Trapaças do Coração

13 A noite em que milagres acontecem


Notas iniciais
Oi, pessoas de Midgard, Cheguei com mais um capítulo. Espero que gostem! Boa leitura!

Na enorme sala de estar da Torre dos Vingadores — que mais parece um bar, na minha humilde opinião —, observo o Deus do Trovão bebendo generosos goles de um drink, que Tony lhe serviu há pouco.

Procuro disfarçar minha frustração por ver que Thor veio sozinho para cá, mas sinto que é inútil. Deve estar estampado na minha cara que eu esperava que um certo alguém viesse junto. Entretanto, no fundo isso não me surpreende. Loki é teimoso como uma porta, é claro que não iria facilitar as coisas assim.

Além de mim, do top model asgardiano e de Tony, estão espalhados pelos sofás: Steve, Natasha, Clint e Bruce. Assim como eu, parecem confusos com o horário avançado da visita. Os heróis foram pegos de surpresa quando o estrondoso trovão se propagou no silêncio da madrugada e, com exceção de Bruce, que conversava comigo em seu laboratório quando Thor resolveu aparecer, estão de pijama.

Nunca imaginei que um dia veria os Vingadores tão à vontade. Todos muito decentes, é claro, mas de pijamas!!! Morar na Torre tem suas vantagens afinal. Aliás, eu poderia ficar podre de rica se tirasse uma foto num momento como esse e a vendesse para alguns tabloides. Não iam faltar interessados.

De repente, Thor me desperta desses pensamentos ao dizer:

— Eu gosto muito dessa bebida midgardiana. — Ele termina de beber e joga o copo no chão, assustando todos nós e espalhando cacos por toda a parte. — Outro!

— Jesus, Maria e José! — Levo a mão ao peito, atônita. — Era só pedir, menino...

Enquanto Tony revira os olhos, se levanta e caminha até o balcão de bebidas, o top model asgardiano lamenta meio envergonhado:

— Desculpem, eu esqueci que esse não é um hábito de Midgard.

— E esqueceu também que a essa hora as pessoas daqui costumam dormir? — Steve alfineta com um discreto sorriso.

Enquanto prepara uma nova dose para o Deus do Trovão, Stark provoca o amigo:

— Principalmente os mais velhos. Esses dormem com as galinhas, não é, Cap?

Steve limita-se a ignorar o comentário, dando abertura para Thor tomar a palavra novamente:

— Eu ainda me confundo um pouco com o... Como vocês chamam mesmo? Fuso horário! Talvez Heimdall tenha me alertado que era cedo, mas eu imaginei que o Sol de vocês ao menos já tinha nascido.

Divertindo-se com a falta de noção do amigo, Natasha arqueia as sobrancelhas e diz com um meio sorriso:

— Isso vai levar mais algumas horas.

— Duas, no mínimo — Clint completa, trazendo-a para mais perto de si ao passar o braço sobre seus ombros.

Na sequência, Tony se reaproxima, entrega um novo drink para Thor e vai direto ao assunto:

— De qualquer forma, já que você está aqui, a que devemos a honra da visita, Shakespeare?

— Dois motivos — anuncia e depois toma um longo gole do whisky. — Primeiro, eu gostaria de saber se houve algum progresso sobre aquele assunto.

Thor não precisa entrar em detalhes, todo mundo parece entender, quase imediatamente, qual é o tal assunto a que ele se refere. Inclusive eu. Thor está perguntando sobre a Hydra, é claro. Mais precisamente, se houve alguma evolução nas investigações, se surgiu alguma pista, qualquer coisa.

— Não, sem novidades — Bruce responde, pensativo e com um tom de desânimo na voz.

— Por enquanto, é claro — o Capitão América tenta manter certo otimismo. — É questão de tempo até que a S.H.I.E.L.D. encontre algum rastro da HYDRA.

Automaticamente, lembro-me do seu amigo Bucky e imagino o quanto deve ser difícil para Steve admitir que a S.H.I.E.L.D. está mais perdida do que cego em tiroteio. Sim, porque é assim que eu concluo que ela esteja dado o marasmo das últimas duas semanas.

Se pelo menos eu pudesse ajudar de alguma forma... Ajudar de verdade, ter uma ideia brilhante e contribuir realmente para algum progresso nessa história. Penso com meus botões, pois apesar de estar levando meu treinamento a sério, tenho me sentido frustrada diante do silêncio da organização do mal. Eu queria fazer mais, muito mais.

