Trapaças do Coração
8 Fúria
Notas iniciais
Não sei como descrever o que senti quando Heimdall revelou que Olivia estava em perigo. Só lembro de ter desfeito a ilusão que usei numa tentativa de camuflar meu interesse em saber como ela estava — me julguem, mas sempre uso a aparência de Thor para tentar enganar o sentinela —, e ordenei que ele abrisse a Bifröst imediatamente.
A expressão nem um pouco surpresa do guardião me fez ter certeza que Heimdall sabia o tempo todo que era eu ali, e não Thor.
Nem sei por que ainda tento ludibriá-lo a fim de não transparecer meu interesse por Olivia. A essa altura, cada mísera criatura dos Nove Reinos já deve saber que, contrariando minha própria natureza, me importo com ela mais do que deveria. Bem mais do que compreendo aliás.
Sendo assim, o cenário que encontro logo que piso no terraço do prédio midgardiano só aguça ainda mais a minha preocupação com ela. Mais do que isso, desperta a minha fúria.
Parasitas uniformizados por toda a parte, o emblema de um animal mitológico em seus trajes negros, armas que intimidariam qualquer mortal, mas não a mim, e um helicóptero a postos, cortando o ar noturno com suas hélices em constante e rápido movimento.
Logo entendo que a aeronave primitiva está aqui por um motivo: para levar Olivia sabe-se lá para que lugar, onde possivelmente irão machucá-la.
Quando finalmente a reconheço em meio à noite — sendo carregada contra a sua vontade por um midgardiano sem qualquer consideração à própria vida —, minha fúria se transforma em outra coisa: em um latente e irresistível instinto assassino. Em outras palavras, eu simplesmente preciso matar todos eles. E não hesitarei em fazê-lo.
Sem pestanejar, deixo o monstro sob minha pele emergir. E o Gigante de Gelo assume o controle do que acontece em seguida: uma verdadeira carnificina.
Não sei como isso foi possível, já que até hoje, meu lado jotun só veio à tona por causa da Caixa dos Invernos Antigos ou quando tive contato com outros de minha odiosa espécie. Mas algo está diferente esta noite. Outra coisa desencadeia o meu eu verdadeiro. E simplesmente permito que ele assuma o controle, sem me importar com explicações.
Poucos segundos depois, ainda resta um. O verme que teve a audácia de largar Olivia no chão quando viu o que eu havia feito aos seus companheiros. Possivelmente, prevendo que terá o mesmo destino que eles.
Neste momento, uma parte de mim só quer se concentrar em Olivia. Mas minha fúria assassina ansia por esganar o parasita, a criatura insignificante que teve a péssima ideia de importuná-la. E para azar dele, só consigo ouvir esta parte do meu ser.
Seguindo esse instinto, minhas mãos se fecham como garras no pescoço do mortal à medida que o ergo do chão. Concentro-me em fazer com ele o que já fiz aos outros. Deixo o gelo fluir e começo a congelar o infeliz. Lenta e dolorosamente, vendo-o resistir bravamente a qualquer demonstração de medo ou incômodo. Um pobre diabo orgulhoso, afinal.
Quando tudo caminha para o desfecho mortífero que me trará um pouco de alento, ouço o estrondo inconfundível de uma sequência de trovões bem em cima do terraço e clarões iluminam o lugar. Não demora muito para que um baque surdo estremeça o chão. E logo a voz igualmente trovejante de um inconveniente Thor ecoa atrás de mim:
— Loki, não! Pare!
Ignoro-o. Simplesmente. E me concentro ainda mais em terminar o que comecei. Falta tão pouco.
Para minha infelicidade, Thor resolve insistir. Sinto quando ele se aproxima, toca meu ombro — na verdade tenta me afastar do mortal com um gesto brusco — e argumenta:
— A S.H.I.E.L.D. precisa dele vivo!
Estreito o olhar na direção do midgardiano diante de mim, deixo o gelo se expandir mais em sua direção, fazendo uma fina camada se espalhar por seu corpo e se tornar mais espessa a cada instante. Comprometo sua respiração ao esganá-lo com mais afinco, e esclareço retoricamente:
— Sinto muito, irmão, mas eu não trabalho para a S.H.I.E.L.D.
Irredutível, o Deus do Trovão reitera:
— Mas eu sim. E Olivia também.
