Trapaças do Coração
9 A última jujuba da doceria
Notas iniciais
Há um estágio intermediário entre o sono profundo e o despertar. Acho que estou no meio do caminho entre um e outro. Presa em algum tipo de realidade paralela dentro de minha mente sonolenta.
Meu corpo dói e pesa uma tonelada, eu posso senti-lo, me sentir, mas ainda não estou consciente o bastante para ordenar que minhas pálpebras se abram, nem para me mexer.
Aos poucos, começo a tomar conhecimento da minha respiração. Lenta. Suave. Ritmada. Inspiro mais profundamente e sinto uma pontada de dor ao fazer isso.
E então, de repente, não mais que de repente, sinto minha consciência ser convocada e meu corpo ganha forma e conteúdo no mesmo instante. Subitamente, percebo que existo e que estou acordada.
Abro os olhos devagar, acostumando-me aos poucos com a luz ambiente. Branca, forte e vívida. Minha visão ainda está embaçada por essa iluminação chata, quando me sento de supetão e percebo que estou em um tipo de cama hospitalar.
Por mais que eu não queira, sou acometida por lembranças dolorosas por um momento, mas logo as afasto da minha mente ao reconhecer o laboratório da Torre dos Vingadores atrás de uma enorme parede de vidro, que o separa do quarto onde me encontro. Estou sozinha aqui e, por um instante, me sinto como Rick Grimes despertando no primeiro episódio de The Walking Dead.
Será que rolou um apocalipse zumbi enquanto eu babava no travesseiro? Será que eu babei no travesseiro?
Espera... Por quanto tempo eu dormi? Como vim parar aqui? Por que estou com uma camisola ridícula que me lembra seriados médicos? E por que meu corpo dói como se eu tivesse levado uma senhora e humilhante surra?
Meio desnorteada, repasso as últimas lembranças em minha mente confusa, enquanto tento ignorar uma leve dor de cabeça. E logo, minhas memórias ganham forma, cor, substância. Grant Ward. Foi ele que me colocou nesse perrengue.
Podia ter sido pior, é claro, se o desgraçado tivesse conseguido me levar para o covil da HYDRA, como obviamente queria. Mas graças a...
— Loki.
De repente, seu nome escapa dos meus lábios e só então percebo como minha garganta está seca. Meu coração dispara inevitavelmente e de repente me sinto meio febril.
Loki me salvou do pior. Da possível tortura e dos planos tenebrosos que a arqui-inimiga da S.H.I.E.L.D. parece ter para mim. Sinto um arrepio extremamente gélido percorrer o meu corpinho só de imaginar o que teria acontecido, caso o meu gafanhoto magia não tivesse aparecido bem no finalzinho do segundo tempo e marcado um golaço desses.
A uma hora dessas, eu estaria sendo perfurada, espetada, eletrocutada, desmontada e montada de novo por algum lacaio — ou alguns lacaios — da HYDRA.
Com medo, fecho os olhos por um momento e balanço a cabeça negativamente para afastar esses pensamentos perturbadores. Em seguida, examino tudo em volta, a fim de me certificar de que estou mesmo sozinha, e ao constatar que sim, decido arriscar:
— J.A.R.V.I.S.? Você está por aí? Na escuta, chuchu?
Quase no mesmo instante, a simpática voz da inteligência artificial ecoa por toda a parte:
— Srta. Mills! Que bom que finalmente despertou, sinal de que sua recuperação está progredindo muito bem. Sim, eu estou por aqui, como sempre! O que eu posso fazer pela senhorita? Oh, espere um segundo! Antes de qualquer coisa, eu devo informar imediatamente ao Sr. Stark e ao Dr. Banner que você acordou. Só um instante, por obséquio.
Atônita e com receio de que ele faça mesmo isso, corto-o abruptamente:
— Não! J.A.R.V.I.S., não! Espera um pouquinho aí! Deixa de ser afobado e me escuta, menino!
Alguns segundos se passam, enquanto respiro fundo, até que J.A.R.V.I.S. assente:
— Eu estou ouvindo, Srta. Mills.
Com a mão no coração e sentindo-me estranhamente cansada, recupero o fôlego e recomeço:
— Me responda uma coisa... Por acaso o gafanhoto está aqui?
— Eu presumo que a senhorita esteja se referindo ao Deus da Trapaça, Loki. Positivo, ele se encontra na Torre. Agora, eu devo comunicar o Sr. Stark...
