Trapaças do Coração
17 O rei da cocada preta
Notas iniciais
Só tem uma coisa que me irrita mais do que bater o dedo mindinho nos móveis. É quando eu solto uma bomba, digo algo realmente importante e tudo o que recebo em troca é uma impassível cara de paisagem. No meu caso, há sete delas me encarando — lê-se os Vingadores e Phil Coulson — depois que expus meu plano para pregar uma peça na Hydra.
Ao contrário de mim, Loki parece se divertir com a falta de reação de todos. Mas como estou cansada de esperar, batuco os dedos sobre a mesa e disparo:
— Digam alguma coisa, criaturas. É falta de educação deixar alguém tanto tempo no vácuo.
Os heróis e o Diretor da S.H.I.E.L.D. se entreolham, como se estivessem decidindo quem irá se pronunciar primeiro ou como se não soubessem o que dizer. Tenho quase certeza que está mais para a segunda opção.
Estou quase abrindo a boca de novo, quando Tony Gênio Bilionário Playboy Filantropo Stark limpa a garganta e questiona:
— De quem partiu essa ideia... brilhante?
Ignoro o tom irônico, troco um rápido olhar com Loki e respondo:
— De mim, apenas de mim, o gafanhoto não teve nada a ver com isso. Na verdade, ele fez bastante doce antes de concordar com ela.
— E por que ele mudou de ideia? — é a vez do Gavião Arqueiro indagar, intrigado.
A fim de evitar uma possível discussão e também para preservar o Deus da Trapaça de uma exposição constrangedora acerca de seus sentimentos por mim, sou evasiva:
— Ele teve seus motivos.
Apesar de eu não ter entrado em detalhes, o Homem de Ferro parece conhecer muito bem a peça diante de si, já que deduz com o olhar cravado em Loki:
— Claro, nos provocar, presumo. E inflar o próprio orgulho, com certeza.
De repente, não quero mais preservar a imagem indiferente e fria que o Deus da Trapaça faz questão de manter perto dos Vingadores e ressalto cheia de mim:
— Ei! Me dê um pouco de crédito também, Homem de Lata. Eu tenho o meu charme.
É batata! Dito e feito! Incomodado com a exposição, o trapaceiro irresistível se mexe desconfortavelmente na cadeira e tenta desconversar:
— Midgardiana...
Para seu desespero, Steve o interrompe e o expõe ainda mais ao concluir:
— Oh... Ele está fazendo isso por você.
— Que fofo — Stark provoca e arremata fazendo um coraçãozinho com as mãos.
Não consigo conter um sorriso de concordância e balbucio orgulhosa:
— Não é?
Tudo seria perfeito se o assunto tivesse terminado aqui e partíssemos para os detalhes do plano em si, porém a Dona Aranha resolve ir mais além, volta-se para o Deus da Trapaça e solta a máxima:
— Isso é amor, Loki?
Engulo em seco e mentalizo um buraco embaixo dos meus pés. Minha vontade é pular dentro dele e desaparecer. Me julguem, mas a palavra amor faz meu rosto corar automaticamente. É uma palavra tão forte e com tanto significado. Tudo bem, o gafanhoto significa muito para mim, mas não precisamos dar nomes aos bois, certo? Eu podia ter ficado sem essa, agente Romanoff. Com certeza, Loki também já que, quando ergo meu olhar, ele parece desnorteado com a gracinha que a Vingadora diva soltou, mas disfarça prontamente.
— Eu entendi a referência! — o Capitão Porto Rico dispara de repente, sorrindo.
Com isso, percebo que Natasha não disse tal coisa aleatoriamente, como eu havia imaginado a princípio. Ao que tudo indica, ela devolveu na mesma moeda algo que o deus trapaceiro lhe disse em algum momento do passado.