— Não se preocupe, você e seu martelo mágico serão devidamente convocados quando surgirem novidades — o Homem de Ferro brinca, embora seu semblante descontraído não esconda certa nuance de preocupação.

— Que assim seja — Thor assente. Depois se volta para mim e recomeça: — Olivia, eu também vim porque preciso conversar com você.

— Pode falar, chuchu — digo um pouco distraída, ainda matutando sobre uma forma de fazer a Hydra sair das sombras e assim ajudar a S.H.I.E.L.D. e os Vingadores a darem um bote na desclassificada.

— É sobre Loki.

Esqueço a Hydra, esqueço a S.H.I.E.L.D., esqueço os Vingadores, esqueço de tudo quando o Deus do Trovão menciona esse nome. Tenho certeza que meu rosto fica ligeiramente corado no mesmo instante. E por mais que eu não queira admitir para mim mesma, sinto que meu coração se aquece e dispara com a simples possibilidade de ter qualquer notícia sobre o falecido.

Claro que camuflo essa reação com desdém e sarcasmo:

— Desculpe, quem?

Thor estreita o olhar e percebo que ele não é o único a não acreditar no meu teatro. Nem um Vingador parece me levar a sério nesse momento. Todos me encaram questionadores e incrédulos. Então eu cruzo os braços e murmuro contrariada:

— Oh! Certo, lembrei.

— O que aquela Rena anda aprontando? — Tony indaga afiado.

No embala, emendo:

— É, o que aquele mequetrefe anda aprontando?

— Nada... — Thor sibila um pouco ofendido. — Meu irmão não está tramando nada, se é o que vocês estão imaginando.

Sinto-me culpada por tê-lo feito pensar que eu estava falando sério quando fiz tal pergunta. Apesar do nosso desentendimento, minha opinião sobre Loki não mudou. Eu confio naquele danado. Nada pode abalar isso, nem mesmo a forma como as coisas terminaram entre nós.

— Tem certeza? — Stark insiste. — Nenhum plano maquiavélico em curso? Debaixo dos panos?

— Como vocês, midgardianos, costumam dizer: eu colocaria minhas mãos no fogo por ele — Thor assegura, firme. Em seguida, termina o drink e reflete confuso: — A propósito, por que dizer isso? Não faz sentido, vocês podem se ferir.

— Então... — O anfitrião pega o copo antes que ele termine como o outro, espatifado pelo chão. — Loki continua na linha. Muito bem, quem diria que ele fosse mudar mesmo, hum?

Surpresa com o comentário, solto um riso baixo e indago:

— Desculpe, o que você disse, Homem de Lata?

Parecendo confuso e arrependido em relação às próprias palavras, Tony desconversa:

— Eu disse que preciso de uma bebida. Alguém mais quer? Não? Ótimo. — Ele se afasta em direção ao balcão e completa baixinho: — Eu não acredito que disse isso.

Nem eu. Nem Thor que, visivelmente interessado, observa os rostos oscilantes a sua volta e inquere:

— O que está acontecendo?

Percebo que Bruce e Natasha trocam um rápido olhar, antes de encontrarem o meu. Então me lembro que ele sempre foi o mais maleável em relação ao gafanhoto, e que ela me surpreendeu no dia anterior ao se revelar compreensiva também.

Natasha disse ainda que os demais membros da equipe também estavam revendo suas posturas, mas eu confesso que não tinha acreditado muito nisso. Até agora, é claro.

Reforçando que Natasha disse a verdade, Steve Rogers assume uma postura séria e admite pausadamente:

— Nós apenas... percebemos que talvez seja a hora de deixar o passado para trás. Nada pode mudá-lo afinal, certo? E Loki já demonstrou que está... diferente. Talvez nós devêssemos confiar no julgamento de Olivia sobre ele.

Boquiaberta, volto-me para o Gavião Arqueiro e arrisco:

— Clint? Você está de acordo com isso?

Ele dá de ombros e simplesmente diz:

— Acho que sim.

Meu queixo cai.