— J.A.R.V.I.S.! — interrompo-o mais uma vez. Respiro fundo antes de explicar: — Me ouça com muita atenção, lindo. Eu não quero que você avise ao Tony, nem ao Bruce, nem a ninguém que eu acordei, tudo bem? Por favor, controle essa língua fofoqueira e me mostre o toalete mais próximo primeiro. Eu preciso me recompor antes de encontrar o gafanhoto e depois, só depois, você avisa o seu chefinho querido do coração que Olivia Mills está de volta, okay?
Para meu desespero, a inteligência artificial ainda dá indícios de que vai insistir na questão ao dizer:
— Mas, Srta. Mills, eu tenho ordens expressas do Sr. Stark...
Não o deixo prosseguir. Ao invés disso, lanço uma pergunta no ar:
— J.A.R.V.I.S., me responda mais uma coisa, por quanto tempo eu dormi?
— 36 horas, Srta. Mills — ele responde prontamente, apesar de ansioso para gritar aos sete ventos que eu despertei.
— Uau... Tudo isso? — sibilo distraída.
Não posso negar. A informação de J.A.R.V.I.S. me deixa surpresa e preocupada ao mesmo tempo. Só então me dou conta de que levei mesmo uma senhora surra de Grant Ward e de que o meu estado era grave. Talvez ainda seja, mas ter acordado certamente é um bom sinal. Eu vou ficar bem.
Pensando assim, me recomponho e articulo:
— Bem, se eu dormi por 36 horas, algo me diz que Tony Stark, Bruce Banner, demais Vingadores e a Madre Teresa de Calcutá podem me dar mais dez minutinhos, certo?
— Creio que sim, Srta. Mills.
Quando penso que venci o embate, J.A.R.V.I.S dispara a falar, parecendo bem confuso:
— Exceto pela Madre Teresa de Calcutá que, infelizmente, faleceu em 1.997. Espere... Por que a senhorita mencionou a madre? Eu devia avisar pelo menos o Dr. Banner, a senhorita não parece bem. Seus sentidos devem estar confusos. Certamente, precisa ser examinada urgentemente.
— J.A.R.V.I.S., sabe do que eu preciso urgentemente? — antes que ele responda, eu reforço: — Do toalete mais próximo e da localização do gafanhoto. Por favor.
***
O toalete não era longe afinal. Fica praticamente ao lado do laboratório de Bruce Banner. Acho até que já estive aqui outras vezes. Não lembro. Talvez sim. Talvez não. Talvez J.A.R.V.I.S. esteja certo, meus sentidos estão meio confusos, bem como alguns detalhes na minha memória.
Você vai ficar bem, Olivia. Afirmo em pensamento, enquanto me apoio na suntuosa pia de mármore e observo meu reflexo no espelho.
Estou um pouco abatida e com algumas olheiras, mas diante do que vivi há um pouco mais de 36 horas, pode-se dizer que estou muito bem.
Há um curativo na lateral do meu rosto. Não preciso me esforçar muito para lembrar de como adquiri o ferimento sob ele. Grant Ward. A mesa de centro da sala. O tampo de vidro se partindo. Cacos por toda a parte. Eu... no chão. Arrastando-me. Ferindo-me com os estilhaços. Sendo imobilizada contra o assoalho subitamente cortante.
Engulo em seco e, lentamente, afasto a bandagem, esperando encontrar um corte horrível em processo de cicatrização. Talvez inflamado. Talvez pontos. Mas ao invés disso, o que vejo é uma pele lisa e saudável sob o curativo. Nem sinal do corte, nem uma cicatriz, nada.
— O quê...? — murmuro confusa.
Dou uma boa olhada em meus braços e pernas. Levanto a camisola e examino meu abdômen também. Viro-me e observo minhas costas no espelho. E não há qualquer mancha, hematoma, corte ou escoriação em parte alguma, embora eu me lembre do embate com Ward e dos ferimentos que isso me causou. Só posso concluir uma coisa: me recuperei rápido demais. Pelo menos, rápido demais para uma simples humana.
Sendo assim, só posso deduzir que meu lado alienígena, mais uma vez, foi crucial para minha recuperação. E se por um lado, isso me deixa aliviada, por outro, me assusta um pouco. No fim, eu não sou uma simples humana.
