Trapaças do Destino
4 Não irrite o Hulk!
Notas iniciais
São oito horas da noite e nem sinal do Loki. Não sei se fico feliz pelo gafanhoto prepotente não ter dado o ar de sua graça até agora ou se fico ainda mais apreensiva.
Onde será que aquele mequetrefe se meteu e o que diabos está esperando para voltar para o meu cafofo de uma vez?
Não que eu queira que ele volte, não me entendam mal, mas é que eu não aguento mais sofrer por antecedência. Passei o dia inteiro com o coração na mão e me assustando com minha própria sombra. Tudo por culpa do Loki.
Além disso, confesso que estou curiosa para saber o que o levou a desaparecer daquele jeito e, principalmente, por que ele está pensando em voltar. Afinal, foi isso que o Thor me disse naquela manhã, que o tal Heimdall viu certas coisas que indicam que o Loki vai voltar em breve.
Não consigo parar de me perguntar o que será que está acontecendo com o Deus da Trapaça neste exato momento. Será que alguém o reconheceu? Com certeza, ele deve ter chamado muito a atenção das pessoas vestido daquele jeito extravagante.
Se for reconhecido por conta do ataque a Nova York, o Loki terá mesmo motivos suficientes para procurar refúgio no meu apartamento e, com certeza, estará mais insuportável do que nunca, se sentindo encurralado.
Confesso que tenho medo do que ele pode fazer ao se sentir assim. No fundo, não sei se foi uma boa ideia do Thor ter banido o irmão de Asgard daquele jeito. Mesmo sem os poderes, o Deus da Trapaça ainda pode ser perigoso, vingativo, instável e imprevisível.
Por falar nisso, será que o Loki ficou muito bravo por causa das coisas que eu disse sobre a roupa dele?
Solto um suspiro profundo e decido que o melhor é relaxar e parar de pensar nessas questões, afinal, quando o Loki finalmente resolver voltar, eu preciso estar calma e focada na missão que me foi dada. Não quero, de jeito algum, decepcionar o fofo do Thor, que depositou toda aquela confiança em mim, uma reles midgardiana.
O mínimo que eu tenho que fazer em retribuição é acreditar que ele, o Hulk e os outros Vingadores realmente estão de olho em mim e que virão ao meu socorro ao menor sinal de perigo. Ah! E claro, fazer o melhor que eu puder para ajudar o traste do Loki.
Enquanto me maquio diante de um enorme espelho no meu quarto, me lembro das palavras do Deus do Trovão. Thor me disse para eu ser eu mesma. Por isso, resolvi seguir com o que eu havia planejado na noite anterior: vou sair para dançar e fingir que a minha vida não mudou desde que um deus asgardiano despencou na frente do meu carro no meio de uma tempestade.
Quem sabe quando eu voltar, o Loki finalmente esteja aqui com o rabinho entre as pernas, me pedindo abrigo?
Rio ao pensar no Loki me pedindo alguma coisa. É mais provável que ele se aposse do meu humilde apartamento e eu que tenha que implorar para continuar morando aqui. Talvez ele se aposse até da minha cama e me deixe no sofá, como fez na noite em que eu tive a infeliz ideia de ajudá-lo.
Balanço a cabeça negativamente ao pensar nisso e digo sozinha:
— Não, a minha cama não. Nem pensar, gafanhoto.
Em seguida, guardo a maquiagem na minha pequena nécessaire e a coloco na minha bolsa. Depois me olho no espelho novamente, dando uma boa conferida no meu look, — um vestido preto levemente rodado e um par de sandálias douradas — e constato que, modéstia à parte, eu estou um arraso.
Sorrio e pisco para o meu reflexo antes de deixar o quarto e depois o apartamento. Logo entro no elevador.
Vou sair para dançar com Josh e Amy. Os dois são irmãos, tem quase a mesma idade que eu, são excelentes pessoas e meus melhores amigos.
Nos conhecemos há quase quatro anos, através da faculdade. Fazemos o mesmo curso e somos inseparáveis. Josh, só para constar, é gay. E lindo do tipo que faz as garotas entortarem seus pescocinhos para vê-lo passar. Coitadinhas... Sabem de nada, inocentes.
