Notas iniciais
Allons-y! Tudo bem com vocês, chuchus? Espero que sim eheheheh Cheguei com mais um capítulo! Como só revisei uma vez, se vocês se depararem com algo estranho, me avisem. Please! Boa leitura e, se vocês sobreviverem, inté as notas finais! PS: Capítulo dedicado a Maria Vitoria Mikaelson, pela lindaaaaaaaaaaaaa recomendação que eu ameiiiiiiii!!!! Obrigada, chuchu!!! Apareça nos comentários quando puder!

Apesar de estar me sentindo perfeitamente bem, os Vingadores insistem para que eu volte à ala médica da Torre e me deite. Segundo Bruce, eu ainda preciso de repouso para me recuperar por completo e poderei conversar com Coulson lá. Acho melhor não retrucar e volto para a cama.

Assim que eles saem, meu chefe adentra o quarto com sua costumeira postura firme. Somente ao vê-lo me dou conta de que terei que encarar o que aconteceu comigo. Aquele pesadelo foi real e terei que falar a respeito. Eita.

Para meu alívio, Phil começa a delicada conversa:

— Olivia, que bom te ver acordada e melhor. Antes de mais nada, sinto muito pelo o que houve. Eu devia ter imaginado que algo assim pudesse acontecer eventualmente, mas acho que fui negligente. Espero que você aceite minhas desculpas e a promessa de que a partir de agora sua segurança é prioridade para a S.H.I.E.L.D.

— Não foi sua culpa, mas obrigada pela preocupação — respondo. E percebendo que ele estava falando sério sobre se desculpar, acrescento para tranquilizá-lo e colocar uma pedra neste ponto do assunto: — Desculpas aceitas, chefe.

— Que bom. — Coulson puxa uma cadeira que estava no canto do quarto e senta bem perto da cama antes de recomeçar: — Eu sei que você tem muitas perguntas, eu também tenho. Então como vai ser? Damas primeiro?

Definitivamente tenho muitas perguntas mesmo. Por isso, resolvo aceitar a oferta e despejo minha primeira dúvida cruel:

— Quem diabos é Grant Ward?

Quase no mesmo instante, Phil esclarece:

— Acho que eu não preciso dizer que ele está diretamente ligado à HYDRA. O fato curioso é que Ward já fez parte do meu time. Quando a S.H.I.E.L.D. caiu, ele finalmente mostrou sua verdadeira face. Por muito tempo eu me recriminei por não ter notado os sinais antes. Hoje eu estou convencido de que ele não me deu essa chance. Grant Ward é um psicopata, dissimulado, manipulador, perigoso e traiçoeiro. Sinto muito que você tenha o conhecido.

— Uau! Gente boa então, hum? — brinco numa tentativa de dissipar a tensão. — Ele está aqui? — prossigo, com uma ponta de receio, pois a simples possibilidade de que este infeliz esteja sob o mesmo teto que eu me causa náuseas.

Para meu alívio, Coulson reporta:

— Não, Ward está a quilômetros de distância, Olivia, não se preocupe. Ele está preso na base que chamamos de Playground. Aquela onde eu e você conversamos há pouco tempo, lembra? Embora ainda esteja inconsciente, a segurança em torno dele foi redobrada.

Inconsciente. Tal palavra me lembra o ocorrido em meu terraço, quando Loki quase matou o lacaio da HYDRA com o seu poder de gelo. Mesmo deduzindo que a situação de Ward é crítica, pergunto retoricamente:

— Como ele está?

Coulson se ajeita na cadeira e pensa um pouco, como se estivesse escolhendo as melhores palavras, e então diz:

— Em coma. Seu corpo entrou em choque por conta da severa... Hipotermia e falta de oxigenação no cérebro.

— Que forma sútil de dizer que o gafanhoto quase o matou congelado e asfixiado — observo ainda com meus pensamentos focados naquela fatídica noite.

— De fato, Loki quase fez isso. Um minuto a mais poderia ter sido decisivo — Coulson comenta, pensativo e um pouco distante. Logo depois, ele torna a olhar para mim e emenda: — Se ele não fosse Grant Ward, eu diria que jamais iria se recuperar. Mas eventualmente, eu sei que ele vai.

