Trapaças do Destino
12 Lapso de Loucura
Notas iniciais
Estou sentada na poltrona da sala, olhando fixamente para o gafanhoto asgardiano megalomaníaco, que está acomodado no sofá ao meu lado e me encarando com uma expressão interrogativa, talvez esperando que eu diga alguma coisa sobre o que acabei de ouvir dele.
Pisco algumas vezes, finalmente assimilando suas palavras e indago:
— Então, basicamente, o seu plano B consiste em me jogar pela janela? — Loki me encara visivelmente intrigado, talvez com a calma e a naturalidade com que eu resumi o seu plano homicida, mas, ao invés de esperar ele responder, eu me levanto com um impulso e anuncio: — Bem, neste caso eu vou fazer a pipoca.
Enquanto caminho até a cozinha, me lembro de que eu não posso deixar o gafanhoto saber que eu estou envolvida até o pescoço na missão de ajudá-lo a se libertar do bracelete. Me lembro também de que tenho que fazer o possível e o impossível para que Thor & Cia não precisem interferir, vindo ao meu socorro. Me convenço de que não posso ser jogada pela janela. E tudo isso significa que eu tenho que manter a calma, usar e abusar dos meus dotes de atriz e dissuadir o deus trapaceiro do seu plano B.
Estou pensando em tudo isso, quando abro o armário e ouço os passos do Loki vindo da sala e parando na soleira da cozinha. Então eu pego uma panela de pressão e cogito arremessá-la na cabeça dele. Mas, guardo-a em seguida, afinal é uma ótima panela e eu não quero amassá-la naquela cabeça dura. Além disso, partir para a violência física não vai resolver o problema, apenas adiá-lo ou quem sabe agravá-lo.
Tenho que manter a calma. É isso. Pego a pipoqueira, o milho, o óleo e fecho o armário.
— Eu não entendo. — o Deus da Trapaça diz e eu ergo o olhar em sua direção, enquanto coloco tudo sobre o balcão e começo os preparativos para aquela que é, teoricamente, minha última, derradeira e fatídica refeição. Teoricamente. — Eu digo que pretendo te jogar pela janela e você resolve fazer... Pipoca?
— Pretende? — eu repito, fingindo confusão. — Engraçado, eu pensei que você já tivesse decidido isso. — articulo, mas ao perceber que tal observação não está me ajudando, decido recomeçar em tom divertido: — Bem, já que eu estou com o pé na cova, prestes a vestir o paletó de madeira, esticar as canelinhas e fazer a grande viagem, eu acho que tenho todo o direito de assistir os meus episódios favoritos do Pica Pau e devorar uma tigela todinha de pipoca antes do meu suspiro final, não?
Por incrível que pareça, consigo arrancar uma leve risada do gafanhoto e a tensão no ambiente se dissipa um pouco. Só um pouco, já que na sequência, ele recomeça de um jeito inquisitivo:
— Então você não está com medo?
— De você? Bitch, please! — deixo escapar aos risos, surpresa comigo mesma, pois constato que realmente passei da fase de sentir medo deste asgardiano maquiavélico. Porém, percebendo que irritá-lo não é o melhor caminho para dissuadi-lo da ideia de me jogar pela janela, eu pigarreio e recomeço seriamente: — Digo... Eu só acho que você não vai fazer isso. Aliás, eu não vejo como fazer isso vai resolver a sua atual situação e te ajudar a voltar para Asgard.
— Eu explico como, midgardiana tola. — Loki anuncia, se aproximando lentamente até se sentar do outro lado do balcão, enquanto me encara de um jeito intimidador. Ou melhor, de um jeito que seria intimidador, se eu ainda tivesse medo deste traste.
No instante em que ele abre a boca para prosseguir, eu rasgo o pacote de milho e despejo o conteúdo na pipoqueira, fazendo um barulho irritante. Automaticamente, Loki me fuzila com o olhar.
Em resposta, eu faço uma reverência e digo com sarcasmo:
— Desculpe, Excelentíssimo Loki, de Asgard. Prossiga, por favor.
Depois de me lançar um olhar de desprezo, o dito cujo retoma o assunto:
— Foi como eu disse antes, eu andei pensando. Alguns dias neste Reino, na sua companhia irritante, me fizeram perceber algo... Elementar.