Suas palavras entram e saem pelos meus ouvidos, já que não me importo nem um pouco com o que elas significam. Thor que se entenda com seus honrados empregadores.
Além disso, depois do ocorrido esta noite, espero que Olivia se afaste da S.H.I.E.L.D. sem pensar duas vezes. Algo me diz que ela é teimosa o suficiente para se recusar a fazer isso, mas neste momento me agarro à ideia de convencê-la.
Estou resoluto em minha decisão de prosseguir, de matar o midgardiano imundo — que a essa altura mal se debate e mal respira —, quando Thor repousa a mão no meu ombro mais uma vez e muda de estratégia, expondo com firmeza:
— Olhe para ela, Loki. Olivia precisa de você agora. E nós precisamos entender o que exatamente aconteceu aqui. Se você matar esse midgardiano, nós nunca teremos respostas e Olivia continuará em perigo. É isso o que você quer?
Meu olhar vacila. Meu ser oscila. Olivia. Claro que eu não quero vê-la nessa situação deplorável novamente.
Estou pensando nisso, quando ouço sua voz fraca aos meus pés:
— Ele está certo, gafanhoto...
Olho para ela imediatamente. Suas pupilas estão dilatadas e sua boca visivelmente seca. O tormento acabou de recobrar a consciência e o esforço que faz para se manter acordada é perceptível. Admirável, eu diria.
A princípio, meu instinto diz para me concentrar nela, me voltar para ela, pensar apenas nela. Entretanto, para isso eu teria que soltar o mortal, abrir mão de eliminá-lo, e não sei se consigo demonstrar tal nobreza de espírito.
Dividido, sustento o olhar da midgardiana aos meus pés e indago entredentes:
— Por que eu não posso matá-lo? Por quê?
Olivia me encara por alguns instantes, talvez lutando para se concentrar e absorver minha pergunta primeiro. É visível que ela está lutando para se manter consciente quando finalmente responde taxativa:
— Porque se fizer isso, você vai se igualar a ele. E você... não é como ele.
Tal argumento não devia me abalar, mas mesmo assim me abala. Sua ingenuidade e fé em mim me fazem acreditar — pelo menos por um efêmero momento — que eu não sou como este mortal infeliz.
Porém o momento se esvai, à medida que me lembro do passado. Das coisas que fiz, dos midgardianos que eliminei, de como decepcionei Frigga com minhas atitudes. Apesar de dizer para mim mesmo que não me importo com o que Thor pensa ou sente sobre isso, no fundo também lamento por ter me virado contra ele e o desapontado tantas vezes.
Como se tivesse lido os meus pensamentos, Olivia reitera:
— Você não é mais como ele, gafanhoto. O passado é passado.
Acredito em Olivia. Simplesmente me deixo acreditar, me convenço, me agarro às suas palavras e, quando dou por mim, solto o mortal e me afasto, deixando que Thor se encarregue de segurá-lo e checar se ainda está vivo. Uma parte de mim ainda o quer morto, mas resisto e dou mais um passo para trás.
Zonzo e sem saber o que fazer com a nova sensação que Olivia me despertou — uma patética e inútil fé em mim mesmo —, ouço-a se manifestar novamente:
— Agora dê um chega pra lá nessa crise existencial e vamos sair daqui... Smurf.
Franzo o cenho sem entender por que o tormento me chamou assim. O que seria um Smurf?
Pelo jeito que Olivia me observa, acredito que deva ser algum personagem de coloração azul dos desenhos inúteis e sem sentido que ela costuma assistir.
Por falar nisso, obrigo o Gigante de Gelo a deixar a cena, a se ocultar atrás das cortinas da minha pele, dentro de minha perturbada mente. Em poucos segundos, volto a ser apenas o Deus da Trapaça.
De soslaio, percebo que Thor também está confuso quanto à minha transformação. Ele também não entende como meu lado jotun dominou a cena antes. Mas não diz nada a respeito, já que claramente este não é o momento para perguntas idiotas.
Então movido por um instinto, me aproximo e envolvo Olivia, segurando e tirando-a do chão. Ela mal tem forças para passar os braços em volta do meu pescoço e suas pálpebras oscilam o tempo todo, numa clara tentativa de se manter consciente.
De repente, Thor, que carrega o midgardiano desacordado nos ombros, torna a se manifestar:
— Vamos, nós temos que levar Olivia e o prisioneiro até a Torre.
