Trapaças do Coração

32 Toda história tem um final


Notas iniciais
Se liguem no título do capítulo... Ele é gigante pela própria natureza porque é o último, o final, the end. Ou quase isso. Boa leitura!

Há cerca de um ano, fui surpreendida enquanto voltava para o meu amado cafofo, depois de uma longa jornada de trabalho escravo. Após ter sido atormentada pelos meus dois chefes demônios o dia inteiro e saído muito tarde da agência publicitária Lee & Lewis — com certeza, fachada para uma sucursal do inferno —, me deparei com um cosplayer de gafanhoto despencando no meio de Nova York.

Foi assim que Loki, de Asgard, Deus da Trapaça e da p... toda, entrou na minha vida. De forma surreal e abrupta. Sem pedir licença, despertando minha empatia, mas também me irritando com sua prepotência e seu ego do tamanho de uma jamanta.

Na época, eu não podia imaginar que minha vida mudaria tanto por causa daquele evento. Hoje, não consigo imaginá-la de outro jeito. Não consigo me imaginar sem meu gafanhoto asgardiano, boy magia e trapaceiro irresistível ao meu lado.

Loki me ajudou a amadurecer ao mesmo tempo em que eu o fazia perceber que também queria mudar, melhorar, torna-se menos insuportável e alguém mais digno por sua própria conta. Ele me levou a enfrentar os meus traumas do passado, meus medos e inseguranças, ao mesmo tempo em que eu lhe mostrava que havia um futuro para ele e que o dito cujo não era uma causa perdida. De alguma forma, nos ajudamos mutuamente. Ao mesmo tempo, nos aproximamos cada vez mais.

Quando dei por mim, já estava com os quatro pneus arriados pelo traste. E quando Loki deu por si, já estava me beijando no meio de uma estrada deserta, pois também estava de quatro pela midgardiana que, por algum tempo, julgou tão desprezível e insolente.

É engraçado relembrar tudo isso e perceber que cada escolha que tomamos, cada acontecimento pelo qual passamos e cada mísero detalhe dessa história maluca nos trouxeram até este momento decisivo. O momento em que me vejo estagnada diante de Loki, no meio da festa do casório da Viúva Negra com o Gavião Arqueiro, esperando por sua resposta ao meu convite para uma dança.

Neste fatídico momento, chego a pensar que seu silêncio absoluto já é uma resposta. Uma resposta negativa. Talvez Thor esteja errado, talvez eu também tenha me enganado, talvez seja tarde demais para voltar atrás e conquistar um final feliz para a história de Loki e Olivia. Talvez nós não tenhamos nascido para terminar juntos afinal.

Acreditando nisso, engulo a derrota e preparo-me para me afastar. Quando lhe dou as costas, no entanto, Loki apressa-se em dizer:

— Com uma condição.

Viro em sua direção e, um pouco irritada com tanto doce que a criatura está fazendo, cruzo os braços e arqueio as sobrancelhas.

— Se estiver ao meu alcance.

O Deus da Trapaça coloca as mãos para trás e, com um leve sorriso cretino, expõe cheio de si:

— Tente não ceder de novo ao desejo que, claramente, nutre por mim. Uma repetição do que aconteceu mais cedo, em Nova York, com toda aquela plateia, pode perpetuar a sua imagem de midgardiana pervertida.

Loki não vai esquecer o meu fatídico ataque de piriguetismo tão cedo. Nunca, talvez. Porém, eu também não vou me esquecer que o danado gostou muito e correspondeu à altura àquele beijo de cinema.

Então, com a autoestima nas alturas, rebato sua provocação:

— Qual o problema, gafanhoto? Por acaso está com medo de não resistir aos meus lábios de mel de novo? Porque uma repetição do que aconteceu pode abalar ainda mais a sua imagem também. Não que alguém nessa festa ainda tenha dúvidas do desejo que você, claramente, também nutre por mim.

Antes que a criatura se recupere do tiro e tenha tempo de retrucar, dou um passo à frente e jogo meus braços em volta do seu pescoço. Com o olhar cravado nos seus olhinhos de noite serena, arremato:

— Não se preocupe, chuchu. De minha parte, condição aceita.

Meio contrariado, Loki coloca as mãos na minha cintura e resmunga:

— Muito bem.

— Perfeito — emendo, e então começamos a dançar de fato.

Segundos depois, visivelmente tenso com a nossa proximidade e incomodado com a dança em si, o deus trapaceiro reclama:

— Isso é tão ridículo. A forma como o povo de Midgard dança. Dois pra lá, dois pra cá, repetidamente, dois pra lá, dois pra cá de novo. Um círculo vicioso sem o menor sentido ou elegância.

Recordando a noite em que Loki me ensinou a bailar como o pessoal do seu Reino — quando eu percebi, pela primeira vez, o que realmente sentia por ele e quase, quase o beijei por um triz —, disfarço um sorriso e proponho:

— Se preferir, nós podemos dançar à moda Asgard.

— Você ainda lembra os passos?

Ele parece descrente.

— Eu nunca vou esquecer os passos — asseguro, interrompendo a valsa realmente sem graça, dando um passo para trás e me curvando em uma reverência.

Loki hesita por um segundo. Mas no momento seguinte, acata a sugestão e faz o mesmo. Então ergue a mão direita no ar, e eu o imito, aproximando a minha da sua, mas sem tocá-la. Alguns centímetros me impedindo de sentir o calor dos seus dedos. Atraída e presa no seu olhar como um ímã.

