Trapaças do Destino
17 Macumba Poderosa
Notas iniciais

Juro solenemente que não vou me apaixonar pelo vilão da história.
É o que estou repetindo mentalmente, enquanto encaro Loki embaixo do meu corpinho sobre a cama.
Epa! Epa! Epa!
Embaixo do meu corpinho? Na minha cama? O que diabos está acontecendo aqui mesmo? E o que está acontecendo comigo? Por que, subitamente, meu cérebro parece ter virado geleia? E por que meu coração está tão acelerado? E por que minha respiração falha a cada vez que eu tento respirar?
É o que estou me perguntando, quando me obrigo a quebrar esta macumba poderosa que prende os meus olhinhos de noite serena ao olhar do traste asgardiano, que me fita de volta de um jeito... Intenso demais para o meu gosto.
— Macacos me mordam... — resmungo, me afastando o mais rápido que consigo, o que me leva a cair de bunda no chão em seguida. — O que você está fazendo aqui? — questiono desnorteada, passando as mãos pelos cabelos e tentando me recompor.
Exibindo um sorriso irritante e debochado naquele rostinho... Ridículo, o Deus da Trapaça se senta e responde tranquilamente:
— Eu só estava tentando dormir. Agora, a pergunta mais apropriada para este momento seria... Por que você se jogou em cima de mim deste jeito, Olivia?
Não sei o que acontece comigo quando ouço meu nomezinho fofo, fofo, fofo naquela boca maldita, mas dou graças a Odin, que o quarto está pouco iluminado pela fraca luz do abajur, já que assim o gafanhoto abusado não pode ver como eu fiquei vermelha por causa disso.
Sua pergunta também mexe comigo, já que do jeito que Loki falou, parece até que eu me joguei em cima dele de propósito, parece até que eu fiz isso com... Segundas intenções.
Eca! Eca! Eca!
Com raiva e querendo colocar este serzinho desprezível no seu devido lugar, eu retruco rispidamente:
— Eu não me joguei em cima de você! Aliás, eu não faria isso mesmo que você estivesse coberto por algodão doce! Agora levante esse traseiro asgardiano daí!
Depois de erguer as mãos em sinal de rendição, Loki me provoca de um jeito cínico:
— Calma, midgardiana. Não precisa ficar tão nervosa. Eu só estava brincando.
— Eu não estou nervosa! — berro, mas ao perceber como isso soou contraditório, procuro me acalmar e reforço pausadamente: — Sai da minha cama agora mesmo.
— Com todo o prazer. — Loki acata com um leve e cínico sorriso naqueles lábios... Naqueles lábios! Ponto. — Permita-me perguntar... — ele pede depois de se levantar da minha amada caminha bem lentamente, como se quisesse me provocar. — O que aconteceu? Por onde você andou o dia inteiro? Por que demorou tanto para voltar? Você conseguiu encontrar o seu amigo?
Suas perguntas me pegam de surpresa. Isso porque eu estava tão convencida de que o gafanhoto não estava por perto, que nem pensei que ele me encheria de perguntas, quando eu voltasse para o meu cafofo.
Pondero desconversar, dizer que não é da conta dele, mandá-lo para um lugar onde o Sol não brilha, algo assim. No entanto, sei que essa postura deixaria Loki desconfiado e, como tenho que priorizar esta maldita missão, resolvo lhe dizer a verdade. Ou pelo menos uma parte dela.
Sendo assim, eu me levanto e relato rapidamente e com certa indignação:
— Eu fui atrás do meu amigo sim. Aquele que você jogou contra mim com o seu teatrinho ridículo, sabe? Mas eu não consegui alcançá-lo, porque acabei sendo atropelada por um maluco numa bicicleta. Então, o carrasco se sentiu culpado, me levou até um hospital e, como eu bati a cabeça na guia, o médico achou prudente me deixar em observação por algumas horas. Depois disso, ele me deu alta e aqui estou eu, dando satisfações da minha vida para um abusado que se apoderou da minha caminha, enquanto eu estava entre a vida e a morte. Por falar nisso, você não tem vergonha, não?