Enquanto Stark entorna uma bebida qualquer goela abaixo, Clint percebe que sua resposta não foi suficiente e se explica melhor:

— Não é fácil para mim, Olivia, e eu espero que você entenda que isso nunca foi uma simples implicância. Mas... Sei lá. Contanto que o seu namorado não saia da linha nem ouse controlar a minha mente de novo, digamos que eu posso manter minhas flechas onde elas estão.

Pisco algumas vezes, ainda sem acreditar no que estou ouvindo e mexida com uma palavra mencionada, levianamente, pelo arqueiro.

Então me recomponho e digo:

— Primeiro, Loki não é meu namorado. Segundo, por acaso já é Natal? Porque isso está soando como um milagre do bom velhinho.

Talvez tão surpreso quanto eu, o Deus do Trovão torna a se manifestar:

— O que fez vocês mudarem de ideia sobre meu irmão?

— Eu não mudei de ideia sobre ele — Tony apressa-se em dizer, servindo-se de mais uma dose. — Aliás, eu continuo achando o Homem Rena um idiota. Mas... Bem, quando você passa a viver com Olivia Mills sob o mesmo teto, tendo que ouvi-la suspirar pelos cantos enquanto escuta músicas de fossa o dia inteiro, você aceita qualquer coisa. Até mesmo o namorado dela, se isso for te ajudar a sobreviver.

— Ele não é meu namorado — reforço entredentes. — E eu não fico ouvindo músicas de fossa... — interrompo meu protesto, penso melhor e aceito porque dói menos: — Certo, talvez eu tenha ouvido um pouco nos últimos dias.

Sem graça, me encolho no sofá e evito olhar para os heróis a minha volta.

— Muito — Tony corrige. — E alto, devo dizer.

Decido que isso não importa, não é relevante. Stark só está desviando o foco da conversa como uma forma de se autopreservar. Disposta a lembrá-lo do que realmente importa, lanço-lhe um sorriso torto e encaro-o com firmeza.

— Oh, não... Sem esse sorrisinho, Olivia. — Ele parece perceber o que eu estou fazendo. Então, cheio de si, argumenta com certo deboche: — Eu não disse que Loki vai participar do amigo oculto no final do ano, apenas que, como o gênio que sou, eu percebi que devo usar o meu tempo livre e QI muito, muito, muito acima da média para coisas que realmente importam. Resumindo, eu cansei de perder meu tempo desprezando Loki, porque ele não é importante. Só isso.

Sem abaixar a cabeça, provoco-o na lata:

— Essa é a sua forma de admitir que está cogitando uma trégua?

— Não, essa é a minha forma de dizer que se um dia o Homem Rena implorar por uma trégua, talvez eu lhe conceda uma trégua. Só talvez — Tony articula, mas não me convence.

Definitivamente, e por mais que não consiga admitir em voz alta, ele andou cogitando uma trégua.

— O que eu falei sobre esse sorrisinho? — reitera, visivelmente contrariado.

Resolvo deixá-lo em paz — por ora —, e contento-me com a agradável sensação de ver os Vingadores recuando um pouco. Como Tony disse, claro que eles não vão virar Best Friends Forever do Deus da Trapaça, mas é bom saber que um acordo de paz entre eles pode se mostrar viável algum dia.

Só lamento não me beneficiar disso, afinal eu e Loki não estamos mais... juntos. Portanto, pouco importa se os Vingadores o aceitarão ou não.

Penso melhor e descubro que estou errada. Posso não tirar benefícios de uma possível trégua, mas não posso evitar em ficar feliz por isso. É bom ver meus amigos parando de remoer o passado e saber que a mudança de Loki está sendo reconhecida. Ou pelo menos, que os Vingadores estão lhe dando o benefício da dúvida e que saíram da defensiva.

Ainda estou confabulando sobre tudo isso, quando Thor comemora animado e feliz:

— Isso é ótimo, meus amigos! Muito obrigado por darem esse voto de confiança ao meu irmão.

— Voto de confiança? Quem falou em voto de confiança? — Tony é Tony mais uma vez, afinal ele precisa ser.

Preferindo colocar uma pedra no assunto, o top model asgardiano limita-se a sorrir compreensivo. Logo depois, se mexe um pouco no sofá, ficando de frente para mim, e retoma:

— Como eu estava dizendo, Olivia, eu vim até aqui porque... você precisa ir para Asgard comigo e conversar com Loki. Vocês precisam esclarecer essa situação de uma vez por todas.