Ele coloca a outra mão para trás, bem como eu. Giramos suavemente. Posturas impecáveis. Invertemos as posições e as mãos no ar entre um giro e outro.

Toda a emoção que senti naquela noite está de volta. Mais forte. E me chamem de convencida, mas sei que não estou sentindo isso sozinha.

— Lamento por ter denegrido sua imagem — Loki diz de repente, numa clara tentativa de mudar o foco para algo racional, ao invés de se entregar ao lado emocional que tanto subjuga. — Não sobre ser uma midgardiana impulsiva e pervertida, mas por te julgarem desprezível ao beijar, com tanto ardor, alguém como eu.

Mais uma vez, não me abalo com a provocação. Simplesmente sorrio e retribuo com uma alfinetada em seu ego de macho alfa:

— Cheque as notícias, gafanhoto. Ninguém está falando mal de mim por causa de você. Na verdade, eu estou sendo vista como um tipo de heroína por ter te amansado. Você sabe, te calado com um beijo, colocado cabresto em você, esse tipo de coisa. — Dou uma piscadela convencida.

Contrariado e furioso com a verdade que esfreguei em sua linda carinha, o Deus da Trapaça trinca o maxilar e tenta negar:

— Você não...

Como eu disse, ele tenta. Mas não consegue mentir nem para mim, tampouco para si mesmo. Então, expira com força, endireita a postura de um jeito defensivo e muda de estratégia:

— Lamento mesmo assim. Mal consigo imaginar como você deve estar se sentindo ao se ver, mais uma vez, presa ao vilão da história.

Sei que isso é uma crítica ao meu comportamento em Asgard, quando fui embora e o deixei acreditar que tinha ficado em pânico com a gravidez porque não suportava a ideia de uma ligação maior entre nós.

Engulo em seco ao constatar que a hora de me explicar de fato está se aproximando. Ainda ganho certo tempo, quando invertemos as mãos no ar e giramos em torno um do outro mais uma vez, porém sei que não posso mais adiar isso.

Então, limpo a garganta e decido começar esclarecendo algo elementar para mim:

— Você não é o vilão da história. Não da minha pelo menos. Pode ter sido no passado, para outras pessoas, em outras circunstâncias e por outros motivos, mas as coisas mudaram. Você se redimiu há muito tempo. E o que aconteceu hoje fez o povo de Midgard abrir os olhos para isso. Finalmente eles entenderam a sua presença em Sokovia. Você não é o monstro que eles julgavam que você ainda fosse. Não é mais o monstro embaixo da cama de alguém. Você é capaz de ajudar a salvar o planeta que tentou dominar um dia. E você é capaz de fazer isso não só por mim ou pelo o que sente por mim, mas também por si mesmo. Há bondade em você. Aceita, que dói menos.

Há um longo momento de silêncio entre nós. Loki me avalia com um olhar indecifrável. Em seguida, noto uma nuance de irritação em seu semblante e ele insiste no que realmente lhe interessa:

— Eu estou confuso. Por que você está sendo tão gentil desde que eu cheguei aqui?Nada disso condiz com o seu último dia em Asgard.

O momento de me explicar finalmente chegou. Com o coração batendo pesado dentro do peito e o gafanhoto me encarando de um jeito incisivo, não consigo me concentrar em duas coisas ao mesmo tempo. Não consigo formular as palavras que quero dizer e me concentrar nos passos.

Sendo assim, paro de dançar. Dou uma olhada em volta e constato que estamos sendo observados pelos olhares curiosos de cada convidado, amigo, Vingador e agente presentes na festa. Ao perceberem que foram pegos em flagrante, eles rapidamente disfarçam, voltando a se concentrarem em seus parceiros de dança ou a beberem e conversarem em pequenas rodinhas no entorno da pista.

Volto a olhar para o Deus da Trapaça e, por fim, explico minha atitude em Asgard:

— Eu fiquei em choque, assustada e entrei em parafuso. Acontece muito comigo. A essa altura, você já devia saber. Mas depois que você me disse... tudo aquilo que você me disse, eu percebi que o pânico era coisa da minha cabeça de vento e fui atrás de você. Digo, eu ia atrás de você, ia arrancar sua roupa, colocar um ponto final naquela discussão sem sentido que eu mesma comecei e eitcha lelê! Juro juradinho que eu estava prestes a fazer as pazes com chave de ouro.

Vejo uma chama de desejo no olhar compenetrado de Loki. Chama que ele prontamente disfarça quando questiona firme:

Estava? Então o que aconteceu no meio do caminho que te fez mudar de ideia tão de repente?

Oops... Não posso quebrar a promessa que fiz. Não posso dizer que tinha um Odin no meio do caminho e que no meio do caminho tinha um Odin. Não posso fazer uma delação premiada assim e abalar a relação já complicada de pai e filho.

O rei asgardiano só queria ajudar, tinha boas intenções quando me pressionou sem perceber. Mas se eu comentar qualquer coisa sobre nossa fatídica conversa, Loki vai usar isso como desculpa para jogá-lo para escanteio de vez, para brigar e acabar com qualquer chance de reconciliação entre eles.

Sei que Odin não é perfeito, que errou muito com Loki, porém também sei que o Rei de Asgard vem se esforçando para corrigir esses erros, para ser um pai de verdade.

Acho que fico tempo demais em silêncio, matutando uma forma de não mentir para o gafanhoto, mas também de não comprometer o Mestre dos Magos.