Quando Clint sorri discretamente para sua girl magia e segura sua mão sobre a mesa, tenho certeza que era algo referente aos dois. Com certeza Loki, perspicaz como é, percebeu uma conexão entre eles antes de todo mundo.
Sentindo-me menos desconfortável com o papo romântico, ouço Loki desconversar a fim de retomar o foco da conversa e sair por cima da carne seca:
— Eu só estou tentando ajudá-los a resolver algo que, claramente, vocês não têm competência para solucionar sozinhos.
E assim, de repente, não mais que de repente, o tempo fecha e o clima fica pesado. Nem os Vingadores nem Coulson parecem ter gostado de ouvir isso.
Sentindo a tensão tangível no ar, chuto a perna do trapaceiro abusado embaixo da mesa, fazendo com que ele se encolha um pouco. Enquanto ele me lança um olhar insatisfeito, tento consertar:
— O que Loki quis dizer é que está tentando contribuir de alguma forma. E em nome da trégua, espera que vocês ao menos considerem uma parceria para dar uma rasteira na Hydra. Certo, benzinho?
Loki não responde, mas também não nega. Não tem tempo nem para uma coisa nem para outra, pois Coulson se manifesta antes disso:
— Não dá para negar que é uma boa ideia. Claro, eu sei que é pedir muito dado o nosso passado com Loki, mas Olivia está certa, nós deveríamos considerar a ajuda. Pode ser uma boa forma de atrair a Hydra e descobrir o que Von Strucker planeja. Talvez funcione.
Enquanto Steve, Clint, Natasha, Bruce e Thor assimilam o plano e ficam mergulhados em pensamentos com expressões indecifráveis, Stark, visivelmente insatisfeito, discorda na lata:
— Como?
Ele é o único Vingador que parece P da vida com a ideia de uma parceria com o Deus da Trapaça. Os demais membros do time permanecem em silêncio. Não com raiva, também não contentes, apenas pensativos. Com certeza ainda remoem o ataque a Nova York protagonizado por Loki há três anos, todavia devem estar pesando os prós e contras de um possível trabalho em equipe agora. No fundo, eles devem saber que, apesar de contrariar suas naturezas, este é um bom plano sim.
Confirmando isso, Bruce finalmente se posiciona a respeito:
— Bem... Eu sei que será complicado e que nenhum de nós estará 100% feliz com a situação, mas... eu acho que vale a pena tentar.
Bruce Banner: o fofo. Como se não bastasse ser o primeiro Vingador a relevar o passado e se focar no presente, ele ainda argumenta:
— Não só em nome da trégua, mas principalmente porque é da Hydra que estamos falando. Qualquer artifício que pudermos usar contra ela é válido.
— O quê? — Stark, por sua vez, continua indignado e levanta-se da cadeira. — Eu bebo e é vocês que perdem o juízo? — Ele cruza os braços e volta-se para Steve: — Cap, palavras de sabedoria, por favor?
O velhote sarado não se manifesta prontamente. Ao invés disso, pensa mais um pouco e olha para cada um de nós primeiro, demorando-se alguns instantes a mais entre mim, Loki e Coulson. Só então apoia as mãos sobre a mesa e diz com calma e firmeza:
— Desculpe, Stark, mas a verdade é que isso está muito acima do nosso passado com Loki. É uma chance contra a Hydra, inimiga número 1 não só da S.H.I.E.L.D., mas do mundo também. E nós lutamos por ele, lembra?
Enquanto meu chefinho lança um olhar apaixonado para Steve Rogers — digo, um olhar de admiração —, o Homem de Lata retruca:
— Sim, eu lembro. Mas eu insisto, por que aceitar a ajuda dele? — Indicando o meu gafanhoto magia, completa: — Eu quero dizer, vocês vão conseguir confiar nele? Sem ofensa, Homem Rena, eu imagino que você esteja louco para ajudar, mas acontece que nós já temos um time aqui. Nós temos o Hulk, lembra dele?