— O quê?! Como assim?! — replico no mesmo instante.

Pega de surpresa e sem saber o que fazer diante de tal intimação, apresso-me em enumerar desculpas para recusá-la:

— Eu... eu não posso! Eu estou no meio de um treinamento intensivo para me tornar uma agente, adorando apanhar da Viúva Negra todos os dias e estou totalmente comprometida com a S.H.I.E.L.D. nesse momento. Eu não posso ir. Mesmo que eu quisesse. — Desvio do seu olhar de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança e minto do jeito mais convincente que posso: — E eu não quero! Que fique bem claro.

Cruzo os braços e, instintivamente, faço um bico. Balanço os pés para me distrair, mas sou convocada de volta ao impasse quando Natasha me incentiva:

— Eu acho que você merece uma folga, agente Mills.

Droga! Era muito mais fácil quando os Vingadores detestavam o gafanhoto. Não que eles amem o dito cujo agora, longe disso, mas o fato de terem parado com o mimimi, a ponto da Viúva Negra me aconselhar a ir atrás dele, é demais para minha cabeça.

Quando percebo que, assim como ela, Bruce, Clint, Tony e Steve também me incentivam com olhares significativos — cada um do seu jeito, é claro —, fico nervosa.

Sentindo-me acuada, tento fugir da situação mais uma vez, gesticulando possessa:

— Folga? Não, sem essa de folga! Eu não vou para Asgard! Não vou dar esse gostinho para aquele traste! Nem a pau, Juvenal!

— Mas Loki está insuportável sem você!

Desta vez é Thor quem esbraveja, chamando minha atenção prontamente.

Ao perceber como soou desesperado, ele se recompõe e fala de um jeito mais contido:

— Por favor. Eu realmente preciso da sua ajuda e não te pediria isso se...

— Insuportável sem mim, é? — interrompo-o, subitamente interessada. — Por que você não disse isso antes? Ele está sofrendo? Espero que sim. Ótimo.

Me julguem, mas me sinto reconfortada em saber que essa situação também está sendo difícil para o trapaceiro irresistível e que ele está passando por maus bocados longe de mim. A ponto do seu irmão fofo aparecer por aqui, em plena madrugada, para me pedir que dê o primeiro passo em uma possível reaproximação.

Sinto quase um prazer mórbido, devo ressaltar. E ao mesmo tempo, meu instinto de preservação dá sinais de que está enfraquecendo e dando lugar a uma vontade maluca de zarpar imediatamente para Asgard e agarrar Loki, assim que eu colocar meus pés por lá.

Claro que eu não vou fazer isso.

Eu não vou fazer isso! Eu não vou fazer isso! Não vou, não vou, não vou! Seja forte, Olivia Mills!

— Loki é orgulhoso demais para admitir que está sentindo a sua falta. — Thor volta a chamar minha atenção, e então me vejo novamente tentada a atender ao seu pedido. — Mas na verdade ele não precisa fazer isso. É muito óbvio. Às vezes... ele fica tão intragável que eu tenho vontade de acertá-lo com o Mjölnir. — Thor pega o martelo mágico sobre a mesa e o gira com uma mão. — Bem forte, sabe?

— Sério? — Não consigo conter uma risada. Porém mudo de postura na sequência e acrescento mais preocupada do que gostaria: — Oh, por favor, não faça isso! Seria um crime machucar aquele rostinho... ou aquele corpinho.

Pela forma como Thor me encara, deduzo que ele não estava falando sério. E mesmo que estivesse, tenho certeza que Loki, sendo Loki, se sairia muito bem do embate. Ele levou uma senhora surra do Incrível Hulk e se recuperou. Com certeza, sobreviveria a algumas marteladas naquela cabeça dura.

Oops... Pensamento mórbido de novo.

Seja como for, o fato é que eu acabei me entregando e deixando bem claro que ainda me importo com o deus trapaceiro. Não que alguém nesta sala tivesse alguma dúvida disso. Não que eu mesma duvidasse dos meus sentimentos...

Quase vencida, respiro fundo e me levanto. Ando feito barata tonta, levo a mão ao queixo, pensativa, e pondero:

— Bem, o que eu posso fazer neste caso? Já que o gafanhoto está sofrendo tanto assim longe da sua midgardiana diva, no caso eu, e você está praticamente implorando pela intercessão da Santa Olivia Mills, no caso eu de novo... Ah! E já que esta é a noite em que milagres acontecem... Hum, vejamos. — Detenho o passo, parando de frente para Thor e me faço de difícil: — Desculpe, eu preciso checar a minha agenda primeiro.