Loki parece se cansar da espera e talvez entenda o meu silêncio de forma errada, já que me dá as costas e se afasta cuspindo fogo pelas ventas.

De imediato, sigo a criatura e explico:

— Uma coisa aconteceu e eu não quero entrar em detalhes sobre isso. Não é preciso. Confie em mim, okay?

Loki continua desfilando seu cosplay de gafanhoto. Sigo em seu encalço, determinada a fazê-lo ouvir o resto. Nos afastamos cada vez mais da festa.

— O que você precisa saber é que eu não quis que você se sentisse pressionado a continuar comigo — retomo. — Quem sabe... casar comigo só por causa dos bacuris, só porque seria o conveniente numa situação como essa.

Meu rosto queima ao mencionar a palavra casar. Estou agradecendo à Nossa Senhora Protetora das Misgardianas pelo Deus da Trapaça estar de costas e, com isso, não ver o meu embaraço, quando ele detém o passo, gira nos calcanhares e para a poucos centímetros de mim.

Estremeço por dentro. E por fora também. Eita.

— Deixe-me ver se eu entendi. Esse tempo todo, você estava com medo que eu te tomasse como minha esposa e por isso foi embora?

Como Loki consegue ver as coisas de um jeito tão simples? Como pode se referir a mim como sua esposa de um jeito tão natural? Por que isso soa tão maravilhoso em sua boca?

Luto para retomar o foco e ressalvo:

— Eu estava com medo que você se sentisse induzido a pedir a minha mão em casamento só por causa do meu estado. Então eu me afastei, não fui embora. Por mais que tenha parecido que eu estava indo embora e te abandonando. Droga... O fofoqueiro do Heimdall não te deu o meu recado?

O olhar de Loki faísca quando ele rebate afiado como uma navalha:

— Sim, ele transmitiu suas palavras. Mas como elas não condiziam com sua atitude, eu pensei que eram da boca para fora, um truque, algum tipo de consolação para que eu aceitasse melhor sua partida.

— De pensar morreu um burro! — esbravejo, irritada por descobrir que Loki não levou a sério o meu esforço em lhe dar pelo menos uma satisfação através de Heimdall, muito menos o teor do meu recado. Após uma pausa, me acalmo um pouco e retomo: — Eu só me afastei para que você pudesse pensar melhor. Não faz muito sentido, mas na minha cachola e naquele momento, parecia que eu estava te dando o golpe da barriga. Eu não queria me sentir assim. Não queria que alguém pensasse isso de mim. Muito menos você. Pronto, falei.

Fecho a cara e cruzo os braços, meio enfezada. Já disse tudo o que tinha a dizer. Cumpri minha cota de sinceridade do dia. Abri meu coraçãozinho.

Estou refletindo sobre isso, quando Loki dá um passo à frente, diminuindo ainda mais a nossa já mínima distância. Então, para minha surpresa, ele me olha nos olhos e retribui minha franqueza esclarecendo de um jeito sedutor:

— Cheque as notícias, tormento. O que estão dizendo sobre mim, sobre nós, sobre o motivo da minha presença em Sokovia, é tudo verdade. Eu fiz o que fiz não só por mim ou porque foi divertido humilhar os Vingadores de certa forma. Eu fiz por outro alguém. — Sua mão desliza pelo meu queixo. Loki olha para os meus lábios por um longo instante. Torna a me encarar com firmeza. — Então, que fique claro, quando eu te tomar como minha esposa, não será apenas por causa dos nossos filhos. Na verdade, a essa altura, você já devia saber disso também. Já devia saber como eu me sinto... por você, midgardiana tola.

Meu coração está batendo tão depressa que acho que a qualquer momento vai sair pela boca e dançar Happy por aí. As palavras do trapaceiro irresistível ecoam nos meus ouvidos sem parar, são como música. Cada momento que passamos fica mais nítido na minha cachola. Cada sentimento despertado, mais forte e tangível.

Se eu o amo? Se Loki me ama? Vocês precisam mesmo perguntar?

— Eu sei disso agora, gafanhoto. Sei exatamente como você se sente. E sei exatamente como eu me sinto também.

É tudo o que consigo balbuciar enquanto percebo, de uma vez por todas, que apesar dos motivos que achei que tive para me afastar dele, o único lugar em que realmente quero estar é ao seu lado. Não importa em qual ponto do universo, quero estar com Loki. Com a tampa da minha panela. Com o meu par perfeito.

Com essa certeza vibrando dentro de mim, mordo o lábio inferior por um instante. Estou me segurando para não atacá-lo de novo — o que lhe daria o gostinho da vitória, já que eu prometi não ceder —, quando o dito cujo insinua:

— Sobre o que eu disse antes, tormento, sobre aquela condição...

Não espero Loki terminar. Ao invés disso, puxo-o pela mão em direção ao celeiro adiante e digo animada e cheia de segundas intenções:

— Vem comigo!

Em questão de segundos estamos lá. O lugar está vazio, nenhuma alma viva por perto, mas mesmo assim precisamos de um cantinho mais aconchegante e protegido para a sessão de acasalamento midgardiano-spartoi-jotun — aquela carinha, rá! — que vai selar de vez a paz entre nós.

Às pressas, guio o Deus da Trapaça rumo ao andar superior do celeiro, onde um estoque considerável de feno espalhado por toda a parte desperta uma fantasia saliente dentro de mim. Fechem os olhos porque vai ser aqui mesmo! Eitcha lelê!