Já Amy é dois anos mais velha do que ele e é o tipo de garota sem sorte no amor. Já perdi a conta de quantos namorados, e quase namorados, ela teve e de como as coisas sempre terminaram mal. Acho que é por isso que sou tão amiga dela... Me identifico.
Sempre trocamos confidências sobre nossos relacionamentos furados e nos apoiamos uma na outra para seguir em frente de cabeça erguida.
Tudo bem, eu confesso. Na verdade, nós geralmente enchemos a cara para afogar as mágoas e, no dia seguinte, temos que lidar com a ressaca física, além da moral.
Mas, se Deus quiser e se eu fizer tudo direitinho, minha falta de sorte no amor está prestes a mudar. Isso porque ter passado o dia inteiro com medo do Loki voltar, me fez ver as coisas por outro ângulo. Eu tinha conhecido um dos Vingadores naquela manhã e visto outro à distância, pela minha varanda, certo? Sabem o que isso significa? Que agora eu tenho contatos para lá de importantes e que podem ser bem úteis.
Minha avó costuma dizer que nós não devemos nos aproveitar assim das pessoas, que pedir favores é feio. Consigo até ouvir a sua voz me repreendendo em algum lugar da minha consciência.
Mas, minha amada vózinha que me desculpe, eu não consigo ser tão nobre assim. Por isso, vou me aproveitar sim dos meus novos contatos para chegar em uma certa pessoa que pode, finalmente, acalentar meu coraçãozinho solitário e ser o meu cobertor de orelha oficial e definitivo.
Aliás, só de pensar naquele uniforme imponente colado no corpo esbelto do meu Vingador favorito e naquele escudo maravilhoso, sinto minhas pernas ficando bambas e me apoio na parede do elevador com um sorriso travesso nos lábios.
Quando a porta se abre, respiro fundo, me recomponho e saio, caminhando da forma mais natural que consigo, me obrigando a ficar calma e seguir com o meu plano. Então, caminho até a portaria e logo deixo o prédio para trás.
Enquanto sigo em direção à lanchonete do outro lado da rua, onde o Dr. Bruce Banner ainda se encontra sentado à mesma mesa, folheando e "lendo" o mesmo jornal de horas antes, repito baixinho para mim mesma:
— Não irrite o Hulk, não irrite o Hulk. Você consegue, Olivia. Não irrite o Hulk.
Quando me aproximo o suficiente, ele finalmente desvia o seu olhar da “leitura” e encontra o meu. Detenho o passo diante de sua mesa e apoio minhas mãos no encosto da cadeira de frente para ele.
O Dr. Banner disfarça bem, mas mesmo assim consigo ver certa surpresa em seu semblante e também uma reprovação palpável. Com certeza, ele não está de acordo com aquela aproximação. E nem poderia estar, afinal a coisa fofa do Thor me disse que eu não deveria deixar o Loki saber que ele me visitou naquela manhã, muito menos que o Bruce está de olho em mim. E me aproximar daquela mesa contraria a ordem que eu deveria seguir.
Porém, o Deus do Trovão também me aconselhou a agir naturalmente e a ser eu mesma, não foi? E eu não seria eu, se não tentasse tirar algum proveito daquela situação, afinal é o meu pescocinho que está em jogo.
Sendo assim, eu acho que tenho o total direito de pedir algo em troca do risco que estou correndo ao tentar ajudar o Loki a encontrar o caminho da salvação, não é? Bem, na verdade, eu acho que posso pedir mais de uma coisa...
Pensando desta forma, me encho de coragem, puxo a cadeira e me sento. O Dr. Banner me encara com uma incredulidade contida e sinto certo desconforto. Preciso dizer alguma coisa antes que aquilo se torne embaraçoso demais. Penso em me apresentar, mas lembro que ele sabe muito bem quem eu sou, já que está ali a pedido do Thor. Então, limpo a garganta e resolvo dizer outra coisa:
— É uma honra conhecê-lo, Seu... Hulk.
Por que diabos eu disse isso?! Por quê?! A vontade que tenho é de me estapear loucamente por ter sido tão estúpida!
