Notas iniciais
Oi! Nem demorei desta vez, né? Cheguei com o capítulo pov Loki se passando por Olivia Mills. Pelo relógio do Ben 10, preparem-se! Quero dedicá-lo a todos que não abandonaram o barco, aos novos marujos que subiram a bordo e à milenaasantoss pela recomendação! Muito obrigada, chuchu! E muito obrigada a todos que acompanham a fic! Boa leitura!

Impaciente, estreito o olhar na direção de Bruce Banner, a fim de lembrá-lo que ele já estava de saída. Afinal, ouvi muito bem quando ele disse que transmitiria a Phil Coulson mais uma ideia genial que o tormento acabou de ter e acertaria alguns detalhes.

Me julguem, mas eu fiquei incomodado quando adentrei a cozinha midgardiana de Stark e encontrei Olivia conversando tão intimamente com o alter ego da besta verde. Longe de ser ciúme, é claro, apenas incomodado com a ideia de dividir a atenção do tormento com mais alguém.

Finalmente entendendo o meu recado, o Dr. Banner se despede de Olivia com um meneio de cabeça, passa por mim lançando-me um rápido olhar e nos deixa sozinhos.

Aparentemente, ele quis evitar um atrito desnecessário. O que, de certa forma, me surpreende e me leva a crer que a trégua pode mesmo estar virando algo sério por aqui. Quem diria?

— Bruce Banner é meu amigo. Assim como todos os Vingadores — Olivia sentencia repentinamente, despertando-me para a realidade. Em seguida, caminha até mim, joga os braços em volta do meu pescoço e acrescenta com um leve sorriso: — Você é o meu boy magia.

Mais plácido diante do seu argumento, que me lembra o quão importante e essencial sou para ela, porém incapaz de me expor sobre minha postura anterior, faço-me de desentendido:

— Eu não disse uma palavra.

O tormento de pantufas ridículas me analisa por alguns instantes, enquanto eu deduzo o que está pensando.

— Eu sei, só quis lembrá-lo, chuchu. — Ela pisca para mim.

De certo, eu não consegui esconder minha insatisfação diante da cena que presenciei e Olivia supôs que eu estava com ciúme de sua amizade com Banner.

Abro a boca para assegurar que ela está sendo completamente ridícula, mas a criatura convencida se afasta e segue rumo ao balcão enquanto muda de assunto:

— Então... O que você disse mesmo sobre os meus amigos? Midgardianos insolentes, hum? É bom rever os seus conceitos, gafanhoto, porque, como Olivia Mills, você terá que ser um verdadeiro doce com os dois ou eles irão desconfiar, e a Hydra pode descobrir a farsa antes da hora.

— Não se preocupe, eu serei um verdadeiro doce — asseguro, contendo um sorriso travesso enquanto me aproximo dela sorrateiramente.

Olivia ri da minha promessa e, distraída, volta-se em minha direção. Enquanto leva um pedaço de chocolate à boca, seu corpo se choca com o meu e ela fica visivelmente encabulada com nossa proximidade.

Regozijado diante da reação natural e inevitável que lhe causo, endireito a postura e mantenho o teor profissional apenas para provocá-la:

— Então, como isso vai funcionar exatamente? O que eu preciso saber sobre aqueles dois seres imensuravelmente encantadores? Sobre o que vocês conversam quando estão juntos? Além do seu fascínio por mim, é claro.

Meu último comentário causa uma reação imediata, cortando o clima no ar. O tormento pisca algumas vezes, voltando à realidade, cruza os braços contra o peito, ri sem humor e alfineta irritada:

— Menos, gafanhoto. Eu não falo de você para os meus amigos.

Antes que ela prossiga, aproveito a deixa e a incito novamente:

— Mas fala alguma coisa.