Giro nos calcanhares e envolvo o rosto de Loki com minhas mãos ansiosas. Sua boca pressiona a minha, invadindo-a de um jeito urgente e voraz. Minhas pernas fraquejam. Um calor avassalador se espalha por meu corpo, levando-me a puxar o danado para mais perto de mim. Cada vez mais.

Sinto as alças do meu vestido descendo por meus braços à medida que Loki as afasta com destreza e urgência. Tomada por um desejo irresistível, concentro-me em arrancar suas vestes asgardianas também. Não tenho tempo de tirar nenhuma peça, no entanto, já que sou interrompida em minha nobre tarefa quando ouço o ranger da porta do celeiro se abrindo.

Em seguida, uma voz familiar se espalha pelo lugar:

— Stark disse que ela veio para cá. Olivia? Você está aqui? Olha quem eu trouxe para a festa.

Rapidamente me afasto de Loki e ajeito o vestido. Não há tempo dele criar uma ilusão para nos livrar da cena constrangedora, já que também estava bem distraído há poucos segundos. E agora parece ser tarde demais para uma trapaça.

Ofegantes e um tanto descabelados, olhamos para baixo e somos encarados de volta por duas criaturas em choque: Peter e J’son, que devem ter chegado há pouco tempo na fazenda. Talvez enquanto eu e Loki discutíamos a relação.

É impossível negar o óbvio. Então, nem tento. Os dois sabem muito bem o que estava prestes a acontecer aqui e é inútil tentar enganá-los.

Engulo em seco enquanto meu rosto fica vermelho como um tomate.

— Meus olhos! Meus olhos! — Meu irmão leva as mãos ao rosto de repente, vira-se e sai em disparada do celeiro.

O ET de Varginha fica para trás, estagnado no mesmo lugar, nos olhando com uma mistura de choque e insatisfação. Por mais que no fundo ele saiba que não pode bancar o pai protetor a essa altura do campeonato, deve ser difícil ver a sua recém descoberta filha nos braços de um garanhão. Não o julgo.

Ao invés disso, percebo que é um ótimo momento para deixar J’son bem feliz com algo que lhe direi pela primeira vez. Assim, poderei manipular a situação para que ele não fique tão passado na manteiga quanto aparenta estar agora. Em outras palavras, é hora de amansar o velho com um golpe baixo.

Então limpo a garganta e começo as devidas apresentações:

— Gafanhoto, este é o Imperador J’son de Spartax. Meu pai.

Na mosca! Diante da palavra pai, ele se volta automaticamente para mim e posso sentir a emoção em seu olhar. Ele está amolecendo. E apesar da manipulação inocente, sinto o mesmo. Mais uma vez, sinto-me pronta para deixá-lo entrar em minha vida e preencher o vazio acumulado de tantos anos sem um pai. Mais uma vez, sinto que quero ser sua filha de verdade.

Determinada e mais calma, procuro pela mão do gafanhoto e logo descemos os degraus. Assim que paramos diante de J’son, retomo:

— Papi soberano, este é Loki de Asgard, meu...

— Futuro marido.

Sabem aquela gif do esquilo dramático? Me representa neste momento. É assim que me sinto quando o gafanhoto simplesmente completa a minha frase com essas duas palavrinhas repletas de significado.

Do seu jeito, Loki está me pedindo em casamento. E do meu jeito, olho para ele de canto e aceito com um sorriso. Não há mais nenhum medo, insegurança ou desculpa esfarrapada que me faça hesitar. Eu quero ser sua para sempre, e quero que ele seja meu para sempre. Já somos, na verdade.

Como se lesse meus pensamentos, Loki disfarça um sorriso displicente. Em seguida, cumprimenta o Imperador de Spartax com um gesto asgardiano, e meu pai retribui com um meneio de cabeça. A fim de ganhar a confiança dele, o Deus da Trapaça ainda arremata:

— Com a sua permissão, é claro.

O ET de Varginha olha de mim para o trapaceiro irresistível, nos analisando atentamente por um longo momento, enquanto eu tento controlar a onda de emoção dentro de mim.

Embora não tenha mesmo o poder de decidir qualquer coisa sobre o futuro da minha relação com meu boy magia, J’son parece se perguntar se ele é o par perfeito para sua filhinha.

Decido lhe dar uma forcinha:

— Foi Loki que descobriu sobre Peter e o trouxe para a Terra há alguns meses. Eu só conheci o meu irmão dramático e, em consequência, você por causa dele.

Na mosca de novo! Esse importante fato — do qual eu sempre serei grata ao gafanhoto — amolece de vez o coração paterno do imperador spartoi. Vejo um discreto sorriso surgir em seus lábios quando ele olha para mim de novo. No momento seguinte, dirige-se a Loki:

— Obrigado. Vocês têm a minha permissão e a minha benção.

Feliz da vida, respiro aliviada e me jogo nos braços do meu papi soberano sem pensar duas vezes. Ele fica bem surpreso com o abraço forte, mas corresponde um segundo depois, envolvendo-me de volta de um jeito terno. Há tanta coisa nesse simples gesto, tanto significado, tanto carinho. Antes de me afastar, dou um beijo estalado em sua bochecha.

Depois de se recompor um pouco, J’son limpa a garganta e se dirige a Loki mais uma vez:

— Agora, certamente, nós dois devíamos conversar sobre o casamento em si. Acertar alguns detalhes.