E eu sei que impedi o gafanhoto de matar Grant Ward, mas ao ouvir as últimas palavras do Diretor da S.H.I.E.L.D., uma parte de mim espera que ele esteja enganado. Essa parte sombria deseja que Ward não acorde mais... Nunca mais.

Engulo em seco e enterro esse desejo em um lugar remoto de minha mente. Deixo a voz de minha avó ganhar força dentro de mim. Segundo ela, não podemos desejar mal às pessoas. Por mais que algumas delas mereçam.

Por fim, respiro fundo e dou o aval para Phil Coulson me interrogar:

— Sem mais perguntas. Sua vez.

Direto como sempre, ele não perde tempo e indaga:

— Ward deixou escapar alguma informação ou detalhe pertinente sobre o que pretendia? Além de te levar para algum covil da HYDRA, como supomos que ele faria, é claro.

Penso um pouco, repassando o filme em minha cabeça. Grant Ward se revelando no meu cafofo, o tom de ameaça subentendido, nossa luta corporal — lê-se: eu tentando inutilmente me defender e fugir enquanto ele levava a melhor —, as frases jogadas no ar, seu sarcasmo doentio.

— Ele roubou o pen drive — lembro finalmente como um estalo. — Sim, aquele pen drive — acrescento ao notar a pergunta implícita no olhar de Coulson. — Sinto muito por não ter comentado, eu pensei que tinha perdido e não quis fazer alarde, mas foi ele. A HYDRA sabe sobre mim e, aparentemente, ficou bem interessada no meu DNA alienígena.

Um silêncio sepulcral se instala entre nós enquanto eu tento não pensar muito no significado de minhas palavras, e o Diretor da S.H.I.E.L.D. tenta disfarçar uma súbita e aparente preocupação.

Depois de pigarrear e se ajeitar na cadeira, ele prossegue:

— Ward disse mais alguma coisa?

— Ele mencionou um nome. — Levo a mão ao queixo, tentando me lembrar. — Von... Von Spaghetti, eu acho.

— Strucker — Phil corrige no ato.

Bato em minha testa e rio de mim mesma, antes de assentir:

— Isso! Von Strucker. Ward disse que ele tem uma... Jaula especialmente pra mim.

Paro de rir, afinal esta última parte não é engraçada, convenhamos. Aliás, só de pensar nisso, sinto meu sangue gelar nas veias e um nó na garganta. Só de imaginar as experiências cabulosas que o tal Von Spaghetti pretendia — ou ainda pretende — fazer comigo, sinto um revertério no estômago. Antes que eu vomite agora mesmo, retomo o assunto:

— Quem é esse?

— Uma das cabeças da HYDRA. Seu fundador, na verdade — Coulson revela, deixando-me confusa.

— Mas eu pensei que a HYDRA tivesse surgido durante a Segunda Guerra Mundial — exponho, tentando entender como é possível que o seu líder esteja em plena atividade até hoje.

Sem ofensa, mas a menos que ele seja uma múmia ambulante, é atípico que ainda esteja vivo e conduzindo negócios obscuros como meu sequestro.

— E surgiu — é tudo o que o Diretor da S.H.I.E.L.D. diz, obrigando-me a refletir sobre o assunto.

Então me lembro automaticamente de Steve Fofo Rogers. Se o tempo foi irrelevante para o super soldado, de alguma forma foi irrelevante para Von Spaghetti também. Sem querer detalhes neste momento, limito-me a balançar a cabeça afirmativamente, como um sinal de que entendi o X da questão. O tempo não passou para o fundador da HYDRA.

— Não se preocupe, Olivia, nem Strucker nem ninguém vai te prender em uma jaula. Você tem a minha palavra. — Após uma breve pausa me observando, Coulson pergunta: — Algo mais? Algum detalhe importante que você queira compartilhar?

Detalhe importante, detalhe importante... Certo! Existe um detalhe importante, mas será que eu preciso contar? Será que devo?

Será que o golpe ninja que desferi contra Grant Ward — e que o mandou direto para a outra extremidade da minha sala — é mesmo importante? Pode ter sido só uma descarga de adrenalina, certo? Uma grande, forte, violenta e assustadora descarga de adrenalina, mas apenas isso.