Olivia engole em seco, o que me deixa subitamente curioso. De repente, estou ansioso para me aproximar de fato de Josh e Amy e descobrir o que Olivia Tormento Mills fala de mim aos dois. Será deveras interessante usar essas informações ao meu favor no futuro e constrangê-la de alguma forma com isso.

Provavelmente temendo uma exposição de seus sentimentos e confissões acerca de mim, a midgardiana fecha a cara e propõe incomodada:

— Vamos nos concentrar na missão, tudo bem?

— Certamente.

Seguro sua mão no ar quando ela pega o próximo pedaço de chocolate. Levo-o à minha boca, lhe tomando o doce de um jeito demorado e com o olhar fixo no seu, fazendo Olivia engolir em seco mais uma vez.

Seu olhar oscila e ela entreabre os lábios, desconcertada. Nossa proximidade é tão mínima que sinto sua respiração irregular em meu rosto e seu pulso mais quente e acelerado entre meus dedos.

Com certeza, Olivia se lembra de um momento parecido com esse e do que imagino que sentiu naquela época.

Sei disso porque jamais esqueci o que aquilo me despertou também. O que Olivia Mills me desperta até hoje, aliás. A mesma coisa que me impediu de permanecer no aposento desprezível cedido por Tony Stark para meus próximos dias na Torre. O mesmo instinto que me impediu de resistir e me fez vir a sua procura esta madrugada...

Minha tática funciona perfeitamente — o que já era de se esperar, é claro. Com o rosto ligeiramente ruborizado, Olivia olha de um lado para o outro, a fim de confirmar que continuamos sozinhos e não há ninguém por perto nos ouvindo, e então sussurra:

— Tudo bem, no meu quarto ou no seu?

Arqueio as sobrancelhas, coloco as mãos para trás e, com sarcasmo, faço-me de desentendido:

— Eu pensei que algo assim contrariasse as regras de conduta do Sr. Stark.

Olivia me lança um sorriso torto e argumenta com dissimulação:

— Nós só vamos conversar sobre os detalhes da missão, chuchu. Isso não é quebrar as regras, é?

Antes que eu diga qualquer coisa, o tormento de pantufas e pijama infantil, se põe em movimento e caminha meio aos tropeços rumo à saída da cozinha dizendo:

— Simbora antes que eu desista.

Com um sorriso displicente e sabendo que estamos sim prestes a quebrar uma regra, sigo-a sem pestanejar.

E assim os próximos dias se passariam. Eu e Olivia fingindo obediência às normas da casa, Tony Stark e os demais membros da equipe fingindo que não percebiam quando nós dois sumíamos ao mesmo tempo.

Entre uma fuga e outra, minha midgardiana nada desprezível me falou sobre Josh e Amy, e como me comportar diante deles para que ambos não desconfiem de nada. Até que o grande dia finalmente chegou.

Hoje, se tudo correr conforme o planejado, a Hydra irá me levar para o seu covil acreditando que, na verdade, está de posse de Olivia Mills.

***

Já é noite quando Banner insere uma espécie de microchip sob minha pele na altura do ombro esquerdo, para que a S.H.I.E.L.D. possa me rastrear em breve.

Estamos em seu laboratório e Coulson, Romanoff, Barton, Thor, Stark e Rogers acompanham o procedimento com olhares atentos, enquanto Olivia acaba com suas unhas compulsivamente e caminha de um lado para o outro, parecendo mais apreensiva do que eles.

À medida que o momento da missão se aproximava, sua confiança e empolgação deram lugar a outra coisa. Olivia pareceu-me consternada nos últimos dias. Quase arrependida de ter sugerido tal plano, eu diria. Não vejo muito sentido nisso, porém o tormento é mesmo complicado de se entender.

— Vamos repassar alguns detalhes, Loki — o Soldadinho da América anuncia, quando Banner finalmente termina sua parte e afasta-se um pouco de mim. — Supondo que nossa suspeita esteja certa e a Hydra continue no encalço de Olivia, nós estamos diante de uma grande oportunidade de surpreender o inimigo e, por isso, todo cuidado é pouco. Von Strucker não pode descobrir o seu disfarce antes da hora. Tudo tem que transcorrer conforme o planejado.