— Não! — protesto imediatamente, o fuzilando com o olhar. — Isso aconteceu por culpa deles! Dos seus amigos idiotas e da excelentíssima e perfeita S.H.I.E.L.D.! Onde todos estavam quando Olivia precisou de proteção contra o inimigo deles?
Tudo o que o energúmeno diz em resposta é:
— Nós não sabemos o que aconteceu aqui, Loki, mas certamente não é culpa dos Vingadores ou da S.H.I.E.L.D.
Rio sem humor e reforço meu ponto de vista:
— Olivia nunca estará segura enquanto se relacionar com vocês. Os mocinhos, que deveriam zelar pela sua segurança, deixaram isso acontecer. E depois, eu que sou o vilão da história. — Sigo para o centro do terraço, decidido a chamar Heimdall, e anuncio: — Eu vou levá-la a Asgard. Olivia ficará a salvo lá.
Logo atrás de mim, o Deus do Trovão avisa:
— Eu não posso deixar.
— Tente me impedir — desafio-o sem me importar com mais nada.
Por sobre o ombro, vejo quando Thor coloca o midgardiano odioso no chão e me alcança dizendo:
— Minha luta não é contra você, irmão. É contra ele. Junte-se a mim.
Trinco o maxilar, detenho o passo, me viro em sua direção e exponho incisivamente:
— Minha luta é contra todos vocês. Olivia é só uma peça no meio desse jogo entre a S.H.I.E.L.D. e seus inimigos. Mas isso termina hoje. Aqui.
Sem dizer nada, Thor me encara por um bom tempo. Talvez finalmente percebendo que eu tenho razão, ele se compromete mais contido:
— Você tem a minha palavra que a segurança de Olivia será prioridade de agora em diante. Eu juro.
Apesar de suas boas intenções, não quero correr tal risco. Não acredito que as coisas serão diferentes como o deus trovejante quer que sejam. Sendo assim, sorrio amargo e deixo escapar:
— Irmão, pegue a sua palavra e...
— Ei! Parem de brigar! Eu estou morrendo aqui! — Olivia se pronuncia novamente, me interrompendo e chamando nossa atenção. — Mas será o benedito! — reclama indignada. Fazendo um esforço final, ela estreita o olhar no meu e diz com cuidado: — Smurf, eu quero ir para a Torre dos Vingadores. Confie em mim, vai ser melhor... assim...
Seus olhos se fecham antes que eu possa retrucar a fim de convencê-la do contrário. Para arrematar minha derrota, Thor reforça:
— Você a ouviu, Loki. É a vontade de Olivia. — Depois de acomodar o midgardiano novamente em seus ombros, ele intima: — E então? Como vai ser?
Antes que eu responda, ouço um barulho alto de algo que se aproxima e sobrevoa o terraço. Logo reconheço um dos jatos da S.H.I.E.L.D. bem acima de nós.
Sentindo-me traído, fito Thor e questiono com ironia:
— Eu tinha mesmo opção?
— Eu não os chamei, se é o que você está pensando — Thor se defende imediatamente e com firmeza. — Nossa chegada deve ter atraído a atenção dos satélites das Indústrias Stark ou da S.H.I.E.L.D., eu não sei.
Resolvo acreditar nele e, na sequência, o Quinjet se prepara para pousar próximo do helicóptero que congelei antes. Lá embaixo, ouço ruídos de sirenes por toda a parte e imagino o caos que deve ter tomado conta desta região de Midgard.
Abandono esse pensamento quando o egocêntrico Homem de Ferro corta o céu em um voo rasante, veloz, e paira sobre nós por algum tempo, até diminuir a altitude e tocar os pés no terraço.
Ele se aproxima com passos pesados e mecânicos ao mesmo tempo em que seu rosto é revelado pela armadura, mostrando uma expressão tensa e preocupada sob ela.
Primeiro, ele olha para Olivia em meus braços — e instintivamente, eu a seguro com mais força contra mim e dou um passo para trás. Depois, ergue o olhar em minha direção, para Thor e o mortal que ele carrega. Então observa o cenário em volta — lê-se os corpos de seus inimigos que tive o prazer de matar. Por fim, torna a me encarar com uma expressão indecifrável.