— E o que seria isso, Sherlock? — brinco sem perceber, talvez numa tentativa de dissipar a tensão novamente. — Eu sou o Watson. — explico, quando o gafanhoto une as sobrancelhas em total confusão. — Esquece. — desconverso, quando percebo que é impossível explicar aquela referência para uma mente tão limitada. Pobres asgardianos... Não tem um seriado decente para assistir nos momentos de ócio.
Após respirar fundo, um tanto incomodado por eu ter o interrompido com uma brincadeira que ele nem se quer entendeu, o deus trapaceiro articula:
— O fato é que eu não acredito que o Thor, sentimentalista e altruísta como ele é, iria simplesmente me abandonar aqui e continuar vivendo normalmente em Asgard. Ele nutre uma verdadeira adoração por este lugar, por uma certa humana também e ele tem amigos... Especiais aqui. Em outras palavras, o Thor se importa com este lugar e quer protegê-lo acima de qualquer coisa.
— Então? — eu o incentivo a continuar, já que não estou entendendo o que o estrupício quer dizer com aquilo, embora no fundo, eu até concorde com uma coisa: eu sei muito bem que o fofo do Thor não abandonou o irmão completamente mesmo.
Ainda estou pensando nisso, quando Loki replica:
— Então ele simplesmente me envia para o lugar que tanto ama? Para perto desses seres desprezíveis que ele quer tanto proteger? — estreito o meu olhar na direção do gafanhoto, deixando claro que não gostei do termo desprezíveis dito com tanto afinco, e então ele diz com cinismo: — Sem ofensa. — após uma breve pausa, Loki continua: — O fato é que eu cheguei a uma conclusão sobre isso, midgardiana. Eu cheguei a conclusão de que o Thor nunca me abandonaria aqui.
— Sem ofensa, mas parece que foi exatamente o que ele fez, chuchu. — retruco.
— Ele está me vigiando. — Loki diz na sequência e uma onda de nervosismo toma conta de mim, pois percebo que ele está matando a charada, que ele está unindo os pontos, e que isso não é nada bom para a missão. — O Thor tem recursos para isso, acredite. E eu aposto que quando ele perceber que a sua inútil existência está em jogo, vai aparecer aqui, cheio de pompa, como o grande herói que ele acha que é, e fará de tudo para salvar o dia. O seu dia, no caso.
Tenho que manter a calma. Tenho que convencer o Loki de que atrair o top model asgardiano para cá não vai adiantar nada. E de fato, eu acho que não vai mesmo. Tenho que ser uma ótima atriz, tenho que dissuadí-lo desta ideia. E, por tudo isso, faço cara de paisagem e banco a desentendida:
— Eu continuo sem entender como isso vai te ajudar a se livrar do bracelete e a voltar para Asgard.
Loki hesita e comprime os lábios com força. Fico com a impressão de que nem ele mesmo sabe o que fará se o seu irmão lindo e loiro aparecer no meu humilde cafofo.
Mas, como é muito orgulhoso para admitir que não pensou nos detalhes do seu plano B, Loki desconversa:
— Isso é assunto meu. O mais importante é que o Thor estará aqui. Ao meu alcance.
— Por acaso você pretende jogá-lo pela janela também? — eu indago, apenas para fazê-lo refletir, pois sei que se Thor viesse, o Loki iria precisar dele para voltar para casa.
Além disso, uma simples queda de um edifício de dez andares não ia machucá-lo, ia? Aliás, Loki não conseguiria fazer isso, já que sem os seus poderes, o Deus da Trapaça não é capaz de fazer sequer um arranhão naquele rostinho lindo, mesmo que quisesse muito.
Na atual situação, Loki não é páreo para o Deus do Trovão. É um fato. E esse plano B é apenas uma medida desesperada de alguém muito desesperado.
Preciso fazer o gafanhoto enxergar isso, preciso lhe despertar um pouquinho que seja de bom senso, de consciência. Preciso lembrá-lo de como aquilo funciona, das regras que Frigga determinou.
Pensando desta forma, eu recomeço com uma indignação crescente:
— Você não lembra de nada do que a sua mãe diva falou, não, seu mal criado? Jura que você fez questão de esquecer tim tim por tim tim daquela mensagem linda e super fofa que ela fez questão de gravar para você? Porque ela ainda acreditava que um dia você fosse tomar jeito na vida? Porque ela tinha fé em você?
Loki me lança um olhar furioso, se levanta da cadeira, cerra os punhos e os bate com força no balcão, me causando um sobressalto e fazendo a pipoqueira tremer um pouco diante de mim.