Controlo o ímpeto de deixá-lo falando sozinho e seguir Olivia, que deixa o laboratório de repente e com passos rápidos.

Stark — que parece entediado de olhar para a minha cara — vai atrás dela logo depois, enquanto finjo interesse nas palavras do pedante Steve Rogers e nos comentários óbvios e desnecessários dos demais. Lidar com a Hydra será fácil comparado a essa verdadeira tortura.

Quando ela finalmente acaba, deixo-os sozinhos e sigo na direção que acredito que Olivia foi. Ouço sua voz à medida que me aproximo de uma sala da Torre. Diminuo o passo e permaneço oculto a fim de captar os detalhes de sua conversa com o Homem de Ferro.

— Burra! Burra! Burra! Mil vezes burra!

— Longe de mim atrapalhar a sua sessão de autoflagelação, mas por que você está se estapeando feito uma maluca, Olivia?

— Por quê?! — o tormento eleva o tom de voz, como se a pergunta de Stark fosse muito óbvia. Nervosa, ela dispara num ritmo acelerado: — Porque, honestamente, eu já não sei mais se tive uma ideia brilhante ou se tudo não passa de um plano egoísta e cruel da minha parte. Afinal que criatura, em sã consciência, manda o boy magia para o campo inimigo no seu lugar, hum? E como se isso não fosse nada de mais? Como se não fosse arriscado? E se alguma coisa sair do prumo? E se a Hydra, de alguma forma que eu prefiro nem imaginar, machucar o gafanhoto?

— Bem... — o Homem de Ferro faz uma pausa, parecendo ponderar tal cenário. — Neste caso, você teve mesmo uma ideia brilhante, Olivia. Afinal, se alguma coisa acontecer com Loki e... sei lá, o cara não voltar da missão por qualquer motivo, não será culpa dos Vingadores, certo? Ou minha. Interessante.

Aborrecida e sem ver muita graça no comentário, minha midgardiana resmunga seca:

— Você não está ajudando, Homem de Lata.

Embora seja bem divertido e reconfortante ver Olivia preocupada comigo — é muito bom saber que alguém se importa assim com a minha existência —, resolvo sair das sombras e me manifesto com sarcasmo:

— Oh... que fofa. Pensando na minha segurança e em meu bem-estar.

Dou mais alguns passos e paro no centro da sala, enquanto o tormento se volta em minha direção com o rosto vermelho diante do flagra. Há uma nuance de raiva em seu olhar em chamas também. De certo, ela está me julgando por ter ouvido a conversa.

Ignoro sua desaprovação e prossigo cheio de mim:

— Midgardiana tola, é com a Hydra que você devia se preocupar, não comigo. Eu sou Loki, de Asgard. Sempre sobrevivo.

Ainda incomodada com a situação, Olivia sorri de um jeito amargo e retruca com sua língua afiada:

— Você pode ser um deus, sobrevivente, rei da cocada preta e ter PhD em trapaças, mas não é imortal, mon amour.

Antes que eu diga qualquer coisa, Stark resolve fazer o que ele acredita que sabe de melhor — ser engraçadinho — e lança uma provocação no ar:

— Eu acho que ele quis dizer que vaso ruim não quebra. Sendo assim, você está se preocupando à toa.

Tony — Olivia diz entredentes, o repreendendo.

— Desculpe, não foi isso que ele quis dizer? Oops... erro meu então. — O ilustre herói comediante ergue as mãos em sinal de rendição e caminha rumo à saída da sala. — Eu vou deixar vocês a sós para se despedirem. E longe de mim querer apressar esse momento, mas o tempo urge, portanto, não demorem.