Eu queria chamá-lo de Dr. Banner, juro que queria, mas minha língua maldita e o meu nervosismo me traíram e acabei o chamando daquele jeito. E imediatamente, fico receosa e tensa por causa disso, afinal e se ele não gosta de ser chamado assim? E se ele ficar nervoso, bravo, enfurecido por causa disso e... Se transformar no Incrível Hulk bem na minha frente? E se aquele ser verde e enorme partir para cima de mim e... Era uma vez uma jovem chamada Olivia Mills?
Para minha surpresa e meu alívio, o Dr. Banner parece muito calmo, quando ajeita o óculos em seu nariz, olha tudo em volta discretamente e me diz de uma forma extremamente gentil:
— Você pode me chamar de Bruce, se preferir, Srta. Mills.
Esboço um leve sorriso, enquanto relaxo e me pergunto como pode aquele homem, aparentemente tão calmo, educado, sério e fofo — será que eu vou achar todos os Vingadores fofos? — ser também aquele super herói que eu vi na televisão, com todo aquele tamanho, ferocidade e... Cor?
Sem conseguir encontrar uma resposta para isso, no fundo achando que não importa realmente e já me sentindo a amiga de infância dele, eu proponho:
— Só se você me chamar de Olivia.
Ele me observa por um instante e assente:
— Combinado. — ainda estou sorrindo e quase pedindo um autógrafo, quando ele olha em volta novamente, depois me encara e opina com certa cautela: — Mas eu tenho que dizer, Olivia... Eu não acho que ter se sentado aqui foi uma boa ideia. Nós não podemos ser vistos juntos.
Deduzindo o motivo da preocupação dele, eu olho tudo em volta também e indago em tom divertido e tranquilo:
— Por que não? Por acaso, você está vendo algum gafanhoto asgardiano por aqui? Porque eu, graças a Deus, não estou.
Bruce leva apenas um segundo para entender de quem eu estou falando e quase consigo ver um sorriso em seu rosto, quando ele confessa:
— Gostei do apelido.
Relaxo ainda mais. O Hulk... Digo, o Bruce, parece ser bem legal. Tanto que tenho vontade de tirar uma selfie com ele imediatamente e publicar em minha rede social com a seguinte legenda: Olivia Mills começou uma amizade com Bruce Banner. Morram de inveja, bitches, ele é um dos Vingadores!
Contenho tal impulso, mas não descarto a ideia totalmente. Quem sabe em outro momento, quando nossa amizade estiver mais aprofundada?
Pensando em estreitar nossos laços, eu sorrio mais uma vez e sugiro:
— Acho que eu tenho que arranjar um apelido para você também, não é?
Porém, a ideia não parece agradá-lo, já que Bruce fica sério de repente. Isso me faz sentir uma ponta de medo, o que deixa o meu corpo tenso novamente.
Não irrite o Hulk!
Procuro me acalmar, me ajeito na cadeira, uno minhas mãos sobre a mesa e noto que elas estão ligeiramente suadas. Então respiro fundo, limpo a garganta mais uma vez e retiro minha sugestão:
— Talvez seja melhor... Não. Sem apelidos, Bruce.
Bruce não diz nada, mas sua expressão se suaviza e seus olhos curiosos repousam em mim, como se agora ele estivesse esperando que eu finalmente explicasse por que estou ali.
Suas sobrancelhas se unem diante do meu silêncio e bato na minha própria testa ao deduzir que é exatamente isso que ele está esperando. Porém, por mais que eu tenha ensaiado direitinho o que deveria dizer quando estivesse diante dele, quando abro a boca, uma pergunta estúpida sai de minha garganta:
— Qual é a sua cor favorita?
— O quê? — ele indaga quase imediatamente, fechando os olhos por um instante e balançando a cabeça, visivelmente confuso.
Novamente, tenho vontade de me estapear, mas não há tempo para autoflagelação. Preciso me expressar melhor e não deixar o Bruce pensando que eu sou uma maluca. Mesmo porque eu não sou. Por isso, recomeço:
— Eu só estava pensando que, já que você virou o meu Kevin Costner particular, nós podíamos nos conhecer um pouco e começar uma amizade sincera. — antes que ele diga qualquer coisa, e incapaz de pensar em algo melhor, eu refaço a pergunta: — Então, qual é a sua cor favorita?