— Olivia... — ele contém um sorriso.

É o suficiente para me fazer parar de resistir ao desejo óbvio de rever o gafanhoto. Então, finalmente admito:

— Tudo bem! Você venceu! Quem eu estou querendo enganar afinal, não é? Eu também fico insuportável quando estou com fome... Digo, longe do insuportável do seu irmão.

O sorriso do Deus do Trovão se alarga, enquanto eu me seguro para manter os pés no chão e não demostrar tanta euforia por ter concordado com ele.

As expressões, surpreendentemente, aliviadas dos demais Vingadores acabam me ajudando a manter tal controle, pois elas me deixam bem intrigada.

Ainda não acredito que eles estão mesmo dispostos a deixar o passado no passado. Ainda não acredito que apoiam a ideia de eu ir para Asgard. Eu devo ser uma hóspede muito insuportável mesmo para o time de heróis me querer longe daqui.

Rá! Mas quem se importa? Eu vou para Asgard! Vou reencontrar o gafanhoto!

Ao realmente me dar conta disso, relembro minha última conversa com o digo cujo e sinto uma onda de raiva queimar em minhas veias. Essa mesma onda explode, levando-me a ressalvar enérgica:

— Mas se aquele trapaceiro teimoso de uma figa está pensando que eu, Olivia Mills da Silva Sauro, vou facilitar as coisas para ele... Ah, sabe de nada, inocente! Eu vou lhe dar uma chance de parar com a palhaçada. Uma! Só uma chance, pegar ou largar! Se depois disso, Loki continuar bancando o birrento mal-criado, então será a minha vez de deixá-lo no vácuo, lhe dar as costas e ir embora! Uma chance!

— É tudo o que ele precisa. Uma chance — Thor conclui com um misto de assombro e confiança.

Mentalmente, torço para que ele esteja certo.

***

Depois de tomar um bom banho, colocar uma roupa decente e arrumar uma pequena mala só com o estritamente necessário, lembro-me que ainda preciso fazer uma última coisa antes de partir.

Ainda no quarto, anoto uma sequência de números em uma folha, que destaco do bloco de anotações, e começo a procurar Bruce Banner pela Torre. Como era de se esperar, depois do café da manhã, ele se enfurnou novamente em seu laboratório.

Entro sem cerimônia, aproximo-me da bancada e coloco o pequeno papel diante dele.

— O que é isso? — Bruce o pega e analisa a informação ali contida.

— Um telefone — respondo simplesmente.

Desconfiado, o cientista estreita o olhar em minha direção e pergunta:

— De quem?

Sorrio e o desafio:

— Oh, você sabe.

Sim, ele sabe, mata a charada e fica visivelmente ressabiado. Uma gracinha!

— Por que eu ligaria para a sua amiga? — questiona, colocando o papel de lado de um jeito delicado.

Torno a aproximá-lo de suas mãos e rebato:

— E por que você não ligaria?

Bruce me encara por alguns instantes, como se procurasse uma resposta. Em seguida, expira com força, se afasta e desconversa:

— Olivia, eu já expliquei, é complicado.

— Não. É simples, Bruce.

Sigo-o enquanto ele anda pelo laboratório, mexe em telas holográficas, acessa arquivos e digita fórmulas aleatórias, tentando me convencer de que está focado no trabalho, quando na verdade só está fugindo do assunto.

Querendo entender por que, questiono:

— O que tem de tão errado em você e a Incrível Amelia Prescott conversarem qualquer dia desses? Sabe, despretensiosamente, sem tirar pedaço. Só isso.

Visivelmente tenso, Banner torna a me fitar nos olhos e diz:

— Eu não acho que seja uma boa ideia.

— Por quê? — insisto, pouco satisfeita com sua resposta. — Sério, por quê? Por acaso você acha a Amy feia?

— Não! — esclarece no ato, deixando-me surpresa. — Eu respondi rápido demais, não foi? — reflete, meio constrangido. — Parece até que eu andei reparando. — Arqueio as sobrancelhas, levando-o a negar prontamente: — Eu não andei reparando.