Antes de deixar futuro sogro e genro a sós, puxo o gafanhoto para uma bitoquinha bem comportada e determino o detalhe mais importante do nosso casório:

— Acapulco sob um céu estrelado. É só o que eu peço.

Dou-lhe as costas e, sorrindo de orelha a orelha, saio do celeiro saltitante e vou atrás da Queen of drama, vulgo meu irmão.

***

Não preciso ir muito longe para encontrar o dito cujo. Nas proximidades do celeiro, Peter, visivelmente traumatizado pela cena que presenciou há alguns minutos, anda de um lado para o outro enquanto é observado atentamente por um grupo de... seres bem diferentões.

Uma mulher de cabelos vermelhos e pele verde encontra o meu olhar e o sustenta com firmeza e personalidade. Em seguida, é a vez de um homem alto, musculoso e descamisado, com um tipo de desenho avermelhado e em relevo por toda a extensão da pele, perceber minha presença. Por fim, me deparo com as duas criaturinhas mais lindas e fofas que meus olhinhos de noite serena já viram: um guaxinim e uma pequena árvore em seu ombro. Sei exatamente que estou diante dos demais Guardiões da Galáxia. Ai que emoção!

— Eu só queria fazer uma surpresa, e é isso o que eu ganho em troca? — Peter resmunga, ainda andando feito barata tonta. — Nosso pai queria vê-la, eu achei que seria o momento ideal para Olivia conhecê-los também, pessoal. Eu mesmo estava com saudade daquela desnaturada. E então eu me deparo com... os dois... naquela situação... Eu não posso nem lembrar!

Meu irmão, ainda sem notar que eu estou por perto, para de zanzar e pede ao descamisado:

— Drax, me dê um soco, bata na minha cabeça. Com bastante força. Eu quero esquecer o que esses olhos viram.

Prontamente, o tal Drax dá um passo em sua direção e fecha os punhos. Assustado, o Star Lord ergue as mãos na altura do peito e recua um pouco, esclarecendo:

— Ei, ei... Foi modo de dizer, amigo.

Um pouco desapontado por perder a oportunidade de bater em Peter, o grandalhão sorri e se dirige a mim:

— Você deve ser a Olivia. Estou certo?

Meu irmão olha para mim e finalmente dá um tempo no drama. Passo por ele, cumprimento seu amigo lutador de UFC com dois beijinhos no rosto e digo com toda a minha costumeira simpatia:

— Oi, está sim. E você é Drax, o Destruidor, pelo o que percebi. Muito prazer, chuchu.

— Chuchu? — Ele parece confuso quando franze o cenho. — Mas eu não sou um chuchu.

Tomo a liberdade de apertar a ponta do seu nariz e reforço:

— É sim, chuchu.

Em seguida, analiso a mulher com porte de guerreira ao seu lado, ao mesmo tempo em que Peter nos apresenta rapidamente:

— Gamora, Olivia. Olivia, Gamora.

A moçoila verde, e sonho de consumo do meu irmão lento, me estende sua mão. Aperto-a enquanto ela esboça um sorriso discreto e diz:

— Peter falou muito de você. É uma honra finalmente conhecê-la, Olivia.

— A honra é toda minha, diva.

Isso mesmo. Aquele ciúme que eu sentia dela com meu irmão se esvai. Acho que meu santo simplesmente bateu com o santo dela, me julguem.

Neste momento, tenho uma ideia maquiavélica. Hora de colocar meu irmãozinho querido numa saia justa, rá! Quem sabe assim ele tome coragem para se declarar de uma vez e pare de se preocupar com as minhas pegações nervosas pra cima do Deus da Trapaça?

— Ele também falou muito de você. Tanto, mas tanto, mas tanto mesmo, exaustivamente, que é como se eu já te conhecesse há séculos, Gamy.

A guerreira verde abaixa o olhar, um pouco sem graça, mas claramente gostou do que ouviu. Quando ergue o olhar, concentra-se em Peter — ao meu lado e pálido como um fantasma —, e balbucia:

— É mesmo?

— Juro juradinho — asseguro, segurando o riso. — Se quiser, eu posso te contar tim tim por tim tim tudo o que ele me disse sobre você. Só não sei se eu vou lembrar de tantos detalhes, qualidades, elogios...

— Okay, já chega. — Meu irmão me afasta gentilmente da sua crush e apressa-se em me apresentar aos membros que faltavam: — Rocky e Groot, esta é a minha irmã, Olivia Mills. Na maior parte do tempo, ela não é muito normal mesmo, mas não deixa de ser uma boa pessoa. Seu maior defeito é que ela se acha engraçadinha.

— Eu sou o Groot — a pequena arvorezinha murmura de um jeito extremamente risonho.

É impossível ficar indiferente, não consigo.

— Virgem Santa! Que coisa mais linda! Quero!

É então que o guaxinim, um tanto defensivo e mal humorado, esconde o amigo atrás de si e esclarece com uma garra em riste:

— Só passando por cima do meu cadáver, senhorita. O que não vai acontecer, sinto muito.

Apesar de meio agressivo, me derreto pelo seu instinto protetor e aparência fofínea. Parece um ursinho de pelúcia, mas com espírito de guerreiro. Não resisto e o puxo para mim, pegando-o no colo e o abraçando com força contra meu peito, enquanto digo:

— Ownn... Você é tão fofo, fofo, fofo!

— Alguém tem uma arma? — Rocky resmunga, meio sufocado, enquanto suas pequenas e peludas pernas balançam de um lado para o outro à medida que o embalo como um bebê.

