jane Foster e Jessica Wally vieram para acompanhar Tony, Thor e Steve, e prestigiar os pombinhos que juntarão as escovas de dente em poucos minutos. Agentes da S.H.I.E.L.D., entre eles Coulson e Maria Hill, também estão presentes. Além de Nick Fury.
Aos poucos, todos se acomodam nos assentos dispostos no celeiro, que virou uma capela bem charmosinha.
À medida que caminho rumo ao altar, para assumir meu posto de madrinha ao lado de Steve, Homem de Lata e Pepper, vejo o Dr. Christian Gato Patel sentado ao lado de Josh, de mãos dadas. Então me lembro da minha última sessão de terapia há dois dias, quando meu terapeuta disse que estava orgulhoso de mim por ter conversado com meu pai biológico e deixado a porta da minha vida aberta para ele, mas que eu devia repensar minha atitude de fugir de Asgard também. Para variar, Patel estava certo. Vejo isso agora.
Aceno para os dois e me volto para Amy, alguns assentos a frente. Mas a criatura está distraída com uma leitura e não me vê. Tenho vontade de estapeá-la por isso, mas me seguro e culpo os hormônios da gravidez pelo súbito rompante violento.
O que acontece é que minha amiga está concentrada em um documento das Indústrias Stark, uma espécie de apresentação institucional que vem lendo e relendo desde que foi oficialmente contratada para trabalhar no departamento de Publicidade. Amy disse que quer entender melhor os meandros do seu novo empregador, mas a verdade é que ela tem usado a questão profissional como uma forma de enterrar o assunto Bruce Banner no limbo.
Não a julgo. Geralmente, todo mundo acaba fazendo isso quando as coisas no campo emocional não vão bem. Nosso instinto de sobrevivência nos leva a buscar refúgio e consolo em outras coisas. Trabalho, atividade física, estudos, comida, Netflix. Qualquer artifício vale para manter a mente distraída e o coração temporariamente quieto para se curar. Nem sempre funciona, mas continuamos tentando, afinal não temos muita escolha.
Novamente, tenho vontade de estapear uma pessoa loucamente. Desta vez, o Bruce, é claro. Mas então me lembro que também não posso julgá-lo, afinal também sou uma fujona. Só espero que, assim como eu, o alter ego do Incrível Hulk resolva suas questões existenciais, deixe de bestagem e volte um dia. Torço para que seja em breve.
Estou quase alcançando o altar quando o Capitão Fofo América passa por mim, vindo na direção oposta, com um sorriso travesso demais para ele. Steve não me dá a chance de fazer qualquer pergunta e, por um momento, acredito que está apertado para ir ao banheiro ou algo assim.
Contrariando meu palpite, ele simplesmente se senta ao lado da agente Jessica Wally — sua girl magia — em um dos bancos.
Sigo caminhando sem olhar para a frente, sem entender por que ele abandonou o posto de padrinho e me perguntando quando vai voltar. Estou convencida de que Steve não está em seu juízo perfeito, quando tropeço em alguma coisa — o degrau! — e me desequilibro.
Em algum lugar da minha mente, ouço o Pica-Pau gritando “Madeeeeeiiiira” a plenos pulmões e preparo-me para amortecer a queda com as mãos, preocupada com meus bacuris. Mas bem antes que eu me esborrache no chão, alguém me segura e me devolve o equilíbrio com habilidade e eficiência.
— Ufa! — Respiro aliviada, recompondo-me. — Deus lhe pague... — Ergo o olhar e finalmente vejo o rostinho do meu salvador.
— Uma vez desastrada, sempre desastrada. Tome cuidado. São os meus filhos que você está carregando.
Sem entender mais nada, coloco as mãos na cintura e questiono:
— Oxente! O que você está fazendo aqui?
— Ao que parece, eu sou o padrinho agora — Loki responde com naturalidade.
— Mas o Capitão é o padrinho. — Volto-me para Clint, já a postos em seu lugar, e inquiro: — Certo, Robin Hood?
Visivelmente tenso com o casório e ansioso com a espera pela noiva, ele aperta as mãos uma na outra e responde sem olhar pra mim:
— Steve não está se sentindo bem. Acho que ele não tem mais idade para fortes emoções. Começo a me perguntar se eu tenho.
Intrigada, indico o herói bandeiroso no meio dos demais convidados e insisto:
— Ele está ótimo. Ele é o Capitão América, ué.
Paro de falar quando vejo que, na verdade, Steve encontra-se com a cabeça apoiada no ombro da agente Wally, olhos fechados, os lábios entreabertos, como se estivesse mesmo passando mal.
— O que deu nele?
Confesso que demoro alguns segundos para entender o que está acontecendo.
— Não olhe para mim. — Tony ergue as mãos em rendição quando eu o encaro de um jeito acusatório. — Ideia do Capitão Porto Rico.
