Notas iniciais
Atrasada, but aqui. Se alguém aí lê os meus devaneios da saga Destino e curte Miastiel, pode ter uma leve e marota sensação de deja vu quando a palavra "nada" for mencionada neste capítulo. Não foi intencional, mas confesso que achei engraçado e mantive assim quando fui revisar. Por falar em revisar, eu juro que revisei o capítulo. Mas deve ter passado alguma coisa porque eu não fiquei satisfeita com alguns trechos, reescrevi e fiquei com preguiça de revisar de novo. Oi? Qualquer erro gritante, gritem e eu ajeito. Capítulo pov Loki. Apertem os cintos e boa leitura, Midgard! Leiam as notinhas finais!

Não me orgulho de admitir isso, mas sim, tenho criado ilusões da midgardiana abusada desde que voltei para Asgard. Esta se mostrou a única forma de aplacar, ao menos um pouco, a angústia e o tédio que se abateram sobre mim desde que a deixei para trás.

O problema é que, às vezes, perco o controle sobre sua imagem e não consigo fazer com que Olivia desapareça só com minha força de vontade. Também tenho falhado em distinguir suas ações e falas da minha própria magia. Em certos momentos, simplesmente não consigo fazer esta separação. É como se a ilusão de Olivia ganhasse vida própria em minha mente e se expandisse para o mundo real de uma forma que nunca aconteceu com outras de minhas manipulações. É como se eu perdesse o controle. Como se eu estivesse enlouquecendo... por causa dela.

A única maneira de quebrar esse círculo vicioso, é tocando sutilmente no espectro mágico de Olivia. Com isso, ela finalmente desaparece e me deixa em paz. Por ora.

Sua imagem sempre volta a me assombrar quando eu menos espero. Muitas vezes, ao cair da noite, quando imagino que terei um pouco de quietude, mas só me pego pensando ainda mais nesta criatura abusada que tirou o meu sossego.

Se pelo menos eu parasse de pensar tanto nela, talvez retomasse o controle dos meus poderes. Mas, para meu azar, não consigo.

Então imaginem como eu me sinto agora, vendo Olivia bem diante de mim. Não uma mera manipulação, mas ela mesma, em carne, osso, com esse irritante nariz empinado e um sorriso crescente nos lábios.

Claro que ela percebeu o meu deslize e a minha confusão. Claro que não me perdoa. E claro que está se deliciando com a sensação de vitória quando me provoca:

— Então... como isso funciona exatamente? Você pensa tanto em mim, que não resiste e acaba criando ilusões super fofas desta que vos fala, meu Rei? A ponto de não saber mais diferenciar ficção e realidade? Eu não acredito que vivi para ver isso!

Procuro disfarçar o quanto me sinto encurralado e digo a primeira coisa que me vem à cabeça:

— Poupe-me desse sorrisinho presunçoso, agente Mills. O que você presenciou — Olho para um ponto qualquer do palácio, sentindo-me um idiota — não significa absolutamente nada.

— Nada? — Olivia cruza os braços e arqueia as sobrancelhas, desafiadora e cética. — Engraçado porque, no meu planeta, isso tem outro nome, gafanhoto. Chama-se am...

Subitamente, ela para de falar e parece meio perdida e hesitante. Subitamente, fico interessado, estreito o olhar e a desafio:

— Chama-se o quê, Olivia?

Olivia engole em seco e seu rosto enrubesce. Quem diria? Parece que o jogo se inverteu.

— Nada — desconversa, visivelmente acuada e sem graça. — Nós podemos mudar de assunto, por favor? — praticamente implora.

Desta vez, sou eu quem se delicia com o seu deslize. Isso porque eu sei muito bem o que Olivia ia dizer. Só não completo o seu raciocínio porque isso também me deixaria desconfortável. Nos julgue, mas tanto eu quanto ela temos certa dificuldade em nomear algumas coisas. Sentimentos, como dizem por aí. Isso nunca foi um problema, afinal, mesmo sem dizer com palavras, nos entendíamos surpreendentemente bem de outras formas.

Tão bem...

Afasto esse último pensamento, ignoro certo calor que surge de repente e endireito a postura. Mantendo-me firme, retomo:

— Claro. O que você está fazendo aqui?