Sim, a última parte foi uma provocação e tanto. Mesmo relativamente longe do gafanhoto posso sentir que ele fica tenso com a menção ao Verdão. Porém, logo rebate a afronta, dizendo de um jeito sonso:
— Engraçado, tudo isso parece inútil sem algo que apenas eu posso conseguir. A localização exata de Von Strucker e de sua possível base secreta.
— Contando com a vitória antes do tempo? — Tony critica, estreitando o olhar na direção dele. — Nós nem sabemos se daria certo te usar como isca ou se você seria convincente como Olivia Mills.
Ao ouvir isso, lembro-me do que presenciei em Asgard em minha última visita, solto uma gargalhada e deixo escapar:
— Algo me diz que ele será bem convincente como eu, sim.
Criar ilusões holográficas minhas e se passar definitivamente por mim é quase a mesma coisa. Além disso, ninguém me conhece tão bem quanto Loki. Com certeza, vai se sair muito bem no papel de Olivia Mills. Se duvidar, ganha até o Oscar de melhor ator, rá!
Como se tivesse lido meus pensamentos, Thor finalmente abre a boca e rebate o argumento de Stark:
— Bem, eu tenho que concordar com a Olivia. Loki é mestre em criar ilusões. É totalmente capaz de enganar a Hydra fazendo-se passar por ela.
Sentindo-se o rei da cocada preta, o gafanhoto esboça um sorriso displicente e agradece calmamente:
— Obrigado, irmão. Muita gentileza da sua parte ressaltar meu talento nato.
Antes que esta criatura se gabe ainda mais, o Deus do Trovão pigarreia e ressalva:
— E quanto a dificuldade em confiar nele, lembrem-se como Loki ficou transtornado e tomado pela raiva quando Olivia quase foi raptada. Sinal de que se importa e fará qualquer esforço para nos ajudar com a Hydra.
Me julguem, mas desta vez sou eu que me sinto a última bolacha do pacote. Sorrindo de orelha a orelha, encaro Loki de um jeito convencido, pois sei que Thor tem toda a razão. Esse foi o motivo mais forte para que o trapaceiro irresistível concordasse com meu plano, no final das contas. Por mais que diga a si mesmo e para o resto do mundo que está se propondo a fazer isso apenas para provocar os Vingadores e ter o seu valor reconhecido, até as pedras da rua sabem que o buraco é mais embaixo.
De forma previsível e fazendo pouco caso, ele desconversa:
— Essa parte foi dispensável. Você não precisava...
Meu cunhado não lhe dá chance de prosseguir com a lorota e retoma de forma pragmática:
— O que eu quero dizer é: confiem na raiva de Loki. — Depois de uma rápida, porém significativa, troca de olhar entre os dois, Thor acrescenta: — E em mim, é claro. Se ele falhar com vocês, eu dou minha palavra que Loki nunca mais pisará em Midgard de novo.
Meu sorriso se esvai e eu arregalo os olhos diante da proposta do top model asgardiano. Não gosto nem um pouco do que ouço, mas logo entendo que ele só diz isso para tranquilizar seus companheiros de equipe. É um joguete, psicologia reversa, algo assim. Prova disso é que Thor pisca discretamente para mim e finaliza:
— Mas se a missão for um sucesso, como eu acredito que será, nós vamos festejar a vitória juntos e selar a trégua de uma vez por todas. O que vocês me dizem?
Coulson, Steve e Bruce, que já concordaram com a parceria, limitam-se a assentir brevemente, enquanto Lady Marian e Robin Hood se entreolham.
— Agente Romanoff? Barton? — Tony os convoca, fazendo com que ambos voltem-se para ele. — Vocês são minha última esperança.
Longos instantes se passam, até que Clint finalmente dá o seu aval:
— Cara, isso não me deixa nada contente, de maneira alguma. Mas como Steve disse, certas coisas estão acima das nossas diferenças com Loki. Então, eu estou dentro.