Será que meu irmão já teve uma experiência parecida? Será que tem algo a ver com a herança genética do nosso misterioso pai? Será que eu estou desenvolvendo algum tipo de poder ou apenas imaginando coisas?

E a descarga elétrica que o lacaio da HYDRA lançou nas minhas costas e que deveria ter me deixado inconsciente no mesmo segundo? É um detalhe importante? Devo compartilhar ou culpar a adrenalina também?

— Olivia?

A voz amigável de Phil Coulson me traz de volta à realidade. Ao erguer o olhar em sua direção, noto que ele está intrigado com a minha demora em responder sua pergunta. Então engulo em seco e, movida por um instinto de preservação, decido mentir não só para a S.H.I.E.L.D., mas para mim também:

— Não, isso é tudo.

Me julguem, mas até eu descobrir por que meu corpo reagiu daquela forma extrema e se vai se repetir, não quero falar sobre nada disso. Não quero fazer alarde, levantar mais perguntas, deixar que Bruce Banner extraia mais amostras do meu sangue, passar por testes, essas coisas. Não quero ser estudada como um rato de laboratório, mesmo que a S.H.I.E.L.D. tenha boas intenções, assim como não quero ser capturada pela HYDRA.

— Ah! Quando eu poderei voltar para o meu cantinho? — questiono numa tentativa de enterrar de vez o assunto anterior, mas também porque estou louca para retornar para minha rotina normal.

— Como? — Phil Coulson franze o cenho, hesita um pouco, mas finalmente capta a pergunta e explica: — Olivia, o seu apartamento não é mais seguro. Grant Ward pode estar fora do jogo, mas a HYDRA ainda está lá fora. Eu prometi que a sua segurança será prioridade e não estava brincando sobre isso. Além do mais, o que aconteceu despertou a curiosidade das pessoas, dos vizinhos e da polícia. É mais prudente que você... Não seja vista por lá.

— Então? — pisco algumas vezes, sem compreender o que meu chefe está insinuando exatamente.

Depois de se levantar e se aproximar um pouco da cama, ele revela:

— Eu conversei com Stark. A Torre é enorme e dispõe de muitos quartos. Um deles já foi preparado para você, antes mesmo que eu solicitasse.

Talvez percebendo a minha expressão de espanto e insatisfação, Coulson tenta me persuadir:

— Eu sei que estou te pedindo demais, porém espero que isso não seja um problema. É a forma mais eficaz de assegurar o seu bem estar por enquanto. Será temporário, eu prometo.

Eu, Olivia Mills da Silva Sauro, morando com Tony Stark e sua turma? Isso não seria um problema, caso não houvesse outro elemento nessa equação: Loki. Aposto que o gafanhoto não vai gostar nadinha do meu novo endereço.

E quer saber? Não dá para julgá-lo. Eu mesma não curti muito essa ideia. Nada contra os Vingadores — que apesar dos pesares, são meus amigos —, mas certas coisas não têm comparação. Em outras palavras, não há melhor lugar do que o nosso lar. Com certeza eu vou sentir falta do meu. Mesmo sendo uma mudança provisória.

Será que ao menos poderei resgatar o Caco, meus queridos pijamas e meu cosplay de Pikachu? Eu me sentiria mais em casa, se pudesse trazê-los para cá.

Epa! Acabei de lembrar de algo mais importante: como farei para agarrar o gafanhoto quando ele estiver aqui? Espere... Será que os Vingadores vão permitir que Loki venha à Torre me visitar constantemente? Vão nos dar privacidade?

Ai Minha Nossa Senhora Protetora das Midgardianas Que Só Querem Agarrar Os Boys Magias Em Paz, será que os Vingadores vão atrapalhar o meio de campo?

— Eu não quero pressioná-la, mas preciso perguntar. Sobre a sua missão... — O Diretor da S.H.I.E.L.D. insinua, trazendo outro assunto para a pauta, embora eu ainda esteja processando a ideia de morar na Torre e seus agravantes para minha relação com o Deus da Trapaça.

— Eu desisto — respondo no susto. — Desculpe, mas não vai rolar — acrescento de forma mais contida, por sentir que deixei minha ansiedade e preocupação com o tema anterior transparecerem demais.

Após um breve momento de silêncio, Coulson supõe:

— Muita teimosia envolvida?