— Oh, você me conhece, eu não resisto a uma missão impossível. — A midgardiana dá um tapinha no ar e ri, como se eu tivesse perguntado algo realmente óbvio. — Então, quando o seu irmão fofo disse que você estava simplesmente insuportável sem mim e pediu que eu viesse dar um jeito no seu mau humor, eu pensei: por que não?

Fico paralisado por um longo momento. Em um tom extremamente sério, busco confirmar se eu entendi direito:

— Thor disse o quê?

O semblante da midgardiana oscila e, percebendo que falou demais, ela sibila arrependida:

— Oops...

Uma mistura de raiva, por descobrir a brilhante ideia do meu querido irmãozinho, e humilhação, pela forma como Olivia se justificou, como se eu precisasse desesperadamente dela — algo totalmente inverdade, diga-se —, faz o meu sangue ferver e meu semblante se fecha imediatamente.

Tentando disfarçar o quanto essa revelação me deixa transtornado e profundamente insatisfeito, inquiro:

— Então você está aqui por que Thor pediu?

O olhar de Olivia percorre uma pilastra ao meu lado, ao mesmo tempo em que ela responde:

— Sim.

Dou um passo em sua direção e, por mais que eu não queira demonstrar como isso me atingiu, não consigo disfarçar minha fúria quando indago entredentes:

Só por que ele pediu?

— Ãn... sim? — Olivia murmura com um fio de voz, deixando-me ainda mais possesso. — Não! — corrige-se rapidamente, encontrando meu olhar cravado em seu rosto.

Sem acreditar, dou-lhe as costas e começo a me afastar, ao mesmo tempo em que retruco friamente:

— Se você veio até aqui apenas por isso, já pode ir embora, midgardiana insolente. Antes de partir, diga para o imprestável do meu irmão que você fracassou em mais uma missão ridícula e que ele terá problemas em breve por se intrometer na minha vida. Ressalte que ele vai sentir saudade da minha versão insuportável.

— Gafanhoto, espera!

Não olho para trás, mas sinto que a criatura abusada está me seguindo aos tropeços, tentando acompanhar o ritmo acelerado dos meus passos resolutos e enfurecidos.

— Calma aí, menino! Parece que vai tirar o pai da forca!

Ignoro-a e apresso o passo pelos corredores do palácio.

— Eu não acredito que você vai me deixar falando sozinha! — ela protesta, deixando transparecer uma irritação latente, e então despeja a falar sem parar: — Quer saber? Eu nem sei por que isso me surpreende! É tão típico de você sair de fininho, não é? Vai fugir de novo? Como fez em Midgard? Que maduro da sua parte!

Irrito-me profundamente com sua audácia e giro nos calcanhares, fazendo com que Olivia estanque a uma curta distância de mim. Ignoro certo abalo que me atinge com essa proximidade e afirmo convicto:

— Eu não estou fugindo!

— E eu não vim por que o top model asgardiano pediu, cara pálida! — ela despeja, erguendo o queixo. — Eu vim porque eu quis! E porque... porque eu...

Sua súbita coragem se esvai e Olivia me encara hesitante por algum tempo. Por fim, cruza os braços e despeja sem rodeios:

— Porque eu senti sua falta, idiota. Pronto, falei!

Aquele misto de raiva e humilhação perde força dentro de mim diante do que ouço. Por alguns instantes, vejo-me sem reação. Mas então assimilo o significado de tal confissão e não perco a oportunidade de provocar meu tormento:

— Desculpe, eu entendi direito? Você acabou de admitir, em alto e bom tom, que sentiu a minha falta?

Contrariada, Olivia me fuzila com o olhar e tenta fazer pouco caso:

— Por favor, não se sinta a última Coca-Cola no Saara por causa disso, mas... sim, senti. Satisfeito?

Inclino um pouco a cabeça e deixo um riso baixo e debochado escapar, evidenciando que sim, eu fiquei muito satisfeito em ouvir isso.

Para minha surpresa, o tormento não se incomoda com minha postura. Ao invés disso, sai da defensiva e vai mais além:

— A verdade é que eu já tive dias melhores, okay? Eu mesma não estava me aguentando, se você quer saber. E acho que ninguém naquela Torre estava, já que concordaram rapidinho com a ideia do meu cunhado... Digo, do seu irmão!

