Trapaças do Coração

12 Prêmio Nobel de Fofura


Notas iniciais
Hello! Mais um capítulo, people! Leiam as notinhas finais! For now, boa leitura!

Sem reação. É assim que me sinto. Estagnada, muda e culpada. Como uma criança que é pega em flagrante aprontando alguma arte, consegue despistar o adulto responsável por ora, mas depois de algum tempo se vê diante do desconfortável e inevitável reencontro.

É assim que me sinto enquanto Natasha Romanoff me encara, se levanta da cadeira e caminha até a entrada da cozinha, onde me encontro petrificada como uma estátua, segurando firmemente o braço do meu melhor amigo.

Quando finalmente para diante de nós, a Viúva Negra lança um sorriso discreto para Josh e reporta:

— Stark disse "Fiquem à vontade e, se sair alguma coisa boa dessa brincadeira, deixem um pouco pra mim."

Meio ansioso — afinal ainda não se acostumou com o fato dos Vingadores fazerem parte das nossas vidas, a ponto de um deles nos ceder a sua equipada cozinha para brincarmos de Master Chef —, Josh assente várias vezes e diz meio engasgado:

— Sim, sim... pode deixar. Combinado!

Natasha toca suavemente em seu ombro, e então Josh me solta e se vai.

Com os olhos arregalados e descobrindo que não estava segurando o braço dele com tanta força assim, acompanho seu trajeto até o balcão, onde Amy e o Dr. Patel separam uma infinidade de ingredientes e conversam sobre uma receita.

Quero correr até eles e deixar a figura intimidante diante de mim no vácuo, mas isso seria muito suspeito da minha parte. Além de uma tremenda falta de educação, diga-se.

Sem saída, torno a fitá-la. E estou convencida de que ela vai agarrar meu pulso a qualquer momento, me arrastar para fora da cozinha e me obrigar a falar sobre o ocorrido na sala de treinamento mais cedo, quando sou surpreendida pelo tom compreensivo em sua voz:

— Eu estou do seu lado, Olivia. Se você não quer falar a respeito do que houve, tudo bem. Mas não finja que não aconteceu nem subestime a minha inteligência. Você é melhor do que isso. Quando quiser conversar, quando estiver pronta, me procure. Eu não vou te julgar.

Devo dizer que apesar de compreensiva, Natasha despeja essas palavras de um jeito firme, pontual e, claro, num tom baixo para que as outras pessoas presentes não escutem, apenas a maior interessada — no caso, eu. E devo dizer também que o efeito do seu discurso em mim é imediato.

Percebo o que fiz ao fugir o dia inteiro, como fui infantil e como subestimei não só sua inteligência, mas como sambei em cima de sua amizade. Sinto-me envergonhada e tudo o que consigo sibilar em resposta é:

— Desculpe e... obrigada. Eu vou me lembrar disso quando... estiver pronta. Juro juradinho.

Visivelmente satisfeita por termos esclarecido a situação, a Vingadora diva me tranquiliza com um sorriso torto e contido, olha rapidamente para as visitas atrás de nós, volta-se em minha direção e se despede:

— Divirta-se.

Sigo-a com um olhar tranquilo, sentindo-me totalmente diferente de como estava há poucos segundos. Leve e acolhida, como se um peso tivesse saído das minhas costas.

— Fofa — murmuro enquanto Natasha atravessa a porta e desaparece.

Embora não me sinta confortável para falar sobre como meu lado alienígena vem me afetando, é muito bom saber que posso contar com alguém. No fundo, eu sei que posso contar com os demais membros da equipe também. Mas neste momento, não estou preparada para me abrir. Além disso, talvez eu esteja exagerando e minha força descomunal nunca mais se manifeste.

— Está tudo bem, gata? — A voz de Josh me desperta e deixa claro que, apesar de não ter ouvido a conversa, ele sentiu a tensão no ar.

— Sim, tudo perfeito. — Com deboche e enquanto caminho até o balcão, minto do jeito mais convincente que consigo: — Natasha só estava... me contando uma piada do Homem de Ferro. Tão sem graça que eu até já esqueci. Sério, esse homem se acha mais engraçado do que realmente é. Alguém tem que lhe dizer isso.