Quando ele finalmente se vai, coloco as mãos para trás e sorrio de um jeito presunçoso para a midgardiana a poucos metros de mim, pois é realmente um bálsamo vê-la tensa por minha causa. Também sorrio porque sei que isso a irrita profundamente. E é sempre um prazer indescritível provocar Olivia Mills aos extremos.

Provando que minha tática funciona, ela estreita o olhar com raiva e ralha sem muita paciência:

— Pode parar com a palhaçada. Nem pense em se vangloriar por eu estar uma pilha de nervos por... — Ela hesita, olha para baixo, fitando os próprios pés, e admite baixinho: — por sua causa. Que diacho!

Meu sorriso se alarga e se transforma em uma sonora risada que exala pretensão — o que deixa a midgardiana ainda mais possessa e sem graça.

Então, dou alguns passos em sua direção ao mesmo tempo em que me faço de desentendido:

— Eu só estou confuso. Não era isso que você queria, Olivia? Que eu fizesse parte do seu plano? Porque é exatamente o que eu estou fazendo.

Ela ergue o olhar e me encara por alguns instantes enquanto pensa a respeito. Por fim, expira com força e responde mais calma:

— Você está certo. Era exatamente o que eu queria. O que ainda quero.

Após uma breve pausa, Olivia dá um passo a frente, terminando com a nossa curta distância, me olha de um jeito firme, franco, e expõe todos os receios que sente quando pede sem rodeios e num tom sério:

— Só me prometa que vai dar tudo certo, gafanhoto. Pelas letrinhas verdes de Matrix, me prometa que você vai voltar logo e inteiro.

Desta vez, resolvo não provocá-la mais. Mesmo achando o seu temor sem cabimento, digo algo para lhe tranquilizar:

— Eu vou voltar mais cedo do que você imagina, tormento. E com a cabeça de Von Strucker em uma bandeja.

— Uau! Que presente romântico e fofo! — Olivia rebate com ironia, e então ressalta: — Só para te lembrar, chuchu, a S.H.I.E.L.D. precisa dele vivo. Respirando, sabe? Portanto, nada de bancar a Elsa de Frozen desta vez. Faz parte da política do lado bom da Força zelar pela integridade física dos seus inimigos. Além de uma postura ética, é questão de estratégia, afinal inimigos podem ter informações úteis.

Levo a mão ao queixo e finjo que acabei de recordar este detalhe, assentindo pensativo:

— Engraçado, eu tenho certeza que o soldadinho da América mencionou algo assim. Bem, o que posso dizer? Eu vou tentar me lembrar disso quando estiver em campo.

Claro que não me esqueci das condições da S.H.I.E.L.D. e dos Vingadores acerca da missão. Contudo, estaria mentindo para mim mesmo se ignorasse o quão difícil será seguir esta conduta.

Por que eu não posso simplesmente matar todos que surgirem pelo caminho entoando “Hail, Hydra”? Seria tão mais simples e prazeroso cortar o mal pela raiz.

Precisarei me lembrar de Olivia e de sua fé em mim quando eu estiver prestes a ceder à minha natureza sombria. Terei que resistir. Por ela. Para não desapontá-la.

— Então... acho que por hoje é só, pessoal. Digo, boa sorte.

Sua voz me desperta e torno a olhar para a midgardiana diante de mim. Ela parece sem graça de novo. Porém desta vez é como se estivesse assim porque o assunto findou e estivesse buscando coragem para fazer algo. Ou talvez esteja desejando que eu o faça.

Não sou estúpido, Olivia anseia por um beijo de despedida. Embora eu deseje o mesmo, finjo que não captei sua intenção apenas para que ela ceda primeiro.

Tenho certeza que Olivia sabe o que estou fazendo, porém parece não se importar. Sua ansiedade e urgência falam mais alto. Então ela revira os olhos com impaciência, leva meu rosto até o seu e pressiona sua boca na minha com força, causando-me certo... calor.