O silêncio reina pelo quarto enquanto Loki parece assimilar tudo o que eu disse. Por fim, para meu desespero, esta gentalha alienígena sorri com certa diversão e debocha:
— Quer dizer que você foi atropelada por uma... Bicicleta?
Com raiva, eu fuzilo o Deus da Trapaça com um olhar mortal. No entanto, isso não parece intimidá-lo, já que o sorriso do dito cujo se alarga consideravelmente e logo transforma-se em uma risada insuportável.
Respiro fundo, conto até dez mentalmente e, imagino Loki explodindo umas mil vezes. Mas, como o infeliz continua rindo, eu coloco minhas mãos na cintura e retruco:
— Está rindo do que, chuchu? Você também levou uma boa pancada hoje, esqueceu? Por falar nisso, como está a situação...
De repente, paro de falar e fico muito sem graça. Sem graça demais para quem não dá a mínima para este deus megalomaníaco e insuportável.
Imediatamente, Loki para de rir e sua atenção se volta toda para mim, como se ele estivesse me incentivando a concluir o meu raciocínio, como se tivesse ficado curioso. Isso só me deixa ainda mais constrangida e então deduzo que ele gosta de me ver assim, com vergonha, embaraçada diante dele. Loki parece se divertir com isso.
Para minha desgraça, sinto o meu rosto enrubescer consideravelmente. E, para meu desespero, acabo direcionando os meus olhinhos de noite serena para o... Playground do Deus da Trapaça.
Fazendo um esforço, eu desvio o meu olhar rapidamente, cruzo os braços contra o peito e indago do jeito mais indiferente que consigo:
— Como está a situação... Aí embaixo?
Sua resposta demora uma eternidade, como se agora Loki quisesse me torturar com o seu silêncio e me fazer refletir sobre a minha pergunta.
A propósito, por que eu perguntei isso mesmo?
Procuro a resposta dentro de mim e me convenço de que só estou querendo sondar o terreno, descobrir se Loki ficou com muita raiva do que eu fiz e se isso pode se tornar um problema para a nossa conturbada relação e, consequentemente, para o sucesso da missão.
É, é isso. Só isso. Eu estou pensando na missão. Única e exclusivamente na missão e não na integridade física deste infeliz.
— Eu estou bem. — Loki finalmente responde de um jeito tranquilo, me fazendo olhar para ele intrigada.
Logo entendo por que ele não quer dar muita ênfase ao assunto. Loki ficou P da vida com o que eu fiz sim, e, de certo, não quer me dar os devidos créditos por tê-lo feito sentir tanta dor e tanta humilhação. Por isso, está fazendo pouco caso e tentando transparecer indiferença, quando, na verdade, deve estar querendo torcer o meu pescocinho midgardiano agora mesmo.
— Obrigado pela preocupação. — ele diz, numa clara tentativa de colocar palavras na minha boca, de me desestabilizar de alguma forma e assim se divertir com o meu constrangimento mais uma vez.
Não entendo por que estou tão constrangida, mas me convenço de que não posso deixar esse gafanhoto orgulhoso vencer este embate de egos.
Desta forma, procuro manter a calma e esclareço rapidamente:
— Eu não estou preocupada, eu só... — as palavras seguintes não saem da minha garganta e eu me condeno por não ter pensado melhor nelas, antes de começar a falar. Mas, agora é tarde demais. Preciso prosseguir seja como for. — Por um instante, eu pensei que você não fosse mais conseguir... Não fosse mais conseguir... — gaguejo, inexplicavelmente nervosa. — Não ia... Não vai... — gaguejo novamente, sentindo o meu rosto ruborizar mais uma vez, enquanto Loki arqueia as sobrancelhas e me encara de um jeito sério, embora no fundo, deva estar se divertindo horrores com o meu embaraço. Então, engulo em seco e solto a pérola: — Você sabe, conseguir... Acasalar. — Loki arregala um pouco os olhos, como se eu tivesse dito um absurdo. Pior, como se eu tivesse insinuado que eu e ele... Ai meu Deus! — Não comigo, é claro! — faço questão de esclarecer. — Mas... Mas... — murmuro, me sentindo confusa e mais envergonhada do que nunca. Não sei mais o que estou dizendo, pois, inexplicavelmente, me perco no olhar um tanto curioso do deus trapaceiro. E tenho que me obrigar a desviar de tal olhar, para conseguir encerrar com o coração, misteriosamente, disparado: — Eu vou calar a boca.