— Sinto muito, Stark. — Natasha se desculpa de antemão. — Não é o ideal, mas... é uma possibilidade. Eu concordo com os outros, a Hydra é o verdadeiro problema, vamos nos concentrar nela.
Apesar de ser o único que discorda do plano e aparentar certo aborrecimento com os demais Vingadores e Coulson, Tony não tenta convencê-los a desistir. Ao invés disso, termina a sua bebida com um longo gole, olha para todos nós por algum tempo e encerra o assunto por ora:
— Ao contrário do que muitos pensam, eu sei reconhecer uma derrota. E como membro desta equipe, eu estou com vocês. Só espero que isso dê certo e que seja mesmo uma boa ideia confiar no Homem Rena porque, bem... Vocês sabem como eu ia odiar dizer "eu avisei" no final de tudo, hum?
Captando o sarcasmo implícito, Coulson assente em nome de todos:
— Nós podemos imaginar.
Eu poderia ficar com raiva do Homem de Ferro, mas, surpreendentemente, não fico. No fundo, acho que entendo o seu receio. No fundo, sei que cada membro dos Vingadores, e cada um do seu jeito, também não se sente 100% confortável com essa situação.
Deve ser complicado deixar o passado de lado e apostar as fichas em uma empreitada contra a Hydra ao lado do Deus da Trapaça. Com certeza, os heróis devem imaginar que Loki os trairá em algum momento e se juntará ao inimigo.
Eu entendo, juro que os entendo, sei que lhes pedi demais. Contudo, acredito em Loki, tenho fé no dito cujo e sei que ele quer dar essa rasteira na Hydra tanto quanto eles. Por isso, acredito que tudo vai dar certo, acredito que as diferenças serão vencidas e o passado superado.
E que Nossa Senhora Protetora das Midgardianas Híbridas Esperançosas diga amém.
Horas depois...
Não consigo dormir. Simplesmente não consigo. Toda a conversa entre mim, Loki, Coulson e os Vingadores mais cedo, inclusive alguns detalhes sobre a execução do plano — que acertamos depois que Stark por fim concordou com ele —, ecoam em minha mente ansiosa, me impedindo de pregar os olhos.
Se pelo menos o trapaceiro irresistível estivesse aqui para aquecer os meus pés, talvez eu relaxasse e me desligasse do mundo — aquela carinha, rá!
Infelizmente, ele não está.
Não fiz nenhuma objeção quando Tony Stark anunciou que havia providenciado um quarto específico para o deus trapaceiro. Eu poderia encarar como uma provocação ou recalque de sua parte, mas achei melhor dar uma colher de chá para o Homem de Lata.
Então argumentei com o gafanhoto que estamos sob o teto do dito cujo e já exigimos demais do coitado por hoje. Portanto, não custa nada demonstrar que estamos dispostos a ceder um pouco também. Colaborar para o bom convívio é chato, porém necessário para a harmonia da casa.
Ainda agitada, reviro-me na cama e procuro uma posição confortável. Mas de nada adianta. Quando dou por mim, já estou fitando o teto com os olhos arregalados de novo e balançando os pés constantemente.
É então que me pego matutando sobre um detalhe importante que não conseguimos definir durante a reunião. Como exatamente iremos atrair a Hydra até Loki versão cosplayer de Olivia Mills?
Em virtude do meu “quase rapto”, a organização do mal deve saber muito bem que passo a maior parte do tempo reclusa na Torre ou em alguma base ultra secreta da S.H.I.E.L.D. Então, se Loki, passando-se por mim, simplesmente aparecer na Times Square com uma melancia no pescoço, com certeza os agentes da Hydra, que de certo ainda estão por perto, irão desconfiar que se trata de uma armadilha e não vão morder a isca.
Isso significa que precisamos de uma desculpa perfeita para que eu apareça em público. Mas qual?