Detenho o passo ao encontrar o olhar do Dr. Patel. Meço-o da cabeça aos pés ao mesmo tempo em que solto um longo assobio. Fingindo que não o reconheci com o traje informal, brinco:

— Uau! Quem é esse pedaço de mau caminho, Josh? Lembra muito o meu terapeuta, só que é ainda mais... gato. Com todo o respeito, é claro. — Provoco meu melhor amigo com uma piscadela e bato meu ombro no seu.

Com um sorriso encantador em seu rostinho lindo, Christian se aproxima e me dá um beijo no rosto.

— Olá, Olivia. Bom te ver novamente. Fora das nossas sessões desta vez. Tudo bem?

— Definitivamente, melhor agora. — Olho dele para meus amigos e então cumprimento quem faltava com um forte abraço. — Como você está, chuchu?

Amy retribui o gesto e tenho certeza que entende o porquê da minha pergunta. A essa altura, ela já deve saber que Josh me adiantou o babado sobre o seu encontro fracassado.

— Bem, não é como se nunca tivesse acontecido antes, mas mesmo assim... levar mais um chute no traseiro não é a melhor sensação do mundo.

Sei que não devo entrar em detalhes — afinal, Amy veio aqui para se distrair —, porém não consigo deixar de argumentar:

— Tem certeza que o cara simplesmente furou com você? Será que não aconteceu alguma coisa?

Com um sorriso amargo e tentando conter uma raiva tangível, Amy replica:

— Ah, aconteceu sim. Ele não atendeu minhas ligações e, a caminho daqui, nós vimos o infeliz saindo de um restaurante de mãos dadas com uma... — Sinto que ela vai dizer um palavrão, mas se detém. — Criatura desclassificada aí.

— Sinto muito — lamento com sinceridade. — Mas quer saber? Quem perde é ele. Tem que ser muito babaca para dispensar alguém como você desse jeito. — Sorrio, tentando animá-la. Não funciona e tento outra coisa: — Você vai se sentir melhor depois que nos entupirmos de gordices, acredite.

Minha amiga arregala os olhos animada e confirma:

— Claro que vou! Por falar nisso, eu pensei em começarmos por aquele bolo da sua avó. O que você acha?

— Ai meu Deus! — Agora quem está animada sou eu. — Nós vamos precisar de cobertura extra! — acrescento eufórica, percorrendo a cozinha com o olhar. — J.A.R.V.I.S.? Chocolate, por favor.

Quase no mesmo instante, a voz da inteligência artificial ressoa pelo lugar:

— Último armário à direita, Srta. Mills.

Sigo sua orientação, logo abro o compartimento indicado, examino as inúmeras e abastecidas prateleiras e encontro o que preciso. No entanto, ao segurar a primeira barra de chocolate — das muitas que pretendo surrupiar —, sou atingida por uma lembrança que preferia não visitar neste momento.

Meu sorriso empolgado se esvai e tenho certeza que devo estar com cara de paisagem.

De repente, é como se eu não estivesse mais aqui. E é quase como se visse Loki diante de mim, em meu cafofo, acomodado no sofá, enquanto eu estou sentada na mesinha de centro de frente para o dito cujo.

Em minha memória, preparo-me para dar uma generosa mordida no chocolate que peguei na geladeira, quando algo detém o meu pulso no ar. Alguém. Ele.

Sem cerimônia e numa atitude ousada, o gafanhoto leva minha mão a sua boca e tem a cara de pau de mordiscar o meu chocolate. Saboreando-o bem devagar... fechando os olhos... prendendo-me em sua expressão deliciada como um ímã...

Surpreendentemente, não consigo ficar com raiva do abusado. Isso porque estou muito ocupada, tentando entender a onda de agitação e calor que surge e se espalha dentro de mim na velocidade da luz, para conseguir protestar. A mesma onda que me atinge agora, deixa minha garganta seca e acelera meu coração.

Oh, não...

— Liv? — Ouço Josh me chamando ao longe e obrigo-me a voltar para o planeta Terra.

Não tenho ideia de quanto tempo fiquei fora do ar, mas é hora de parar com a palhaçada e colocar os pés no chão. Pensando assim, guardo o chocolate de volta, fecho o armário e apoio as costas em suas portas.