O silêncio volta a se instalar no quarto e, por alguns instantes, tudo o que ouço é o barulho da chuva caindo lá fora.
Por fim, volto a encarar o gafanhoto e vejo um leve, cínico e misterioso sorriso no canto dos seus lábios, quando ele debocha de mim:
— Algo me diz que você bateu a cabeça com muita força mesmo, não foi?
Estreito o meu olhar na sua direção e estou pronta para mandá-lo para o inferno, quando um relâmpago ilumina mais o quarto, seguido por um estrondoso trovão, que me faz sacudir os ombros involuntariamente, ir um pouco para frente e me agarrar a primeira coisa que vejo. Que, por acaso, é o braço do Deus da Trapaça.
— Jesus, Maria e José! — exclamo assustada, tremendo e fechando os olhos com força, enquanto minhas mãos se estreitam em seu braço e lembranças de uma tempestade como esta me inundam. Quase me afogam de novo.
Quando percebo o que fiz, abro os olhos devagar. Então, noto que Loki está completamente tenso e muito próximo do meu corpo, que ainda treme, mas começa a se estabilizar à medida que o calor que emana do gafanhoto me envolve aos poucos.
Em uma situação como esta, eu deveria me afastar rapidamente dele, mas... Por algum motivo, eu faço isso bem devagar. Em câmera lenta, eu diria. Como se eu não quisesse quebrar esta onda de calor que me invadiu. Como se eu tivesse gostado da nossa súbita proximidade.
Eu hein... Acho que fizeram mesmo uma macumba poderosa para mim porque, definitivamente, não estou no meu estado normal.
Paro de pensar nisso, quando solto o braço de Loki com cuidado e ergo o olhar na direção do seu rosto, que está a poucos centímetros do meu. Então, nossos olhares se encontram e isso é estranho e... Bom ao mesmo tempo. Percebo certa confusão no semblante do deus trapaceiro à medida que o seu olhar mergulha cada vez mais no meu.
Engulo em seco, sem saber ao certo o que estou sentindo neste momento. Tudo o que sei é que estou sentindo alguma coisa. Uma coisa que eu não deveria sentir. Uma coisa que me assusta mais do que esta maldita tempestade. Uma coisa que preocupa o top model asgardiano e os outros Vingadores. Uma coisa sobre a qual eles me alertaram, para que eu tomasse cuidado e não deixasse acontecer, pois seria... Um erro, estupidez e perigoso.
Um alerta se acende dentro de mim, quando me lembro de tudo isso, e rapidamente me afasto do gafanhoto asgardiano, quebrando o contato visual, a onda de calor, tudo.
Demoro alguns instantes para voltar a encará-lo e quando finalmente o faço, estou super mega hiper blaster constrangida. Para variar.
Para meu alívio — ou não — Loki parece ter voltado ao seu estado normal — lê-se serzinho insuportável, abusado, do mal, que adora me irritar, me provocar e me deixar sem graça — já que ele endireita a postura de um jeito superior, cruza as mãos atrás do corpo, me encara e debocha:
— Quer dizer que você tem medo de chuva? — antes que eu pense no que responder, ele sorri de um jeito torto, inclina um pouco a cabeça e arremata ironicamente: — Que fofa.
Sem gostar que ele faça piada com o meu medo, fulmino Loki com o olhar e fecho as mãos ao lado do corpo, antes de ordenar entredentes:
— Sai do meu quarto, traste. Agora.
Sem se importar com a minha rispidez, o sorriso do Deus da Trapaça se alarga por alguns instantes, enquanto ele continua me encarando com certa diversão. Em seguida, ele finalmente me dá as costas e caminha tranquilamente na direção da porta. Mas, para meu desespero, detém o passo, gira nos calcanhares e me provoca mais uma vez:
— Se você ainda estiver com medo, eu posso lhe fazer companhia. Desde que você diga as palavrinhas mágicas, é claro.
Maldito!