Para piorar minha insônia, pego-me preocupada com o gafanhoto. Por mais que seja poderoso e naturalmente trapaceiro, ele estará interpretando um papel e, portanto, vulnerável.
E se a Hydra conseguir machucá-lo de alguma forma? E se localizar o rastreador que a S.H.I.E.L.D. pretende implantar em seu corpinho esbelto? E se algo der muito, muito errado durante a missão?
Antes que eu me arrependa de ter sugerido o plano, afasto o cobertor e pulo da cama, repetindo em pensamento que vai ficar tudo bem e que não há por que me preocupar tanto com Loki.
Enfio os pés nas minhas novas pantufas dos Minions — já que as antigas ficaram em meu saudoso cafofo — e saio do quarto. Sigo pelo corredor, entro no elevador e logo estou a poucos metros da cozinha. Assaltar a geladeira deve me acalmar.
Não esperava encontrar ninguém aqui, mas quando empurro a porta, vejo Bruce de costas para mim e diante do balcão mais a frente. Aparentemente, ele não notou minha presença, já que a porta não fez qualquer ruído quando a abri. Além disso, com as pantufas fofinhas que estou desfilando é impossível ouvir meus passos. Para completar, o alter ego do Incrível Hulk está escutando música com fones de ouvido — daqueles bem modernos e gigantes que isolam qualquer ruído exterior e dão a impressão que você está em um show, ao lado do cantor, fazendo backing vocal.
Me julguem, mas tudo isso me leva a ter uma ideia marota e não resisto — preciso aprontar uma com meu amigo, rá!
Sorrateiramente e tentando não rir, me aproximo e espio por sobre seu ombro a fim de descobrir o que ele está fazendo.
— Veja só! — digo bem alto. — Bruce Banner come chocolate! Estou chocada!
O susto que a criatura fofa leva é tão espontâneo e genuíno que, por um momento, me sinto culpada. Mas logo não resisto e caio na risada, enquanto ele se desvencilha dos fones e se volta para mim com os olhos meio arregalados.
— Você não vai ficar verde por causa de uma brincadeirinha inocente, vai? — Sem cerimônia, afano um tablete da guloseima e levo à boca.
— Não se preocupe, o Outro Cara está de bom humor.
Notando uma ruga de preocupação em sua testa, digo:
— Mas você parece tenso.
Tenho a impressão que Bruce vai dizer alguma coisa, mas então desiste, como se fosse meio óbvio.
Penso um pouco, recapitulando os últimos acontecimentos, e concluo de um jeito mais sério:
— O que é perfeitamente justificável em virtude do dia de hoje, desculpe. Bem, agora sou eu quem te digo: não se preocupe. Vai dar tudo certo. Ah! E obrigada por dar um voto de confiança ao gafanhoto. Significa muito para mim.
— Claro. — Banner esboça um discreto sorriso.
Analiso-o por alguns instantes, estranhando o fato dele estar tão monossilábico e fechado, porém logo deduzo o motivo. Acho que ele está se lembrando da nossa conversa antes da minha visita a Asgard. A fatídica conversa sobre minha melhor amiga.
Não posso negar que estou curiosa para saber os detalhes do babado e que é uma boa forma de me distrair da missão que se aproxima, mas decido inserir o assunto aos poucos para que ele não fuja. Então pego os fones, aproximo da minha orelha e escuto um pouco.
— Humm, música clássica.
— Ajuda a relaxar — meu amigo diz, enquanto eu coloco os fones de volta no balcão.
Limpo a garganta e prossigo despretensiosamente:
— Sabe, a Amy também costuma ouvir música para aliviar a tensão. Só que ela prefere um bom rock.
— E funciona? — Bruce questiona, curioso e com certa inocência, dando indícios de que ainda não entendeu o que estou querendo saber.
— Claro que não. Mas pelo menos, ela fica agitada por outro motivo.