Ignoro que Olivia se atrapalha graciosamente no final e exalto com empáfia:

— Em outras palavras, você está dizendo que ficou insuportável sem mim e que, numa tentativa de solucionar a situação desesperadora em que você se encontrava, não pôde resistir ao ímpeto de vir até aqui quando Thor sugeriu, despretensiosamente, que talvez eu pudesse ser a solução para o seu mau humor?

Seu olhar se estreita, deixando claro que ela voltou à defensiva e não gostou nem um pouco das minhas observações. Sua insatisfação fica tangível quando Olivia rebate firme:

— Não foi isso que eu disse, coração.

De um jeito sonso — confesso —, faço questão de relembrar:

— Mas você disse que sentiu a minha falta.

— Grande coisa! — O tormento dá de ombros e então acrescenta cheia de si: — Aposto que você também sentiu a minha.

Não digo nada, porém tenho certeza que algo em meu olhar me denuncia. Talvez minha hesitação em negar de uma vez.

Por que eu não nego?

Quando percebo que essa confissão subentendida surte um efeito imediato na midgardiana diante de mim — fazendo mais um sorriso irritante surgir em seu rosto —, apresso-me em mentir:

— Eu não senti!

Para meu desespero, Olivia parece não acreditar e se aproxima, deixando-me tenso quando a distância entre nós se torna mínima e sugestiva demais. Ela ainda tem a audácia de passar os braços em volta do meu pescoço; e eu, como se estivesse preso em um feitiço, não me oponho a tal gesto. Ao invés disso, perco o foco ao sentir sua respiração contra minha pele, bem próxima da minha boca. Seu hálito fresco e inebriante me desnorteia, até que ela arremata o jogo de sedução com uma pergunta tendenciosa:

— Sentiu ou não sentiu, chuchu?

Por um momento, juro que cogito tomar Olivia em meus braços de uma vez e pôr um fim no desentendimento entre nós, porém me controlo. Preciso ser forte. Não posso deixar que ela me vença assim tão fácil, não posso abaixar a guarda antes de entender o que mudou desde o nosso último embate.

E é ao me lembrar da nossa conversa na Torre dos ilustríssimos Vingadores, que resolvo ir direto ao ponto:

— Você desistiu de se aliar a S.H.I.E.L.D.?

Essa indagação a pega de surpresa e quebra imediatamente o clima tangível que pairava no ar até então. Visivelmente confusa, Olivia pisca algumas vezes e se afasta um pouco, antes de questionar:

— Por que a mudança brusca de assunto?

Mantenho-me firme e repito do jeito mais impassível que consigo:

— Você desistiu de se aliar a S.H.I.E.L.D.? Sim ou não? Apenas responda.

Cada parte do meu ser anseia por uma resposta positiva. Seria a solução ideal, o fim do impasse, eu finalmente poderia parar de lutar contra o que desejo fazer agora.

Por que Olivia Teimosa Mills não pode facilitar as coisas uma vez em toda sua existência? Por que insiste em se associar à S.H.I.E.L.D.? Por que não percebe os perigos que corre ao fazer isso? Por que faz pouco caso do ciúme e despeito que me desperta ao se unir aos patéticos Vingadores? Por que não entende como eu me sinto?

— Não.

Sua resposta direta e precisa vem ao mesmo tempo em que ela se desvencilha de mim e dá um passo para trás. Engulo o desejo dentro de mim e me contento com o sabor amargo de sua negativa. Nada mudou, afinal.

Deixando claro que está convicta em sua decisão e que não gosta nem um pouco da minha insistência em tentar mudá-la, Olivia esclarece possessa:

— Não desisti e nem vou. Então pode tirar o seu cavalinho da chuva porque isso não vai rolar, homem das cavernas.

Respiro fundo e avalio a situação por um momento. Incapaz de persuadir Olivia a mudar de opinião, abominando a ideia de me humilhar para conseguir isso e dizendo a mim mesmo que talvez eu não precise tanto dela no final das contas, endireito a postura, coloco os braços para trás e digo do jeito mais indiferente que consigo:

— Neste caso, a resposta para a sua pergunta não tem a menor importância.