Contenho um leve sorriso e prossigo:

— Chata?

Mais uma vez, ele não pensa muito para se pronunciar a respeito da minha melhor amiga:

— Não, de forma alguma. Ela parece ser uma pessoa muito agradável e... doce.

Talvez percebendo que falou demais — para alguém que não andou reparando em Amy, rá! —, Bruce se fecha novamente e volta a trabalhar.

Observo-o por alguns instantes, com a certeza de que ele não está nem um pouco focado nos dados indecifráveis que surgem em uma nova tela, e decido ser mais incisiva:

— Ela é. Agradável, doce e, ainda assim, vive sozinha. Isso soa familiar, Bruce Banner?

Parece que finalmente chamei sua atenção, já que o cientista fecha todas as telas de repente e se volta para mim com um olhar intrigado.

— Então, o que é isso exatamente? Olivia Mills bancando o cupido?

— Oh, não! — nego no ato. — Longe de mim. Eu sei que não tenho tal poder nem o direito de me intrometer na vida das pessoas, mas...

Paro de falar, dando-me conta de que é exatamente isso que estou fazendo. A verdade é que não consigo esquecer a forma como Bruce e Amy se conheceram. Por acaso, um simples esbarrão durante a festa de aniversário de Tony Stark, há poucos meses. Os dois nem ao menos se apresentaram, mas mesmo assim, eu juro que senti alguma coisa no ar naquela ocasião.

Também não consigo esquecer o interesse tangível de Amy quando, há duas semanas, me perguntou sobre o sujeito fofo que viu na festa e depois desconversou, constrangida e fazendo pouco caso.

Tampouco posso ignorar que Bruce ouviu nossa conversa na cozinha e, ao perceber que Amy estava triste, providenciou aquela fofura de autógrafo.

— Mas? — Ele me traz de volta à realidade.

Tento ser o mais clara e sincera possível ao argumentar:

— Vocês não precisam se apaixonar, Bruce. Deus do Céu! Vocês não precisam nem se encontrar pessoalmente. — Penso um pouco e me distraio mais uma vez: — Embora dar uns amassos de vez em quando seja muito bom para aliviar o estresse. E já que você andou reparando e, com certeza, faz o tipo dela...

— Olivia.

— Okay, okay! — Pisco algumas vezes e retomo o foco: — Apenas... ligue para Amy. Não precisa revelar o seu verdadeiro nome, se você não quiser, mas ligue. Ela vai gostar de conversar com o sujeito doce por trás do Hulk. Amy pode ser uma boa amiga, uma boa ouvinte e confidente. Vocês dois podem sair ganhando no final, Bruce. Acredite.

Desta vez, sinto que ele não vai retrucar ou dar uma de desentendido. Parece que toquei num ponto crucial e que Bruce está ponderando a possibilidade de aceitar meu conselho.

— Atualizações quando eu voltar, combinado? — arremato, fazendo com que ele erga o olhar em minha direção.

Sem esperar por resposta, dou meia volta e saio do laboratório. À medida que caminho, observo-o pelo vidro que separa a enorme sala do corredor pelo qual sigo.

Bruce pega o pedaço de papel com o telefone de Amy e o analisa mais uma vez. Parece pensativo. Por um momento, imagino que ele vai jogar a pequena folha em uma lixeira ao seu lado. Porém não é o que faz. Ele dobra o papel com cuidado e, na sequência, o guarda no bolso do seu jaleco.

Profundamente satisfeita e esperançosa, sorrio e vou me despedir dos demais Vingadores.

Algum tempo depois...

Aqui estou eu, mais uma vez, colocando meus pés na Bifröst. Não sei exatamente o que sinto, mas acho que posso resumir com um misto de ansiedade e receio. Não sei exatamente o que vou encontrar, já que só agora percebo que não entendi o que Thor quis dizer com: “Loki está insuportável sem você.”

Insuportável como? Quanto? Virgem Santa! O que será que espera por mim depois da ponte do arco–íris?

Decido não sofrer por antecedência e, depois de cumprimentar o Rádio Patroa, dirijo-me ao palácio com o top model asgardiano ao meu lado. Um guarda real leva a mala para meus aposentos, mas antes responde a uma pergunta de Thor, que prontamente me repassa a informação.