Respiro fundo e decido não pensar em nada disso por enquanto. Tenho algo importante a fazer e é nisso que quero me concentrar. Então lavo o rosto, dou uns tapinhas nas bochechas para me sentir menos pálida e ajeito meus cabelos rapidamente. Em seguida, abro o armário sob a pia e logo encontro creme dental, escovas de dentes, entre outros itens de higiene pessoal.
Pensando no trapaceiro irresistível e que não posso, de forma alguma, beijá-lo depois de uma soneca de 36 horas — lê-se: com um bafo de onça —, retiro uma escova da embalagem, e sorrio pela primeira vez desde que acordei.
***
De hálito refrescado, minimamente apresentável, mas ainda descalça, sigo por um dos corredores da Torre em direção à mesma sala onde conheci meu irmão, Peter Lindo Quill, há mais ou menos dois meses. É lá que Loki está, segundo J.A.R.V.I.S. informou.
Ansiosa e animada com a ideia de revê-lo, apresso o passo, ignorando uma ligeira tontura. Estou quase adentrando o local, quando reconheço não só o gafanhoto, mas o top model asgardiano também. Ambos estão de costas para a entrada e, por isso, não notam minha presença. Voltados para uma parede de vidro com vista para Manhattan, os dois parecem estar no meio de uma conversa.
E eu, como a criatura educada e nem um pouco curiosa que sou, recuo o suficiente para me esconder e ouço o que se segue com atenção.
— Eu pensei que aquela sua... versão só viesse à tona com a Caixa dos Invernos Antigos ou em contato com algum Gigante de Gelo.
A princípio, as palavras de Thor me deixam confusa. Porém, logo compreendo que ele está falando sobre o lado Smurf do Deus da Trapaça. O lado que parece ser muito fã de Frozen, por sinal. O lado jotun que me salvou da HYDRA.
— Aquilo não era uma versão de mim, irmão. Aquilo é o que eu sou — Loki esclarece de um jeito afiado e firme, me deixando inevitavelmente arrepiada da cabeça aos pés.
Não que eu esteja com frio. Na verdade, ouvir a sua voz aquece o meu corpo automaticamente. Tenho que me controlar para não arrancar essa camisola ridícula agora mesmo e pedir para o Deus do Trovão nos deixar sozinhos... Não nessa ordem, é claro.
Foco, Olivia. Foco.
— Claro, eu entendo — Thor se desculpa brevemente, antes de insistir na questão: — Mas isso não explica como aconteceu — após um momento em silêncio, ele questiona desconfiado: — O que você fez, Loki?
Primeiro, ouço uma risada. Leve, charmosa e sonsa. Fecho os olhos, me concentro e então escuto o deus trapaceiro se explicando:
— Nada, eu juro. Eu só me lembro de ter sentido muita... raiva. Acho que foi o que desencadeou o meu verdadeiro eu.
Um filme passa em minha mente. O filme da fatídica noite do meu quase sequestro. Sim, eu imagino a raiva que Loki estava sentindo enquanto abatia, um a um, os agentes da HYDRA. Entretanto, algo em seu tom de voz me dá a impressão de que ele não está dizendo tudo o que sabe sobre si mesmo. Na verdade, parece que ele está fugindo do questionamento do irmão, desconversando, tentando não dar tanta importância ao seu verdadeiro eu e ao que fez aquela noite no meu terraço.
De repente, ouço sua voz novamente:
— Você está preocupado. Que além de Olivia, teoricamente, despertar o melhor em mim, ela também desperte o meu pior.
Teoricamente? Sério, gafanhoto? Sem querer me gabar, mas agora eu tenho certeza que você não está sendo 100% sincero nessa conversa, chuchu.
— Eu não estou preocupado. Na verdade, eu estou aliviado — o top model asgardiano corrige de repente. Ouço quando ele se mexe um pouco e então prossegue: — Você deixou o seu verdadeiro eu tomar o controle por causa dela. Quando a viu em perigo. Você fez o que fez por uma boa causa, Loki.
As palavras do deus asgardiano mergulham pouco a pouco em minha mente, e mesmo assim, demoro a absorvê-las por completo, a entender o seu significado. Thor está mesmo sugerindo que...
— Olivia não desperta o melhor de você na teoria, ela faz isso na prática. O tempo todo, eu diria — ele afirma pragmaticamente. — Agora eu sei, não foi a raiva que despertou o seu lado jotun. Foi ela. Seus sentimentos por ela.