Olivia sorri. A abusada sorri! Será que ela entendeu o que eu disse? Como pode sorrir com tanto desdém e propriedade? É quase como se tivesse uma carta na manga!

— Você sabe que respondeu a minha pergunta assim que eu entrei aqui, certo? — Olivia expõe a tal carta, e eu me sinto um idiota por ter me esquecido deste pequeno detalhe.

É claro, foi exatamente o que eu fiz... Mostrei como tenho me sentido sobre nosso afastamento — sem espaço para qualquer sombra de dúvida —, quando acreditei que Olivia era uma simples ilusão e deixei que ela percebesse meu deslize. Estou mesmo enlouquecendo.

Para piorar minha já humilhante situação, o tormento se vangloria ainda mais:

— Sinto muito, chuchu, mas ter pensado que eu era um delírio da sua mente agonizante de saudade te entregou feio. Você sentiu a minha falta. Aceita, que dói menos.

Sem argumentos e impaciente, fecho a cara e encerro o embate da única forma que consigo formular no momento, dizendo de um jeito azedo e irônico:

— Ótima conversa.

Lanço-lhe um olhar desdenhoso, viro-me novamente e sigo meu caminho. Desta vez, Olivia não vem atrás de mim, mas posso sentir o seu olhar cravado em minhas costas à medida que me afasto rapidamente.

— Belo traseiro! — retruca com um elogio inconveniente, levando-me a crer que não era bem para minhas costas que estava olhando. — Te vejo no jantar, gafanhoto!

Sua conclusão em tom de promessa — ou seria ameaça? — quase me faz voltar atrás e questionar o que isso significa exatamente. Afinal, o que o tormento veio fazer aqui? O que espera conseguir, sendo que continuamos no mesmo impasse? O quão sério Olivia estava falando quando insinuou que pretende colocar um fim em meu mau humor? Será que ela acredita que pode me dobrar de alguma forma? E por que uma parte de mim fica feliz por ela não ir embora ao final dessa conversa? É isso? Eu quero que o tormento fique? O quão louco estou para ainda desejar sua presença?

Mais tarde

Passei as últimas horas convencido de que não iria comparecer ao jantar esta noite. Entretanto, Odin fez questão. Enviou um guarda aos meus aposentos e praticamente me intimou a ir. Pensei em ignorá-lo, mas duas coisas me convenceram do contrário.

Primeiro porque, apesar do tom de ordem, reconheço que o Pai de Todos tem se esforçado para se reaproximar de mim nos últimos tempos, e uma parte de mim anseia por deixar nosso passado conturbado para trás, embora eu continue o achando um idiota. E segundo porque me abster mostraria para o tormento como estou abalado com sua presença em Asgard. Então, prefiro tolerar mais um entediante jantar em família com Odin e seu primogênito, do que dar tal gostinho para Olivia.

Confesso que diante do pesado silêncio que paira no salão neste momento, arrependo-me amargamente desta decisão. Para piorar, não consigo comer. Em parte, por falta de apetite, mas principalmente porque a midgardiana abusada está me desconcentrando.

Por mais que eu relute, meu olhar sempre acaba recaindo sobre ela. Olivia está irritantemente linda esta noite. Os trajes argadianos, que ela faz questão de vestir quando vem para cá, lhe caem muito bem, admito.

Quando percebo que ela também está revirando a comida sem o menor interesse, sinto-me quase feliz. Quando ela ergue o olhar e encontra o meu, bebo um generoso gole de hidromel e giro a taça dourada em minha mão, fingindo que estou distraído e indiferente. Uma parte de mim sabe que não a convenci, mas eu não me importo.

Apenas Thor, ao meu lado, e Odin, à cabeceira da mesa, parecem interessados em jantar de fato. Mesmo assim, posso sentir os seus olhares nos observando constantemente, ora focados em mim, ora no tormento de vestido.

O som dos talheres se movimentando em seus pratos é a única coisa que rompe um pouco o silêncio, até que Olivia resolve se pronunciar:

— Por favor, não falem todos ao mesmo tempo, se não vira bagunça e ninguém se entende.