Tento disfarçar, mas tenho certeza que fico corada quando ele revela onde Loki está, insinuando que o momento de reencontrá–lo chegou. Procuro encarar a situação naturalmente e me despeço do deus trovejante com um tapinha no ombro. Mas a verdade é que por dentro estou uma pilha de nervos.

Minha última conversa com o traste teve um desfecho bem estranho e realmente não sei como serei recebida agora.

De qualquer forma, só há um jeito de saber, então eu continuo a nadar... Digo, sigo caminho rumo ao salão que Thor mencionou antes. À medida que me aproximo do local, ouço vozes. Não poucas, mas de uma verdadeira multidão que parece em polvorosa.

Apesar de estranhar, e até me perguntar se estou indo para o salão certo, continuo andando. Quando finalmente alcanço a entrada, detenho o passo, intimidada pelo aglomerado de asgardianos espalhados por toda a parte. Só então entendo que eles estão ovacionando alguém mais adiante. Alguém com um manto real vermelho muito brega. Alguém que sobe, lentamente e todo pomposo, uma escadaria rumo a uma espécie de palco do enorme salão.

Eu já havia o reconhecido há muito tempo, mas quando Loki se volta para a multidão de súditos, ficando de frente para mim, eu levo um baita susto. Isso porque, depois de ser ovacionado mais uma vez, ele ergue o Mjölnir no ar, como um guerreiro, como Thor faria.

Prontamente, compreendo que nada disso é real, apenas uma travessura do Deus da Trapaça. É neste momento também que ele percebe minha presença e abaixa o braço. Seu semblante, ora presunçoso, se converte em certa perturbação. A multidão de mentirinha se silencia e Loki reprime o espanto de me ver aqui. Sua expressão então se torna algo impassível e indecifrável. Meu coração dispara.

Há um longo momento de silêncio enquanto nos encaramos. Mas quando o Mjölnir desaparece de sua mão repentinamente, eu não resisto e uma risada me escapa. Isso parece deixar o trapaceiro confuso e irritado.

Resolvo explicar a piada:

— Então é assim que você vem tentando me esquecer, gafanhoto? Usando o tempo livre para brincar de RPG? Que fofo.

Loki me fuzila com o olhar e começa a descer a escadaria com sua postura altiva e superior. Ignoro o nervosismo que sinto e meu coração teimosamente acelerado. A plateia, apesar de não ser real, continua aqui firme e forte. Seus olhares artificiais acompanham Loki, até que ele para diante de mim.

Faço uma reverência, que eu sei que o deixa mordido de raiva — é por isso mesmo que faço toda vez, rá! —, e capricho na atuação:

— Oh! Perdoe-me pelo atrevimento, meu... Rei.

Não aguento e mais uma risada escapa. Uma gargalhada, na verdade. Mas logo sou silenciada pelo toque de Loki em meu ombro. Sua mão desliza um tanto desajeitada e surpresa pelo meu braço.

Ele dá um passo para trás no instante seguinte, e eu sinto um arrepio aonde seus dedos esbarraram suavemente.

Loki parece desconfortável e acuado, como se tivesse sido pego em um momento de fraqueza.

Ao entender o motivo, fico estarrecida e ergo as sobrancelhas. Isso porque me dou conta de algo surpreendente: o Deus da Trapaça pensou que eu fosse uma ilusão. Uma das inúmeras ilusões que ele criou neste salão. Uma de suas ilusões.

Engulo em seco e, sem saber o que fazer com essa revelação, esclareço:

— Eu estou mesmo aqui, chuchu. Isso é real.

Notas finais
Esta ceninha final do Loki King foi inspirada neste vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=tNmn2DVLoMk And yep! Lokivia se reencontrou!!! ♥ Sei que tinha muita gente ansiosa por esse momento e olha que nem demorou tanto kkkkkkkk Gostaram da reuniãozinha de Vings na Torre? E dos herois parando um pouquinho com o mimimi em relação ao Loki? Não é à toa que dei este título para o capítulo kkkk é a noite em que milagres acontecem mesmo... Curtiram a conversinha entre Bruce e Olivia sobre Amy? Será que ele vai ligar? E este final??? Eu amei escrever tudinho, quero saber o que vocês acharam e se estão muito ansiosos pela continuação kkkkkkkkkkkk Será um capítulo tenso e divertido! Inté lá! Mas antes, os reviews, hein? Beijos de luz!