Enquanto três pares curiosos de olhos me encaram, tento explicar:

— Eu acho melhor... dispensar a cobertura.

Christian inclina a cabeça — claramente me analisando —, e Josh parece curioso com minha súbita mudança de opinião.

Apoiada no balcão, Amy arqueia as sobrancelhas e ironiza:

— Ótimo. Bolo de cenoura sem a clássica cobertura de chocolate vai ficar uma delícia.

Droga... Ela está certa. A receita que minha saudosa avó aprendeu com uma amiga brasileira não é a mesma coisa sem aquela cobertura dos deuses!

Além disso, eu deveria me concentrar em levantar o astral de Amy e aproveitar o momento de descontração com meus amigos, e não ficar lembrando daquele trapaceiro de uma figa!

Não consigo disfarçar a raiva que sinto de mim mesma — e dele — quando abro o armário novamente e pego uma pilha de barras de chocolate rapidamente.

Como um furacão, volto para o balcão, ajeito-me na cadeira que Romanoff sentou antes e puxo um refratário que já estava por ali. Com certa violência — admito —, abro a primeira embalagem e começo a quebrar o chocolate rapidamente. Atiro os tabletes tortos e meio esfarelados no refratário com uma força desnecessária. Com o choque, alguns pulam para fora e caem pela banqueta e pelo chão.

— Interessante. Um claro e repentino acesso de fúria. — Ouço Christian. — Lembre-me de falarmos sobre isso em nossa próxima sessão.

Não olho para ele. Nem sei se está falando sério. Honestamente, não me importo. Apenas continuo empenhada em descontar minha frustração em alguma coisa, aliviada pelo nível de força que utilizo ser humanamente normal. Seria desastroso se meu lado alienígena resolvesse se manifestar agora. Era só o que me faltava.

Só diminuo um pouco o ritmo quando percebo que tenho companhia na tarefa de destruir o chocolate. Amy, provavelmente pelo mesmo motivo que eu — frustração amorosa —, também abre as embalagens com violência e picota o seu conteúdo como uma verdadeira assassina faria. Sem dó nem piedade.

Com um meneio de cabeça e um olhar significativo, mostro-me solidária e compreensiva. Ela retribuiu e retomamos a receita.

Amy parte para outros ingredientes, e eu a ajudo. Enquanto ela quebra os ovos em um segundo refratário, eu separo as cascas que caíram dentro dele por acidente, devido à força das pancadas que ela desferiu nos pobres coitados.

— Nada como cozinhar com amor — Josh debocha baixinho.

— Nem uma palavra! — eu e Amy gritamos ao mesmo tempo, olhando para ele de um jeito feroz e deixando-o claramente assustado.

— Desculpe. — Ele ergue as mãos em sinal de rendição. Depois segura meu terapeuta pelo braço e diz: — Quer saber? Eu esqueci uma coisa importante no carro, vem comigo!

Apesar de confuso, Christian segue o namorado e os dois deixam a cozinha.

— Aposto que vão dar uns amassos por aí — comento azeda, subitamente com recalque das pessoas que têm sorte no amor.

— Sem dúvida! — Amy ri sem humor e pega uma faca na gaveta ao seu lado.

Enquanto ela corta algumas cenouras como uma psicopata e coloca as rodelas em um processador, eu separo os demais ingredientes e analiso melhor a situação.

— Ou talvez... eles tenham nos deixado sozinhas de propósito.

— E por que eles fariam uma coisa dessas? — Minha amiga solta um riso descrente.

Paro o que estou fazendo e espero até ela fazer o mesmo. Trocamos um olhar cúmplice, quase telepático. Sabemos muito bem por que Josh e Christian fizeram isso. Eles devem achar que precisamos conversar, compartilhar nossos dramas e experiências.

— Você lembrou do deus nórdico, não foi?

A contragosto, assinto com um meneio de cabeça e suponho:

— E você do imbecil que te deixou esperando hoje, certo?