Enquanto eu ignoro o seu comentário irônico, Thor solta uma breve gargalhada e Odin sorri discretamente para ela. Em seguida, o Pai de Todos pigarreia e lança uma pergunta no ar, a fim de puxar assunto e dissipar o constrangimento:

— Então, Olivia, como vai o seu treinamento em Midgard?

— Ótimo, na verdade. Obrigada por perguntar. — Com o olhar fixo em mim, o tormento alfineta: — Por demonstrar interesse. Educação e gentileza são coisas raras hoje em dia.

Estreito meu olhar em sua direção, entendendo a indireta, ao mesmo tempo em que Thor tenta apaziguar os ânimos, prosseguindo com a conversa:

— Natasha disse que você tem evoluído muito bem na luta corporal.

Desta vez, sou eu quem ri. Me julguem, mas não resisto.

— Algo engraçado, coração? — a midgardiana indaga, visivelmente incomodada com minha reação.

Faço-me de sonso e respondo:

— Oh, nada... É só que, por um momento, eu imaginei como seria você lutando.

Imediatamente, ela replica:

— Para o seu governo, eu luto muito bem, obrigada. Você ficaria surpreso.

Sentindo um prazer irresistível em irritá-la, ironizo:

— Claro. Se você diz, eu acredito.

Sou surpreendido por um chute forte em minha perna e, instintivamente, me encolho um pouco. Olivia se ajeita na cadeira diante de mim, após ter desferido o golpe por baixo da mesa, e rebate minha provocação:

— Só para constar, não fui eu quem levou uma lendária surra do Incrível Hulk. Deve ter sido humilhante para um deus tão superior se ver completamente nocauteado, hum? Você não conseguiu mesmo reagir, chuchu? Talvez eu possa te dar umas aulinhas de defesa pessoal qualquer hora dessas. O mais importante é nunca abaixar a guarda. Fica a dica.

A insolente arremata com uma piscadela e leva a taça com hidromel aos lábios. Entorna boa parte do conteúdo, enquanto eu penso numa forma de retrucar à altura, porém me vejo humilhado pela recordação que ela trouxe à tona.

Então o Deus do Trovão, numa clara tentativa de manter a civilidade entre nós, retoma o assunto:

— Ãn... Steve também te elogiou bastante, Olivia.

— Oh! Steve! Nossa! — Ela parece empolgada, mas sinto algo de artificial em sua reação. — Agora que você mencionou, me deu tanta saudade daqueles músculos... Sabe, eu acho que nunca vou esquecer o beijo que ele me deu quando nos conhecemos.

Meu sangue ferve. Sei que ela está apenas tentando me despertar ciúme, a fim de me provocar, porém meu sangue ferve mesmo assim. Odeio admitir, mas o tormento conseguiu o que queria.

Para minha surpresa, Thor a corrige prontamente:

— Na verdade, não foi você que o agarrou à força?

Enquanto Olivia lhe lança um olhar feroz, eu me divirto por dentro e troco um olhar cúmplice com ele. Neste momento, é como se tudo de ruim que houve entre mim e Thor perdesse a importância. Por um momento, ele volta a ser apenas o meu irmão. Resisto ao ímpeto de lhe agradecer pelo apoio e limito-me a rir.

Isso parece tirar Olivia do sério, levando-a a perguntar entredentes:

— Qual é a graça agora?

— Eu só mentalizei a cena — explico, dando de ombros. — Deve ter sido algo dantesco, presumo.

Penso que venci o embate, mas então sou surpreendido por um sorriso sonso e por sua audácia:

— Em primeiro lugar, cuidado para não me mentalizar demais, gafanhoto, e acabar criando uma holografia minha novamente. Seria constrangedor se, de repente, eu aparecesse sentadinha no seu colo, não?

Aperto os talheres com força e, na sequência, largo-os dentro do prato, causando um ruído que se propaga por todo o salão. Posso sentir os olhares questionadores e surpresos de Thor e Odin em minha direção e isso me constrange profundamente.

Até agora, nem um deles sabia que, às vezes, eu crio ilusões do tormento e que, às vezes, perco o controle sobre isso. Mas neste momento, não só os dois descobriram, como os criados espalhados em volta da mesa também. É muito humilhante. Olivia me paga.