É o suficiente para que eu não resista mais e ceda também.

Quando dou por mim, já envolvi sua cintura com meu braços e apertei seu corpo convidativo junto ao meu. Se Olivia Mills quer algo para se lembrar de mim durante minha ausência, é exatamente isso que ela terá.

Com esse pensamento, invado sua boca com um beijo intenso, quente e demorado, segurando sua nuca com força. Mordo seu queixo com uma promessa lasciva e subentendida. Afasto-me de seu corpo trêmulo e vacilante antes que eu mesmo perca o controle.

Deixo a sala para trás vendo que o tormento em forma de midgardiana ainda está de olhos fechados. E assumo sua aparência física tão logo alcanço o corredor. Ainda consigo escutar quando ela murmura sem fôlego:

— Pelo relógio do Ben 10... O que foi isso?

Algum tempo depois...

Sei que me comprometi ao aceitar a parceria com os ilustríssimos Vingadores contra a Hydra, porém confesso que quando piso no caótico antro — lê-se boate midgardiana — onde a amiga de Olivia celebra sua efêmera existência, sinto-me tentado a desistir. Pelo menos desta parte do plano. Com certeza, deve haver outras formas de atrair a Hydra, certo?

Estou prestes a dar as costas para o cenário conturbado e barulhento a minha volta, quando a criatura que atende pelo nome de Josh surge do nada, tem a audácia de tocar em meu braço e me cumprimenta com surpresa e empolgação:

— Liv?! O que você está fazendo aqui, gata? Eu pensei que fosse arriscado sair da toca nesse momento.

Para meu desespero, o simpático Josh me abraça. Calorosamente. E sou obrigado a corresponder o gesto para que ele não desconfie que, na verdade, está diante de mim e não de sua melhor amiga. Entretanto, não sei se consigo ser convincente o bastante, já que o empurro um pouco, quebrando nosso desnecessário contato físico.

Antes que isso lhe cause estranheza, dou início a minha atuação como Olivia Mills:

— Josh... Ei! Que saudade! Pois é, eu não devia sair assim com a Hydra à espreita, mas já se passaram semanas desde o meu quase-sequestro e eu estava enlouquecendo naquela fortaleza entediante, com aqueles heróis ainda mais entediantes e patéticos...

O midgardiano franze o cenho e percebo que perdi o foco. Rapidamente, volto ao meu papel, dou um tapa no ar como o tormento costuma fazer e contorno a situação:

— Brincadeirinha, chuchu. Os Vingadores são ótimos, mas eu estava me sentindo meio sufocado... Digo, sufocada na Torre. Além disso, é aniversário da minha melhor amiga. Eu não me perdoaria se não a cumprimentasse por esse dia tão especial.

Para arrematar meu disfarce e dissipar qualquer resquício de desconfiança que esteja passando pelo cérebro limitado de Josh Prescott, sorrio largamente, como Olivia também costuma fazer quando está empolgada com algo ou simplesmente na companhia de quem gosta.

O midgardiano insolente me analisa por algum tempo e, ainda intrigado com minha aparição, diz:

— Eu espero que você saiba o que está fazendo, gata.

— Confie em mim, eu sei — asseguro sem pestanejar. E desta vez, falo por mim mesmo. — Mas me conta! E o Dr. Christian Gato Patel?

Não acredito que esta frase saiu dos meus lábios, mas eu precisava seguir com a atuação. E Olivia disse que seria importante demonstrar esse tipo de interesse para soar mais realista.

Provando que ela estava certa quanto ao conselho, seu amigo sai da defensiva prontamente. Mesmo com a confusão de luzes sobre seu rosto, vejo um sorriso surgir. Em seguida, ele coça a nuca pateticamente envergonhado e responde:

— Nós estamos tão bem que eu custo a acreditar que isso está mesmo acontecendo. Acho que eu tirei a sorte grande desta vez, Liv. — Após suspirar, o ser prossegue: — É uma pena que ele tenha ido para um congresso. Eu já estou com saudade daquele pedaço de bom caminho.