— Também. E a princípio foi isso o que me desanimou, mas quer saber? O fator determinante foi outro. — Ajeito-me na cama, expiro com força e abro meu coração: — Quando Loki apareceu naquele terraço e salvou a minha pele, eu me dei conta de que não preciso que ele e os Vingadores se unam em nome do bem maior. Eu não preciso que eles façam do gafanhoto um grande herói, porque ele já é o meu herói. Um anti herói, melhor dizendo, mas ainda assim herói de alguma forma. E não importa se o mundo não acredita nisso, se Loki mesmo não acredita em si mesmo e se os Vingadores são uns jumentos teimosos, eu acredito. E isso é o suficiente.

Surpresa comigo mesma, franzo o cenho e confabulo com meus botões:

— Eu devia memorizar isso e usar num momento oportuno com o trapaceiro irresistível. Para derreter aquele coração de vez e tirar umas boas casquinhas...

Phil Coulson pigarreia para chamar minha atenção e eu paro de tagarelar imediatamente, sentindo meu rosto ruborizar. Faço um esforço e me recomponho como posso. Logo depois, noto uma nuance estranha no olhar de Coulson. Um pouco sem jeito, deduzo o motivo e digo:

— Desculpe, por um momento eu esqueci da sua história com Loki. Se serve de consolo, eu tenho certeza que se fosse hoje ele não faria... Ele não iria... Ele não...

Diante da minha dificuldade em encontrar as palavras certas para concluir o raciocínio, Phil completa sem rodeios:

— Não me mataria de novo?

Um pouco constrangida diante do assunto delicado, esfrego as mãos sobre meu colo e assinto com um lamento:

— Sinto muito. Você só conheceu o lado ruim dele, mas eu garanto que isso ficou para trás. — Endireito-me na sequência e tento mudar o foco para amenizar o clima estranho no ar: — Então, vocês se encontraram por aí?

— Não — Phil é taxativo e direto, antes de acrescentar mais relaxado: — Seria estranho, embora eu saiba que eventualmente será inevitável. De qualquer forma, eu não acredito que esse seja o melhor momento para um reencontro.

— Como assim? — tal pergunta escapa da minha garganta sem que eu perceba.

Antes que Coulson diga qualquer coisa em resposta, tenho um estalo. Meus neurônios trabalham rapidamente e logo fazem uma conexão elementar. É tão óbvio e tão revoltante ao mesmo tempo que fico sem reação pelos instantes seguintes.

Por fim, solto um suspiro incrédulo e concluo:

— Me deixe adivinhar, Loki está culpando a S.H.I.E.L.D. pelo o que aconteceu comigo, não é?

Meio contrariado, mas numa clara demonstração de humildade, o Diretor pondera:

— Você tem que admitir, ele está certo.

— Mas a decisão de aceitar o emprego foi minha — retruco, afinal eu sabia muito bem o que estava fazendo quando disse sim para a S.H.I.E.L.D. Fiquei muito animada com a ideia, por sinal.

Entretanto, Coulson não parece totalmente convencido e reitera:

— Isso não diminui a minha responsabilidade.

Cruzo os braços contra o peito e digo com certa teimosia:

— Eu aceitei os riscos.

— Você não os conhecia de verdade, Olivia. Eu sim. E no entanto, aí está você. — Coulson indica a cama hospitalar onde me encontro, deixando-me sem argumentos para protestar.

Tudo bem, eu admito que ele está certo. Em parte pelo menos. A S.H.I.E.L.D. deveria ter sido mais cautelosa. Entretanto, a verdadeira culpada de tudo é a HYDRA. Nem eu, nem Coulson, nem os Vingadores imaginamos que a organização do mal viria atrás de mim. Pode ter sido muita ingenuidade e autoconfiança, mas ainda assim somos o lado bom da Força.

Antes que eu consiga expor esse pensamento, meu chefe meneia a cabeça por um instante e caminha rumo à saída. Então ele para na porta, olha em minha direção novamente e encerra a conversa:

— Eu realmente sinto muito pelo o que houve, Olivia. Se você quiser repensar e concluir que é melhor se afastar definitivamente da S.H.I.E.L.D., eu não vou te julgar. Sua segurança será a prioridade de uma forma ou de outra. Estimo melhoras.