Mama Mia! Thor está mesmo sugerindo o que eu acho que ele está sugerindo. Eu... Ou melhor, os sentimentos de Loki por mim — rá! — fizeram o Gigante de Gelo assumir o controle da situação. A raiva que Loki sentia não era só raiva afinal. Era uma resposta ao instinto de me proteger.
Não que eu tivesse alguma dúvida de que o gafanhoto é louco por mim, mas perceber a real dimensão disso, ouvir outra pessoa chegando a essa conclusão... É impagável.
Adivinha quem está se sentindo a última jujuba da doceria? Eu, é claro!
Sentindo meu coração acelerado, um calor engraçado dentro de mim e minhas bochechas queimando, inclino-me um pouco a fim de espiar o interior da sala.
Vejo Thor sorrindo daquele seu jeito fofo e com a mão direita sobre o ombro de Loki, como se estivesse mesmo aliviado por ter encontrado uma explicação para o ocorrido no meu terraço. Mais do que isso, o deus trovejante parece feliz e orgulhoso.
De repente, pego-me pensando que Thor poderia ser um bom padrinho, mas sou interrompida quando Loki diz azedo:
— Por acaso você vai me abraçar e me parabenizar com tapinhas nas costas, irmão?
Obviamente, o gafanhoto tinha que jogar um balde de água fria na conversa para camuflar seus sentimentos por mim. Mas de nada adianta, chuchu, você está mesmo com os quatro pneus arriados por essa midgardiana aqui, aceita que dói menos.
— Porque eu não estou no clima para tanto sentimentalismo — conclui, com sua clássica cara de limão azedo e fachada fria.
Thor, ainda sorrindo, afasta a mão do ombro dele e encerra a conversa sem se intimidar:
— Continue se escondendo atrás de sarcasmo, Loki. Se isso te faz se sentir melhor, por mim tudo bem.
Quando percebo que o Deus do Trovão vai se retirar, me afasto e me escondo no corredor mais próximo antes que minha presença seja notada. Dou uma espiadinha, espero ele sumir do meu alcance de visão e só então volto para onde estava.
Sentindo-me meio boba, controlo a vontade de sorrir, respiro fundo e finalmente vou ao encontro do meu boy magia dizendo:
— Ei, gafanhoto. Sentiu minha falta?
Adentro a sala, enquanto Loki se vira e me encara com uma mistura de confusão, surpresa e, claro, nuances de felicidade e alívio que ele luta para disfarçar, mas que eu sei que estão ali, bem no fundo dos seus olhinhos verdes de noite serena.
— Olivia.
Ouvir meu nome em sua boca faz o meu coração disparar. Como sempre aliás. Sorrio, inevitavelmente, ao perceber que o deus trapaceiro está se controlando para não vir ao meu encontro de imediato, me tomar em seus braços e eitcha lelê!
Por mais que estejamos sozinhos aqui, é do feitio de Loki não se entregar a esses rompantes apaixonados. Pelo menos, não tão fácil. Ainda mais quando é pego assim, de surpresa. Sua reação natural é ficar na defensiva, até incrédulo, eu diria.
Em outras palavras, Loki tem uma imagem a zelar e já demonstrou demais seu lado fofo quando me salvou do perigo. Por isso, não fico chateada com sua momentânea paralisia emocional, pois sei que por dentro ele deve estar travando uma luta consigo mesmo.
Paro em sua frente ao mesmo tempo em que ele começa a dizer:
— Você... — Loki hesita e engole em seco, antes de endireitar a postura e retomar: — Você está... — ele pigarreia e finalmente conclui: — Bem, tormento?
Dou um tapinha no ar e o tranquilizo:
— Ah, sim, claro! Considerando o babado fortíssimo pelo qual passei, eu estou ótima. Pode parar de se preocupar.
O deus trapaceiro pisca algumas vezes, arqueia as sobrancelhas e desvia o olhar ao mentir:
— Eu não estou...
— Bitch, please! — Dou um passo à frente, terminando com a já curta distância entre nós, e jogo meus braços em volta do seu pescoço. — Para que está feio.
Loki me encara com curiosidade por alguns instantes. Em seguida, noto um sorriso displicente surgindo em seu rostinho lindo. Torno a fitá-lo nos olhos e sinto algo deslizar e envolver minha cintura suavemente. Seus dedos. Suas mãos.