Em seguida, ele despeja entredentes:
— Não fale sobre... Ela! E eu já disse, isso tudo é problema meu. Eu vou lidar com essa situação, eu vou me livrar desta... Maldita coisa! — ele indica o bracelete e, depois de um tempo, completa um pouco mais calmo: — Eu só preciso que o Thor venha até mim. E você vai me ajudar, midgardiana desprezível.
Espero Loki se acalmar mais um pouco, enquanto penso em argumentos que eu poderia usar para persuadí-lo. Uma opção surge na minha mente e eu a acho convincente o bastante para expô-la:
— Você já me ameaçou antes e o Thor não apareceu. Por que agora seria diferente?
Para minha surpresa, meu argumento não parece ser tão bom assim para Loki, já que ele me lança um sorriso torto, arqueia levemente as sobrancelhas e rebate de um jeito calculista:
— Porque agora seria... Como vocês dizem mesmo aqui em Midgard? — antes que eu pense no que responder, ele mesmo faz isso: — Para valer. Em outras palavras, eu realmente vou te jogar pela janela.
Eu sei que numa situação assim, o natural seria sair correndo pelo apartamento e gritar por socorro imediatamente, para que o Vingador asgardiano ou qualquer outro Vingador viesse me livrar deste traste e assegurar a integridade do meu corpinho, mas, no fundo, eu não acredito que Loki queira mesmo me machucar. Aliás, para mim, isso era algo que já estava mais do que esclarecido entre nós. Nós evoluímos um pouco, por que ele ia querer retroceder desta forma agora?
Loki não quer isso. Me chamem de maluca, mas eu sei que ele não quer. Eu só preciso lembrá-lo disso, lembrá-lo de que me machucar não irá ajudar em nada, que isso não é uma opção.
Sendo assim, resolvo usar um pouco de psicologia com ele e questiono de um jeito desafiador:
— Então você quer mesmo me matar?
Vejo confusão em seu olhar, que desvia do meu na sequência. Loki comprime os lábios novamente, como se estivesse se fazendo a mesma pergunta e me odiando por tê-la feito.
Por fim, ele prefere desconversar:
— Não importa. O que importa é que o Thor vai aparecer bem a tempo, portanto, não se preocupe.
— Então você não quer me matar? — eu indago sem perder tempo. — Ou pelo menos... Não quer que eu morra, certo? Me diga uma coisa, se você me jogar pela janela e o Thor não aparecer, você vai se sentir culpado, gafanhoto? Vai chorar um pouquinho pela minha trágica e precoce morte? Ou vai simplesmente seguir a sua vida normalmente?
Vejo mais confusão em seu semblante e, por um momento, me pergunto por que estou fazendo isso. Eu quero apenas persuadir o Loki ou quero saber se ele se importa comigo? E por que eu ia querer descobrir uma coisa dessas?
Chego a conclusão de que estou mais confusa do que ele, mas paro de pensar nisso por um instante, quando Loki desconversa mais uma vez:
— São muitas perguntas, midgardiana.
Eu devia chamar o Thor, devia chamar o Bruce ou qualquer um dos Vingadores. Devia desistir desta missão de uma vez, entregar os pontos. Ninguém iria me julgar por isso, porque eu tentei mesmo ajudar aquele tormento em forma de deus trapaceiro.
Eu devia dizer que eu não consigo mais e que Loki vai acabar me enlouquecendo com os seus altos e baixos. Eu devia desistir dele, mas, por algum motivo, não quero. Não consigo.
Ao invés disso, eu desafio:
— Você é capaz de respondê-las? Não para mim, se você não quiser, mas para si mesmo? —Loki estreita o seu olhar na minha direção, parecendo ainda mais confuso. — Consegue? — insisto.
Um longo momento de silêncio reina sobre nós, enquanto nos encaramos mutuamente. Ambos sem entender por que eu estou insistindo tanto nesse ponto.
— O Thor vai aparecer. — é tudo o que o gafanhoto consegue dizer no fim.
Mas, completamente insatisfeita por ele ter desconversado mais uma vez, resolvo insistir:
— Mas e se ele não aparecer?
Loki estreita o seu olhar sobre mim novamente, talvez por não entender a minha insistência, talvez relutando em responder aquela pergunta de uma vez, talvez sem saber como respondê-la.
Não sei o que está acontecendo comigo, mas tenho a impressão de que não estou só empenhada em persuadir o Loki e preservar aquela missão, mas também em descobrir se ele é capaz de se importar com alguém além dele. Por quê? Isso eu não sei.