E então Phil Coulson vai embora, deixando-me sozinha com suas palavras soltas no ar, sendo absorvidas pouco a pouco pela minha mente ainda um pouco confusa.

Será que entendi direito? Coulson me deu o aval para desistir de ser uma agente da S.H.I.E.L.D.? E o que eu devo fazer a respeito? Repensar e pedir para sair? Ou insistir e fazer o meu melhor, mesmo que minha primeira missão oficial tenha sido um fiasco e a HYDRA quase tenha me sequestrado? Mais importante do que tudo isso, a pergunta que tenho que me fazer é: eu quero ser uma agente?

Não preciso pensar muito para chegar a uma conclusão. Isso porque bem antes de receber a missão de unir o Deus da Trapaça e os Vingadores, eu aceitei a oferta de Nick Fury, quando ele e a agente Jessica Wally apareceram na fazenda de minha avó.

Eu aceitei o emprego naquela época porque queria um propósito, fazer algo importante, contribuir para o bem maior. Tudo bem, eu não pesei os riscos, mas esse desejo não mudou. Ainda mais agora que a HYDRA saiu das sombras novamente.

Aliás, não consigo parar de pensar que talvez ela esteja planejando algo grandioso e maligno. Como organizações deste tipo devem fazer aliás. Tem caroço nesse angu com certeza. E sem querer me gabar, sinto que o interesse em meu DNA pode fazer parte desse plano maior. De alguma forma, eu estou envolvida e não posso ignorar isso.

Por mais que meu instinto de sobrevivência me diga para recuar, para me esconder e me preservar, não posso ceder à covardia. Não posso fugir. Não quero. Tenho que enfrentar meu medo e lutar contra o inimigo da S.H.I.E.L.D. que, ao que tudo indica, se tornou o meu inimigo também.

Por fim, se posso tirar algo de positivo do meu frustrado sequestro, é que essa experiência serviu para abrir meus olhos. Me fez enxergar que ser uma agente é mesmo o que eu quero. Eu aceitei o desafio antes e agora aceito mais uma vez. Não será uma organizaçãozinha de fundo de quintal que vai anular o desejo de Olivia Mills de fazer a diferença. Rá!

Decidida e animada, resolvo ir atrás de Coulson e esclarecer isso agora mesmo. Levanto da cama, logo abro a porta e alcanço o corredor. Quase esbarro em meu chefinho fofo, que está estagnado no lugar, de costas para mim e de frente para outra pessoa.

Sem me importar com isso no momento, despejo de uma vez:

— Eu não preciso repensar patavinas, chefe. Eu estou dentro e vou continuar dentro. E tem mais, não se trata de querer ser uma agente, eu já sou uma agente. Inexperiente e atrapalhada, é verdade, mas eu posso melhorar, me dedicar mais, aprender e arrebentar a boca do balão algum dia. Enfim, eu não vou abrir mão de fazer parte da S.H.I.E.L.D. Essa é a minha decisão e o que eu quero fazer. Fim da história.

Coulson sorri de um jeito discreto e assente, visivelmente satisfeito com minhas palavras. Noto ainda certa admiração em seu olhar, o que me deixa feliz, lisonjeada e ainda mais segura do que quero.

Estou absorta por essa sensação e distraída, quando ele torna a olhar para a outra pessoa no corredor e indaga com uma mistura de repreenda e divertimento:

— Stark, o que você está fazendo aqui? Eu sei que o lugar é seu, mas ouvir conversas atrás da porta é um pouco demais, você não acha?

Só então sigo o olhar do meu chefe e reconheço a figura de Tony Stark bem à nossa frente. Sinto uma palpitação imediata ao mergulhar nos seus olhinhos de noite serena, que se fixam aos meus de um jeito familiar e atrativo, como dois ímãs. Apesar da sensação indiscutivelmente agradável, fico tensa ao captar certo desapontamento em seu semblante e me ouço murmurando:

— Alerta de spoiler: esse não é o Homem de Lata.

Coulson parece confuso e incrédulo com meu comentário. E Tony Stark, definitivamente, não se parece com Tony Stark. Pois adivinhem? Não é ele.

Provando que estou certa, a ilusão se desfaz na sequência e a real imagem — do Deus da Trapaça — se revela diante de nós.