Bruce demora um pouco para responder, acho que no fundo ainda está pensando que eu sou maluca, mas por fim, ele diz:
— Verde... Eu acho.
Não consigo deixar de sorrir diante daquilo e digo:
— Óbvio.
Ele assente com um meneio de cabeça, entendendo por que eu fiz aquela observação. Em seguida, coça a nuca por um instante e rebate:
— Ãn… E a sua?
Não sei se ele realmente quer saber, se perguntou apenas para retribuir a minha pergunta ou se está tentando ganhar tempo, para encontrar uma forma de encerrar aquela conversa sem sentido que eu iniciei. De qualquer forma, decido dizer:
— Preto.
Indicando o meu vestido, ele me imita:
— Óbvio.
Dou risada. Exageradamente. E confesso que não sei por que. Nem foi tão engraçado assim, foi?
Me recomponho rapidamente e depois de pensar um pouco, eu entendo por que estou agindo feito uma retardada desde que me sentei ali. Eu estou nervosa. Muito. Não por estar diante do Hulk e envolvida em toda aquela situação, mas sim porque eu tenho que expor o que quero de uma vez, só que não consigo.
Como se tivesse lido os meus pensamentos, Bruce me avalia por alguns instantes e pergunta pacientemente:
— Olivia, já que você quer começar uma amizade sincera, por que não me diz o que você realmente pretende com esta conversa?
Respiro fundo, soltando o ar com calma e decido não subestimar mais a inteligência de Bruce Banner. Por isso, anuncio um tanto envergonhada:
— É que eu... Quero pedir uma coisa.
— Se estiver ao meu alcance, será um prazer ajudá-la. — ele diz gentilmente e com um interesse sincero.
Fofo! Fofo! Fofo!
Meu nervosismo se dissipa diante do seu consentimento. Então, sem pensar duas vezes, eu coloco minha bolsa sobre a mesa, retiro uma folha de papel dobrada de dentro dela e a empurro, sutilmente, na direção dele.
Disfarçando certa surpresa, Bruce pega o papel e enquanto o desdobra, diz:
— Ah... Você anotou.
A folha cobre todo o seu rosto, enquanto ele a segura, e engulo em seco. Será que Bruce está pensando que eu estou abusando de sua boa vontade? Será que eu estou? Será que eu devia ter seguido o conselho da minha avó e sido mais humilde?
— Na verdade... É uma lista. — ele constata, e acho que está passando os olhos de uma forma geral pelo papel, sem ler meus pedidos ainda.
Eu estou abusando. Eu sou um ser humano horrível e uma interesseira desprezível! E sim, eu fiz uma lista. Isso porque eu não estou apenas interessada em conhecer o meu Vingador favorito, mas em outras regalias também.
Penso, seriamente, em arrancar a folha das mãos do Bruce e sair correndo dali. Mas, quando me inclino em sua direção e meus dedos estão quase alcançando o papel, ele abaixa a folha e me encara sem entender a minha súbita aproximação.
Depois de esboçar um sorriso amarelo, eu abaixo as mãos, me afasto e apoio minhas costas na cadeira. Penso em me esconder embaixo da mesa, mas isso seria muito patético.
Já que eu comecei aquilo, decido que irei até o fim. Então, observo Bruce pegando uma caneta no bolso de sua camisa e a aproximando da folha sobre a mesa, enquanto lê a primeira coisa que estou pedindo.
Um longo momento de silêncio se passa, até que ele finalmente volta a me encarar e se pronuncia:
— Olivia, eu não posso dar uma surra nos seus chefes.
— Por que não? — pergunto sem conseguir esconder a decepção em minha voz. — O Hulk não... Esmaga tudo?
Ele estreita seu olhar sobre mim e, como se estivesse falando com uma criança levada, responde o óbvio:
— Eu não posso machucar pessoas inocentes.
— Meus chefes não são inocentes. Eu nem sei se eles são pessoas. — protesto indignada, e diante de sua expressão incrédula, eu argumento com mais veemência: — É sério, eu tenho quase certeza de que aqueles dois são demônios! Qualquer dia desses, eu vou preparar o café deles com água benta e comprovar a minha teoria!