— E não foi dantesco, foi um beijo maravilhoso e de tirar o fôlego. Só de lembrar, me dá calor — ela conclui, sem olhar diretamente para mim.

Sorrio torto ao enxergar em sua mentira uma forma de rebater à altura. E é o que faço:

— Desculpe, mas eu acho que você está se confundindo com aquela vez que eu fiz o esforço de me passar pelo soldadinho e te surpreendi em um beco de Midgard. Lembra?

— Quando você não aguentou de saudade de mim, mas foi orgulhoso e covarde demais para me procurar com a sua própria carinha? Deixe-me ver... Ah! Lembro sim.

A resposta afiada de Olivia me enfurece ainda mais. A ideia de que ela sempre tenha um argumento na ponta da língua para me desarmar é desesperadora e, ao mesmo tempo, muito excitante.

Quando abro a boca para retorquir — tentar, ao menos — a voz de Odin retumba em alto e bom tom:

— Silêncio! Eu exijo saber o que está acontecendo aqui.

— Nada — respondo em uníssono com Olivia.

Visivelmente aborrecido com o clima de guerra entre nós, o Pai de Todos observa:

— Não é o que parece. — Voltando-se para o tormento de vestido, pontua mais calmo, porém ainda assim, firme: — Olivia, quando Thor disse que te traria para Asgard e eu concordei, não imaginei que presenciaria uma cena como esta. Eu não aprecio desentendimentos, ainda mais durante as refeições.

Franzo o cenho, perplexo por descobrir que Odin não só sabia do plano ridículo do primogênito, como concordou com ele.

Enquanto Olivia abaixa a cabeça, meio envergonhada pela bronca, Odin se dirige a mim:

— Loki, apesar de você se sentir desconfortável com tudo isso, nossa intenção foi nobre. E mesmo que você não acredite, eu desejo a sua felicidade, meu filho. Então, será que você poderia ser um pouco mais colaborativo?

Isso é tão embaraçoso, que me vejo sem palavras e reação. Em parte, fico irritado por ele e Thor pensarem que eu preciso de ajuda, quando estou perfeitamente bem. Mas por outro lado, aprecio a ideia de que os dois se importem comigo.

Estou tentando silenciar este lado insano do meu ser, quando Olivia solta um risinho e resmunga:

— Não adianta, seu filho é teimoso como uma mula.

Prontamente, volto-me para ela e, referindo-me a sua decisão de continuar envolvida com a S.H.I.E.L.D. apesar de tudo que passou por causa dela e dos Vingadores, critico:

— Você quer mesmo falar sobre teimosia, agente Mills?

— Pelas orelhas pontiagudas do Sr. Spock, gafanhoto! — Olivia exclama, levando as mãos ao ar e deixando claro que isso foi a gota d'água. — Quando você vai parar com a palhaçada? Que perseguição com o meu emprego! Desapega, desapega!

Ignoro sua tangível irritação e tento fazê-la entender:

— Não se trata de perseguição, mas sim...

Paro de falar imediatamente ao me dar conta de que terminar este raciocínio vai me expor ainda mais. Vai expor ainda mais como me sinto em relação a ela...

Não se trata apenas de implicância — como o tormento insiste em dizer que é —, a verdade é que não quero que ela passe por outra situação, como aquele ataque orquestrado pelo verme Grant Ward. Sim, admito que também não quero dividi-la com outras pessoas — ainda mais com os Vingadores —, que isso me incomoda pessoalmente e que tenho medo que Olivia, convivendo mais com eles, acabe mudando de opinião em relação a mim.

Incapaz de expor como me sinto, desconverso:

— Nada.

Entretanto, algo no olhar — subitamente menos feroz — da midgardiana me dá a impressão de que ela leu meus pensamentos. Me chamem de maluco, mas tenho a impressão de que Olivia compreendeu os meus motivos neste exato instante. Pode até não aceitá-los, mas ao menos por um momento, parece ter se colocado no meu lugar.

Claro que posso estar imaginando tudo isso... Talvez eu esteja.

Ainda estou pensando nisso, quando Thor me desperta com uma sugestão:

— Eu acho que seria bom vocês conversarem.