— Por falar em feio, essa camisola midgardiana é horrível — o trapaceiro irresistível opina de repente, talvez numa tentativa de mudar o foco, para não ter que mentir que não estava preocupado comigo.
— Obrigada, são seus olhos. — Lanço-lhe um sorriso torto e então um silêncio aterrador se instala entre nós.
Eu sei, eu deveria agarrá-lo de uma vez, mas sinto que falta fazer uma coisa, antes de ceder aos meus instintos. O problema é que não consigo me lembrar o que é. Acho que o jeito que o gafanhoto me encara de volta ou simplesmente a sua presença diante de mim afetam o campo do meu cérebro responsável pela memória. Alguém lembra como se chama essa parte? Porque eu também esqueci.
Estou tentando fazer meus neurônios pegarem no tranco, quando o Deus da Trapaça me dá uma ajudinha:
— Você quer me dizer alguma coisa, tormento?
Dizer! É isso! Eu vim dizer uma coisa!
Pisco algumas vezes, solto a respiração que eu nem lembrava de ter prendido e digo:
— Só... agradecer. — Ao perceber que Loki não entendeu patavinas do que isso significa, me recomponho de vez e explico pausadamente: — Goste ou não, você agiu como um herói, gafanhoto. Você me salvou. Então, obrigada.
Numa clara atitude de autodefesa, ele desconversa prontamente:
— Eu não fiz nada de especial, portanto, não é necessário dar tanta importância a algo que...
Ah, já chega disso, criatura! Pare de negar que você fez algo bom e que merece crédito por isso. Mas será o Benedito?
E por falar no que o gafanhoto merece, reviro os olhos antes de fechá-los, fico na ponta dos pés e o impeço de continuar dizendo abobrinhas, ao pressionar meus lábios contra sua boquinha linda e apetitosa com veemência, em um selinho impetuoso e demorado.
Isso, claramente, derruba as defesas do trapaceiro irresistível que, não só não se opõe ao meu rompante, como aperta minha cintura contra o seu corpinho esbelto — e quente demais para um jotun.
Afasto o rosto e o fito nos olhos a fim de me certificar de que Loki entendeu a mensagem. E tenho a confirmação disso, quando ele arqueia as sobrancelhas e diz em incentivo:
— Na verdade, eu acho que você devia me agradecer mais, midgardiana.
— Essa é a ideia, chuchu. — Dou risada, envolvendo o seu rosto e ficando na ponta dos pés novamente.
Entretanto, para infelicidade geral da nação e frustração da minha piriguete interior, antes que eu continue de onde parei, ouço uma voz familiar e um tanto irritante de alguém que entra na sala naquele exato momento:
— Oh, veja só! Olivia Mills já está agarrando alguém, Verdão. Pelo visto, ela se recuperou completamente.
Chaves... Digo, Tony. Tinha que ser o Tony.
Afasto-me um pouco do gafanhoto — que crava um olhar frio sobre o meu ombro, na direção da entrada —, viro-me e vejo Stark caminhando pela sala. Ele é seguido não só por Bruce, mas pela equipe Vingadores inteira.
Oh, céus... Isso é embaraçoso.
— Só para constar, sua tentativa de atrasar o J.A.R.V.I.S. não funcionou. Eu, deliberadamente, te dei alguns minutos. — O Homem de Ferro para a cerca de dois metrôs de mim e emenda: — J.A.R.V.I.S. tinha ordens expressas, desculpe.
— Claro que ele tinha — é tudo o que digo, com um desânimo que não consigo disfarçar.
Mesmo que eu quisesse, não tenho tempo de dizer mais nada, pois Bruce se aproxima de mim rapidamente e reclama:
— Olivia, você não devia ter se levantado assim. — Ele pega uma pequena lanterna no bolso, segura meu rosto e lança a luz nos meus olhos, um por vez, repetidas vezes.
— Como você está se sentindo? — é o Capitão América, mais afastado de nós, que pergunta.
Antes que eu assimile suas palavras e responda, Banner refaz a pergunta do amigo:
— É, como você está se sentindo? — e então ele dispara a falar como uma vitrola: — Tontura? Dor de cabeça? Alguma coisa? Você não devia ter se levantado. Eu já disse isso, certo? Talvez eu não tenha dito que o fato dos seus ferimentos terem cicatrizado rápido não significa que você está totalmente recuperada. Caso não saiba, você teve uma concussão grave.