De repente, Josh para de falar e me olha com... pena? Sim, acredito que seja um olhar de piedade que ele esboça enquanto se desculpa:

— Ai meu Deus, Liv! Eu não devia falar do Christian desse jeito e nesse momento complicado... com você arrastando corrente pelo Loki. Por falar nisso, como você está?

Neste instante, me lembro que para todos os efeitos o tormento nunca foi para Asgard implorar para que eu lhe concedesse uma segunda chance ao meu lado. Portanto, os amigos de Olivia não sabem que nós nos entendemos novamente, graças a minha generosidade.

Aliás, ela quase não falou com os dois nos últimos dias. Preferiu mantê-los alheios acerca de minha estadia na Torre, para que não descobrissem minha incumbência de ajudar os Vingadores, e assim agissem naturalmente esta noite.

Volto a me concentrar no papel que estou desempenhando e respondo:

— Desolada. Diga-me Josh, como eu vou sobreviver sem o trapaceiro irresistível?

Não posso negar que é divertido me passar pelo tormento. Principalmente porque a S.H.I.E.L.D. não está apenas rastreando meus passos. Banner também implantou um tipo de nano chip em meu ouvido, algo que funciona como um amplificador, transmitindo tudo o que eu ouço — inclusive minha própria voz — para J.A.R.V.I.S. E se os Vingadores estão ouvindo essa conversa, Olivia também está.

— Gata, tem certeza que você precisa viver sem o deus malvado e gostoso no seu cangote? — o midgardiano dispara na sequência, inclinando a cabeça ligeiramente e com um leve sorrisinho. — Com todo o respeito, é claro — desculpa-se ao se dar conta dos elogios que fez.

Não me importo com eles, pois estou interessado em outra coisa que ele insinuou. Sendo assim, incentivo-o a continuar:

— Como assim?

Josh pensa por alguns instantes, apoia a mão em meu ombro e articula com certa cautela:

— Olha, eu sei que vocês têm problemas a resolver e que às vezes o cara é uma toupeira, mas... você é louca por ele. Nada pode ser mais importante do que isso que você, claramente, sente pelo bofe.

Eu poderia congelar Josh Prescott por tamanho atrevimento em me chamar de toupeira, porém, subitamente, passo a simpatizar um pouco com ele. Apenas um pouco. E apenas porque, apesar da ofensa gratuita, ele disse algo que apreciei muito ouvir. Não que eu não soubesse que Olivia Mills é completamente encantada por mim, mas é sempre bom ouvir um lembrete desses.

— Eu sou louca pelo Loki?

Quero que Josh repita isso. Preciso que ele repita. Preciso que Olivia ouça para que saiba que é irremediavelmente minha.

Seu amigo sorri e reafirma num tom óbvio:

— Você sabe que é, criatura!

Seria perfeito se Josh tivesse finalizado aí. Nem uma palavra a mais, nem uma a menos. Mas então o insolente resolve soltar um comentário bem desnecessário:

— E sabe também que a recíproca é verdadeira.

Apesar dele não ter dito nenhuma mentira, suas palavras me desconcertam. Se bem conheço Olivia, ela está esboçando um daqueles seus sorrisinhos pretensiosos e irritantes agora, como quem diz: “Conte-me algo novo.” E o pior, nesse momento ela está com os Vingadores. Todos assimilando o comentário de Josh. Todos se divertindo com o meu embaraço.

Meu sangue ferve ao imaginar a cena e tento desconversar:

— O quê? Como? O que te leva a crer que...? Veja bem...