Espero o digníssimo Capitão América descer do Quinjet, vestido com seu ridículo uniforme que exala patriotismo e mau gosto. Ele vem seguido pelos inseparáveis e pedantes Viúva Negra e Gavião Arqueiro, e também por Bruce Banner.
Todos movidos pela expectativa do momento, todos tensos, empunhando suas armas, arco, flechas, escudo. Exceto Banner, que já carrega uma poderosa arma dentro de si e parece avaliar a necessidade de deixar o monstro verde vir à tona.
Todos estão visivelmente impressionados com o cenário em volta, procurando entender o que aconteceu e o que devem fazer agora, olhando vez ou outra para nós.
Não consigo me conter. Um riso de escárnio simplesmente escapa da minha garganta e debocho de todos eles:
— Não se preocupem, meus amigos. Como podem ver, eu já fiz o trabalho de vocês. — Estreito o olhar e arremato: — De nada.
No mesmo instante, a tensão do ambiente dá um salto e Tony Stark é o primeiro que se movimenta em minha direção. Contudo, ele é detido pelo Mjölnir que Thor, gentilmente, apoia em seu peito revestido pela armadura, causando certa oscilação no Homem de Lata.
— Olivia está ferida, ela precisa de ajuda — meu irmão diz taxativo, detendo qualquer intenção de ataque que o infeliz cogitava desferir contra mim, e acalmando os ânimos dos demais também. — É a prioridade agora.
Contrariado, e pela primeira vez incapaz de fazer piada, Stark limita-se a me provocar em tom de ameaça:
— Tudo bem, eu cuido do Homem Rena depois.
Dando-se conta da real situação, o Capitão América se pronuncia com certa maturidade, olhando para cada membro de sua equipe e os orientando rapidamente:
— Romanoff e Barton, levem Olivia para a Torre. Banner, cuide dela e avise se precisar de qualquer coisa. Tony, se encarregue do prisioneiro. Eu e Thor vamos checar a área, nós precisamos ter certeza de que não há mais agentes da HYDRA por perto.
Novamente não resisto e reforço com satisfação:
— Eu já disse que cuidei de todos eles, vocês não ouviram? Exceto este aí que meu irmão fez questão de poupar. Mas não se animem, porque eu ainda estou tentado a matá-lo.
Um silêncio mortal se instala enquanto os Vingadores, exceto Thor e, para minha surpresa, Banner, me fuzilam com olhares nada amigáveis. Se eu não estivesse com Olivia nos braços e se meu irmão não estivesse tão empenhado em manter as coisas em um nível minimamente civilizado, duvido que eles estariam se segurando tanto, como claramente estão fazendo agora.
Finalmente, Steve Rogers corta o silêncio, reforçando:
— Nós vamos checar a área.
— Como quiserem. — Rio mais uma vez e os incito novamente: — Quem sabe vocês aprendam alguma coisa vendo o que eu fiz?
— Loki, já chega! — a voz trovejante de Thor me repreende antes que seus companheiros assimilem minha provocação.
Sem lhes dar tal chance, ele se volta para o Homem de Ferro, lhe entrega o parasita que tentou levar Olivia e orienta:
— Leve-o ao Coulson e informe o que aconteceu aqui. A HYDRA tentou sequestrar Olivia. Ela precisa ser protegida de agora em diante a qualquer custo.
Mais do que depressa, o herói egocêntrico se vai. Não sem antes lançar um duro olhar em minha direção, é claro. Na sequência, Thor toca meu ombro por um instante, se despede com um meneio de cabeça e segue o Capitão América rumo ao interior do prédio. Então me vejo com os três Vingadores restantes.
Que sorte a minha...
Enquanto Romanoff e Barton me encaram com olhares semicerrados, Banner caminha até mim, estendendo os braços na direção de Olivia.
Imediatamente, recuo, a seguro mais firme e esclareço:
— Eu sou perfeitamente capaz de carregá-la.
Tenho a impressão de que ele vai assentir em concordância, quando o Gavião Arqueiro se intromete:
— O Capitão não disse nada sobre levarmos esse aí para a Torre também.
Olhamos na direção dele automaticamente e a ruiva ao seu lado aproveita para reforçar:
— Clint está certo. Steve foi bem claro, ele disse para levarmos Olivia. Apenas ela.