Por mais que não seja o momento ideal, não consigo controlar uma nova palpitação. De repente, minhas mãos estão suadas e meu corpo mais quente. Papagaio... Preciso me controlar para não tirar umas casquinhas dele neste exato momento. Talvez se Coulson não estivesse entre nós...

Eita! Coulson está entre nós! O reencontro finalmente aconteceu e posso sentir o ar ficando mais denso à nossa volta, enquanto os dois se encaram de um jeito estranho e firme ao mesmo tempo.

Engulo em seco e corto o silêncio perturbador:

— Oops... Isso é meio embaraçoso.

Meu comentário parece causar um estalo em Loki, levando-o a me fitar novamente, colocar as mãos para trás numa postura indiferente e indagar em tom de desafio:

— Por que exatamente? Porque eu já matei este midgardiano desprezível um dia? — Ele crava o olhar em Phil Coulson e prossegue: — Ou porque estou pensando seriamente em fazer isso de novo? E me certificar de que ele fique morto desta vez, é claro.

Me julguem, mas apesar do tom frio e ameaçador, o deus trapaceiro não me convence nem um pouco. Em outros tempos, até poderia ser, mas hoje eu sei que isso não passa de instinto de defesa, autopreservação e orgulho.

Sendo assim, coloco as mãos na cintura, rio com escárnio e o repreendo com descrença:

— Ah... Pra cima de mim, gafanhoto? Tenha dó! Você não vai me convencer de que está falando sério. Pode abandonar essa postura de macho alfa e abaixar a bola, coração. Eu sei que você não quer machucá-lo de verdade.

Loki oscila e sorri de um jeito amargo, percorrendo o chão com um olhar perdido. Por um momento, me sinto culpada, afinal esse cabeça dura acredita que tem uma imagem a zelar e eu acabei de constrangê-lo, abalando a fachada que ele luta tanto para manter intacta.

Mas então ele torna a me encarar e retruca entredentes:

— Eu não disse machucar. Pare de aliviar o meu lado, Olivia. Pare de me defender. Eu não sou um herói.

O silêncio se instala e paira entre nós, enquanto pisco algumas vezes e relembro minha conversa com Coulson, há apenas alguns minutos.

— Você estava mesmo ouvindo atrás da porta, não é? — pergunto retoricamente, dando-me conta de que Loki ouviu não só o meu discurso sobre ele, mas também cada vírgula do que eu e o Diretor da S.H.I.E.L.D. falamos lá dentro.

Ergo o olhar na direção do Deus da Trapaça e mentalizo sua expressão de momentos atrás, quando ele ainda se parecia com o Homem de Ferro. Loki estava por perto, ouviu tudo e, portanto, sabe sobre o meu novo endereço, sobre os riscos que corri e ainda corro por causa da HYDRA.

Mais do que isso, ele ouviu quando eu saí do quarto expondo minha decisão de continuar ao lado da S.H.I.E.L.D., de me empenhar, de não desistir do emprego que ele desaprovava antes, mas que agora, em virtude de tudo o que aconteceu, deve odiar ainda mais, com todas as suas forças.

— Você estava certa, Olivia, isso é mesmo embaraçoso.

A voz de Phil Coulson me desperta e só então me dou conta de que ele ainda está aqui. Não sei quanto tempo se passou, mas sinto que foi significativo o bastante.

O clima está cada vez mais pesado e estranho. Apesar de saber que o Diretor está bem ao meu lado, não consigo desviar a atenção do gafanhoto. E não sei se isso é bom ou ruim, mas ele também continua me encarando de um jeito indecifrável.

É então que Phil se manifesta novamente:

— Eu sabia que esse momento seria estranho, mas confesso que não imaginei que me sentiria tão excluído.

Automaticamente eu e Loki rompemos o contato visual e olhamos para o Diretor da S.H.I.E.L.D. Particularmente, fico surpresa com certo tom divertido em sua voz. Coulson acabou de reencontrar aquele que foi o seu algoz em um passado não muito distante, e ainda assim consegue fazer piada e manter uma postura relaxada.

Talvez percebendo minha confusão, ele toca meu ombro e emenda com um discreto sorriso:

— Está tudo bem, eu entendo e não estou reclamando de verdade. Podia ter sido pior, certo?