Mais calma, Amy balança a cabeça afirmativamente e, para minha surpresa, opina:

— Liv, o seu caso ainda tem jeito. Eu sei que você pediu que não tocássemos no assunto, mas eu acho que você devia ir atrás do Loki e esclarecer as coisas de uma vez. No fundo, tudo não passou de um mal entendido e seria uma pena desistir assim.

Abro a boca para protestar, mas percebo que não tenho argumentos suficientes. Tudo bem que o gafanhoto foi muito teimoso e orgulhoso, mas talvez eu também esteja sendo. E isso me leva a algumas perguntas cruciais.

Estou sendo tão cabeça dura quanto ele? Será que estou desistindo rápido demais? Será que, com o empurrãozinho certo, eu consigo amansar a fera e acertar nossos ponteiros? Será que devo ouvir Amy e Natasha?

— Já o meu caso... — retoma, chamando minha atenção mais uma vez. — Bem, é um caso perdido, convenhamos. E quer saber? Acho que é hora de aceitar que eu não tenho sorte no amor, mas posso ter no jogo. Quem sabe? — Decidida, ela acrescenta em tom divertido: — É, é isso... Eu vou parar de choramingar, aceitar que sou uma frigideira e tentar fazer fortuna em Las Vegas.

Por mais que Amy queira transparecer tranquilidade e conformismo, conheço-a muito bem para entender que sua postura é na verdade uma camuflagem. No fundo, ela está triste e sentindo-se sozinha. Não se trata apenas de ter levado um "bolo" de um cara idiota hoje, mas sim de um longo e desastroso histórico em relacionamentos. Não foi à toa que ficamos amigas tão rápido; foi impossível não nos identificarmos uma com a outra.

Tentando fazê-la se sentir melhor, e também por que acredito piamente nisso, sentencio:

— Amelia Prescott, você não é uma frigideira. Com certeza tem uma tampa perdida em algum lugar.

— Tudo bem, Liv. — Ela dá um tapinha no ar, fazendo pouco caso. — Não importa, isso não é o fim do mundo. É bom não ter que me preocupar com os homens, sobra... mais tempo pra mim.

— Então você vai virar freira ou algo do tipo? — Arqueio as sobrancelhas.

— Não! De jeito nenhum, sem chance! — ela nega prontamente e ri um pouco. Então estreita o olhar e completa num tom insinuante e travesso: — Eu ainda posso me divertir, só que sem expectativas nem compromisso. Talvez eu agarre o primeiro homem que aparecer na minha frente, só para marcar essa nova fase da minha vida. Seria como um ritual de iniciação.

Não consigo controlar um riso ao ouvir tal plano. Riso que é prontamente abafado por um ruído repentino. Imediatamente, olho para a porta. O barulho parece ter vindo do corredor. Olho para Amy, e ela franze o cenho tão surpresa quanto eu.

Caminho até a porta, convencida de que Josh e Christian estão ouvindo a nossa conversa. No entanto, tudo o que vejo quando abro-a e espio o corredor é um jaleco branco que balança com o caminhar contínuo e apressado da pessoa que o veste.

Essa pessoa desaparece rapidamente ao virar no próximo corredor, mas mesmo assim eu o reconheço. Não só pelo inconfundível jaleco, mas também porque noto sua sombra quando ele atrapalha-se um pouco para ajeitar o óculos.

— Quem é? — Amy indaga curiosa.

— Ninguém — prefiro desconversar, já que não entendi muito bem o que Bruce Banner estava fazendo atrás da porta. Muito menos por que zarpou rapidinho desse jeito, como se fosse tirar o pai da forca.

Assim que volto para o balcão, minha amiga recomeça:

— Então... o que você pretende fazer?

Imediatamente deduzo que ela está se referindo a minha situação mal resolvida com o gafanhoto. E incapaz de decidir qualquer coisa sob pressão, sou sincera:

— Não sei, eu preciso pensar.

— De pensar morreu um burro — Amy cantarola, provocando-me.

Mostro língua e fujo descaradamente do assunto:

— Vamos terminar este bolo por enquanto, tudo bem? Depois nós podemos fazer pipoca, pegar umas bebidas, procurar aqueles pombinhos por aí e fazer uma maratona de Friends.

Amy esboça um largo sorriso e propõe animada:

— Eu gosto da ideia, mas só se nós sentarmos entre os dois.