— Eu concordo — Odin se une a ele na ideia.

— E eu acho que vocês já se intrometeram demais — oponho-me, incomodado. Não só com suas indiscrições, mas principalmente com o olhar constante de Olivia em minha direção.

Encaro-a de um jeito firme, e isso parece fazê-la despertar por fim. Então cruza os braços e resmunga:

— E eu acho que nós conversamos o suficiente e foi inútil. Desculpe, Thor, mas quando você disse que esse aí estava mais grosso do que dedão destroncado, eu não imaginei que a situação fosse tão feia. Eu vou embora amanhã mesmo porque não sou obrigada.

Por mais que no fundo eu sinta que ela está apenas desconversando — como um mecanismo de defesa por não saber o que fazer agora que, possivelmente, entendeu a minha insatisfação com o seu emprego —, torno a me irritar:

— Faça o que você bem entender!

— Eu sempre faço, mas obrigada por me lembrar! Por um momento, eu esqueci que sou uma pessoa livre, adulta e vacinada! — retruca, também possessa.

— Disponha — digo seco e com um sorriso frio.

— Muito bem! — Ela sorri da mesma forma, incitando uma nova onda de ira e excitação dentro de mim.

— Ótimo! — Levanto-me decidido e anuncio: — Com licença, eu perdi o apetite.

Afasto-me rápido e começo a deixar o salão, enquanto ouço o ranger de sua cadeira ao mesmo tempo em que ela diz:

— Eu também. É incrível como a presença de certas pessoas deixou a comida intragável. Cruzes!

Continuo andando e sei que Olivia está bem atrás de mim. Posso sentir sua proximidade. Ouço sua respiração entrecortada, quase ofegante pelo ritmo rápido dos seus passos. Não preciso olhar em sua direção para adivinhar que ela está com a cara fechada — fazendo bico, provavelmente —, enquanto segue com a cabeça erguida e o nariz empinado, com certeza.

À medida que nos afastamos do salão de jantar e percorremos os corredores do palácio, ficamos cada vez mais próximos. Em dado momento, quase colidimos um com o outro. Quando ela finalmente me ultrapassa, o calor em mim transborda. Em um nível insuportável, devo dizer.

Não sei o que acontece comigo, não sei como Olivia consegue me fazer tomar certas atitudes e sentir determinadas coisas, mas decido que não me importo e me vejo apressando o passo em sua direção.

Esse tormento de vestido asgardiano tem me provocado desde que chegou aqui e me tira do sério, mas agora percebo que tudo o que quero é que ela me tire ainda mais. E quero fazer o mesmo por ela. Me julguem, mas não aguento mais resistir.

Seguro em seu braço com força e giro-a em minha direção. Apesar de surpresa, Olivia não demonstra resistência quando eu aproximo nossos corpos. Muito menos quando agarro seus cabelos e trago seu rosto até o meu com pressa. Tampouco quando pressiono minha boca na sua e a devoro com um calor lascivo.

Olivia se derrete em meus braços e corresponde prontamente ao beijo. Furiosa, me agarra também e envolve meus lábios com sofreguidão e desejo. O calor entre nós aumenta. Não sei como, mas quando dou por mim, já a conduzi até uma pilastra e pressionei meu corpo contra o dela. Mantenho-a encurralada entre mim e a estrutura, enquanto brinco com seu beijo travesso, cada vez mais profundo e urgente.

Um gemido manhoso escapa de sua garganta e suas mãos ardilosas tentam tirar minhas vestes, enquanto distribuo beijos mordazes por seu pescoço incrivelmente febril. Sorrio divertido contra sua pele macia ao perceber que o tormento esqueceu completamente onde está e que, via de regra, não podemos prosseguir com isso em público.

Seja como for, sua recepção calorosa era o incentivo que faltava, algo que me leva — não sei como exatamente — a conduzi-la às pressas até os meus aposentos — por sorte, perto de onde estávamos.

— Gafanhoto... — Olivia Mills murmura quando bato a porta atrás de nós.

Tomado por um desejo irresistível e crescente, me aproximo e rasgo o seu vestido com um gesto rápido e preciso, revelando partes muito interessantes do corpo curvilíneo e convidativo por baixo da peça esvoaçante.