Abro a boca, mas as palavras não saem. Percebo então que não tenho o que dizer e apenas o observo se aproximando de Loki em seguida. Fico tensa quando o gafanhoto endireita a postura e encara meu chefe com um olhar superior e estreito. E posso sentir o seu incômodo quando ele nota que isso não intimida Coulson que, com firmeza e segurança, anuncia:

— Três coisas, Loki de Asgard.

Ele dá mais um passo, parando a poucos centímetros do deus trapaceiro. Acho que prendo a respiração sem perceber e arregalo os olhos, apreensiva, enquanto o Diretor pontua:

— Primeiro, em nome da S.H.I.E.L.D. e da Iniciativa Vingadores, nós lamentamos por ter colocado a agente Olivia Mills em risco. Como eu disse a ela, isso não vai se repetir. Segundo, obrigado por sua ajuda no que diz respeito a Grant Ward. Inconsciente ele não pode nos ajudar muito, mas pelo menos você não o matou, o que já é um progresso.

Após uma breve pausa e para surpresa geral da nação, Coulson também toca o ombro de Loki, deixando-me ainda mais aperreada, e conclui num tom mais baixo, porém ainda assim firme:

— E terceiro, eu acredito nela. Você não me mataria novamente. Outro progresso.

Assim que ele afasta a mão, Loki olha para o próprio ombro por um instante com certo desgosto e fita Coulson com sua cara de limão azedo. Este, por sua vez, se retira tranquilamente e logo desaparece do nosso alcance de visão.

— Uau! Isso foi...

Não consigo concluir o raciocínio, pois o gafanhoto me interrompe um tanto irritado:

— Deixe-me adivinhar, embaraçoso?

Sem saber o que dizer, comprimo os lábios enquanto analiso esta situação como um todo e tento pensar com clareza. Então respiro fundo, aproximo-me um pouco e recomeço:

— Eu sei que você está... Hum, P da vida, mas pense pelo lado positivo, gafanhoto. Pelo menos eu desisti de colocar um uniforme da S.H.I.E.L.D. em você.

Sua expressão se fecha imediatamente, mas eu não recuo. Ao invés disso, diminuo a distância entre nós, entrelaço o seu pescocinho lindo, sorrio e tento consertar:

— Você sabe que eu estou brincando, não sabe? Eu gosto da sua roupa de cosplay de gafanhoto, você não precisaria mudá-la, caso se tornasse um Vingador. Espere, por que eu estou tagarelando sobre algo que não tem mais importância?

Loki parece mesmo aborrecido e eu estou perdendo o foco. Não sei como contornar a situação, como lhe dizer que está tudo bem e que nada mudou, pois sinto que algo está diferente sim. O que é bem estranho, porque há pouco tempo eu estava agarrando o dito cujo em uma sala da Torre, tendo pensamentos pecaminosos inclusive, e agora... Sei lá, parece que o tempo fechou e vai chover granizo.

Incomodada com essa sensação, tento mudar de estratégia e assunto. Olho para minha camisola rapidamente e digo aleatoriamente:

— E por que eu ainda estou assim? J.A.R.V.I.S., eu preciso de roupas decentes, por favor!

Quase no mesmo instante, a voz simpática da inteligência artificial ecoa por toda a parte:

— A Srta. Potts já cuidou disso, Srta. Mills! Ela fez compras esta manhã e tudo foi devidamente arrumado em seu novo quarto. Em nome dela e do Sr. Stark, eu lhe dou as boas vindas ao seu novo lar.

Vixe Maria... É como dizem por aí, não há nada ruim que não possa ficar pior. Agora a vaca foi pro brejo de vez e a porca torceu o rabo. O que foi que eu fiz? Eu tinha que ter a brilhante ideia de soltar um comentário desses? Tinha que piorar as coisas? Parabéns, Olivia Mills! Você conseguiu!

— Obrigada, J.A.R.V.I.S. — murmuro envergonhada. Hesito antes de me afastar de Loki e então pergunto sem jeito: — Por que eu sinto que tenho que me explicar? Me desculpar talvez? Jesus amadinho, eu me sinto péssima.