— Claro! — Quase deixo escapar minha gargalhada fatal.

***

Claro que nós não conseguimos fazer isso. Seria um crime quebrar a sintonia tangível entre Josh e Christian e o clima de romance entre os dois. Eu e Amy não temos coragem de perturbá-los. Ao invés disso, observamos, vez ou outra e de soslaio, a sútil troca de carinho e olhares entre eles.

Em alguns momentos, os dois riem de determinadas cenas, mas eu não tenho certeza se estão mesmo prestando atenção nos episódios ou se lembram de alguma piadinha que só eles entendem.

Apesar da tarde muito agradável e divertida, volto a me sentir incompleta e estranha no final do dia. E Nossa Senhora Padroeira das Midgardianas Teimosas sabe bem o motivo. Estou sentindo muito a falta do trapaceiro irresistível...

***

É madrugada. Reviro-me na cama, tentando dormir a todo custo, porém não consigo. Decido então me render e dar uma espiadinha em meu novo celular — cortesia da S.H.I.E.L.D., já que o antigo ficou em meu cafofo e pode ter sido hackeado pela HYDRA.

Por sorte, eu tinha salvado as fotos do aparelho anterior na nuvem e, sendo assim, consigo abrir uma bem específica, que mostra Loki esparramado no sofá de minha minúscula sala.

Lembro-me bem deste fatídico dia quando registrei o momento enquanto ele dormia, rá! E sempre pensei que usaria a foto constrangedora para importunar o Deus da Trapaça de alguma forma. Nunca como uma forma de apaziguar a saudade que sinto agora.

Talvez... talvez eu deva mesmo ir a Asgard e fazer uma última tentativa. Entretanto, sinto que me falta um empurrãozinho para criar coragem de uma vez. A verdade é que tenho medo de me abalar daqui até lá e ser recebida com frieza por Loki. Se ao menos eu soubesse como ele está sem mim... Se ao menos eu conseguisse enfrentar esse receio...

Com os pensamentos totalmente focados no dito cujo, tomo um baita susto quando o celular vibra em minhas mãos.

— Mas que marmota é essa?! — exclamo em virtude do horário avançado demais para Amy me mandar uma mensagem.

Abro-a mesmo assim — afinal, apesar da hora, estou bem acordada — e meu queixo cai quando entendo do que se trata.

Em meio a uma série de emojis felizes, minha amiga compartilha uma imagem: uma folha de papel com um desenho simplesmente perfeito do Hulk e a caligrafia inconfundível do seu alter ego, que diz:

Para a Incrível Amelia Prescott. Do Outro Cara (mais conhecido por aí como Hulk).

Com uma legenda eufórica, Amy me agradece pelo melhor autógrafo que ela poderia ter recebido do seu Vingador favorito. E claro, faz uma série de perguntas. Tanto sobre como eu coloquei o desenho em sua bolsa sem que ela visse, como um verdadeiro interrogatório sobre o Verdão — afinal, agora ela tem certeza que ele mora na Torre.

Por falar nisso, vai ser difícil não lhe revelar, mais cedo ou mais tarde, que os dois já se conheceram, ou ao menos se esbarraram durante a festa de aniversário de Tony Stark, há dois meses.

Sem saber o que posso ou não contar a ela, e em cólicas para entender direito esse babado, resolvo procurar a única criatura que pode esclarecer tudo isso.

Depois de vestir um roupão sobre meu pijama novo da Dory e ignorar totalmente o relógio, bato na porta do seu quarto. Como ele não atende, corro para o seu laboratório alguns andares abaixo.

Vejo-o pela porta de vidro à medida que caminho pelo corredor. Ele está debruçado sobre a bancada e com o olhar compenetrado em um tablet sobre ela. Nem sei por que me admiro que essa criatura esteja trabalhando até esta hora, "caxias" como é...

Empurro a porta e adentro o laboratório ao mesmo tempo em que exclamo empolgada:

— Robert Bruce Banner!

Disfarçando certo sobressalto, ele replica receoso:

— Eu estou em apuros... mãe?