Aliás, por que Loki se importaria comigo?
De qualquer forma, quanto mais o gafanhoto foge da minha pergunta, mais a minha curiosidade cresce e, disposta a conseguir a resposta que tanto quero, eu dou a volta no balcão, o puxo pela mão — sem me importar que ele não goste que eu o toque — e praticamente o arrasto para a varanda, dizendo:
— Certo. Vamos fazer isso de uma vez.
— O quê? — o Deus da Trapaça indaga mais confuso do que nunca.
Paro diante da varanda e olho para baixo. Em seguida, volto a encarar aquele ser que virou a minha vida de cabeça para baixo e, cheia de uma coragem que me assusta um pouco, eu prossigo:
— Você quer me jogar lá embaixo? Vai em frente. — Loki ri sem humor e eu tenho a impressão de que ele faz isso apenas para conter um nervosismo com o qual não está sabendo lidar. Isso me irrita um pouco e então eu continuo ainda mais destemida e... Um pouco suicida também: — Qual é o problema? Não precisa olhar para o meu corpinho estatelado lá na sargeta, eu sei que não vai ser uma imagem muito bonita de se ver. Apenas faça e não olhe para baixo. — o gafanhoto desmancha o sorriso e me encara profundamente. Incapaz de desvendar o que significa este olhar, eu insisto: — Me empurre. Faça de uma vez, Loki. O Thor vai me salvar, lembra? Então você não tem nada a temer. Não há nenhum motivo para você não fazer isso agora, há? Nenhum motivo para você me poupar do risco dele não aparecer. Nenhum motivo para você me poupar de morrer. A menos que... Em algum lugar da sua mente perturbada, você também ache isso errado. A menos que você tenha sim um pouco de consciência no meio de todo esse ego gigantesco. A menos que embaixo dessa muralha de gelo exista alguém que é capaz de se importar com o destino de uma midgardiana desprezível como eu. Existe?
Diante da sua total imobilidade e incapacidade de dizer qualquer coisa, eu me aproximo da grade da varanda, seguro nela e faço menção de que vou passar para o outro lado. E é então que Loki me surpreende ao segurar no meu braço, me puxando para perto dele e dizendo entredentes:
— Você está tentando me confundir.
— Não. — eu nego imediatamente, enquanto sinto a sua mão apertando o meu braço com mais força. Não sei se porque ele está com medo que eu me jogue daqui de cima ou se só está irritado por ser enquadrado mais uma vez por mim. — Você pode até não acreditar, mas é justamente o contrário. — eu retomo tomada por um nervosismo que não consigo entender de onde veio. — Eu só quero que você veja com clareza o que está bem na sua frente, Loki. Eu quero que você veja que não tem outra saída. Não tem trapaça, não tem plano B, não tem nada que possa te tirar desta situação. Apenas você e eu. Juntos.
O que diabos eu estou dizendo? Apenas você e eu? Juntos? O que está acontecendo comigo? Por que eu quero, desesperadamente, provar para mim mesma que alguém se importa comigo? Além dos meus amigos e da minha avó, é claro. Por que me sinto tão carente?
Estou pensando em me estapear loucamente, quando Loki reclama:
— Você está me colocando contra a parede de novo. E eu odeio isso.
Relaxo um pouco ao perceber que, mais uma vez, estou conseguindo transpor aquela muralha de gelo que cerca o gafanhoto prepotente.
— Não gostou? Pois então, vá se queixar ao bispo. — fico surpresa comigo mesma por conseguir fazer uma piadinha em um momento confuso como esse, mas, percebendo que o paspalho asgardiano não entendeu o ditado que mencionei, respiro fundo e retomo o assunto que importa: — E então? Como vai ser? Você vai me jogar daqui de cima ou não? — diante do seu silêncio, eu intimo impaciente: — Qual é a sua decisão, Loki?
Um longo momento de silêncio perdura entre nós, enquanto mais uma vez, nos encaramos de um jeito... Estranho.
Por fim, começo a sentir a pressão da patinha do gafanhoto diminuindo em meu braço, até que ele me solta e responde:
— Eu vou te poupar, midgardiana tola. Por enquanto.
Sinto um alívio profundo e sei que não é só porque o Deus da Trapaça me poupou de um final trágico. Sei que não devia, mas estou feliz porque, de um jeito bem confuso, Loki se importa sim comigo. E sei que eu não devia sentir isso, mas por algum motivo, o meu coração acelera diante de tal descoberta.