— Eu tenho — Drax responde tranquilamente, procurando algo em seu coldre.

De pronto, Peter o toca no ombro e esclarece:

— Modo de dizer, amigo. Modo de dizer. Não leve tudo ao pé da letra, lembra?

Finalmente, consigo me controlar diante do guaxinim fofo e o coloco de volta no chão. Ele parece bem aliviado com isso, diga-de passagem, mas não me ofendo. Em seguida, sorrio para todos os amigos e parceiros do meu irmão e digo:

— Bem-vindos ao planeta Terra, aproveitem a festa e sintam-se convidados para o meu casório em Acapulco.

Assim que me afasto, Peter vem atrás de mim. Logo me alcança, coça a nuca e busca confirmação:

— Casório?

— Casório. — Paro de andar e me viro em sua direção.

— Que história é essa?

— Trapaças do Coração, ora bolas. — Dou de ombros e reviro os olhos, mas no fundo não sei ao certo por que soltei isso, simplesmente saiu.

Peter hesita, mas finalmente releva a cena embaraçosa de momentos atrás e o ciúme fraternal e protetor de irmão mais velho. Então ele me abraça.

— Parabéns, maninha. Eu fico feliz por vocês, de verdade. Só me poupe de qualquer detalhe, foca no qualquer detalhe, sobre a lua de mel, tudo bem?

— Combinado. — Sorrio em seu ombro, observo Gamora à distância e sugiro: — Você pode ser um dos padrinhos. A madrinha fica a sua escolha.

Entendendo muito bem que eu estou lhe dando um empurrãozinho de cupido, Peter busca meu olhar, sorri torto e se compromete:

— Combinado.

Voltamos a andar pelo gramado, quando avisto alguém na pista de dança. Tony Stark — o Homem de Ferro!!! — conduzindo sua girl magia, Pepper, numa valsa elegante e romântica.

Quando lembro que o mequetrefe teve a brilhante ideia de contar para o meu irmão e nosso papi soberano que eu estava no celeiro — com certeza, sabendo que eu estava acompanhada pelo gafanhoto —, meu sangue ferve de súbito.

Fuzilo-o com o olhar. Sua resposta é uma breve pausa na dança para fazer um sinal de joinha e depois me mandar dois beijinhos no ar com as mãos. Meu sangue ferve ainda mais.

— Você me paga, Homem de Lata. — Marcho em sua direção, deixando Peter para trás, sem explicar nada.

Quando estou a poucos metros de Stark, sou surpreendida por um vento muito forte causado por alguém que vem em minha direção a toda velocidade e para bem na minha frente com sua cabeleira platinada.

— Papa-Léguas? O que você...

Antes que eu prossiga com a pergunta, Pietro olha rapidamente para Tony, torna a se concentrar em mim e explica:

— Sinto muito. Ele me prometeu um traje especial, desde que eu te mantenha longe o bastante.

— Que marmota é essa?! — Coloco as mãos na cintura, possessa pelo irmão de Wanda ter se vendido assim por causa de uma roupa.

E é tudo o que consigo dizer por ora, já que no instante seguinte, Pietro tem a pachorra de me segurar no colo e depois me levar, na velocidade da luz, para a outra extremidade da festa, bem longe de Tony Filho-da-Mãe Stark.

Assim que Pietro me coloca no chão e eu me recomponho, encaro o atrevido com um olhar mortal e o ameaço:

— Eu vou acabar com a sua raça, Papa-Léguas.

Sem se intimidar, ele esboça um sorriso, dá uma piscadela e me provoca:

— Você precisa me alcançar primeiro, Coiote.

E então o sonso se vai, na mesma velocidade exorbitante de sempre.

Vencida e ciente de que nunca o alcançarei mesmo, despenco na cadeira atrás de mim e limito-me a observar a festa e cada pessoa aqui presente.

Clint está dançando com Natasha, e daqui a pouco os dois partirão em lua de mel para Budapeste. Um lugar que parece ser bem especial para os dois, aliás.

A sintonia e a cumplicidade entre eles é tão tangível quanto aquela que observo entre Steve e a agente Jessica Wally. Ou entre Josh e o Dr. Patel. Tony e Pepper. Thor e Jane. Visão e Wanda.

Sim, me chamem de maluca, mas eu sinto algo entre esses dois últimos também. Algo brotando. Sutilmente. Aposto que os dois ainda não perceberam que estão se apaixonando. Pietro parece que sim, já que os analisa a certa distância e com muita atenção, enquanto eles conversam em uma das mesas.

Os Guardiões da Galáxia estão se enturmando aos poucos, quando Coulson e Fury se aproximam e meu irmão faz as devidas apresentações. No mesmo instante localizo Amy conversando, bebendo e rindo com Sam Wilson, James Rhodes e Maria Hill.

É a primeira vez em dias que vejo minha amiga se divertindo de verdade. Embora eu saiba que, lá no fundo, seus pensamentos estão todos, irremediavelmente, focados em Bruce Fujão Banner.

Gostaria de dizer que terei tempo suficiente para vê-lo de volta ao jogo e lhe dar uns bons tapas por ter ido embora assim. Ou que terei tempo de pensar numa forma de me vingar do Homem de Ferro e de Pietro pelo o que fizeram há pouco. Mas sinto que estaria mentindo para mim mesma se acreditasse nisso. Porque a verdade é que eu estou me despedindo deles. Deles, dos outros Vingadores, dos meus amigos, da S.H.I.E.L.D., do meu planeta natal, de tudo.