Por um momento, esqueço-me da missão e só penso em conservar minha imagem fria e indiferente a qualquer custo. Mas antes que eu arruine tudo ou Josh desconfie dessa postura defensiva, Amy surge entre um emaranhado de midgardianos dançantes e me cumprimenta com surpresa:

— Liv! Eu não acredito que você veio!

Para meu desespero, a criatura se joga nos meus braços e me aperta por tempo demais. Sem alternativa, vejo-me obrigado a suportar. Pior, a corresponder. A ser convincente.

Pelos Nove Reinos, alguém me mate agora!

Quando a tortura finalmente acaba, sorrio forçadamente para a midgardiana, empurro uma pequena caixa contra seu corpo — o presente de Olivia — e digo:

— Feliz aniversário!

Não entendo a humanidade e essa necessidade de celebrar uma existência tão curta, quando vocês deveriam viver em estado de pânico permanente. Afinal, tic-tac...

Contudo, faço meu papel de amiga da aniversariante e sou um verdadeiro doce:

— Eu não posso ficar muito tempo. Na verdade, eu saí meio às escondidas da Torre. Ainda é arriscado, sabe? Mas eu não me perdoaria se deixasse esse grande dia passar em branco.

Amy, no auge de suas vinte e oito primaveras, faz um ruído gutural irritantemente infantil antes de me abraçar mais uma vez. Para meu azar, Josh parece ficar com ciúme, já que me envolve também.

Vendo por esse lado, não é tão divertido me passar pelo tormento. Eu queria estar morto e em Hel agora.

Uma eternidade depois, Josh finalmente me liberta de parte da tortura, dizendo que vai pegar algumas bebidas e desaparece em meio à confusão.

Segundos depois, sua irmã também rompe nosso contato e me encara de um jeito estranho. Ela aperta os lábios, hesitante, como se quisesse dizer alguma coisa, porém não soubesse exatamente como fazê-lo.

Antes que eu pergunte do que se trata, ela me poupa do trabalho:

— Não me leve a mal, amiga, mas você precisa melhorar esse sorriso forçado. Sério, está parecendo a cara de limão azedo do Loki.

Franzo o cenho por não entender em que momento deixei transparecer qualquer traço de minha personalidade, e Amy continua:

— Você sabe que eu sempre vou estar do seu lado, mas eu acho que você devia dar o primeiro passo e acertar os ponteiros com Loki de uma vez. Está na cara que você está infeliz.

Coloco as mãos para trás, endireitando o corpo, sorrio displicentemente e arrisco:

— Porque eu sou louca por ele, certo?

— Exato. — Ela revira os olhos diante do óbvio.

E neste exato instante, Amy Prescott sobe um pouco no meu conceito. Entretanto, assim como seu irmão, ela tem a audácia de dizer:

— E mesmo com aquela postura de intocável, Loki também arrasta um bonde por você. — A insolente faz uma breve pausa e depois pede: — Então pare de perder tempo e me prometa que vai pensar a respeito.

Mantendo-me no papel, sorrio forçadamente e assinto azedo:

— Você tem a minha palavra.

Amy estreita o olhar, parecendo intrigada com minha personalidade esta noite, mas não alimenta o assunto. Ao invés disso, lembra-se de algo, fica muito animada e muda o foco da conversa rapidamente:

— Ah! Eu sei que o alter ego do Hulk te pediu para não me revelar a identidade dele, e aqui entre nós, até que eu estou gostando de todo esse mistério, mas como eu não sei quando ele vai ligar novamente, será que você poderia me fazer um favor? Transmitir um recado?

Eu não tenho a mínima ideia do que esta criatura está falando. Parece que o tormento esqueceu de me atualizar acerca de alguns detalhes importantes. Afinal, como assim Amy e Banner andam conversando e ela não sabe quem ele é de verdade? Devo contar?

Limito-me a assentir com um meneio de cabeça para disfarçar minha confusão. Então Amy sorri e completa:

— Diga que eu adorei o presente.

— Qual presente?