Olivia solta um pequeno grito de surpresa e arregala os olhos. Mas, já totalmente recuperada, joga os braços em volta do meu pescoço, sorri e brinca:

— Eu gostava desse, chuchu.

É a última coisa que ela diz. A última coisa que permito que o meu tormento diga. Na sequência, tomo sua boca para mim mais uma vez e envolvo seu corpo em um enlace apertado. Algo que não a impede de deslizar suas mãos, meio ágeis meio trêmulas, por minhas vestimentas. Ao contrário, tudo isso parece incitá-la a livrar-me de cada peça com destreza e rapidez. Não me oponho, é claro.

Divirto-me internamente ao me recordar como Olivia se atrapalhava no começo e perdia a paciência com minhas roupas de cosplay de gafanhoto, como costuma classificá-las. Esqueço-me disso e de todo o resto à medida que nos entregamos a mais beijos abrasadores e atrevidos.

Nossas roupas se acumulam pelo chão. Aperto Olivia contra mim e a conduzo até a cama, onde termino de despir o seu corpo quente e macio sob o meu.

Seu desejo por mim é urgente e tangível. Não vou mentir, o meu também é.

Guiados por ele, logo somos apenas um emaranhado confuso de corpos suados, travessuras, gemidos e sensações.

Sim, eu senti falta deste tormento. Cada parte de mim sentiu. E agora cada parte de mim se regozija com sua presença. Se satisfaz com sua existência. Se completa.

Olivia.

Midgardiana nada desprezível.

Minha.

Notas finais
"E se de dia a gente briga, a noite a gente se amaaaaaaaaa... É que nossas diferenças se acabam no quarto, em cima da camaaaaaaaaaaaa." ahahahahahahahahaha E aí? Gostaram? Sim, não, talvez? Será que isso é uma reconciliação? Gostaram dos diálogos, provocações e afins? O que acham que vai acontecer agora? Sei que tem gente que não vai com a cara do Odin (com toda razão, afinal, ô pai desnaturado!), mas eu senti que deixei a relação dele com o Loki muito de lado. Então quis contextualizar um tiquinho neste capítulo. E o que dizer de Thorzito? Muito amor desmentir a Olivia e apoiar o brother, não? ahahahaahah ele shippa Lokivia ♥ Well, quero dizer algumas coisas: Primeiro: eu andei fuçando num aplicativo chamado PhotoGrid e viciei em fazer montagens. Reuni boa parte no meu blog: http://devaneiosdeumahunter.blogspot.com.br/ e tumblr: http://devaneiosdeumahunter.tumblr.com/. Inclusive, fiz algumas coisinhas de Brumy (Bruce e Amy) por lá também. E fiquem de olho no meu Twitter (@HunterPriRosen) porque provavelmente eu vou postar mais coisinhas por lá. Segundo: Sobre um possível spin-off focado em Brumy, vocês querem? Leriam? Tem sugestões de nomes para a fic futura? Porque eu confesso que estou muito tentada a escrever assim que eu terminar Trapaças e adoraria ver vocês por lá. Terceiro: Estou com uma certa dificuldade logística para escrever. Troquei de celular recentemente (depois de três anos escrevendo por outro) e, embora este novo seja super pra frentex, eu não tô sabendo lidar com a escrita no Word dele. Acabo perdendo a paciência, digo para mim mesma que vou escrever pelo notebook à noite ou nos finais de semana, mas dificilmente consigo cumprir. Por isso, provavelmente os próximos capítulos vão demorar mais do que o habitual. Desde já peço desculpas e que Nossa Senhora do Teclado QWERT me ajude, oremos. Quarto: Não se se ficou claro, mas Lokivia tem certa dificuldade com declarações explícitas de amor. Desde a primeira temporada, eu abordei isso e aqui eu quis reforçar com o diálogo lá no começo. Fiz até uma tirinha dele: http://devaneiosdeumahunter.blogspot.com.br/2016/08/trecho-de-capitulo-trapacas-do-coracao.html De qualquer forma, vamos ver se isso um dia, e aos poucos, muda. ♥ Por hoje é só! Inté os comentários, chuchus!