Isso porque depois da repercussão que o beijo entre mim e Loki causou no mundo, revelando minha identidade para cada pessoa na Terra com acesso à internet e aos noticiários, está mais do que claro que não posso ficar aqui, vivendo no meu amado e reformado cafofo. Tampouco, Loki. Pelo menos, não nesse momento.

Qualquer artifício ou trapaça que usássemos agora poderia se voltar contra nós e chamar mais a atenção. As pessoas estão muito curiosas a nosso respeito, e tudo o que quero agora é um lugar tranquilo para ter nossos filhotes em paz.

Pensando neles, acaricio minha barriga sob o vestido e percebo que, apesar de saber que eu sentirei muita saudade de todos que fizeram parte da minha história nesse pequeno planeta, não estou triste de verdade por ter que ir embora assim.

Não acho que será algo definitivo, que nunca mais colocarei os pés na Terra, longe disso. Um dia a saudade será insuportável. Um dia o dever pode chamar também e não terei escolha a não ser vir imediatamente.

Sei que Phil Coulson sabe disso, sabe que pode contar comigo no futuro. O meu desejo de ajudar sempre que eu puder continua firme e forte dentro de mim. Então, mesmo me afastando por um tempo, continuarei sendo a agente Mills para todos os efeitos.

Mas, por ora, tudo o que enxergo é uma oportunidade e tanto de relaxar em algum lugar do universo com o gafanhoto, após nosso casório em Acapulco. Em seguida, poderei conhecer Spartax, mergulhar nas minhas origens, deixar meu papi soberano feliz e estreitar a nossa relação. Depois disso, voltarei para Asgard e ficarei um bom tempo por lá, com meu marido magia e nossos bacuris a tiracolo. No futuro, poderei ainda conhecer outros pontos do universo a bordo da Milano, na companhia dos Guardiões da Galáxia, e aposto que isso será bem divertido, rá!

Enfim, posso ir a muitos lugares com Loki enquanto a poeira por aqui não abaixa de vez. Podemos viver em lugares diferentes por determinado período de tempo também. Podemos até passar uma boa temporada na Terra num futuro próximo, mas com a aparência de outras pessoas, usando disfarces e ilusões. Quem sabe? Tudo é possível.

Portanto, fiquem de olho. Isso não é uma despedida de verdade, tampouco definitiva. Olivia Mills e Loki podem estar em qualquer parte. Podemos ser qualquer um e em qualquer tempo. Prestem atenção aos sinais, aos mínimos detalhes, e continuem acreditando em nós. Porque eu acredito. E tenho certeza que o gafanhoto acredita também.

Estou crente, crente, que esse é o final feliz da história, quando a voz do gafanhoto se faz audível bem atrás de mim:

— Olivia.

Adoro quando ele me chama de tormento ou midgardiana mais alguma coisa, porém nada me arrepia mais do que ouvir meu nomezinho em sua boca, confesso.

Instintivamente, olho em sua direção sorrindo. Observo-o enquanto ele dá a volta na mesa e para diante de mim com as mãos para trás e uma postura imponente.

Não sei por que, mas não gosto nem um pouco da expressão fria com a qual me deparo. Acabo ficando séria também. De repente, é como se tivesse alguma coisa errada.

— Nós precisamos conversar.

Quando Loki diz isso sinto-me atingida por um balde de água fria. E só consigo pensar que devo ter me enganado feio sobre o final feliz. Ao que parece, comemorei antes da hora. Com a gente, o buraco é sempre mais embaixo, certo?

Prontamente, o Deus da Trapaça toma o caminho da casa. E eu, mesmo sem gostar da sua súbita mudança de humor, levanto e vou em seu encalço.

— Mas que marmota é essa, gente?

***

Quando alcançamos a sala da minha primeira morada, Loki por fim torna a me encarar e despeja sem qualquer cerimônia:

— Eu espero que você saiba que aquilo não foi um pedido de casamento.

What?!

Disfarço como posso o choque pelo trapaceiro de uma figa retirar o pedido assim, sem mais nem menos. Rio sem humor e finjo que não me importo nem um pouco:

— Claro. Tô sabendo, sim. Óbvio...

— Era preciso contornar a situação, acalmar o seu pai, seu irmão de certa forma, só isso. Não foi sério — reforça, mexendo com o meu orgulho mais uma vez e me deixando ainda mais p da vida.

— Faz sentido. Ótima estratégia, gafanhoto. Parabéns por pensar tão rápido — cuspo as palavras do jeito mais indiferente que consigo. Em seguida, dou-lhe as costas e marcho rumo à porta: — Agora, se você me dá licença, acho melhor eu voltar para a festa.

Estou quase alcançando a maçaneta, quando Loki tem a cara de pau de recomeçar:

— Eu ainda não terminei.

Respiro fundo, irritada e desapontada. Querendo descobrir o que o Deus da Trapaça está tramando afinal e por que está me desprezando assim, volto-me em sua direção de um jeito enfezado. Cruzo os braços, aproximo-me um pouco e espero ele desembuchar de uma vez.

Para minha surpresa, no entanto, Loki parece nervoso de repente. Ansioso e estranhamente sem graça. Estou convencida de que tem algo elementar no ar que não estou captando, quando ele, surpreendendo-me de novo, se abaixa. Mais do que isso, Loki fica de joelhos diante de mim.