De repente, estou muito curioso. Quem sabe eu descubra algo para atormentar Bruce Banner quando eu estiver entediado?

A midgardiana fica sem graça por alguns instantes, coloca o cabelo atrás da orelha e finalmente revela:

— Uma rosa. Eu estava caminhando no Central Park esta manhã, quando um garotinho veio correndo na minha direção e me entregou uma rosa vermelha linda. Ele disse que era um presente do Outro Cara.

Que gracioso Dr. Banner! Tenho que me controlar para não rir com escárnio diante do que ouço.

— Geralmente os caras me mandam flores para terminarem comigo, você sabe — Amy prossegue. — Nenhum deles me presenteou assim antes, sem nem me conhecer direito. Eu amei. Diga a ele, seja lá quem ele for, que eu amei? E que eu vou esperar o tempo que for preciso até que ele se sinta à vontade para sair das sombras?

Oh, Amy... Neste momento, ele já sabe disso. Todos na Torre estão ouvindo a nossa conversa. Banner deve estar procurando um buraco no chão para se esconder porque agora todos sabem o seu segredinho.

— Eu direi — respondo em tom de promessa. — Agora, infelizmente, tenho que ir. Preciso voltar antes que os Vingadores entrem em pânico por eu ter saído sozinho... sozinha.

— Tudo bem, eu entendo. Você foi mesmo maluca de vir aqui sem nenhuma retaguarda. Obrigada pelo presente e principalmente por ter vindo. — Amy me olha com tangível carinho e empatia. Em seguida, se despede: — Cuidado e vai pela sombra.

O que Olivia Mills diria e faria num momento como esse? Já sei.

— Oh, você me conhece. Cuidado é o meu sobrenome, chuchu. — Dou um tapa no ar e me afasto antes que Amy decida me abraçar mais uma vez.

Chega de tortura por esta noite. Tudo o que anseio agora é que a Hydra me encontre logo e me leve daqui o mais rápido que conseguir. Um pouco de adrenalina me fará muito bem.

Com esse pensamento, deixo o antro midgardiano com a ligeira impressão de que estou sendo observado. Depois, seguido.

Essa sensação cresce à medida que caminho pela calçada. Torna-se tangível. Sonora. Passos se aproximam enquanto eu faço meu papel de midgardiana indefesa e sigo mais rápido.

Corro. Olho para trás discretamente e acelero ainda mais desesperada ao constatar que há mesmo alguém atrás de mim.

Finjo que vou pegar o celular e clamar pela ajuda dos Vingadores, mas, desastrada como Olivia Mills é, o aparelho cai no chão. Deixo-o para trás.

Viro em uma rua sem qualquer movimento e avisto um táxi parado rente ao meio-fio. Aceno e apresso o passo rumo ao veículo.

Quando a porta se abre, sou empurrado violentamente para dentro dele.

É neste momento que o motorista e o perseguidor, que eu permiti que me alcançasse, se cumprimentam com duas palavras: Hail Hydra.

Sem que eles vejam, sorrio torto. Depois, faço uma cara de pânico. E volto a sorrir quando um tipo de capuz é posto sobre minha cabeça, ocultando meu rosto.

Tolos.

Notas finais
É isso, peoples. Espero que tenham gostado! Lokito foi ou não foi um doce? kkkkkkkk Sobre o relógio do Ben 10 e as letrinhas verdes de Matrix, ouvi num desenho que estava assistindo com meu sobrinho, só que não lembro o nome kkkkk E o lance do tic-tac que Lokito menciona, ouvi em Doctor Who ♥ Próximo capítulo (que também não vai demorar) vai mostrar uma pequena passagem de tempo e, se alguém aqui ainda não assistiu Vingadores - Era de Ultron, recomendo que vejam ou ficarão mais perdidos do que Steve Rogers tentando entender as referências kkkk Beijos e não se esqueçam dos reviews, hein? Tô de olho.