Uma leve onda de pânico se agita dentro de mim quando me dou conta de que esses dois energúmenos querem me deixar para trás. Eu a detenho antes que alcance a superfície e alguém perceba meu momento de fraqueza. Termino de conter o pânico rindo sem humor e avisando ao casalzinho patético:
— Isso não vai acontecer.
Um longo momento de silêncio transcorre, até que Banner passa a mão pela testa — um tanto nervoso com o impasse subentendido, eu diria —, e diz aos parceiros de equipe:
— Está tudo bem. Loki vem conosco. Steve não foi específico, mas eu tenho certeza que concordaria.
Posso ver a decepção no semblante da Viúva Negra e do Gavião Arqueiro, mas isso perde a importância diante de um fato maior: minha surpresa com a postura do cientista diante de mim.
Por um momento, até esqueço o passado e sinto uma sútil empatia por ele — bem sútil, é claro, quase nada. Esqueçam, eu não senti isso.
Como se tivesse lido meus pensamentos, Banner se volta em minha direção e esclarece:
— Não me entenda mal, eu ainda tenho vontade de te dar outra surra como aquela às vezes, deus fraco... Mas Olivia ia querer que você viesse conosco. Mais do que isso, eu tenho certeza que ela vai pedir para te ver assim que acordar. Então, por ela — ele torna a olhar para Romanoff e o arqueiro —, Loki vem conosco.
Confesso que meu orgulho é ligeiramente abalado pela menção a tal... surra — que nem foi uma surra, que fique bem claro, o Hulk apenas me pegou de surpresa, poderia acontecer a qualquer um —, mas me recomponho prontamente e me agarro ao restante do discurso de Banner.
Então sem perder mais tempo, sigo rumo ao Quinjet, passando pelos outros dois Vingadores que finalmente parecem ter aceitado que eu não vou deixar Olivia seguir sem mim. Mesmo assim, quase sinto seus olhares duros em minhas costas quando os deixo para trás e entro na aeronave primitiva.
Logo eles fazem o mesmo. Visivelmente relutantes e evitando olhar em minha direção, sentam-se nas poltronas da parte frontal do jato. Dão início a partida assim que Bruce se junta a mim e Olivia nos assentos da parte de trás.
— É melhor colocá-la em uma poltrona separada — Banner sugere, mas eu permaneço imóvel, segurando Olivia enquanto o Quinjet começa a planar.
Talvez convencido de que eu não vou soltá-la — muito menos que vou deixá-la cair —, ele expira com força, se levanta e passa um tipo de cinto de segurança em volta de nós. Apenas observo, incapaz de lhe agradecer pela consideração com a criatura imóvel em meus braços.
Na verdade, começo a estranhar a imobilidade do tormento. Mesmo quando está dormindo, Olivia nunca se desliga completamente. Ela costuma se mexer bastante, aliás. Às vezes, diz coisas sem sentido também, como Hakuna Matata, seja lá o que isso signifique.
De repente, noto que Banner não só não retornou ao seu lugar, como está debruçado sobre Olivia, segurando o seu pulso por tempo demais para o meu gosto.
— O que você está fazendo? — questiono ácido, afastando sua mão. — Pelo o que eu soube, você não é um médico exatamente.
Sem se intimidar, ele replica:
— Pelo o que eu soube, Olivia não é uma pessoa comum. Eu posso ajudá-la. Se você deixar, é claro.
Assimilo seu argumento e me lembro de que foi Banner quem descobriu as origens alienígenas de Olivia. Ele conhece seus pontos fortes e, com certeza, suas fraquezas, com base na análise que fez de seu sangue. Talvez possa mesmo usar o seu conhecimento científico para ajudá-la neste momento.
Pensando assim, permito que ele volte a examiná-la, por mais que a ideia de qualquer outro ser tocá-la me incomode muito.
Subitamente, meu ciúme perde a importância quando ambos notamos um ferimento profundo na têmpora de Olivia que eu não havia visto antes.
O sangramento considerável na região, a ausência de cor em seus lábios e sua pele gelada contra o meu corpo me fazem indagar:
— Ela vai ficar bem?
Banner não responde. Nem me olha. Ao invés disso, retira um lenço do bolso, o coloca sobre o corte e apoia minha mão sobre o tecido. Enquanto o pressiono contra o ferimento, observo o cientista voltar para o seu assento.
— Clint, Natasha — ele chama, visivelmente preocupado. — Quanto tempo até a Torre?
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