Rio um pouco ao pensar em minha amiga e, aos poucos, estabeleço um contato visual mais incisivo com Bruce. Com isso, ele finalmente parece perceber minha intenção e tenta desconversar:
— Oh, não... Você está com aquela cara.
Faço-me de desentendida e retruco:
— Que cara?
O alter ego do Hulk franze o cenho e responde com um palpite:
— Aquela de que vai perguntar algo que certamente eu preferia não responder.
Certo, esqueçam o lance de inserir o assunto aos poucos e deixá-lo à vontade primeiro. Claramente, não está funcionando. Então sorrio e vou direto ao ponto:
— Eu sei que você ligou para ela. Digamos que um passarinho verde me contou. A questão é: você gostou de conversar com a Incrível Amelia Prescott?
Faço questão de frisar a forma como Bruce se referiu a minha amiga no presente que lhe deu. Ele coça a nuca, visivelmente acuado com a menção ao seu gesto de fofura extrema.
— E lá vamos nós... — balbucia, talvez tentando ganhar algum tempo.
Não lhe dou tal chance e indago:
— Sobre o que exatamente vocês prosearam, hein?
— São duas perguntas.
Ignoro sua observação e disparo um interrogatório inflamado:
— Contou quem você é? Como ela reagiu? Pretende ligar de novo? Sair qualquer dia desses para tomar uma xícara de café? Já se adicionaram no Facebook? Conte-me tudo, não me esconda nada, chuchu.
Diante da minha empolgação, Bruce ergue as mãos na altura do peito e pede:
— Olivia. Acalme-se.
Solto a respiração — que nem lembrava de ter prendido — e procuro relaxar enquanto Bruce me analisa e, claramente, controla certa vontade de rir de mim.
— Desculpe, foi só um surto de curiosidade. E como a criatura fofa que é, você não vai me deixar sofrendo assim, vai?
Bruce me encara desconfiado e parece mesmo relutante em falar deste assunto comigo. Contudo, diante do meu olhar suplicante e meigo do Gato de Botas, expira sonoramente e se rende:
— Eu liguei e nós conversamos, sim. Principalmente sobre o Hulk, de quem Amy parece ser mesmo uma grande fã. O que, honestamente, eu não compreendo muito bem. Eu não revelei meu nome verdadeiro, mas, sim, ela sabe que conversou com o alter ego do Outro Cara. Foi... bom. Eu quero dizer, foi ótimo falar com alguém que o admira, sem pressão, sem julgamentos. E Amy é...
Ele para de falar de repente e fica meio distante, como se estivesse se lembrando de alguma parte da conversa ou talvez de tudo. Com um olhar indecifrável e soando bem sincero, completa o raciocínio:
— Ela é, sem dúvida, uma pessoa incrível e... doce. E divertida, devo dizer.
Quando Bruce finalmente volta à realidade e percebe que estou o observando fixamente — surpresa devido aos elogios fofos tecidos a minha amiga —, apressa-se em mudar de postura e anuncia meio nervoso:
— E é por isso que é melhor eu não ligar mais. Não daria certo de qualquer forma.
— Ei! O que você está falando, menino? Por quê? — questiono, piscando algumas vezes.
Após alguns instantes em silêncio, Bruce volta com o discurso que já havia proferido antes, quando eu lhe dei o telefone de Amy e o aconselhei a conversar com ela, expondo pausadamente:
— Eu não tenho nada para oferecer, Olivia. A não ser o risco de se aproximar demais de mim e uma provável decepção no final. Amy é jovem, bonita, inteligente e tem a vida inteira pela frente. Eu não consigo imaginar como se beneficiaria de uma... amizade com o Incrível Hulk.
Minha vontade é de estapear meu amigo até sua autoestima dar sinais de vida e ele parar de fazer doce.