— Não, muito pelo contrário! — Dou um tapinha no ar enquanto me aproximo: — Se houvesse um Prêmio Nobel de Fofura, eu teria entrado aqui com ele em mãos e jogado no seu colo!

Bruce endireita-se em sua cadeira e indaga na defensiva:

— Por quê?

— Não se faça de desentendido, chuchu. Eu sei o que você fez.

— E o que eu fiz exatamente? — Bruce olha de um lado para o outro e coça a nuca por um instante.

Apoio-me na bancada, arqueio uma sobrancelha e revelo:

— Amy encontrou o presentinho que você, não sei como, colocou na bolsa dela.

— Ah... sim, que bom. — Bruce pigarreia, estranhamente inquieto, e então se explica: — Não foi nada de mais, Olivia, eu só... lembrei que ela havia te pedido um autógrafo meu há algum tempo. E como eu não sou muito bom com palavras, achei que aquele desenho ridículo poderia...

— Ficou perfeito, Bruce — interrompo-o taxativa e juro que tenho vontade de apertar suas bochechas, porém me controlo. — Com apenas um gesto, o gesto melhor dizendo, você fez o que eu não consegui: animar a Amy.

Isso parece desarmá-lo e o deixa sem reação por algum tempo. Me chamem de maluca, mas parece que Bruce gostou do que ouviu, como se estivesse orgulhoso da atitude que resolveu tomar, todavia modesto demais para se vangloriar pelo efeito positivo que causou em minha amiga.

— Eu... — Ele ajeita o óculos e passa um dedo sobre o tablet, mas tenho a impressão de que não está prestando atenção na tela. — Eu percebi que ela estava meio aborrecida, certo?

Cruzo os braços contra o peito, estreito o olhar e digo em um tom levemente acusatório:

— Então você ouviu mesmo a nossa conversa atrás da porta, hum?

Visivelmente sem graça, a criatura fofa torna a me olhar, se mexe um pouco na cadeira — meio ansioso também, eu diria — e se justifica:

— Eu estava passando, ouvi uma parte sem querer e... Desculpe, eu não quis incomodar e fui embora assim que...

Lembrando-me do momento exato em que ouvi um barulho atrás da porta da cozinha — provavelmente do seu óculos caindo no chão ou algo do tipo —, deduzo pausadamente:

— Assim que Amy mencionou agarrar o primeiro homem que aparecesse.

Bruce não nega, nem confirma. Não é necessário.

Admirada, observo-o com certa incredulidade enquanto reflito:

— Sabe, se você fosse um pouquinho cafajeste, um pouquinho que fosse, não teria perdido a chance de entrar na cozinha naquele exato momento, mesmo eu achando que Amy não estava falando realmente sério. Mas isso não é do feitio de Bruce Banner. Ele prefere ficar nas sombras, mexer os seus pauzinhos e fazer as pessoas se sentirem melhor, sem levar o menor crédito por isso.

Com um sorriso tímido, o alter ego do Incrível Hulk — que é ainda mais incrível do que ele — balança a cabeça negativamente, fazendo pouco caso de si mesmo, e retoma o assunto:

— Então... ela gostou do autógrafo?

— Se ela gostou? — Rio da sua inocência. — Bruce, eu acho que Amy não vai conseguir dormir esta noite. Ah! Por falar nisso, ela está me enchendo de perguntas. Quer saber mais sobre o Hulk e sobre o gentleman desenhista por trás dele. O que eu digo?

— Nada!

De repente, ele parece receoso e incomodado. Na defensiva novamente. Acho que não percebe que levantou da cadeira e recuou um pouco, pois volta logo em seguida para o mesmo lugar, se recompõe rapidamente e gesticula meio sem jeito:

— Não, não, não... Você não pode dizer nada que alimente a curiosidade da sua amiga por mim, Olivia. Amy queria um autógrafo, eu lhe dei isso, fim da história. Não me leve a mal, eu me sinto honrado por ter uma.. uma... fã? Eu posso chamar de fã? É, uma fã assim, mas não alimente esse fascínio que ela tem por mim, por favor. Amy vai acabar se decepcionando, acredite.

Franzo o cenho, sem acreditar que ele disse mesmo isso sobre si próprio. Fofo, modesto e com uma terrível baixa autoestima. Como lidar?