— Vai para o inferno, Loki. — retruco seca, já que nem morta eu vou pedir, que dirá por favor, para esta criatura do mal me fazer companhia. Prefiro que um raio me atinja agora e me transforme em churrasquinho midgardiano.
É isso o que eu prefiro, certo? Certo! Sem sombra de dúvida!
Ainda estou me convencendo disso, quando Loki gira a maçaneta e deseja com sarcasmo:
— Tenha uma boa noite... Olivia.
Dou graças a Odin, quando o estrupício finalmente sai e fecha a porta. Em seguida, tento não pensar no arrepio que ainda percorre o meu corpo, por ter ouvido o meu nomezinho lindo e fofo naquela boca venenosa.
Logo depois, respiro fundo, solto o ar com força, me dirijo ao banheiro e tomo um banho rápido, tentando relaxar um pouco e esquecer aquela conversa estranha, cheia de momentos estranhos e de trocas de olhares... Estranhos também.
Por fim, me deito como uma diva na minha caminha fofa, fofa, fofa e abraço meu amado travesseiro. Mas o jogo no chão, ao sentir o cheiro daquele serzinho infeliz impregnado na minha fronha das Princesas da Disney.
E olha que eu nem sabia que aquele diabo em forma de deus trapaceiro tinha um cheiro. Muito menos, um cheiro tão... Bom.
Sem pensar direito, pego o travesseiro de volta instantes depois. E quando um trovão estrondoso se propaga no ar, me assustando novamente, o abraço com força. Enterro meu rosto nele, me encolho embaixo do cobertor e rezo para a tempestade passar logo.
No dia seguinte
A maldita tempestade demorou para passar, eu acabei dormindo muito tarde e, por isso, quando desperto esta manhã, abrindo os olhos aos poucos, sinto como se não tivesse dormido nada. Ainda estou muito cansada e com muito sono. Mas, quando percebo que não estou sozinha no quarto, arregalo os olhos, me sento na cama rapidamente, levo uma mão ao coração e exclamo assustada:
— Papagaio!
Loki, que está em pé ao lado da cama, com a postura mais superior do que nunca, as mãos para trás e um sorriso displicente no rosto, faz uma cara de inocente e diz com cinismo:
— Oh... Desculpe, eu não queria te assustar, midgardiana medrosa. Mas eu pensei ter ouvido o meu nome. Talvez você tenha me chamado enquanto dormia.
Como é que é? Por acaso, este tormento está insinuando que eu, Olivia Mills, disse o seu nomezinho ridículo enquanto estava mergulhada no sono da beleza? Mas é muito abusado mesmo!
Mas, espera aí... Será que eu falei?
Não, não e não! Não falei! Não posso ter falado! Com certeza, o Deus da Trapaça está — adivinhem? — trapaceando! Jogando verde, para colher maduro. É isso!
Irritada com a sua cara de pau e disposta a preservar o meu orgulho feminino, afasto o cobertor com um movimento rápido, me coloco de pé em um pulo, aponto o dedo em riste na direção dele e começo duramente:
— Escuta aqui...
Mas então, algo que Loki faz me leva a engolir as próximas palavras. Isso porque ele me mede, discretamente, da cabeça aos pés. Não com aquele ar de desprezo que eu já estava acostumada, mas... De um jeito diferente que me pega de surpresa. Em outras palavras, me chamem de maluca, mas eu tenho certeza que Loki me deu uma boa secada.
Claro que ele disfarça rapidamente, encontrando o meu olhar em seguida e dizendo de um jeito sonso:
— Eu estou ouvindo.
Tudo bem, Loki está ouvindo, mas o problema é que eu esqueci completamente o que iria falar. Ainda estou tentando entender por que o gafanhoto me olhou daquele jeito. E basta uma olhada nos meus trajes para matar tal charada.
Estou com um shortdoll da Pocahontas e... Vocês conhecem a Pocahontas, não? Aquela que não gosta muito de... Roupas compridas? Pois é. Digamos que os meus trajes estão meio indecentes hoje, deixando boa parte do meu corpinho à mostra.
Ao me dar conta de que estou, praticamente, seminua diante deste energúmeno estelar, pego o cobertor atrás de mim e o seguro na frente do meu corpo, antes de indagar constrangida:
— O que você está fazendo?