Pepper, ao seu lado, confirma com um meneio de cabeça e um meio sorriso. Então dou uma última olhada para Steve e, subitamente, ele parece ótimo. Sorridente, dá de ombros.
Ao colocar a cachola para funcionar deduzo que o Capitão está tentando me reaproximar do gafanhoto. E, ao que tudo indica, os outros Vingadores são cúmplices. Confesso que acho isso bem fofo e vejo que não faz sentido me opor à ideia, já que tudo o que quero é grudar igual chiclete no trapaceiro irresistível, rá!
Sendo assim, tomo coragem suficiente para entrelaçar meu braço no dele e reflito:
— Eu, você, um altar. Quem diria, hum?
Arrependo-me no mesmo instante de ter soltado comentário tão inútil. Meu rosto enrubesce pela milésima vez hoje. Desta vez porque fico com medo que Loki entenda minhas palavras de um jeito errado, como se eu estivesse insinuando e sugerindo algo, pressionando-o de alguma forma. Coisa que não quero. Portanto, sou uma idiota, que devia manter a matraca fechada a partir de agora.
A entrada triunfal de Natasha na capela improvisada chama minha atenção e sou salva de um constrangimento maior, já que agora tenho a desculpa perfeita para desviar do olhar indecifrável do gafanhoto e me concentrar na cerimônia.
É o que faço. O que todos fazem ao se colocarem de pé enquanto a Viúva Negra caminha like a diva rumo ao seu Gavião Arqueiro Magia — tão ansioso que mal se move, apenas mantém o olhar cravado no dela e engole em seco.
Romanoff está linda e avassaladora. Seu vestido é chiquérrimo. Sem aquela coisa de princesa da Disney, traduz a mulher fatal e de personalidade forte que ela, de fato, é.
Quando, por fim, a ruiva fatal alcança o Robin Hood moderno e lhe dá a mão, um sorriso torto surge nos lábios dela. Do seu jeito discreto e prático, Natasha está feliz. Muito feliz.
Contagiada pelo clima de romance e união no ar, suspiro inevitavelmente. O que arranca uma risada sonsa de Loki. Fuzilo-o com o olhar por um instante e volto a me concentrar no casório, sem saber quando exatamente passei a segurar o braço do dito cujo com mais força. Sinto que não quero soltá-lo nunca mais.
Mas tive que soltá-lo, obviamente, no final da cerimônia. Na verdade, não sei bem se o soltei ou se no meio da comemoração e das parabenizações, Loki escorregou por entre meus dedos e eu, distraída, permiti que ele se fosse. O fato é que ainda estou no altar, abraçando Clint e Natasha, quando o vejo deixar o celeiro.
Isso me faz lembrar que ainda lhe devo explicações sobre minha fuga de Asgard e que ele está no direito de ficar com um pé atrás por causa do que fiz.
Muito me admira que Loki tenha entrado no jogo de Steve sobre assumir o lugar de padrinho ao meu lado. Talvez tenha ficado com ciúme de mim e, por isso, aceitou. Talvez esteja tentando me dizer que ainda há uma chance para nós.
***
Disposta a esclarecer as coisas de uma vez por todas, procuro por ele na festa que se inicia. Porém, o danado parece estar brincando de esconde-esconde comigo, já que toda vez que acho que o vejo de relance, pessoas passam na minha frente e, quando procuro de novo, Loki evaporou.
— Arre-égua! — resmungo frustrada.
Neste momento, sinto meu celular vibrar dentro da bolsa e o checo. Abismada, vejo que, de repente, eu ganhei muitos seguidores no Twitter, Instagram e afins. E pelo teor das mensagens, as pessoas não só descobriram quem eu sou, como estão em cólicas para saberem mais a respeito da minha relação com o Deus da Trapaça.
Isso mesmo, de repente, Olivia Mills da Silva Sauro virou uma celebridade para a opinião pública e a hashtag Lokivia foi parar nos Trend Topics mundiais em poucas horas.
Sem querer pensar nisso agora, coloco o celular de volta na bolsa e sigo caminhando pelo gramado enquanto uma música romântica começa a tocar no palco: Echoes of love.
Olho tudo em volta, mas percebo que não é mais necessário caçar o deus asgardiano. O dito cujo está bem na minha frente.
— Procurando por alguém?
Espanto certo nervosismo, ergo o queixo e dou início ao meu plano:
— Na verdade, eu já o encontrei. E espero muito não ter estragado tudo.
Enquanto o trapaceiro irresistível me encara, daquele mesmo jeito indecifrável de antes, seguro meu vestido, erguendo um pouco a barra, e faço uma reverência, pois sei que isso o desconcerta de alguma forma bem pervertida — rá!
Então, aquecida pela chama que surge no seu olhar, e que a criatura luta para disfarçar, arremato com um convite:
— Você me daria a honra desta dança, gafanhoto?
Silêncio. Loki fica no mais absoluto silêncio.
Engulo em seco, temendo uma resposta negativa. Acho que me enganei. É tarde demais.
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