Decido ir por partes:

— Bruce, mais cedo ou mais tarde, Amy vai matar a charada sobre você. Ela virá me visitar com mais frequência, já que eu estou morando aqui. Eventualmente, vocês irão se esbarrar por aí, e eu tenho certeza que ela vai lembrar que já te conhece da festa do Homem de Lata. Amy vai deduzir que você é uma figura importante por aqui, vai lembrar que já conheceu os outros Vingadores, exceto o seu favorito, e vai acabar unindo os pontos. E aqui entre nós, não tem como se decepcionar. Você é o Incrível Hulk, bitch. Dê mais crédito a si próprio.

Pela primeira vez, Bruce deixa a humildade um pouco de lado e constata intrigado:

— Parece que eu tenho duas fãs.

Lanço-lhe um meio sorriso e oriento em tom divertido:

— Não se sinta a última bolacha do pacote, mas eu aposto que você tem um fã clube e tanto por aí.

Então ficamos em silêncio. Eu esperando que Bruce me oriente sobre como conduzir a situação com sua fã número 1, ele me fitando com cara de paisagem, talvez imaginando que a conversa acabou.

— O que eu digo para Amy? — Decido lembrá-lo.

Bruce hesita. E quando finalmente abre a boca, um ruído exterior e muito estridente anula qualquer possibilidade de se pronunciar.

O estrondo de um longo trovão é tão alto que pode ser ouvido daqui, mesmo com o sistema acústico da Torre, que isola sons provenientes do lado de fora.

Pode ter sido só impressão minha, mas quase sinto o chão vibrar sob meus pés devidamente protegidos por pantufas novas do Pikachu.

— Algo me diz que não é só uma tempestade chegando — suponho, olhando instintivamente para o teto do laboratório, já que não há janelas neste setor.

— Não mesmo — Bruce concorda comigo e abandona o tablet. — Cachinhos Dourados está vindo.

Sorrio ao ouvir o apelido curioso que ele colocou em Thor, ao mesmo tempo em que tento aquietar a ansiedade que surge dentro de mim.

Se o Deus do Trovão está aqui, qual a probabilidade do Deus da Trapaça ter vindo junto?

Notas finais
E o Prêmio Nobel de Fofura vai para.... Tchan Tchan Tchan Tchaaaaaaan! Bruce Banner! Ahahahahah e aí? Gostaram do capítulo? Eu quis focar um pouquinho nos friends da Olivia, mostrar um tiquinho de Joshian e dar um passo em relação a Bruce e Amy. Por falar nisso, eu mudei algumas coisas sobre a personagem. Para começar, o nome passa a ser Amelia. Mas, via de regra, vou continuar me referindo a ela pelo apelido Amy, okay? Me julguem, mas acho tão fofo quando o Doctor chama a Amy de Amelia Pond, em Doctor Who, que me inspirei ahahahahah Lembrando que a pronúncia aproximada é "Amilia". Outra coisinha sobre Amelia Prescott: lá em Trapaças do Destino, eu disse que a imaginava como a Victoria Justice, mas não fiquei muito satisfeita. Acho ela muito ninfeta para o Bruce ahahahahha Então... Depois de muito quebrar a cabeça procurando, vi a Amy na atriz Lyndsy Fonseca: http://wallpaperstag.net/wallpapers/lyndsy_fonseca-640x960.jpg Well, agora sobre a Nat compreensiva neste capítulo, gostaram? E da interação entre Bruce e Olivia? Adoro esses momentos friendship entre os dois. Ah! E será que Thor está vindo sozinho ou com alguém a tiracolo??? Será que Lokivia está perto de reencontrar??? Respostas no próximo capítulo... Observação: o apelido Cachinhos Dourados, que o Bruce menciona, é uma referência ao desenho Avengers Assemble, que estou vendo na Netflix kkkkk Adoro as frases do Bruce por lá. E o Clint que é suuuuuper engraçado! Bem, inté o próximo capítulo e não se esqueçam dos reviews! PS: Estou escrevendo uma coisinha sobre Doctor Who, quem tiver interesse, Allons-y! https://fanfiction.com.br/historia/703194/Allons-y/