Loki, claro, arqueia as sobrancelhas como se não tivesse entendido o que eu quero dizer, e rebate:
— Como assim?
Rio sem humor diante da sua cara de pau e insisto:
— Você sabe muito bem. — mas, como ele faz uma cara de paisagem, decido ser mais direta: — Você... Olhou para mim.
— Como eu estou olhando agora? — ele dissimula, enquanto me fita com cara de desentendido mais uma vez.
Lhe lanço um sorriso amarelo e replico:
— Não, um pouco antes disso.
— Eu não sei do que você está falando. — desconversa de novo.
— Sabe sim. — insisto, e diante da sua relutância em admitir tal fato, indago pacientemente: — Okay, por acaso você conhece a expressão comer com os olhos?
Loki desvia do meu olhar, pensa um pouco, depois volta a me fitar, dá de ombros e responde:
— Talvez.
Deduzo que ele quis dizer sim, e então prossigo:
— E você sabe o que significa?
Sua risada escapa leve e... Inexplicavelmente gostosa de ser ouvida. Eu o encaro confusa, até que Loki se recompõe um pouco e volta a se manifestar:
— O que eu sei é que existem midgardianas bem convencidas neste Reino. E você, com certeza, ganha de todas elas porque, além de convencida, tem uma imaginação muito fértil.
— Ah! Então eu imaginei isso? — pergunto indignada, inconformada e... P da vida.
— Isso o quê? — Loki rebate, com um sorriso cínico e dando de ombros novamente.
Respiro fundo, fecho os olhos por um instante, procuro manter a calma, abro os olhos, lanço um sorriso falso para o gafanhoto asgardiano e proponho:
— Tudo bem, vamos começar de novo. Bom dia, Loki. Será que você poderia me presentar com a sua ausência, para que eu possa me arrumar em paz, enquanto planejo como vou te ajudar hoje? Ou... Como vou te matar hoje? Eu não sei, ainda estou decidindo, na verdade.
— Bom dia, Olivia. — ele responde quase prontamente, me deixando arrepiada ao dizer meu nome com aquele sotaque... Interessante. — Apesar de você não ter dito as palavras mágicas... Claro. — assente, me encarando por alguns instantes. O que me deixa arrepiada de novo. — Eu estarei te esperando na sala, enquanto planejo como vou arruinar o seu dia. — completa, me lançando um sorriso tão falso quanto o meu, antes de se retirar de fato.
Assim que fico sozinha no quarto, despenco na cama, passo as mãos pelo rosto e, mentalmente, me pergunto o que diabos está acontecendo comigo.
Não consigo responder. Embora, no fundo, eu tenha uma leve desconfiança do que está acontecendo. E algo me diz que não tem nada a ver com uma macumba poderosa...
Sacudo a cabeça levemente, afastando tais pensamentos e vou tomar um banho, enquanto me lembro — pela milésima vez — de que tenho que manter o foco na missão. Apenas na missão e em nada mais. Ponto.
Algum tempo depois
Depois de ter obrigado o Deus da Trapaça a lavar a louça do dia anterior e a do café da manhã — e me deliciado com tal imagem, é claro — o intimo para um passeio por Nova York, convencida de que ver a cidade mais de perto, pode fazer com que este traste pense sobre o ataque que promoveu, há três anos, faça um exame de consciência, se arrependa e, com isso, se torne um pouquinho mais digno.
Não sei se o meu plano está dando certo, mas faço questão de indicar cada prédio e monumento que teve que ser reconstruído, depois que ele e o exército de alienígenas do mal passaram por Midgard. Procuro dar ênfase aos feridos e as mortes ocorridas na época, e que só não foram maiores porque os Vingadores agiram rápido e salvaram muitos civis.
Aproveito também para provocar Loki, elogiando — bastante — o meu Vingador favorito, o seu trabalho como herói e até os seus predicados físicos, com ênfase no seu traseiro que...
— Nossa senhora! — exclamo durante tal conversa, enquanto caminhamos por uma calçada. — É um senhor traseiro, eu tenho que dizer. Ô lá em casa...