— Olivia. — sua voz me repreende, novamente como se estivesse diante de uma criança.
Solto um suspiro e penso um pouco. Constato que ele tem razão. Eu realmente não posso pedir para o Hulk machucar alguém que ele acredita ser inocente. Por mais que dentro de mim, eu tenha certeza que de inocentes meus chefes demônios não tem nada. Aquilo não está certo. No fundo, eu não sei o que deu em mim quando escrevi aquele pedido na lista.
Por tudo isso, eu concordo resignada:
— Tudo bem.
Imediatamente, Bruce risca o primeiro pedido da minha lista e lê o segundo em tom interrogativo:
— Entrevista de emprego com Tony Stark?
Quando ele ergue seu olhar na minha direção, eu vendo o meu peixe:
— Bem, eu realmente preciso me livrar dos meus chefes, então... Eu pensei que um emprego no departamento de criação e marketing das Indústrias Stark seria ótimo. E eu já estou bem perto de me formar, tenho experiência por causa do estágio, então...
Paro de falar enquanto Bruce me analisa atentamente. Sinto certa vergonha por ter feito um pedido como aquele, mas isso passa quando ele se compromete:
— Eu acho que consigo convencer o Tony a te receber para uma entrevista.
— Obrigada! — eu vibro com aquela possibilidade, enquanto ele faz um asterisco ao lado do segundo pedido da lista.
Em seguida, Bruce lê:
— Convite para o casamento da Viúva Negra com o Gavião Arqueiro. — após uma breve pausa e visivelmente confuso, ele deixa escapar: — Espera um pouco... Eles não me disseram que já estavam pensando em casamento, então como você sabe que... — seu olhar para no meu sorriso e ele deduz surpreso: — Você me enganou.
— E você caiu como um patinho. — rio com desdém e feliz demais com o que ele acabou de me confirmar. A Viúva Negra e o Gavião Arqueiro tem um romance!
Porém, quando Bruce une as suas sobrancelhas e me encara sem ver graça na minha piada, eu repito mentalmente:
Não irrite o Hulk!
Então, depois de me ajeitar na cadeira mais uma vez e pigarrear, procuro ficar calma e recomeço:
— Me chame de maluca, mas eu senti uma química entre eles durante as transmissões do ataque alienígena por aqui. E eu fiquei torcendo para que não tivesse sido só impressão minha. Obrigada por confirmar minhas suspeitas. Aliás, você não acha que eles formam um casal lindo?
— Eu não acredito que você me enganou. — é o que ele me responde, antes de deixar aquele pedido em aberto e partir para o último e talvez o mais importante: — Encontro com o Capitão América? — um longo momento de silêncio paira sobre a mesa, até que ele finalmente volta a olhar para mim e pede desconfiado: — Defina encontro, Olivia.
Engulo em seco e sinto o meu rosto ruborizando pouco a pouco. Talvez eu não devesse ter pedido aquilo, mas caramba! É do gato do Capitão América que nós estamos falando. Que mulher, em sã consciência, não ia querer uma chance com aquele velhote super conservado?
Pensando assim, não resisto e arrisco:
— Encontro do tipo... Romântico?
O olhar de Bruce mostra que ele não aprova aquela ideia. Então, se eu realmente quero aquilo, tenho que ser mais persuasiva.
Por isso, argumento com ênfase:
— Qual é? Analisa, Bruce. Eu e o Capitão somos loiros, americanos e... E... — preciso de mais um argumento. — Patriotas! Portanto, temos tudo a ver um com o outro. — ele continua me encarando e resolvo arrematar: — Você não acha que nós íamos formar um lindo casal?
— Você quer saber o que eu acho? — não tenho certeza se quero, mas quando o incentivo com um meneio de cabeça, Bruce aconselha: — Eu acho que você devia se concentrar no Loki.
O quê?!
Esta pergunta reverbera por cada terminação nervosa do meu cérebro, mas o que acaba saindo da minha boca é:
— No Loki? Mas aquele traste nem é um pretendente viável.