Meu coração já está quase saindo pela boca por entender o que isso significa, quando o dito cujo expõe taxativo:

— Aquilo não foi um pedido de casamento de verdade. Porque agora é. Eu não estava falando sério antes. Agora estou. — Loki faz uma pausa enquanto me encara de um jeito profundo e certeiro. Por fim, um leve e cretino sorriso surge em seus lábios, e ele arremata: — Olivia Mills, midgardiana nada desprezível, tormento, bálsamo. Você quer, realmente, ser minha para sempre?

De súbito, não estou mais com raiva ou magoada. Entendo perfeitamente o que o gafanhoto quis dizer. Ele quis consertar e fazer um pedido digno, já que aquele que fez ao meu papi soberano foi mesmo muito prático e uma forma de colocar panos quentes no flagra constrangedor.

Apesar de compreender o que está acontecendo agora, fico incrédula com a imagem aos meus pés mesmo assim. Levo as mãos às bochechas e solto:

— Mano do céu! Você está de joelhos! É isso mesmo, produção? Socorro!

Esboçando uma discreta versão da cara de limão azedo que tanto amo, o trapaceiro irresistível resmunga:

— Se você contar para alguém...

— Imagina! Nunca! Que isso, chuchu? Você me conhece, minha boca é um túmulo — minto na maior cara de pau, pois é claro que eu vou espalhar esse momento para Deus e o mundo.

Impaciente e ansioso, ele me lembra:

— Túmulo ou não, uma resposta viria bem a calhar agora.

Fico em silêncio só por um segundo. Um segundo que parece uma eternidade. Um segundo que me leva ao começo dessa história e a esse final.

— Só existe uma resposta possível para essa pergunta, gafanhoto.

Com uma certeza gritando dentro de mim e o coração mais acelerado do que nunca, faço um gesto com a mão para que Loki se levante do chão. Quando ele acata e se põe de pé de novo, espalmando seu cosplay de gafanhoto asgardiano para se recompor, jogo meus braços em volta do seu pescoço. Olhando nos seus olhinhos esmeralda de noite serena, afirmo:

— Sim.

Não consigo conter um sorriso quando o olhar do dito cujo brilha de um jeito inegável. Visivelmente satisfeito e feliz, mas incapaz de dar o braço a torcer, Loki trapaceia com as palavras:

— Ótimo porque, para registro, eu só fiz essa cena para que você acreditasse que tinha alguma escolha. Você já é minha.

— E você já é meu, tolinho — afirmo, igualmente convencida. — Ah! Mas para registro, você me deve um anel de noivado.

É, ao que parece, o Deus da Trapaça não teve tempo de pensar nesse detalhe. No fundo, não me importo, só estou retribuindo a alfinetada.

Paro de pensar nisso quando, parecendo inconformado por não ter um anel para formalizar o compromisso, ele retira do próprio pescoço, sob a roupa, o colar com pingente de coração que lhe dei no Natal. Aquele com minha foto dentro e um desenho super fofo de um gafanhoto na outra metade.

Com cuidado, Loki o passa pela minha cabeça. Depois, me encara, causando um rubor imediato no meu rosto.

Abaixo o olhar e seguro o coração dourado entre meus dedos com carinho. Depois, volto a atenção para a tampa da minha panela e digo em tom divertido:

— Por enquanto, serve.

Agora sim. Acho que chegamos ao final da história. Ou talvez falte uma coisa para fechar com chave de ouro. Mais um beijo?

Eba, isso mesmo! Minha piriguete interior se anima e simplesmente parto para o ataque de novo. Sou correspondida à altura com muito calor, é claro. Aquela carinha...

Com licença e obrigada.

Por hoje é só, pessoal!

Notas finais
Faço minhas as palavras de Olivia Mills, por hoje é só! Confesso, para os devidos fins, que quando disse que tinha muita água para rolar ainda, eu estava mentindo só para não contar que o próximo capítulo seria o último. Rá! Espero que tenham gostado da história e do final que dei a ela. Lokivia se acertou definitivamente, com direito a flagra constrangedor kkkkk E com direito a pedido de casório de joelhos (essa foi a minha vingança contra o gafanhoto por, inúmeras vezes, ter ordenado que o mundo ficasse de joelhos perante ele. Toma, distraído! Mano do céu!) Fiquei muito happy por ter conseguido encaixar os Guardiões da Galáxia de alguma forma. Foram participações rápidas, mas eu precisava que a Olivia conhecesse essas figuras e fizesse suas olivices kkkkkkk Bem, conforme vocês devem ter percebido, Lokivia precisará ficar fora do radar por uns tempos enquanto a poeira não abaixa. E ao invés de um lar definitivo, optei por fazê-los estar em toda parte, seja em Midgard, Asgard, Spartax, Nárnia, Whatever. O mais importante, Lokivia sempre estará no meu coração e, espero eu, no de vocês também, chuchus! Há muitas coisas que eu queria falar nesse momento, mas me faltam palavras. Como ainda não é o fim mesmo (oi?) vou deixar para me despedir oficialmente desta história nas notas do próximo capítulo (cuma?). Isso mesmo, teremos um bônus. Ou vocês acharam mesmo que eu ia encerrar a fic assim? Sem mostrar o casório e os filhotes desses dois? Tolinhos! Por enquanto, beijos de luz! PS: O momento dois beijinhos do Tony foi inspirado nessa cena, claro: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/4b/77/96/4b77960417a2feba31ab99c0461eb3b5.gif PS2: Pretendo postar o bônus no dia 12/06, por motivos óbvios.