Claro que o Deus da Trapaça não gosta nada do meu monólogo apaixonado sobre Steve Rogers, e passa os próximos minutos no mais completo silêncio e com uma cara de limão azedo. Me divirto internamente com isso, já que, por algum motivo, gosto da ideia de deixar o gafanhoto com ciúmes. Me julguem.
Depois de convencê-lo a ajudar uma velhinha a atravessar a rua, continuamos o passeio até que avisto uma cafeteria Starbucks no próximo quarteirão e resolvo dar uma paradinha por lá.
Loki caminha ao meu lado, estranhamente calado. Talvez esteja fazendo o tal exame de consciência, talvez ainda esteja remoendo o ciúme que deve ter sentido ao me ouvir falando tão bem do Capitão Gato América, talvez ainda esteja tramando uma forma de arruinar o meu dia. Eu não sei. Tudo o que sei é que ambos detemos o passo, quando reconhecemos Josh em uma das mesas externas do lugar, tomando um café distraidamente, a alguns metros de nós.
Imediatamente, me sinto um ser humano horrível por não poder ser sincera com o meu melhor amigo sobre esta missão. Não que os Vingadores tenham me pedido segredo de Estado, mas como que eu vou explicar para o meu amigo que o mesmo deus desalmado que um dia quase aniquilou Nova York, está morando no meu cafofo? Não posso. Quanto menos pessoas se envolverem nesta história, melhor.
Além disso, tenho certeza que Josh tentaria me convencer a desistir disso, para o bem da minha sanidade e para minha segurança. E... Eu não quero desistir do gafanhoto. Dobrar este serzinho petulante ao meu lado virou uma questão de honra. Só uma questão de honra, nada mais. Que fique bem claro.
Por outro lado, detesto ficar brigada com Josh. Quero e preciso fazer as pazes. Mas como farei isso se ele pensa que eu e Loki estamos... Nos conhecendo melhor? Como se, por mais que eu negue, Josh parece convencido disso e só ficará mais chateado se eu negar de novo?
— Nós não vamos dizer oi para o seu amigo? — Loki indaga, me despertando de tais questionamentos.
Olho em sua direção ao mesmo tempo em que percebo algo elementar: Josh pensar que eu e este estrupício estamos juntos não precisa ser algo ruim.
Na verdade, é a solução perfeita. É uma mentira reconfortante para Josh e o disfarce perfeito para Loki. É uma forma de apresentá-lo a outras pessoas também, fazer com que ele socialize mais, quem sabe sinta empatia por alguns de nós, midgardianos desprezíveis, e... Mude esse seu jeitinho insuportável para 1% menos insuportável.
É a solução perfeita para mim também, afinal é mais fácil mentir, dizendo que Loki é o meu atual boy magia, do que contar a verdade, que ele é o vilão da história e não vale as cuecas maneiras que eu comprei.
Além disso, quando o traste voltar para Asgard, eu posso dizer que o nosso relacionamento acabou. Simples assim. Ninguém vai questionar, ninguém vai achar estranho. Vida que segue.
Por tudo isso, um sorriso surge em meus lábios e percebo que isso deixa Loki intrigado.
Eu devia estar com raiva dele por ter feito aquele teatrinho para o meu amigo, mas, ao invés disso, resolvo reconhecer:
— Gafanhoto, você é um gênio, sabia?
O Deus da Trapaça arqueia as sobrancelhas, visivelmente surpreso e confuso com o meu elogio.
— Qual é o plano? — indaga desconfiado, instantes depois.
Respiro fundo, relaxando os ombros, e então exponho:
— Muito simples. Você vai me ajudar a fazer as pazes com o meu melhor amigo, fazendo algo que, eu tenho certeza, não será um problema para você.
Loki franze o cenho, ainda sem entender aonde eu quero chegar. Então, resolvo deixar claro de uma vez o que planejo, segurando em sua mão e orientando:
— Continue mentindo... Tom.
— Tom? — ele repete confuso, enquanto eu o arrasto pela calçada, sem lhe dar escolha a não ser me seguir.
Bem, se eu vou fazer mesmo isso, preciso de um nome falso para o deus trapaceiro. Não posso apresentá-lo como Loki. E, me julguem, mas eu acho que Tom é perfeito para ele. Caiu como uma luva.
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