Quando Loki se afasta, eu o sigo com o olhar, não resisto e indago:
— Por quê?
O asgardiano detém o passo, se vira lentamente, ri sem humor e repete surpreso:
— Por quê? — eu engulo em seco, sem entender por que quero saber aquilo, mas simplesmente quero. Me julguem. — Porque eu quero descobrir se você é excessivamente confiante ou... Se o problema é que você não dá o mínimo valor para a própria vida.
Não era a resposta que eu esperava. Mas, então o que eu esperava? Não sei. Estou agindo como uma retardada desde que o Deus da Trapaça começou com aquele papo de plano B e não sei — simplesmente não sei — por quê.
Disposta a retomar minha consciência — que parece ter ido para o beleléu — e a me concentrar única e exclusivamente na missão que me foi designada, eu articulo:
— Não importa o motivo, Loki. O que importa é que você optou por tomar uma decisão certa. Onde ninguém se machuca e onde ainda há esperança para você. Como você se sente? Um pouquinho melhor? Mais digno?
— Eu me sinto... Estranho. E tudo o que eu quero... É torcer o seu pescoço. — ele responde com certa frieza.
Um pouco decepcionada com a sua incapacidade de reconhecer que fez algo relativamente bom e refletir sobre isso, preferindo camuflar tudo com sadismo, eu reviro os olhos e murmuro:
— Nós estávamos indo tão bem... — incomodada com um silêncio incômodo que volta a se instalar entre nós, eu resolvo confessar: — Mas se serve de consolo, eu também tenho vontade de torcer o seu pescoço. E de esfregar a sua cara no chão também. Às vezes. Não agora. Surpreendentemente.
Ainda estou pensando nessas coisas, quando Loki me dá as costas e volta a se afastar.
— Ei! Onde você pensa que vai, chuchu? — indago do jeito mais natural que consigo, para me esquecer de vez daquela estranha conversa entre nós. Claro que eu não consigo esquecer. E claro que não sei por quê.
— Não é da sua conta, midgardiana desprezível. — Loki resmunga, mas então, para minha surpresa, ele para diante da porta, hesita um pouco, olha na minha direção e responde: — Dar uma volta. Eu preciso... Pensar.
— De pensar morreu um burro. — eu brinco, mas ele simplesmente me ignora, abre a porta e sai.
XXX
Ficar sozinha no meu cafofo faz uma série de novas perguntas surgirem em minha mente. Perguntas que eu não sei responder. Perguntas que eu nem sei se quero responder. Perguntas que envolvem o Loki.
Pisco algumas vezes, enterrando tais perguntas dentro de mim, e olho para o edifício logo a frente do meu. Estreito o meu olhar, ao reconhecer a figura do Gavião Arqueiro no terraço do tal prédio e aceno discretamente, deixando claro que o perigo já passou. Se é que ele existiu mesmo...
Sim, me chamem de maluca, mas eu não acho que Loki fosse mesmo me jogar daqui de cima. Ao pensar nisso, constato que talvez — apenas talvez — eu esteja desenvolvendo algum tipo de... Fé no gafanhoto asgardiano. Uma fé semelhante a que Frigga parecia nutrir por ele. Apenas fé.
Lentamente, volto para a cozinha e, já que comecei a fazer a pipoca mesmo, resolvo terminar, afinal ter sobrevivido a mais um embate com o traste do Loki, merece uma comemoração.
Algum tempo depois, eu volto para a sala, carregando uma enorme tigela com uma quantidade generosa de pipoca. Em seguida, preparo o DVD com os meus episódios favoritos do Pica Pau e me acomodo no sofá.
Por algum motivo, que para variar eu não sei explicar, não consigo comer a pipoca, nem rir com o meu passarinho favorito fazendo suas estripulias épicas. Ao invés disso, acabo pegando no sono, depois de passar um bom tempo apenas pensando em... Sei lá o quê. Acho que na morte da bezerra, como diz a minha avó.
Mais tarde
Acordo com o barulho de alguém batendo na porta e me levanto do sofá meio zonza. Por um momento, penso que pode ser o gafanhoto, mas se fosse, ele simplesmente entraria de uma vez, afinal espaçoso do jeito que é, Loki já está se sentindo completamente à vontade no meu cafofo. Ou estava. Não sei mais.