Zonza pela luz em meus olhos, tento tranquilizá-lo:
— Eu estou ótima. Juro juradinho.
Bruce afasta a lanterna e pega outro aparelho no bolso do jaleco, ao mesmo tempo em que me conduz para um sofá. Quando dou por mim, já sentei e ele está ao meu lado, pressionando uma extremidade do aparelho no meu pulso e a outra na altura do meu coração.
Concentrado, ele avalia meus sinais vitais enquanto sinto os olhares curiosos dos Vingadores sobre mim. Ergo a cabeça e sorrio levemente para Clint e Natasha, que estão próximos a Steve Rogers. Apesar do nosso último e desastroso encontro, e da interrupção, estou feliz em rever todos eles.
— Estranho... — Bruce sibila de repente, sem afastar o aparelho de mim e estreitando o olhar para os dados que um pequeno visor mostra. — Sua frequência cardíaca está muito acelerada, sua pressão arterial elevada e você está um pouco febril.
Abro a boca para me explicar, mas então percebo que não posso fazer isso. Não sem me expor. Sinto meu rosto ruborizar e olho para o gafanhoto de soslaio.
Como se tivesse chegado à mesma conclusão que eu, ele arqueia as sobrancelhas por um instante e, com o olhar fixo no meu, explica de um jeito charmosamente sonso:
— Minha culpa.
Meu rosto pega fogo e eu desvio o olhar, voltando à posição de antes. Mas quando ergo a cabeça e vejo que Bruce e os demais heróis estão me encarando de um jeito embaraçoso, fico com mais vergonha. Tenho vontade de cavar um buraco e me esconder. Alguém tem uma pá?
Talvez percebendo o meu desconforto — ou satisfeito com a explicação de Loki —, Bruce guarda o aparelho e recomeça de um jeito mais calmo:
— Como você está se sentindo, Olivia? Eu quero dizer, realmente. Seja sincera.
Expiro com força e admito:
— Um pouco atrapalhada. Minha cabeça está meio confusa, eu acho.
— Pode-se dizer que isso também é minha culpa — Loki se intromete, chamando a atenção de todos, inclusive a minha. — Eu tendo a deixá-la desconcertada — acrescenta de um jeito sério, como se não fosse nada de importante, mas sei que por dentro, ele deve estar se vangloriando dos efeitos que causa em mim, se controlando para não rir daquele seu jeito convencido e... charmoso.
Papagaio...
— Fica quieto — resmungo, ignorando que ele está certo e me voltando para Bruce mais uma vez. — Você disse que eu tive uma concussão. Deve ser isso. Minha cabeça está doendo um pouco e o que aconteceu... — Hesito por um momento, sentindo um arrepio ao pensar no ocorrido em meu cafofo. — Está meio confuso, minhas lembranças estão confusas, misturadas, distantes e próximas ao mesmo tempo. Isso faz algum sentido? Enfim, parece que tudo aquilo não foi real, de verdade... Mas foi, certo?
É inevitável. De repente, estou de volta àquela experiência horrível. Lembrando e revivendo o que aconteceu. E isso me deixa paralisada, muda e com um olhar distante. Minha garganta está seca e o meu coração, antes disparado, agora parece bater pesada e lentamente, com dificuldade.
Só então percebo que, desde que acordei, tenho evitado pensar, evitado dar importância ao ocorrido, como se não tivesse sido comigo, ou como se não tivesse sido tão grave assim. Mas foi. Meu corpo pode ter se curado, mas minha cabeça está uma bagunça. Não me orgulho de dizer isso, mas estou com medo. E se eu estivesse sozinha agora, com certeza ia chorar num cantinho.
Entretanto, não posso fazer isso. Lembro de minha avó, de seu sábio conselho, e então tranco o medo e o choque dentro de mim. Torno a olhar para as pessoas a minha volta e afirmo:
— Eu vou ficar bem.
Bruce assente com um meneio de cabeça e o silêncio ainda perdura por mais alguns instantes. Por fim, ouço a voz da Viúva Negra:
— Eu odeio ter que dizer isso, afinal você acabou de acordar e não está totalmente recuperada, mas Coulson precisa que você conte tudo o que aconteceu o quanto antes. Nós precisamos de qualquer informação que Grant Ward tenha deixado escapar antes de ser rendido.