Sem conseguir conter um sorriso, Bruce esclarece:
— Eu estava falando da sua missão, Olivia. — devo estar com uma cara de paisagem, porque ele fica sério e questiona: — Você se lembra dela, certo? Da sua missão? Daquela que o Thor te incumbiu? Hoje? De manhã?
Demoro alguns segundos para me situar e entender do que ele está falando. Então, bato na minha testa mais uma vez e exclamo:
— Oh, claro! Desculpe! Lembro sim!
Bruce se recosta na cadeira e me observa intrigado. Tento me convencer de que não, eu não me esqueci da missão a qual fui designada, mas tenho que confessar que por um momento, eu me esqueci sim. Me julguem. Acho que fiquei empolgada demais com a ideia de conhecer o gato do Capitão América e não soube medir o que é prioridade no momento. E, para meu azar, a prioridade é o estrupício do Loki.
Desperto desses pensamentos, quando o Bruce começa a falar de novo:
— Olha, eu não posso te prometer um encontro romântico com o Capitão América, ele é muito reservado e eu não sei se está à procura de um relacionamento neste momento, mas eu posso apresentar vocês, quando a situação do Loki estiver devidamente resolvida. Quem sabe você possa começar uma amizade sincera com ele também?
Eu deveria ficar feliz só com a possibilidade de ser amiga do Capitão América. Porém, não resisto e arrisco mais uma vez:
— Uma amizade sincera e... Colorida... Com possibilidade de Upgrade?
— Apenas sincera, Olivia. — Bruce reforça, arqueando as sobrancelhas levemente e contendo um sorriso.
Respiro fundo e, por fim, decido que o melhor é me conformar. Pelo menos por enquanto, é claro. Então digo:
— É melhor do que nada, não é?
Bruce sorri e me surpreende ao dizer:
— Com certeza, ele vai gostar muito de te conhecer, Olivia. Você é uma garota muito especial e corajosa.
Corajosa? Eu? Bruce Banner, o Incrível Hulk acabou de dizer que eu sou corajosa? Thor, o Deus do Trovão, confiou em mim a ponto de pedir que eu ajudasse o Loki? O que está acontecendo com esses super heróis, minha Nossa Senhora Protetora dos Vingadores? Será que eles estão certos? Será que eu sou corajosa mesmo? Então por que a ideia de reencontrar o Loki me apavora tanto?
Sinta medo e o enfrente. Quase ouço a voz da minha avó me dizendo isso. E então eu entendo que é exatamente isso o que tenho feito há dois dias. Eu tenho sentido muito medo, mas tenho procurado enfrentar tudo de cabeça erguida. Talvez seja isso. Talvez a verdadeira coragem esteja em enfrentar o nosso medo e não em não sentir medo, certo?
Sinto que estou filosofando demais, quando o meu mais novo amigo passa os olhos pela folha sobre a mesa e me desperta novamente:
— Você anotou um endereço no final da lista. O que significa?
Quando Bruce me encara de um jeito interrogativo, eu explico:
— Eu só pensei em facilitar o seu trabalho. É para lá que eu estou indo. É uma boate e, apesar do nome, eu juro que é um lugar de família.
Após um momento de silêncio, possivelmente avaliando o que eu havia dito, o herói faz uma crítica velada de uma forma bem educada:
— Mas você não devia ficar no seu apartamento, esperando o Loki voltar?
— Segundo o Thor, eu devo seguir com a minha rotina e ser eu mesma. — argumento, me lembrando das palavras que o asgardiano me disse mais cedo. — E essa é uma ordem que eu não penso em desobedecer.
Bruce esboça um leve sorriso, aceitando meu argumento, e por fim, encerra:
— Eu estarei de olho em você, Olivia. Todos nós estaremos. Não se preocupe.
Respiro aliviada e sorrio para ele, enquanto me levanto. Antes de me afastar da mesa e atravessar a rua, eu finalizo:
— Então é isso. Te vejo no Inferno, Bruce.
A última coisa que vejo é a expressão confusa e surpresa no rosto dele. Rio baixinho, já que sei que ele só vai entender por que eu disse isso, quando encontrar a boate localizada no endereço que anotei. Ela se chama Inferno. Mas é um lugar de família. Juro.
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