Quando abro a porta e reconheço aquela ruiva super diva parada na minha frente, exclamo surpresa e emocionada:
— Mama Mia!
— Olá, Olivia. Tudo bem? — a Viúva Negra replica de um jeito um tanto formal.
Vou responder, mas o que acabo fazendo é uma pergunta bem pertinente:
— Não é arriscado você aparecer por aqui assim? O gafanhoto saiu, mas pode voar para cá a qualquer momento.
— Não se preocupe. — ela me tranquiliza e então explica: — O Clint está de olho no Loki e ele está relativamente longe daqui. Além disso, eu não pretendo demorar.
Penso em perguntar onde exatamente o Deus da Trapaça se meteu, mas fico incomodada com a ideia de demonstrar qualquer interesse por ele. Então, eu simplesmente dou passagem para Natasha Romanoff e digo:
— Entre. Mi casa es su casa. Não repare na bagunça, muchacha!
Como uma deusa, ela adentra o meu cafofo e olha tudo em volta de um jeito bem discreto. Depois que eu fecho a porta atrás de mim, Natasha gira nos calcanhares, me encara seriamente e anuncia:
— Eu serei breve.
— Okay. — concordo intrigada com a sua visita.
Após um instante de silêncio, ela expõe:
— Eu vim aqui porque sou a única mulher do grupo e os rapazes acharam que eu teria mais... Tato para conversar com você. Eu não sei se tenho, mas vou tentar. — a curiosidade toma conta de mim, junto com uma pontinha de receio. — O Thor está preocupado. Ele está se questionando se realmente foi uma boa ideia te encarregar de ajudar o Loki. Ele e os outros acham que talvez você esteja... Se envolvendo demais nisso. Emocionalmente.
— Eu não estou entendendo... — murmuro confusa.
A Viúva Negra me encara de um jeito firme e assegura:
— Está sim, Olivia.
Sim, eu estou mesmo. Mas estou incomodada demais com o fato de que os Vingadores, graças à rádio patroa — lê-se Heimdall — perceberam a minha confusão durante meu embate com o gafanhoto asgardiano e, por isso, não consigo admitir para Natasha que eu sei exatamente o que ela quer dizer com aquilo. Estou com vergonha, é isso. E estou me sentindo uma idiota por ter me comportado daquela forma patética mais cedo. E estou com raiva de mim porque não sei como pude agir daquele jeito.
Tudo o que sei é que o fofo do Thor está certo em querer me alertar. E, decidida a esquecer a minha última conversa com o gafanhoto e a me concentrar apenas na missão, eu me comprometo:
— Eu não vou me envolver... Emocionalmente.
Romanoff me analisa por algum tempo, enquanto olha fixamente para os meus olhos, como se quisesse se certificar de que eu estou mesmo sendo sincera e, principalmente, de que eu posso mesmo manter a minha palavra.
Por fim, ela volta a se pronunciar:
— Que bom, Olivia. Eu espero que você não nos entenda mal, mas é do Loki que estamos falando e uma... Proximidade maior com ele seria...
— Eu sei, complicado. — eu a interrompo, me lembrando da minha coleção de relacionamentos furados.
Fico sem graça ao imaginar, por um milésimo de segundo, o Loki naquela lista, e desvio o meu olhar da ruiva.
— Eca... — murmuro quase sem perceber. — Realmente... Eu não sei onde eu estava com a minha cabeça. Mas não se preocupe, meu lapso de loucura termina aqui. — completo, tentando me justificar e me convencer ao mesmo tempo.
Natasha me analisa novamente, até que diz:
— Neste caso, tome um bom banho, se arrume e me encontre no seu carro. Eu vou te esperar lá.
— Oi? — indago surpresa e confusa.
A ruiva diva abre a porta e se vira na minha direção ao responder:
— Eu acho que está na hora de você conhecer um amigo meu.
Meu coração dispara quando uma possibilidade surge em minha mente. Se eu soubesse que tudo o que eu tinha que fazer para ter a minha almejada chance com o Capitão América era ficar um pouquinho — só um pouquinho — mexida em relação ao Loki, eu já teria feito isso antes!
— Ai meu Deus... — murmuro, sentindo minhas pernas tremerem. — É quem eu estou pensando? — pergunto com uma ansiedade crescente, já me imaginando casando com o gato patriota e conservado, na praia de Acapulco sob um céu estrelado.
Natasha não confirma minha suspeita, mas sorri e, antes de deixar o meu cafofo, orienta:
— Não demore.
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