Vejo Natasha olhar para Loki rapidamente, porém ainda assim de um jeito significativo. Então reflito sobre o que ele fez — deu uma de Elsa de Frozen para cima do meu algoz — e deduzo que o infeliz deve estar em coma, lutando pela vida uma hora dessas.
Uma parte sombria de mim deseja que Ward não acorde nunca mais. Entretanto, sei que é errado desejar algo assim, apesar de tudo. Além disso, o lacaio do mal precisa explicar tim tim por tim tim o que a HYDRA planejava exatamente. O que ela talvez ainda planeje para mim.
Paro de pensar nisso quando o Gavião Arqueiro diz:
— E quando você estiver melhor, o Dr. Patel também quer vê-la.
Ótimo. Só que não. Meu chefe e meu terapeuta estão na área. Um, ansioso para saber todo o babado pelo qual passei, querendo pistas, informações que possam ajudar a S.H.I.E.L.D. a chegar na HYDRA antes que ela chegue em mim novamente. E o outro querendo saber como meu psicológico e emocional estão depois do que houve.
Pensando no que é prioridade neste momento, respiro fundo, endireito a postura e articulo do jeito mais natural e firme que consigo:
— Digam para o chefinho que eu estou pronta para falar com ele. E para o terapeuta fofo, que eu não pretendo fugir da sessão extraordinária, mas que adoraria se ele adiasse nossa conversa até amanhã.
Depois de trocar um olhar com os membros da equipe, Steve se compromete:
— Eu vou avisá-los. — Antes de deixar a sala, ele me encara por um momento e diz com sua fofura característica: — Que bom que você está de volta, Olivia. Estimo melhoras.
Um a um, Bruce, Clint e Natasha também saem. Não sem antes me olharem por um instante a mais, como se repetissem em pensamento as palavras do Capitão.
Tony Stark demora um pouco mais para segui-los. Ele olha de mim para o gafanhoto por algum tempo. Franzo o cenho, esperando que ele diga logo o que tem em mente, porém isso não acontece. Pelo menos, não nesse momento.
Então, quando acho que ele finalmente vai cruzar a porta, o magnata gira nos calcanhares, aponta o indicador para nós e insinua:
— Eu devo avisá-los que há câmeras por toda a parte. Então não pensem que vocês estão de fato sozinhos, porque adivinha? Vocês não estão.
Rio sem humor e balanço a cabeça negativamente sem acreditar que Tony disse mesmo isso. Se bem que... o danado está certo em avisar. Agora que fico sozinha com Loki novamente, me lembro o que pretendia fazer pouco antes de ser interrompida. E definitivamente, ainda quero fazer.
É pensando nisso que me levanto do sofá, caminho até o trapaceiro irresistível e o surpreendo ao lhe roubar mais um beijo. Desta vez, um beijo de verdade. Intenso. Envolvente. Profundo. Feroz, eu diria. Saliente, com certeza. Com gostinho de quero mais, absolutamente.
Uma onda de calor toma conta de mim, meu coração volta a disparar desenfreadamente, ouço sinos, sinto borboletas e minhas pernas ficam bambas, me levando a agarrar Loki com mais... Hum, digamos, afinco.
Pela forma como ele segura meu cabelo com força e corresponde ao beijo com ardor, posse e urgência, tenho certeza que está sentindo o mesmo que eu nesse momento. Calor define.
Se estivéssemos em um lugar mais reservado e sem câmeras, poderíamos continuar — aquela carinha. Mas como não estamos, diminuo o ritmo de minha boca na sua e afasto o rosto aos poucos.
— Qual o problema, gafanhoto? — indago ofegante, enquanto seu olhar queima o meu. — Você parece desconcertado, sabia? — observo de um jeito sonso, enquanto ele parece lutar para se recompor, mas ainda me mantém junto ao seu corpinho sem perceber. — Oh! — Bato em minha testa, como se tivesse chegado a uma conclusão óbvia, e encerro: — Desculpe, minha culpa.
Sorrio, me desvencilho dos seus braços e lhe mando um beijinho, antes de me afastar de vez e seguir rumo à porta.
Minha vingancinha teria sido perfeita, se eu não tivesse tropeçado no sofá e me desequilibrado um pouco, antes de me endireitar e sair. Mas tudo bem, vamos fingir que essa gafe não aconteceu.
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