Um longo momento de silêncio se passa até que o Deus da Trapaça me surpreende ao dizer:

— Nada disso é necessário.

Sorrio largamente, achando que está tudo bem agora. Mas a esperança que sinto, embora avassaladora, é momentânea, já que na sequência Loki solta uma sugestão no ar:

— Apenas venha para Asgard. Comigo.

— O quê? — balbucio surpresa, pois embora eu já tenha ido a Asgard várias vezes, esta é a primeira vez que Loki pede, com todas as letras, que eu o acompanhe. Que eu fique com ele.

O peso da palavra comigo ainda está afetando meu coração acelerado, quando o dito cujo — tentando mostrar que o convite não é nada demais —, camufla os sentimentos, arqueando as sobrancelhas e expondo com racionalidade:

— Asgard é uma opção bem melhor do que este lugar. Sua segurança não será um problema lá.

— Eu sei, seria perfeito — assinto, enquanto a emoção me diz para aceitar a oferta e zarpar rapidinho daqui com meu trapaceiro magia. Infelizmente, a razão fala mais alto, levando-me a concluir: — Mas neste momento algo assim seria uma fuga da realidade. E eu não posso fugir.

Me julguem, eu quero ir com Loki, eu iria para qualquer lugar com ele, mas neste momento preciso ficar. Posso ser uma adulta infantilizada, mas não sou criança e não posso agir impulsivamente neste caso. Não se trata apenas da minha segurança, mas de uma responsabilidade maior.

Claro que o Deus da Trapaça não entende desta forma. Claro que se ofende, se sente traído, preterido e ferido diretamente no seu orgulho do tamanho do universo. Ô criatura difícil de lidar, viu?

É com pesar que o vejo adotar uma postura ainda mais defensiva, uma cara de limão extremamente azedíssimo e encerrar a conversa com tangível frieza e insatisfação:

— Então neste caso, você devia ir conhecer o seu novo quarto, agente Mills.

Incapaz de dizer qualquer coisa que o impeça de ir embora magoado assim, vejo-o se afastar, com passos firmes e pesados pelo corredor, enquanto a dureza de suas palavras atinge em cheio algo puro dentro de mim. E isso dói mais do que bater o mindinho na quina dos móveis, acreditem.

— Gafanhoto... — murmuro com um fio de voz, enquanto Loki se afasta cada vez mais.

Minha visão fica embaçada por algo morno que surge de repente. E então ele finalmente vira no final do corredor e desaparece de vez. Talvez para sempre.

Notas finais
OMG??? O que foi que eu fiz??? Lokito foi embora? Olivia deixou ele ir assim? O que está acontecendo??? Palma, palma, não priemos cânico, chuchus! Não pensem que eu estou ignorando as sugestões dos comentários anteriores (como mais momentos fofos e de provocação entre Lokivia), mas para este momento da história, essa briga é necessária. A boa notícia é que algo me diz que eles não vão aguentar ficar assim por muito tempo... Mas enquanto isso, pretendo mostrar abordar outras coisinhas e plantar algumas sementes para o futuro. Don't blink, hein? Ou vocês perderão o fio da meada. Gostaram que a Olivia desistiu da missão? Sei que tinha algumas leitoras que não conseguiam imaginar Lokito como um Vingador, e agora eu posso dizer: nem eu kkkkkkkkk Como eu disse em algum momento que agora eu não vou lembrar qual (oi?), nesta segunda temporada, o importante não é a missão em si, mas sim como os personagens lidam com ela e como isso vai se transformar com o decorrer da trama e surgimento de algumas tretas. Em outras palavras, Olivia pode até ter entendido que Loki não "orna" muito com os Vings, porém isso não significa que a Hunter Pri Rosen inventou a missão lá no começo da fic por acaso, só para fazer uma pegadinha da malandra com vocês. Há uma longa jornada pela frente, um motivo para tudo e tudo se transforma... E se eu continuar escrevendo, vou acabar dando spoilers eheheheh parei. O que acharam do reencontro entre Loki e Coulson? Embaraçoso talvez, hum? E dessa história da Olivia morar na Torre? Será que vai dar certo? Bem, apesar de não ter sido um capítulo muito feliz para Lokivia, espero que tenham gostado no geral. Contem tudinho nos reviews! Beijos de luz!