Eu até entendo que Bruce se sinta assim, mas ele tem que aprender a se dar mais valor, a ser mais otimista e a não usar sua condição para afastar as pessoas. Pensando em tudo isso, tento abrir seus olhos:
— Você está tão enganado, Bruce Banner. Você tem tanto a oferecer, mas está tão cego pela criatura verde aí dentro, que não é capaz de enxergar o quanto é precioso. — Faço uma breve pausa, enquanto ele fica pensativo, e emendo: — Além disso, Amy é uma mulher adulta e vacinada. Você devia parar de tratá-la como um cristal, deixar que ela te conheça melhor e decida por si só se quer correr alguns riscos por você ou não.
Bruce abre a boca para dizer mais alguma coisa desnecessária sobre si mesmo, mas todo esse papo sobre Amy acaba me dando um estalo. De repente, me lembro de algo elementar e exclamo surpresa comigo mesma:
— Virgem Santa! Eu sou uma péssima amiga! Como pude me esquecer?
Sem entender patavinas, Bruce Fofo Banner indaga:
— O que foi?
Sem rodeios e enquanto uma ideia óbvia surge em minha mente, torno a olhar para ele e revelo:
— Amy vai fazer aniversário na semana que vem. Com certeza vai querer comemorar de alguma forma. Todo ano, Josh pensa em algo. Da última vez, nós fomos a um karaokê. Nossa! Como eu cantei Britney Spears naquela noite...
A ideia ganha forma e conteúdo à medida que penso mais a respeito dela. Sob hipótese alguma quero colocar Amy ou Josh em perigo, mas, convenhamos, apenas por serem meus amigos, eles já estão em constante risco. Nossa amizade os tornaram alvos, mas talvez eu possa reverter isso, usando essa mesma amizade a nosso favor.
Desde o ataque de Grant Ward, agentes da S.H.I.E.L.D. têm ficado por perto para assegurar que a Hydra não irá usá-los para chegar até mim. Entretanto, e se formos mais espertos do que a organização do mal? E se redobrarmos a segurança em torno dos dois ao mesmo tempo em que fingimos abaixar a guarda? E se usarmos essa oportunidade para que Loki prove o quanto pode ser convincente se passando por mim?
— Olivia, eu não estou entendendo...
Bruce me desperta com suas palavras e eu finalmente exponho o que estou matutando:
— Comemorar o aniversário da melhor amiga é um bom pretexto para Olivia Mills sair da toca, você não acha? É uma ótima forma de atrair a Hydra para uma armadilha.
Depois de absorver minhas palavras e pensar por alguns instantes, ele admite:
— É um bom plano. Mas depois que a Hydra morder a isca, Amy precisa ir para um local seguro até tudo terminar. Só por precaução.
Arqueio as sobrancelhas quando ele deixa escapar que se importa mesmo com a segurança dela e asseguro:
— Eu não aceitaria de outra forma. Ela e Josh devem ficar seguros e longe disso até tudo acabar.
Talvez querendo evitar que eu tire conclusões precipitadas sobre sua preocupação com minha amiga, Bruce rapidamente acrescenta:
— Sim, com certeza, eu também estava falando sobre Josh. Eu posso acertar os detalhes com o Coulson. Na verdade, eu vou fazer isso agora mesmo.
Bruce faz menção de deixar a cozinha e sair pela tangente, mas detém o passo quando ambos notamos Loki parado diante da porta.
Não sei há quanto tempo ele está aqui, mas provavelmente escutou minhas últimas palavras e deduziu qual será a sua participação nisso.
— Ótimo! — Ele coloca as mãos para trás, empertigando-se como um pavão, e completa com um tom sarcástico: — Passar algum tempo na companhia agradável dos seus amigos midgardianos insolentes era tudo o que eu queria. Mal posso esperar por isso, tormento.
Sim, o gafanhoto matou mesmo a charada. E apesar da ironia, parece aprovar minha ideia.
Corram para as colinas porque a hora de colocar o plano A em prática está chegando...
Fale com o autor